• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Nick Hornby


Estamos no finalzinho de maio e, por isso, é chegada a hora de fazermos aqui no Blog Bonas Histórias a análise da literatura de Nick Hornby, o escritor foco deste mês do Desafio Literário. Para discutir com precisão as características e as marcas estilísticas deste autor, precisei ler cinco de seus livros nos últimos trinta dias: "Febre de Bola" (Companhia das Letras), "Alta Fidelidade" (Companhia das Letras), "Uma Longa Queda" (Companhia das Letras), "Um Grande Garoto" (Rocco) e "Funny Girl" (Companhia das Letras). Com as leituras e as análises individuais de cada uma dessas publicações (ver os posts do mês de maio), agora estou preparado para fazer os comentários gerais sobre o escritor e seu trabalho.

Nick Hornby nasceu em Maidenhead, uma cidade situada na margem ocidental do Rio Tâmisa a cerca de 40 quilômetros de Londres, em 1957. Formado em Literatura Inglesa na Cambridge University, Nick passou a trabalhar como professor de inglês até virar escritor em tempo integral. Com dezoito livros publicados, sendo que aqui no Brasil a Companhia das Letras editou nove deles, Hornby possui uma vendagem na casa dos cinco milhões de exemplares.

As obras de maior sucesso do autor foram transformadas em filmes: "Febre de Bola" (Fever Pitch: 1997), "Alta Fidelidade" (High Fidelity: 2000), "Um Grande Garoto" (About a Boy: 2002) e "Amor em Jogo" (Fever Pitch: 2005). O escritor também enveredou por outros caminhos nos últimos anos, passando a escrever roteiros de filmes para o cinema e para a televisão e letras de música..

Nick Hornby tornou-se cultuado ao longo da década de 1990 por expor a cultura pop em seus livros e por retratar uma geração de jovens problemáticos, imaturos e presos na "eterna adolescência". Nas páginas dos seus livros, há a citação predominante de músicas, de futebol, de filmes e de personalidades artísticas. Assim, os vários universos do entretenimento popular, MTV (emissora de televisão famosa nas décadas passadas, especializada em música), cinema, TV e esporte, praticamente entraram na literatura contemporânea por meio de Hornby.

Ao mesmo tempo em que abordava assuntos do dia a dia dos jovens modernos, o escritor montou seus enredos a partir de personagens problemáticos, obsessivos e psicologicamente vulneráveis. As histórias tradicionalmente giram em torno de problemas de relacionamento e conflitos pessoais.

O típico protagonista das tramas hornbianas é um homem na casa dos trinta anos que não soube fazer a transição da adolescência para a fase adulta. Esse tema me faz lembrar um trecho da música de Aldir Blanc e Cristovão Bastos chamada "Resposta ao Tempo": "No fundo é uma eterna criança/ que não soube amadurecer/Eu posso, ele não vai poder me esquecer/ No fundo é uma eterna criança/que não soube amadurecer". Assim, os personagens de Nick Hornby não conseguem encarar os desafios de sua vida profissional, pessoal, financeira e matrimonial como alguém da sua idade. Nick Hornby traz para a literatura contemporânea, dessa maneira, a figura do que alguns especialistas chamam de "adultescentes", indivíduos presos na mentalidade adolescente mesmo depois de terem envelhecido. Se pensarmos bem, trata-se de um mal cada vez maior em determinadas gerações.

Vejamos esse fato na prática. "Febre de Bola" é um livro autobiográfico cujo personagem principal narra suas experiências de torcedor fanático do Arsenal, colocando o futebol como o ponto mais importante da sua vida. Mesmo depois de adulto, o narrador continua se comportando como na época da adolescência, tendo a paixão clubística como sua prioridade. Em "Alta Fidelidade", o protagonista é um trintão apaixonado por música e dono de uma loja de discos. O rapaz não sabe lidar com o fim do relacionamento amoroso e com as obrigações financeiras e profissionais. "Um Grande Garoto" conta a história de amizade entre outro trintão, dessa vez um milionário que passa o dia sem saber o que fazer além de gastar o dinheiro recebido da herança paterna, e um adolescente pobre com problemas na escola e em casa. Em "Uma Longa Queda", o enredo é sobre um grupo de suicidas. Eles se conheceram na noite do Ano-Novo no terraço de um prédio de Londres. O grupo pretendia pular do alto do edifício e colocar fim em suas vidas porque nenhum deles não sabia lidar com as adversidades do cotidiano. E, para terminar, "Funny Girl", a única obra que destoa das características marcantes de Hornby, narra os bastidores de um programa de televisão dos anos de 1960 e a vida da sua protagonista.

