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Keli Quitutes

Meu celular tocou de um jeito bisonho. Demonstrando que não estava mais aguentando os dissabores recentes, ele resolveu protestar como podia: esperneando em tom baixo, inconstante e anasalado. Era o sussurro metálico de um aparelho a ponto de sucumbir. Infelizmente, eu entendia o seu estado de espírito naquela noite. A alteração de som devia ser consequência tanto da queda sofrida à tarde quanto da garoa que ele estava recebendo na última hora. Por mais que eu tentasse protegê-lo com o guarda-chuva aberto, sempre um pouco de água espirrava.

Depois de ver de quem era a ligação, procurei um lugar menos molhado na calçada e atendi. Precisava me esforçar para parecer minimamente bem.

– Alô.

– Oi, amor! Tá tudo bem aí?   

– Sim, Dora. Está tudo ótimo. Melhor impossível.

– Que bom. Fiquei preocupada. Tive pressentimentos ruins.

– Pressentimentos ruins?!

– Na verdade, não foram pressentimentos. Aproveitei que cheguei mais cedo hoje, aquele lance do eletricista que você tinha marcado,...

Rubem Fonseca ficou famoso na segunda metade do século XX por ter sido o introdutor no Brasil e o principal adepto no cenário nacional da Literatura Brutalista (RODRIGUES, 2017), um dos subgêneros do Romance Policial. Segundo a Teoria Literária, o Brutalismo também é chamado de Neorrealismo Violento (BOSI, 1975), de Romance Noir ou de Romance Negro (TODOROV, 2013, p.98). Atuando como contista, romancista, novelista, ensaísta e roteirista, Fonseca publicou 32 livros, sendo 19 coletâneas de contos, 8 romances, 4 novelas e 1 ensaio. Falecido em abril deste ano, no comecinho da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o escritor que nascera em Minas Gerais e vivera desde a infância no Rio de Janeiro foi vítima de um infarto fulminante. Ou seja, sua morte não tem nada a ver com a COVID-19, como chegou a ser ventilado na época. Rubem Fonseca é um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Sua influência pode ser sentida até hoje. Não é difícil descobrir várias de s...

Li, nesta semana, "José" (Nova Fronteira), a novela autobiográfica de Rubem Fonseca. A obra é apresentada ao leitor como uma ficção, porém é inegável seu caráter de memória. O José da história e do título do livro é o próprio Rubem Fonseca. Para quem não sabe, o nome completo do escritor é José Rubem Fonseca. Nesta narrativa em terceira pessoa, Fonseca apresenta a infância e a juventude de sua personagem. A trama segue até o protagonista completar vinte e poucos anos de vida. Nesta época, José atuava como advogado criminalista (e sua carreira de escritor ainda não tinha começado – até então, ela não passava de um sonho distante).

A pergunta que me fiz durante a leitura de "José" foi: por que o autor e sua editora posicionaram esta obra como uma novela e não como um livro de memórias? Sinceramente não sei a resposta. O próprio escritor justifica-se na segunda página da narrativa: "Ao falar de sua infância José tem que recorrer à sua memória e sabe que ela o trai, pois muita coi...

Coloquei o recibo no bolso da camisa, agradeci ao taxista e desci do carro. Em minhas mãos, equilibrava a mochila e o celular. O aparelho telefônico, acredite se quiser, tinha sobrevivido mais ou menos intacto ao acidente no café da Rodoviária do Tietê. Foi o que percebi quando cheguei ao quarto de hotel que a editora tinha me reservado em São José dos Campos. Bastou encaixar a bateria, que havia desprendido com a queda no chão, e meu celular voltou à vida. Entre riscos no visor e novas lascas na lateral, ele permanecia funcionando. Ufa!  

Por falar naquela cena de filme de terror de algumas horas atrás, assim que saí do táxi, esqueci das situações constrangedoras que havia vivenciado em São Paulo. Ao pisar na calçada e erguer a cabeça, notei que estava agora em outro mundo: uma esquina elegante do Jardim Aquarius. Não era preciso ser morador de São José para compreender que me encontrava, naquele finalzinho de tarde e início de noite de quinta-feira, em um dos bairros mais no...

Ao olhar pela janela do ônibus, fiquei surpreso com a movimentação intensa no lado de fora. Vários veículos, na maioria caminhões, percorriam a Via Dutra nos dois sentidos. Em contraste ao trânsito pesado daquele início de tarde, o cenário à margem da estrada era de um bucolismo acachapante. As construções cinzentas das cidades de São Paulo e de Guarulhos tinham dado lugar ao mato. Pelo verde das árvores e do gramado na beira do asfalto, já tínhamos passado o centro de Arujá há algum tempo. Contudo, não conseguia precisar, pela vista da janela, aonde o ônibus e eu estávamos.

Mergulhado em pensamentos espinhosos, não havia reparado, até então, que deixáramos a rodoviária nem que seguíamos impassíveis para São José dos Campos. O balançar suave do veículo me ninara, como se eu fosse um bebezinho assustado que precisasse de carinho e atenção. Pouco a pouco a realidade nua e crua de minha vidinha foi se impondo sobre a letargia, a introspecção e o mutismo que me dominara por um per...

