• Paulo Sousa

Contos: Histórias de Macambúzios - 8 - Três Gerações


Em cada esquina, um pouco da vida de Xeila se cai. Irônico, visto que por muito tempo foram os escanteios de Búzios que lhe garantiram o sustento. Nascida em 1970, vende seu amor apenas quando o dinheiro em casa não é suficiente, ou quando tem um sonho maior, como comprar uma televisão ou uma geladeira.

Faz muitos anos que não usa seu nome de batismo, tanto que não se recorda direito qual era. Usa o nome de profissão mesmo em momentos de privacidade, com amigos, vizinhança e família. Acredita que essa opção lhe fora muito boa, pois poucas pessoas no mundo podem se dar ao luxo de escolher o próprio nome.

Apesar de fortuita prostituta, tinha um pensamento um tanto quanto conservador em relação à vida. Não acreditava na política, nem em comunistas; considerava a arte um subterfúgio dos fracos e sem talento, e que nunca os pobres teriam direito a um pouco da riqueza. Vê-se que sua sabedoria é multidisciplinar, e é de se espantar que não fora adquirida através de livros.

Xeila, como muitas prostitutas de sua idade, é analfabeta, sua assinatura é um dermatoglifo. Conhece as cédulas de dinheiro pelas cores e figuras, e assim confere se o programa fora bem remunerado. No início da hiperinflação e dos planos furados, a prática lhe era muito cansativa, ainda mais porque estava na flor da idade. A época era efervescente, e aproveitava bem o momento. Em uma das manifestações pelas Diretas Já, resolveu que faria programas em pleno Vale do Anhangabaú, para revigorar as energias dos rebeldes. Com algum deles, não se sabe quais ou quantos, acabou sendo um pouco displicente, e engravidou aos quinze anos.

Quando percebeu que seu fluxo não vinha, lembrou-se da finada mãe, que lhe dizia das maravilhas dos anticoncepcionais. Toda a revolução sexual e seus ideais foram por água abaixo e útero acima quando Xeila comprou as pílulas de forma clandestina. O nome de sua filha é Yasmin, sem sobrenome e sem pai conhecido, nascida em 1985. A menina foi assim registrada para facilitar sua vida, unificando nomes de labuta e calmaria.

Ainda pré-adolescente, começou a percorrer o caminho da mãe, que sempre lhe alertara sobre os riscos de uma vida promíscua, como a aids e a gravidez indesejada. Entretanto, Yasmin nunca deu muita bola para a camisinha, apenas tomava pílulas. Por sorte, não contraiu nenhum vírus, mas mimetizando a história precedente, desta vez de forma mais intensa, engravidou aos catorze anos.

Novamente, as vilãs foram as pílulas, mas as compradas em farmácia, que estranhamente foram feitas com farinha. Xeila sentiu saudades dos tempos de pílulas minimamente confiáveis, mas como não se sentiu no direito de repreender a filha, prometeu cuidar do neto enquanto a mesma trabalhava.

Era 1999, ambas esperavam mais uma menina, e escolheram o nome de Zica, fácil de gravar e com um tempero um pouco devasso. Entretanto, ainda nas mãos da parteira, descobriram que o bebê era um menininho. O nome permaneceu, assim como a ausência de sobrenome, pai conhecido e futuro promissor. Yasmin imaginava um possível pai, mas este morrera pouco depois de fazerem um programa, vítima de um desmoronamento na barreira Epaminondas Farias. Não teve tempo para lhe perguntar o sobrenome.

Yasmin custeou o crescimento do filho com programas nas ruas, nunca tivera a sorte de ingressar em um prostíbulo para fazer carreira, como o Espelho do Mundo. O pouco dinheiro que ganhava servia para a sobrevivência da família, mas era insuficiente. Praticamente metade da receita doméstica vinha de uma organização não governamental, a Vivanal, que criara o programa Bolsa-Rodada, que assistia a prostitutas que tiveram o filho abandonado pelo pai. Além disso, a Vivanal era responsável por inúmeras campanhas de educação para o controle de natalidade.

Dessa forma, Yasmin recebia toda a educação que precisava. Entretanto, Zica nunca ingressara em uma escola, seguindo os passos da avó, que se lembrou da promessa de cuidar do neto, e resolveu o problema de uma forma caseira. Diariamente o menino visitava um grande amigo de Xeila, Sr. Ernesto. Era o velho o responsável pela educação do menino, o que fazia com carinho, visto que nunca tivera filhos e sentia-se um pouco menos senil conversando com alguém tão mais novo.