Grande parte do sucesso do escritor inglês com seu público deve-se, a meu ver, ao fato dele ter construído ótimas personagens. Tanto os protagonistas quanto a maioria das figuras secundárias das suas histórias são compostas por pessoas com sérios problemas emocionais. Os desequilíbrios psicológicos desses indivíduos trazem consistência às tramas e desencadeia as narrativas dos livros.

Além disso, Nick Hornby consegue retratar como poucos o dia a dia dos jovens modernos. Ele descreve os gostos, os hobbies, os defeitos, os hábitos e as obsessões de uma geração. As histórias criadas em seus livros são muito parecidas à vida e ao cotidiano de muitos dos seus leitores. O público do escritor, assim, se identifica com essas criações, amando as histórias e louvando o autor.

Uma característica presente em todas as obras de Nick Hornby é o humor autodepreciativo. O escritor utiliza das suas tiradas humorísticas ácidas para dar mais leveza, graça e descontração para suas histórias. Com isso, a leitura fica agradável e não há a sensação de um clima pesado, algo que seria natural pela temática densa dos problemas apresentados. Esse ponto demonstra também muita coragem do autor. O inglês não tem medo de ser politicamente incorreto em muitas passagens. Ele faz graça de tudo, até de assuntos delicados como suicídio, separação dos pais, pedofilia, bullying na escola, violência das torcidas nos campos de futebol, deficiência física, envelhecimento, depressão, etc. Ou seja, o autor encara todos os temas espinhosos com coragem e sinceridade. A ironia, a abordagem direta e a reflexão das personagens são as armas do escritor para debater esses assuntos.

A linguagem é leve e descompromissada, o que às vezes passa a impressão de ser pobre e limitada. Muitas histórias (principalmente as primeiras) foram escritas na primeira pessoa, o que reforça um pouco mais a sensação de baixa qualidade do texto. Portanto, não espere encontrar grande sofisticação literária ou interessantes recursos linguísticos nestas obras.

O livro que mais gostei foi "Uma Longa Queda". Essa obra é incrível! A história é original e bem amarrada. Há ótimas cenas e os diálogos são reveladores. As personagens, todas malucas, são excelentes. Não me recordo de ter visto em outra publicação tantas figuras problemáticas juntas. Martin, Maureen, Jess e JJ colecionam uma variedade exorbitante de traumas, bloqueios, medos e inseguranças psicológicas. Impossível ficar indiferente às dificuldades e aos problemas do quarteto.

Também gostei muito de "Febre de Bola". É muito interessante conhecer a história do futebol inglês durante as décadas de 1970 e 1980 e no começo dos anos 1990, vendo a evolução da sua organização. Hornby traz suas memórias futebolísticas com emoção e saudosismo, enriquecendo os relatos dos jogos e dos campeonatos do seu time.

"Funny Girl" e "Um Grande Garoto" são bons livros, cumprindo a função de entreter o leitor. O único que me decepcionou um pouco foi "Alta Fidelidade". Achei a história muito fraquinha. Talvez eu estivesse com uma expectativa muita alta quando comecei a lê-lo, o que gerou essa frustração.

De modo geral, apreciei bastante o trabalho de Nick Hornby. Se pudesse resumir minha opinião sobre esse escritor, ficaria com as últimas palavras que escrevi no post sobre o livro "Uma Longa Queda": "Achei incrível este livro. Li rapidamente suas 328 páginas em apenas duas noites, tamanho foi o fascínio e o magnetismo que ele me proporcionou. Quando terminei a obra e fechei suas páginas, pensei: 'Nick Hornby é realmente um grande escritor!' . Se estivesse usando um chapéu, na certa o tiraria em reverência ao autor inglês". Acho que é uma ótima definição do meu sentimento.

Terminado o Desafio Literário de Nick Hornby, já começo a pensar no próximo. O autor que será analisado em junho é o brasileiro Jorge Amado. Não perca as novidades do Blog Bonas Histórias.

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#NickHornby #AnáliseLiterária

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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