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Keli Quitutes

03.10.2020

Ó mar salgado. Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal... O mar inspira a humanidade há séculos! Ele desafia e acalanta, une terras distantes e pode ser benção ou maldição ao sabor de seu humor. Seu trabalho incansável sob a batuta da lua é música pros ouvidos.

Um dos grandes amantes do mar foi Jorge Amado. O baiano, autor de “Mar Morto”, “Capitães de Areia”, “A Estrada do Mar”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, todos pela Companhia das Letras, aventurou-se pelo romance, pela poesia, pelo teatro e, claro, pelo mar.

Quando tinha, aproximadamente, 14 miliádios de vida, escreveu “O Mundo da Paz” (Vitoria), livro no qual relata sua viagem por vários países da União Soviética. Aos 30 mil dias de vida, ganhou o Prêmio Camões. Seu falecimento completa 7 miliádios no dia 5.

Quem também ganhou o Prêmio Camões foi Raduan Nassar. Ele conseguiu tal proeza com apenas 3 livros lançados: “Lavoura Arcaica”, “Um Copo de Cólera” e “Menina a Caminho”, todos pela Comp...

11.09.2020

Quer um bom neologismo? Miliádio. Significa “intervalo de mil dias”. Não se engane, por trás da aparência simples, há uma essência disruptiva. Entremos no quiproquó: o vocábulo maravilhoso muda totalmente a forma como entendemos o tempo, um case de sucesso pra Benjamin Whorf.

O maior neologista do Brasil e, quiçá, do mundo, é João Guimarães Rosa, que completaria 41 miliádios no dia 27. Três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, o Imortal morreu pra provar que viveu. Ele é autor de “Grande Sertão: Veredas” (José Olympio), “Sagarana” (Global Editora), “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira), “O Burrinho Pedrês” (Saraiva de Bolso) e muitos outros livros, todos grandes em modernismo, neologismos e mazelas brasileiras.

Mas não dá pra falar das mazelas do Brasil sem citar aquele militar carioca e miliciano. Estou falando de Leonardo, de “Memórias de um Sargento de Milícias” (Moderna), claro. Pensou que fosse outra pessoa? Manuel Antônio de Almeida, autor one hit only,...

04.08.2020

Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Apenas as redondilhas maiores de Gonçalves Dias pra nos trazer algo bom da terra brasilis. O poeta e romancista é autor de “Primeiros Cantos” (Editora Itatiaia) e “Os Timbiras” (Companhia Editora Nacional). Dias completaria 72.000 homônimos no dia 6.

Seu contemporâneo Álvares de Azevedo faria 69 miliádios apenas cinco dias depois. O que isso significa? Nada. Mas é sempre bom lembrarmos do poeta e advogado, autor de “Noite na Taverna” (Martin Claret) e “Lira dos Vinte Anos” (Martin Claret), chamada pela coluna Miliádios Literários de Lira dos 7.305 dias.

Que momentos difíceis do Brasil, não? Tão complicados quanto em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), cujo autor Ray Bradbury nos deixou há 3 miliádios, completados no dia 22. Aficionado pelo futuro, o norte-americano escreveu “Algo Sinistro Vem por Aí” (Difel), mostrando sua inexorável intuição premonitória. Também é autor de “As Crôn...

03.07.2020

🎼Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 22 de abril, dois meses depois do Carnaval! 🎼Somente uma marcha de Lamartine Babo pra demonstrar a alegria patriota da coluna deste mês. Nosso Brasil comemora 190 miliádios de nascimento, ou de descobrimento, ou de redescobrimento, no dia 4.

A coluna Miliádios Literários é um tubo de ensaio com águas cristalinas de oceano azul. Ela presenteia seus leitores incautos com as principais efemérides do mundo da literatura. E começa neste mês em alto nível, com um prêmio Nobel!

Kazuo Ishiguro completa 24 miliádios de nascimento no dia 24. O autor de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), “O Gigante Enterrado” (Companhia das Letras) e “Um Artista do Mundo Flutuante” (Companhia das Letras) foi laureado em 2017 e teve vários de seus livros transformados em filmes hollywoodianos.