Certa vez, enquanto a mãe dormia, a avó preparava o café da manhã e reclamava da vida para o neto.

“Eu tive que abandonar meus sonhos, e olhe minha situação hoje. O mundo é um moinho, que os triturou, conforme Cartola me disse. Ah, que saudades daquele homem...”, disse enquanto abanava a mão despedindo-se do neto.

No fim daquele dia, Zica chegou entusiasmado em casa, muito pensativo. Sentou-se à mesa quieto, fazendo um pequeno batuque com as pontas dos dedos, como lhe era de costume quando queria perguntar alguma coisa para sua avó.

“Fala logo menino, desembucha!”

“Vó, a senhora acredita em deus?”, pergunta o menino assertivamente.

“Claro que acredito. Deus é misericordioso, foi Ele quem nos criou e é o Dono de nossos destinos. Você não acredita?”

“Não sei, na verdade. Nunca o vi, e se ele é o dono dos nossos destinos, não deve ser tão misericordioso assim, não é?”

Essa pergunta, que mais parece uma afirmação, pega Xeila sem palavras. Ela encerra o assunto mandando Zica tomar um banho e esperar pela sua mãe, enquanto prepara o jantar. A mãe chega suada, despenteada e com uma maquiagem muito forte e agressiva. Fumando, beija o filho, que lança a mesma dúvida.

“Mãe, você acredita no eterno sumo?”

“Acredito filho, mas não pratico nenhuma religião. Na verdade, sou evangélica, mas não sou aceita no templo, pela minha profissão.”

“Mas mãe, a Madalena da Vivanal também é prostituta...”

“Sim, filho, mas ela tem esse trabalho com a ong, e é muito chegada com o Mano Metido. Vi esses dias que ela estava até morando com ele. Eu, se fosse ela, fugiria dali em busca de uma história de amor.”

“Ah, filha!”, intromete-se Xeila. “Não existem histórias de amor. Eu pensei que eu tivera tantas, mas aí me dei conta que não tive nenhuma.”

“Mas vó, nem um namorado, mesmo antes de iniciar sua profissão?”

“Sim, namorei bastante, mesmo após começar no ofício. Mas nenhum amei de verdade. Como muitos foram, outros vieram, e só me restaram memórias.”

“Se você tivesse se casado”, diz a filha, “pelo menos restaria algum dinheiro.”

“Não filha, todos tinham uma situação similar à nossa. Tudo que herdei de meus amores foi o cinismo. Pelo menos na época essa história de doenças venéreas só estava começando”, equivoca-se. “Na verdade, o problema maior da época eram as drogas e a overdose, que matou muitos de meus ídolos.”

“Pelo que vejo, muitos daqueles de minha idade morrerão de obesidade”, diz Zica, muito embora não tenha grandes amigos de sua idade.

“Graças a Deus eu nunca me contaminei, diferentemente dos meus ídolos, e nem engordei muito, diferente de todos hoje em dia. Acredito que o casamento diminuiria muito meus riscos, pelo menos o das doenças”, finaliza Yasmin a conversa.

Naquela noite, o menino vai dormir pensando em caso sua mãe tivesse se casado, como seria sua relação com o pai. Enquanto isso, Yasmin descansa um pouco para voltar à península. Não tem horário fixo de trabalho, mas gosta das noites de quinta-feira, quando os empresários costumam fazer seus happy hours.

Fez diversos programas, inclusive um pago em drogas ilícitas, aceito pelo fato da dificuldade em dormir com diversos homens em uma mesma noite. Para essas atividades, Yasmin sempre se dopou, rotina seguida na noite em questão. A embriaguês ácida e inalada lhe tirou o sono, e não se deu conta que o sol já acordava quando aceitava realizar um ménage à trois.

E continuou. Enquanto seu filho ia para a escola, aproveitava o estado de alerta máximo para faturar e cheirar mais. Durante o dia, se alimentou de petiscos e acepipes que os clientes lhe ofereciam. Bebia sempre uma cerveja, para agradar o consumidor. Parou apenas quando a pomada não era mais eficiente e o sol já se despedia.

Chegou em casa e seu menino já estava lá. Estava exausta, e nem lhe deu atenção. Foi direto para o quarto arrumar sua cama, para uma noite confortável e revigorante.

“Mãe, porque só você arruma a cama?”

“Não sei filho, mas preciso dormir”, responde a progenitora, sem entender o porquê da pergunta.

