• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: John Green


Depois de analisar a literatura de Mia Couto (abril), Nick Hornby (maio) e Jorge Amado (junho), o Desafio Literário investigou, ao longo deste mês, as obras, a carreira e o estilo de John Green, um dos principais autores norte-americanos da atualidade. Agora o Blog Bonas Histórias apresenta as conclusões desta pesquisa.

John Green é natural de Indianápolis, Estados Unidos, cidade onde mora atualmente com a esposa e seus dois filhos. Nascido em agosto de 1977, John se mudou ainda bebê para a Flórida. No sul do país, ele passou a infância e adolescência. Formado em 2000, em Língua Inglesa e Estudos Religiosos, Green trabalhou alguns anos em Chicago em um jornal local. Primeiro como assistente de produção e depois como editor. Em Nova York, para onde se mudou na sequência, trabalhou como crítico literário em uma revista. Somente após 2005, com o lançamento e o sucesso imediato de "Quem é Você, Alasca?" (Intrínseca), sua primeira obra publicada, John passou a se dedicar essencialmente à carreira de escritor.

Hoje em dia, John Green divide seu tempo entre seus livros e a manutenção de seu videoblog, chamado "Vlogbrothers". Desde 2007, ele mantém, junto com o irmão, este canal no Youtube no qual interage com os internautas postando vídeos sobre os mais variados assuntos. A página é uma das mais populares da Internet e aproxima o escritor do seu público.

Best-seller internacional, John Green tem seis livros lançados no mercado brasileiro. Quatro levam apenas a sua autoria e outros dois foram feitos com parceiros. Os títulos de sua exclusiva autoria são: "Quem é Você, Alasca?", lançado originalmente em 2005, "O Teorema Katherine" (Intrínseca), de 2006, "Cidades de Papel" (Intrínseca), de 2008, e "A Culpa é das Estrelas" (Intrínseca), de 2012. As obras de coparticipação são: "Deixe a Neve Cair" (Rocco), escrita com Maureen Johnson e Lauren Myracle e lançada em 2008, e "Will & Will" (Record), escrita com David Levithan e editada em 2010.

Neste mês de julho, li e analisei as quatro obras independentes do escritor. A primeira coisa que me chamou a atenção é que além do sucesso editorial, John Green também coleciona muitos prêmios (algo raro, pois normalmente há certa dicotomia entre sucesso de vendas e reconhecimento da crítica especializada). Os críticos não se cansam de elogiá-lo e de premiá-lo. Green ganhou o Printz Medal, o Pintz Honor da American Library Association e o Edgar Awards, além de ter sido finalista duas vezes no prêmio do LA Times. Suas obras frequentam constantemente a lista dos mais vendidos do The New York Times.

O maior sucesso editorial de Green é o livro "A Culpa é das Estrelas", transformado em filme no ano passado. Porém, em minha opinião, a melhor obra dele ainda é "Quem é Você, Alasca?". "A Culpa é das Estrelas" aborda a vida de Hazel Grace, uma jovem de dezessete anos que sofre de um tipo raro de câncer de pulmão. O livro é bonito, tocante e muito sensível. Por isso, acho que caiu no gosto do público. "Quem é Você, Alasca?", por sua vez, é uma obra que narra a chegada do adolescente Miles Halter ao colégio interno. Com pitadas semibiográficas, o livro retrata brilhantemente os dramas, as incongruências, os desejos e os medos dos adolescentes. É um livro mais crítico e polêmico. Por isso mesmo é mais interessante.

Enquanto "A Culpa é das Estrelas" representou a afirmação do estilo literário de John Green para o grande público, "Quem é Você, Alasca?" significou a inserção do nome do norte-americano entre os grandes escritores contemporâneos. Seu romance de estreia projetou os holofotes do mercado para o autor e atraiu análises elogiosas dos críticos para suas obras.

"Cidades de Papel" é um livro razoável, enquanto "O Teorema Katherine" é uma obra de qualidade discutível, meio repetitiva e sem grande conteúdo, apesar de leve e engraçadinha. Eu não perderia tempo lendo essas duas publicações. "Cidades de Papel" relata a procura do adolescente Quentin Jacobsen pela vizinha Margo Roth Spielgelman, que fugiu de casa após uma noite de aventuras. "O Teorema Katherine" narra a tentativa de Colin Singleton, jovem que só namora moças chamadas Katherine, em encontrar a fórmula matemática do amor.