- Obrigada por escolher a Viação Passarinho Terron. E tenha uma ótima viagem.

- Obrigado.

Saí do guichê da companhia de ônibus com a passagem em mãos. Por precaução, conferi as informações: origem São Paulo; destino São José dos Campos; horário de saída 13h30; horário previsto de chegada 15h; portão de embarque 12; e assento 37. Tudo estava certinho com o bilhete recém-emitido. Confesso que gostaria de ter comprado também o da volta, mas isso era impossível de se determinar naquele instante. Paciência! Uma coisa de cada vez.  

Dobrei a passagem e a guardei no bolso da frente da calça jeans. Aproveitei para apanhar o celular e consultar o relógio. Faltavam 40 minutos para o embarque. O que eu faria para passar o tempo naquele lugar onde todos pareciam apressados?

Ainda com o aparelho telefônico em mãos, retomei a caminhada pelo saguão principal da Rodoviária do Tietê. Não era preciso ser muito inteligente para ver que eu não deveria ficar zanzando por ali. A mochila volumosa...

Descíamos com cuidado a rampa do estacionamento destinada à carga e descarga do edifício La Tour des Merveilles. Passamos pela face lateral da portaria e alcançamos o jardim do prédio. Em um dia normal, os visitantes, na certa, adoravam aquela paisagem bucólica recheada de verde natureza. Contornamos, indiferentes ao cenário, o hall de entrada e seguimos em direção ao elevador de serviço. Trazíamos, dessa vez, a cama box king size da Dona Cristiane. Plásticos-bolha protegiam as extremidades do móvel. Além do peso da estrutura de madeira compacta, eu e o Raul precisávamos zelar pelas beiradas da cama. Qualquer batidinha poderia comprometer a peça e, o que era pior, levar a Rachel à loucura. Apesar de nutrir um ódio mortal pelas extravagâncias dos clientes, éramos profissionais suficientes para não destruir nada a machadadas.

Já estávamos fazendo aquele trajeto entre o caminhão e o apartamento do vigésimo quarto andar há pelo menos quatro horas e meia. O Peixoto nos esperava com...

Em 1958, Kenzaburo Oe era um jovem escritor em início de carreira. Recém-formado em Literatura Francesa pela Universidade de Tóquio, o autor japonês, então com 23 anos, possuía uma pegada naturalista. Tímido e muito incomodado com o estilo de vida na cidade grande (ele nasceu em um povoado interiorano na Ilha de Shikoku e por lá viveu até os 19 anos), Oe retratava em seus primeiros textos a realidade nua e crua de um país ainda agrário, violento e pobre. No ano anterior, ele havia estreado na ficção com a publicação de três bons contos em revistas literárias. Contudo, foi a partir do lançamento de seu primeiro romance, “A Captura” (Luna), que ele entrava para o primeiro escalão da literatura japonesa.

“A Captura” conquistou o Prêmio Akutagawa, o principal do país, como a melhor narrativa curta japonesa de 1958 (sim, o romance foi classificado originalmente como um conto!). O livro curtinho, quase uma novela, impressionou positivamente a crítica literária com uma trama densa, i...

Depois de analisar a literatura de Jack Kerouac (Estados Unidos), em abril, e de Maria José Dupré (Brasil), em maio, o Desafio Literário viajará, neste mês, para o outro lado do planeta. Nosso destino é mais precisamente o Japão. A ideia é debatermos em junho o trabalho artístico de Kenzaburo Oe. Prêmio Nobel de Literatura de 1994, o escritor japonês se destacou na produção de romances, contos, crônicas e ensaios de teor naturalista. Seus títulos abordam invariavelmente questões políticas (democracia, armas nucleares, energia nuclear), sociais (não-conformismo) e filosóficas (existencialismo).

Polêmico e extremamente popular em sua terra natal, Oe é ainda hoje uma das principais vozes da literatura contemporânea. Sua obra-prima é “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), romance com elementos autobiográficos sobre um professor de inglês que tem um filho com problemas cerebrais. Esse livro também foi publicado em língua portuguesa com um nome diferente: “Não Matem o Bebê”....

Trago uma novidade desconcertante para a coluna Contos & Crônicas. Em sua sexta temporada, a seção de produção ficcional própria do Bonas Histórias não terá uma nova coletânea de contos nem uma nova coleção de crônicas. Pode isso, Arnaldo?! Antes que as reclamações se propaguem entre os conspiradores de plantão, vou logo avisando: ao invés da tradicional série narrativa, teremos, em 2020, uma novela. Uma novela no Contos & Crônicas?! Isso é uma vergonha! Calma, muita calma nessa hora. No fundo, a mudança não será tão grande assim. Saem as tramas independentes conectadas por uma temática única e entra uma só história dividida em pequenas partes. Viu como é possível juntarmos as novelas às narrativas curtas? Não é o fim do mundo, vai?