Outro escritor cuja obra deu origem a vários filmes é H. G. Wells. Sua morte faz 27 miliádios no dia 15. Ele escreveu várias ficções...

03.06.2020

Brasileiros e brasileiras, esta coluna miliádica chega no mês de junho só com autores nacionais, pintada com as cores de nossa bandeira! Verde da nota de um real (menos de vinte cents), amarelo do sorriso, azul do oceano que nada e branco das folhas virgens a serem preenchidas.

Da bandeira brasileira ao Bandeira brasileiro, nosso Manuel completaria 49 miliádios de vida no dia 15. Autor de “Libertinagem” (Global Editora), “Estrela da Manhã” (Global Editora), “Estrela da Tarde” (Global Editora) e “Estrela da Vida Inteira” (Nova Fronteira), o poeta foi uma das grandes estrelas da Semana de Arte Moderna de 1922.

Farto do lirismo comedido, quantas onomatopeias e aliterações esse homem nos deixou! Teria sido o maior poeta brasileiro? Foi? Não foi? Duvidar da genialidade de Manuel Bandeira é engolir sapo. Que saudades desse gênio, relê-lo é um alento nesta quarentena! Abaixo a cloroquina, viva o pneumotórax e, por que não, salve o tango argentino.

Mas falávamos em cores, o que remete a...

04.05.2020

Salve, salve, disruptivos! Essa sessão pós-moderna apresenta a vocês os miliádios literários do mês que vão mudar sua percepção da vida. Você ainda não sabe o que é miliádio? Em que mundo você vive? Partamos, pois!

No dia 15, Francis Fitzgerald, do fundo de sua cova em Old Saint Mary's Catholic Church Cemetery, completa 29 mil dias de falecimento. Sua lápide é considerada um dos maiores spoilers da literatura mundial.

Convenhamos, 29 miliádios é muito tempo, o suficiente pra uma grande guerra e outras tantas menores. Só o jazz não teve tempo de voltar à sua grande era. O autor de “O Grande Gatsby” (Penguin), “Suave é a Noite” (BestBolso) e “O Último Magnata” (Penguin) viveu sob excessos do álcool e nos deixou uma visão etílica da elite. Tudo isso em 44 anos, pouco mais de 16 mil dias.

Então seguimos em frente, barcos contra a corrente, recuando incessantemente no passado. Sempre em intervalos de mil dias!

No dia 18, Honoré de Balzac completa 62 mil dias de morte. Quando jovem, Ho...

13.12.2016

Os três homens conversavam calmamente, fumando, e sem preocupações com o tema ilegal em questão. O tenente-coronel Sampaio já estivera na casa algumas vezes, seja para os rendimentos de Mano Metido, seja para seu velório. Entretanto, achava que a casa ficara muito melhor e mais bonita cobrindo a parede branquíssima com cédulas de identidade de vários países diferentes.

“Elas são de 216 países diferentes, incluindo Mônaco e Palestina”, salientava sempre o orgulhoso colecionador de identidades, Júlio Rancoroso.

Os homens não estavam com pressa, é bem verdade que a calmaria reinava em Macambúzios. Podia-se até ouvir o cantar de pássaros, ou mesmo crianças jogando futebol em alguma ladeira. Mas Júlio aprendera a ser profissional, e em um determinado momento, voltou ao assunto, que se dispersou entre algumas digressões.

“Pois então, o Mano Metido tinha colocado esse cara, mas para mim foda-se”, disse. “Não tenho o rabo preso com ninguém, e se ele fez por merecer, que a sentença seja...

05.11.2016

Domingo de sol em Macambúzios. Início de manhã, os passarinhos cantam alegremente em busca de minhocas no solo. O homem dorme tranquilamente, janelas abertas cuja luz a que dão passagem brilha e reflete nas paredes branquíssimas. Para alguém que é solteiro, sua cama é de tamanho exagerado, mesmo para aqueles de sono agitado.

