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Keli Quitutes

Meu celular tocou de um jeito bisonho. Demonstrando que não estava mais aguentando os dissabores recentes, ele resolveu protestar como podia: esperneando em tom baixo, inconstante e anasalado. Era o sussurro metálico de um aparelho a ponto de sucumbir. Infelizmente, eu entendia o seu estado de espírito naquela noite. A alteração de som devia ser consequência tanto da queda sofrida à tarde quanto da garoa que ele estava recebendo na última hora. Por mais que eu tentasse protegê-lo com o guarda-chuva aberto, sempre um pouco de água espirrava.

Depois de ver de quem era a ligação, procurei um lugar menos molhado na calçada e atendi. Precisava me esforçar para parecer minimamente bem.

– Alô.

– Oi, amor! Tá tudo bem aí?   

– Sim, Dora. Está tudo ótimo. Melhor impossível.

– Que bom. Fiquei preocupada. Tive pressentimentos ruins.

– Pressentimentos ruins?!

– Na verdade, não foram pressentimentos. Aproveitei que cheguei mais cedo hoje, aquele lance do eletricista que você tinha marcado,...

Coloquei o recibo no bolso da camisa, agradeci ao taxista e desci do carro. Em minhas mãos, equilibrava a mochila e o celular. O aparelho telefônico, acredite se quiser, tinha sobrevivido mais ou menos intacto ao acidente no café da Rodoviária do Tietê. Foi o que percebi quando cheguei ao quarto de hotel que a editora tinha me reservado em São José dos Campos. Bastou encaixar a bateria, que havia desprendido com a queda no chão, e meu celular voltou à vida. Entre riscos no visor e novas lascas na lateral, ele permanecia funcionando. Ufa!  

Por falar naquela cena de filme de terror de algumas horas atrás, assim que saí do táxi, esqueci das situações constrangedoras que havia vivenciado em São Paulo. Ao pisar na calçada e erguer a cabeça, notei que estava agora em outro mundo: uma esquina elegante do Jardim Aquarius. Não era preciso ser morador de São José para compreender que me encontrava, naquele finalzinho de tarde e início de noite de quinta-feira, em um dos bairros mais no...

Ao olhar pela janela do ônibus, fiquei surpreso com a movimentação intensa no lado de fora. Vários veículos, na maioria caminhões, percorriam a Via Dutra nos dois sentidos. Em contraste ao trânsito pesado daquele início de tarde, o cenário à margem da estrada era de um bucolismo acachapante. As construções cinzentas das cidades de São Paulo e de Guarulhos tinham dado lugar ao mato. Pelo verde das árvores e do gramado na beira do asfalto, já tínhamos passado o centro de Arujá há algum tempo. Contudo, não conseguia precisar, pela vista da janela, aonde o ônibus e eu estávamos.

Mergulhado em pensamentos espinhosos, não havia reparado, até então, que deixáramos a rodoviária nem que seguíamos impassíveis para São José dos Campos. O balançar suave do veículo me ninara, como se eu fosse um bebezinho assustado que precisasse de carinho e atenção. Pouco a pouco a realidade nua e crua de minha vidinha foi se impondo sobre a letargia, a introspecção e o mutismo que me dominara por um per...

- Obrigada por escolher a Viação Passarinho Terron. E tenha uma ótima viagem.

- Obrigado.

Saí do guichê da companhia de ônibus com a passagem em mãos. Por precaução, conferi as informações: origem São Paulo; destino São José dos Campos; horário de saída 13h30; horário previsto de chegada 15h; portão de embarque 12; e assento 37. Tudo estava certinho com o bilhete recém-emitido. Confesso que gostaria de ter comprado também o da volta, mas isso era impossível de se determinar naquele instante. Paciência! Uma coisa de cada vez.  

Dobrei a passagem e a guardei no bolso da frente da calça jeans. Aproveitei para apanhar o celular e consultar o relógio. Faltavam 40 minutos para o embarque. O que eu faria para passar o tempo naquele lugar onde todos pareciam apressados?

Ainda com o aparelho telefônico em mãos, retomei a caminhada pelo saguão principal da Rodoviária do Tietê. Não era preciso ser muito inteligente para ver que eu não deveria ficar zanzando por ali. A mochila volumosa...

Descíamos com cuidado a rampa do estacionamento destinada à carga e descarga do edifício La Tour des Merveilles. Passamos pela face lateral da portaria e alcançamos o jardim do prédio. Em um dia normal, os visitantes, na certa, adoravam aquela paisagem bucólica recheada de verde natureza. Contornamos, indiferentes ao cenário, o hall de entrada e seguimos em direção ao elevador de serviço. Trazíamos, dessa vez, a cama box king size da Dona Cristiane. Plásticos-bolha protegiam as extremidades do móvel. Além do peso da estrutura de madeira compacta, eu e o Raul precisávamos zelar pelas beiradas da cama. Qualquer batidinha poderia comprometer a peça e, o que era pior, levar a Rachel à loucura. Apesar de nutrir um ódio mortal pelas extravagâncias dos clientes, éramos profissionais suficientes para não destruir nada a machadadas.

Já estávamos fazendo aquele trajeto entre o caminhão e o apartamento do vigésimo quarto andar há pelo menos quatro horas e meia. O Peixoto nos esperava com...

Trago uma novidade desconcertante para a coluna Contos & Crônicas. Em sua sexta temporada, a seção de produção ficcional própria do Bonas Histórias não terá uma nova coletânea de contos nem uma nova coleção de crônicas. Pode isso, Arnaldo?! Antes que as reclamações se propaguem entre os conspiradores de plantão, vou logo avisando: ao invés da tradicional série narrativa, teremos, em 2020, uma novela. Uma novela no Contos & Crônicas?! Isso é uma vergonha! Calma, muita calma nessa hora. No fundo, a mudança não será tão grande assim. Saem as tramas independentes conectadas por uma temática única e entra uma só história dividida em pequenas partes. Viu como é possível juntarmos as novelas às narrativas curtas? Não é o fim do mundo, vai?

Para ser justo, muito justo, justíssimo, esse expediente já ocorreu uma vez em nossa coluna. Na segunda temporada de Contos & Crônicas, apresentamos “Histórias de Macambúzios”, narrativa de estreia de Paulo Sousa na ficção comercial. Atualmente, So...

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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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