Zica vai então conversar com sua avó. Ficou intrigado com uma história que o velho lhe contara, e queria saber se sua avó a confirmava, já que a enxerga como uma senhora de idade.

“Vó, a senhora sabe quem deu o nome da barreira que meu pai morreu?”

“Sei um pouco sobre eles, mas não os conheci pessoalmente.”

“Por quê?”, interroga Zica.

“Porque eles já estavam mortos...”

“É um motivo muito razoável. Acontece que o velho me contou sua história. Como você não a conhece bem, vou repeti-la.”

E Zica fica de pé e conta à avó de forma entusiasmada, usando as mesmas palavras que Sr. Ernesto.

“Epaminondas Farias e Luíza de Marquês e Sales, ele rico empresário de Búzios, ela líder comunitária, sempre faziam doações à nossa cidade. ‘Além de fazer a cidade de nosso amigo Jeremiah’, brincava a esposa, ‘garante meu emprego’. Luíza era uma mulher muito avançada para seu tempo, tanto que foi a primeira mulher do Rio de Janeiro a não adotar o sobrenome do marido.”

“Faziam caridades constantes aos moradores”, continua o contador de histórias, “deixando uma porcentagem nas mãos do traficante da época. Entretanto, uma crise de hipertensão, ocasionada principalmente pelas angústias nos negócios, finou Epaminondas. Sua fiel esposa, então, conseguiu com que este fosse homenageado. Desviou um pequeno rio de planalto para margear a outra fronteira de Macambúzios, em referência às suas lágrimas eternamente a cair.”

“Finalmente”, prosseguiu “após enviuvar, se tornou muito mais caridosa, e foi assim até o fim da vida. Após sua morte, o traficante da época percebeu que nenhuma lágrima mais seria chorada, e autorizou a construção de uma barreira no rio de planalto, que se chama Barreira Epaminondas Farias. De um lado, sobrou um córrego, que acabou virando esgoto. De outro, um pouco de mato dezesseis metros abaixo.”

A avó gostou da história, pois sabia que o velho conhecera o casal tão samaritano. E claro, pôde se lembrar da presença de seu grande amigo.

“Zica, o velho é uma pessoa muito boa, deveria ter tido uma família normal. Ele seria um ótimo avô, e por isso gosto que seja seu professor. Veja o caso do Emmanuel, neto da Turmalina”, compara. “Ele teve uma boa educação com sua avó, uma pessoa também admirável. Eu me lembro de que enquanto ela me soprava os números dos bingos, sempre comentava alguma pequena vitória do menino. Entretanto, faltou-lhe uma figura paterna, e por isso ele se encaminhou para um caminho perigoso.”

Xeila tinha uma opinião sobre o que é uma família, e como uma criança deveria ser criada, muito embora não participara do crescimento da filha, pois tinha que trabalhar, e nem pôde representar uma figura paterna para o neto. Mesmo assim acreditava que o mundo mudara muito rápido, e que o certo era feito em seu tempo.

“Seja gentil com o Sr. Ernesto, meu neto”, pediu Xeila, “e lhe leve amanhã uma maçã de cortesia.”

Na noite seguinte, foi se arrumar para o trabalho esporádico. Quis aproveitar a sexta-feira para ganhar um dinheiro extra, pensando em um fim de semana em família. Saiu de casa junto com sua filha, antes mesmo da chegada do menino macambúzio. Quando este chegou, algumas horas depois, chorava um pouco, triste pela falta de um pai, mas reconfortado pela presença de um avô.

Passou a noite sozinho, olhando as estrelas por uma pequena abertura no teto de sua sala, entre duas telhas compensadas que teimavam em se cruzar quando a chuva caía. O céu estava estrelado. “Elas vão trazer algum dinheiro a mais, pelo menos”, pensou Zica, como que para alegrar sua noite solitária.

É bem verdade que pensou em muitas coisas, durante toda a madrugada. Analisava-se no espelho, na esperança de encontrar alguma diferença com sua mãe, para considerá-la uma semelhança com o pai; passava os valores de sua avó e os comparava aos do velho, realizando como alguns param no tempo, e outros prosseguem, e logicamente, preocupava-se com seu amigo e professor, que no dia seguinte teria uma aventura por fazer.

Sr. Ernesto não lhe contou em detalhes, sequer gostava muito de tocar no assunto, mas o menino tinha uma vaga ideia do teor da empreitada. Poderia ser muito perigosa, haja vista que em Macambúzios as disputas de poder acabam mal. Ao amanhecer, ainda desperto, resolveu tirar o dia para si, pela primeira vez, e foi tomar um banho de mar.