Sinestesicamente, talvez pelo recente estímulo ao sistema endocanabinoide com THC, CBD e outros, seu sonho se mistura com a realidade em uma grande gama de sensações. Enquanto a luz do sol aquece seus pés descalços, corre por um gramado infinito e plano; logo que sente a brisa matinal a massagear seu rosto, todo seu cabelo vibra e dança com o vento forte e reconfortante que lhe chega; assim que o cheiro de orvalho se apresenta discretamente, rosas, margaridas e jasmins o secundam.

Entretanto, um cheiro desagradável começa a permear seu sonho. Mais à frente, avista um cavalo, que corre em círculos. Quanto mais se aproxima, mais o cavalo acelera e enlouquece....

12.10.2016

Em cada esquina, um pouco da vida de Xeila se cai. Irônico, visto que por muito tempo foram os escanteios de Búzios que lhe garantiram o sustento. Nascida em 1970, vende seu amor apenas quando o dinheiro em casa não é suficiente, ou quando tem um sonho maior, como comprar uma televisão ou uma geladeira.

Faz muitos anos que não usa seu nome de batismo, tanto que não se recorda direito qual era. Usa o nome de profissão mesmo em momentos de privacidade, com amigos, vizinhança e família. Acredita que essa opção lhe fora muito boa, pois poucas pessoas no mundo podem se dar ao luxo de escolher o próprio nome.

Apesar de fortuita prostituta, tinha um pensamento um tanto quanto conservador em relação à vida. Não acreditava na política, nem em comunistas; considerava a arte um subterfúgio dos fracos e sem talento, e que nunca os pobres teriam direito a um pouco da riqueza. Vê-se que sua sabedoria é multidisciplinar, e é de se espantar que não fora adquirida através de livros.

Xeila, como...

06.09.2016

Ele chega à casa com uma mala modesta. Observa bem a grande construção de nove quartos recém-levantada. Um desses é o dele, o maior, e para lá se dirige. A vista é parca, apenas mais alguns barracos, o que torna seu novo lar destoante. A casa em questão é uma das poucas que se parecem com uma, com água encanada, paredes e janelas, assim como o quartel de Mano Metido.

O lugar tinha incríveis cento e vinte metros quadrados, lenço para alguns, latifúndio para os moradores de Macambúzios. Fora construída com um propósito muito salutar, que é o estudo do ser humano, ciência que Epifânio domina há quinze anos. Ele é professor doutor com livre docência na Universidade Estadual Armação de Búzios, e sempre adotou métodos pouco ortodoxos.

Ainda nos tempos de Sorbonne, costumava colocar vinte poodles em uma mesma sala com um pitt-bull, para verificar qual raça de cães era superior. Os caninos teriam, então, a oportunidade de mostrar se tinham o sentimento de compaixão para com sua espécie...

19.08.2016

“Velho, o que é um sonho?”, pergunta o pré-adolescente imberbe.

“Um sonho, Zica, é aquilo que lhe move, lhe motiva a acordar todos os dias. Você tem algum sonho?”

“Sim, tenho. Gostaria de pelo menos uma vez frequentar uma escola, com amigos de classe, professores e livros.”

“Mas Zica, você tem a mim!”, faz troça o velho, rindo de si mesmo e da situação.

“E você tem um sonho? Ou na sua idade não se sonha mais?”

“Eu tenho o sonho de voar. E sempre tive.”

Não era incomum o menino Zica se interessar pela escola, por uma questão muito mais de curiosidade do que de amor ao conhecimento. Acontece que ele nunca se matriculou em nenhuma instituição de ensino, nem pública. Sua avó é analfabeta, e sua mãe nunca teve tempo para pensar nessas coisas. Sua escola é a casa do velho, que sempre cuidou de sua educação. Acompanha o menino desde os primeiros passos, literalmente, pois é muito amigo de sua avó.

O nome do velho é Ernesto, mas a idade e a sabedoria lhe renderam o apelido simples e direto...

09.07.2016

Ela era a única pessoa em Macambúzios com ensino superior. Juntou dinheiro durante três anos em uma loja de tênis para enfim ingressar na faculdade. Lá, aprendeu a trabalhar com computadores, ciência na qual se tornou rapidamente célebre. Como muitos em sua sala, não obteve emprego, e resolveu se divertir um pouco.