Para ser justo, muito justo, justíssimo, esse expediente já ocorreu uma vez em nossa coluna. Na segunda temporada de Contos & Crônicas, apresentamos “Histórias de Macambúzios”, narrativa de estreia de Paulo Sousa na ficção comercial. Atualmente, So...

Em fevereiro, divulguei na coluna Mercado Editorial os dez livros mais vendidos no Brasil em 2019. Desde 2015, faço as medições dos sucessos editoriais e as divulgo no Bonas Histórias. Mensurar o êxito comercial das publicações é uma maneira de compreender tanto o que as editoras e os autores estão oferecendo de interessante quanto as nuances do gosto dos leitores. E mais uma vez tivemos, no topo do último ranking dos livros mais comercializados em nosso país, o predomínio de títulos de autoajuda, obras religiosas e produções de celebridades da Internet. Como sou apaixonado pela ficção literária, fiquei me perguntando quais seriam os best-sellers dessa categoria. Afinal, não tivemos nenhum romance, nenhuma novela e nenhuma coletânea de contos entre as obras mais vendidas no Brasil entre janeiro e dezembro de 2019. Durmamos com mais essa aterradora notícia sobre as preferências dos nossos conterrâneos.   

Para formular o novo ranking das ficções mais vendidas do Oiapoque a...

Jack Kerouac é o primeiro escritor que terá seu estilo literário analisado no Bonas Histórias em 2020. Para a realização deste estudo, foram lidos e comentados, em abril, na coluna Desafio Literário, seis dos principais livros do autor norte-americano: “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Pocket), “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), “Big Sur” (L&PM Pocket) e “Pic” (L&PM Pocket). Por essa amostra, dá para perceber, desde já, que demos preferência para a prosa ficcional (romances e novelas) em detrimento aos demais textos. É, portanto, sobre essa parte específica da literatura de Kerouac que vamos nos debruçar. Assim, renunciamos, por ora, às coletâneas poéticas, aos ensaios não ficcionais e aos registros autobiográficos do pai da Geração Beat.   

Logo de início, abro um parêntese simbólico para explicar o quão complicado é tratar, nos dias de hoje, do legado artístico e cultural de Jack...

Hoje, o Bonas Histórias apresenta o sexto e último livro de Jack Kerouac do Desafio Literário deste mês. A obra é “Pic” (L&PM Editores), a novela póstuma do escritor norte-americano que foi um dos maiores expoentes da Geração Beat. Esta pequena narrativa é curiosa porque ao mesmo tempo em que possui características que fogem completamente do estilo de seu autor, ela também carrega algumas marcas estilísticas da literatura de Kerouac. Por exemplo, temos aqui uma surpreendente trama ingênua e sensível sobre a infância de um menino pobre e negro da Carolina do Norte. Quem leu “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Editores) jamais poderia imaginar algo tão delicado e sutil vindo de Jack Kerouac. Por outro lado, temos mais uma vez uma road story, gênero no qual o escritor norte-americano é ainda hoje uma das grandes referências.   

“Pic” foi publicado pela primeira vez em 1971, dois anos após a morte de Jack Kerouac por cirrose hepática aos 47 anos. Entretanto, esta obra foi pro...

Neste final de semana, li “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), o terceiro romance de Jack Kerouac, o escritor norte-americano considerado o maior nome da Geração Beat. Não por acaso, esse é o terceiro título do autor que comentamos no Desafio Literário deste mês. Se analisarmos o portfólio de Kerouac, além de sua trajetória de vida, “Os Subterrâneos” pode ser classificado como sua obra mais surpreendente. Ou você consegue imaginá-lo escrevendo um drama sentimental, hein? Confesso que, até então, não tinha me atentado para o fato de Kerouac ter um coração pulsante (sim, ele tinha!). Pois saiba que “Os Subterrâneos” é exatamente isso – uma trama romântica.

Porém, não vá pensar que esse livro é simplesmente uma narrativa convencional de um homem que sofre desesperadamente pelo amor de uma mulher. Nananinanão. Temos aqui uma das histórias mais densas, inovadoras, ácidas e amargas da literatura norte-americana - juro que me lembrei do angustiante “Primeiro Amor” (Nova Fronteira), cláss...

No finalzinho do ano passado, fiquei tão encantado com a leitura de “Suicidas” (Benvirá), o romance policial de estreia de Raphael Montes, que resolvi, dessa vez, ler outro livro do jovem escritor carioca. Minha escolha foi por “O Vilarejo” (Suma das Letras), sua coletânea de contos de terror. Li esta obra na noite retrasada e, agora, vou comentá-la neste post do Bonas Histórias.

Raphael Montes, para quem ainda não o conhece, é um dos principais nomes da nova geração da literatura brasileira. Sucesso precoce de crítica e de público, o escritor de apenas 29 anos já foi traduzido para vários idiomas e teve suas obras lançadas no exterior. Finalista de vários prêmios literários importantes no Brasil e best-seller nas livrarias nacionais, Montes é especialista na produção de thrillers policiais e de narrativas aterrorizantes. Por isso, seu apelido de “Prodígio do Crime”. Além da literatura, o carioca tem se dedicado, nos últimos anos, também aos roteiros televisivos e cinematográf...

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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