Conhecido como porta-voz do público jovem, John Green e suas obras são aclamados pela garotada. O autor norte-americano escreve histórias de adolescente para os adolescentes. Suas narrativas são sensíveis, possuem alguma profundidade filosófica e são engraçadas. As personagens são essencialmente garotos e garotas recém-saídos da puberdade. As tramas giram em torno do universo adolescente: o primeiro amor, o desejo de sair de casa e explorar o mundo, o receio da morte precoce, a incompreensão da sociedade, os conflitos de relacionamento e o universo escolar. O grande mérito de John Green está em abordar esses temas com grande naturalidade, como se ele tivesse a idade das suas personagens e pensasse como elas.

Fazendo uma analogia, pode-se afirmar que John Green é o Nick Hornby norte-americano do século XXI. Afinal, enquanto o escritor inglês conseguiu retratar o estilo de vida e as angústias dos jovens adultos da década de 1990, Green faz o mesmo com os adolescentes nos dias atuais.

Outras características fortes das obras de Green são a rica e dinâmica narrativa, a composição de personagens complexas e envolventes e o humor que embala todos os momentos da trama. Mesmo recheado de personagens problemáticos (Colin de "Teorema Katherine" e Margo de "Cidades de Papel"), de caráter duvidoso (o Coronel e Alasca em "Quem é Você, Alasca?") e com doenças terminais (Hazel e Augustus de "A Culpa é das Estrelas"), as obras conseguem passar longe da depressão e do clima fúnebre. John Green consegue falar de assuntos complicados com leveza, bom-humor e sutileza, espantando a tristeza para longe. Não há apelação para o melodrama e para o sensacionalismo. Os medos, as angústias, os preconceitos e os sofrimentos dos jovens são encarados com coragem pelas personagens.

Outro elemento interessante é como o autor discute alguns pontos da vida das suas personagens com inteligência e perspicácia. Green não subestima o intelecto dos seus jovens leitores (esse talvez seja o principal motivo dele ser tão adorado pelos fãs). Pelo contrário. Ele parece considerá-los capazes de compreender suas divagações filosóficas sobre a vida e suas reflexões sobre a adolescência, não aliviando nas suas considerações existencialistas. Com isso, o livro ganha em conteúdo e adquire um verniz filosófico. Repare, antes que alguém queira me linchar, que usei a palavra verniz na última frase.

Também chama a atenção nos livros de Green a forma como o escritor prende a atenção de quem está lendo. O ritmo da narrativa geralmente é muito bom e estilo de escrita do autor faz com que pareça que ele esteja conversando diretamente com o leitor. Assim, depois que você começa a ler o livro, é difícil parar.

O estilo de John Green fica claro após a leitura das primeiras obras. Não é necessário, portanto, ler todas as suas publicações para compreender como elas estão estruturadas. A forma como todos os livros foram escritos é muitíssimo parecida. Às vezes, temos a sensação de estar lendo uma mesma narrativa. Nas histórias de Green, sempre há um adolescente complexado como personagem principal (na maioria das vezes é um rapaz relatando sua vida em primeira pessoa). Ele é cheio de manias e tem problemas sentimentais (amor não correspondido por uma garota). Assim, a personagem principal decide sair de casa e enveredar em uma viagem reflexiva ao lado do melhor amigo. Não é à toa que John Green é comparado muitas vezes a J. D. Salinger, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio".

Mesmo não sendo mais adolescente (o verdadeiro público-alvo dessas publicações), admito que gostei muito das obras de John Green. Elas são divertidas, possuem boas tramas, conseguem prender a atenção do leitor e oferecem uma reflexão interessante para alguns temas delicados, além de retratar fielmente as angústias, os sonhos e o dia a dia dos jovens atuais.

Chegamos ao fim do Desafio Literário de julho. E para ninguém perder o ritmo de leituras, já anuncio o próximo escritor que será analisado aqui no Blog Bonas Histórias. O mês de agosto será dedicado à literatura de Ignácio de Loyola Brandão, um dos principais autores brasileiros da atualidade. Até lá!

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#JohnGreen #AnáliseLiterária

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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