Seus pais vieram do Rio de Janeiro quando sua mãe estava grávida. Acomodaram-se na cidade vertical e foram trabalhar com construção civil. Eles tinham orgulho de dizer que trabalhavam na Barreira Epaminondas Farias, hoje região conhecida como penhasco público. “Lá será um lugar de muita paz de espírito”, diziam e acreditavam.

Um pequeno deslize de concreto, somado a uma breve e passageira falta de equipamentos de segurança, decretaram o fim do sonho e do casal quando a filha tinha apenas quatro anos. Sobraram na casa apenas ela e seu irmão mais velho, que aos catorze acabou virando o responsável pela sua criação.

Carlos Fernandes de Araújo, que anos mais tarde ficou c...

18.06.2016

A rodoviária de Búzios é o lugar da cidade mais parecido com Macambúzios, dada a quantidade de vendedores ambulantes e mendigos. Os turistas que chegam de ônibus, embora minoria, têm uma péssima primeira impressão, e logo chamam um táxi para tirá-los daquele espasmo de pobreza.

Certo dia, um homem negro e forte chegou à cidade. Tinha uma estrela de seis pontas tatuada no braço, uma barba por fazer e cabelos estilo black power. Ouvindo a discografia completa de Sammy Davis Junior, e carregando uma mala pequena e antiga, que devia ser usada em algumas peladas aos fins de semana, dirigiu-se a pé para Macambúzios. Seu nome é Salomão.

Sempre ouviu de seus tios, que o criaram, que o estado do Rio de Janeiro oferece muitas oportunidades. “Ainda mais para um homem como você, Salomão”, diziam, “nossa comunidade sempre é muito receptiva”. Seus pais e avós moram na Etiópia, mas ele não os via há muitos anos. Seu sonho era arrecadar dinheiro para poder viajar até o país, e junto com sua fa...

11.05.2016

Ele foi criado pela avó, presença amiúde nos bingos da cidade. Seus pais foram mortos quando ainda era um cândido infante, e pouco se lembra deles. Nem por isso sua educação foi deixada de lado; ao contrário, sempre foi um menino aplicado na escola e em casa.

Sua avó, dona Turmalina, foi quem lhe ensinou a ler e escrever. Entre uma partida e outra de dominó, o menino recebia pequenos ensinamentos das letras, que logo se juntaram em palavras, que logo se tornaram frases, que logo se tornaram o mundo do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Foi alfabetizado um ano antes dos amiguinhos de escolas tradicionais, e sete anos antes que as outras crianças de Macambúzios.

Gostava de ler escondido, quando a avó dormia segurando as agulhas do tricô, alguns títulos até então proibidos para sua geração, mas estimulantes à terceira idade, como Eça de Queiroz e Flaubert. Em um deles, leu a afirmação que otários nasciam mortos, o que lhe chamou a atenção, dadas as palavras pouco comuns nos clássicos do g...

07.04.2016

Patrício acordou cedo para seu padrão, por volta das dez da manhã. Como de costume desde a faculdade, leu durante o café três jornais, em busca de informações sobre geopolítica ou macroeconomia que possam afetar seu negócio. Solteiro, veste sua roupa importada de jogging e faz duas vezes o percurso de oito quilômetros da península em ida e volta. Almoça algo saudável, faz a barba, veste seu blazer e vai ao trabalho, sem hora definida para voltar para casa.

Patrício é dono de uma das mais badaladas boates do Brasil, a Espelho do Mundo, ponto de encontro de turistas e empresários dos cinco continentes, aberta todas as noites. Nos idos dos anos oitenta, Sting veio ao Brasil e gastou cinco milhões de dólares, uma dinheirama em épocas de hiperinflação, para fechar a casa para ele e seus vinte e cinco guerreiros caiapós divertirem-se. Bem relacionado, Patrício aproveita para ganhar muito dinheiro com a casa, e ao longo dos anos tornou-se figura constante em jantares com autoridades.

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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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