O sol se mostrava quase completo quando Zica chegou à península. Não encontrou ninguém no caminho, nem sua mãe, nem sua avó, nem o velho. Estranhamente, sentia que nem a areia, as pedras e o sol foram plenamente encontrados. O mundo ao seu redor estava diferente, mas não sabia se era pela insônia ou pelo horário incomum para um banho de mar.

Sem se importar com a metafísica, Zica se despe quase por completo e mergulha na primeira onda que lhe desafia, inflando suas narinas da água salgada. A temperatura estava ideal para o momento, e o menino aproveitou muito bem. Ele nadava, mergulhava, boiava e executada toda a sorte de movimentos e brincadeiras possíveis quando estamos sob correnteza.

Descobriu no momento seu dom de nadar, quando sentiu curiosidade em conversar com alguns surfistas, lá onde a água não dava pé. Também teve que lutar contra a corrente marítima, que o levou para longe quando flutuava e olhava o céu. As nuvens passavam lentamente, e não sabia mais quem refletia quem.

Concluiu que o céu é para todos, independente das vidas e das escolhas. Sua avó poderia estar certa em suas opiniões, assim como sua mãe e o velho. Idealizou que todas as opiniões do mundo não são tão divergentes assim, visto que algo nos une. Além do céu e do mar, a morte, equilibrando-se sobre a dualidade certeza e dúvida.

Teve, então, a segunda epifania de sua vida, quando se deu conta que a vida é efêmera, e já nascemos condenados à morte. Sendo assim, de que adianta tantas religiões, filosofias, tabus? “Em nada”, falou baixinho, enquanto rodopiava sob as ondas. Viu que o mar, as árvores, o sol, tudo estava ali. E pensar na metafísica seria fechar os olhos. “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”, lembrou-se de uma frase dita pelo velho, citando um poeta que não se lembrava do nome.

O sol já preenchera boa parte de seu arco contínuo quando finalmente saiu da água. Enxergava o mundo sob um prisma totalmente diferente. Sua alegria transformou-se em curiosidade, e depois em apreensão, quando retornou à sua casa e viu um bilhete deixado debaixo da porta, com a letra do Sr. Ernesto.

“Abro mão desta vida por aquela que realmente me diz respeito. Estou contigo, Zica. Sucesso. Que você tenha muitos sonhos, muitos voos e um final feliz”.

O susto que o menino teve ao ler a mensagem foi grande, e sem mesmo trocar-se foi em direção para onde o velho estaria. Sabia que seu professor sempre teve um sonho, e que a aventura serviria para concretizá-lo. Entretanto, não sabia bem o porquê, mas sentia que o velho falhara, e que somente uma alternativa lhe restara para sua vida.

Subia correndo as ladeiras em labirinto de Macambúzios, até o outro lado da cidade, quando viu Sr. Ernesto com as pernas um pouco contraídas e os punhos fechados. “Velho! Velho!”, gritou em vão. “Não se jogue daí!”, também bradou, mas teve a impressão que dessa vez não fora ouvido. Quando finalmente chegou ao local, viu seu avô de consideração jazendo dezesseis metros abaixo, como que descansando após muitos anos.

O velório foi na própria casa do velho. Lá estavam muitos, quase todos, como Xeila, Yasmin, Carlos, dona Turmalina, carpideiras, prostituas. Zica, é claro, também estava lá, abaladíssimo com o ocorrido. Analisava se poderia ter feito alguma coisa para impedir a tragédia, mas acabou por aceitar e lamentar a morte de seu grande mestre. Chorava copiosamente, e não tinha coragem de olhar para o caixão.

A aventura de Sr. Ernesto já estava sendo contada em pormenores, embora não se soubesse exatamente quem a viu, passando de um morador para outro, em meio a conjecturas e juízos de valor. Em alguns momentos até exageravam, como que dizendo que o velho se armara para intimidar Tarzan. Zica sabia distinguir os fatos verossímeis com alucinações de moradores impressionados.

Como um gesto para honrar a vida de seu professor e amigo, Zica voltou à casa após o enterro, a fim de arrumá-la novamente para os pássaros hóspedes. Sozinho, descobre muitos livros e fichas com várias espécies catalogadas, uma preciosidade para a ciência. Tranca a porta sem sequer imaginar o que estaria por vir.

Na manhã seguinte, sem saber o que fazer, visto que suas aulas foram suspensas, foi dar uma volta à toa, e faz questão de passar em frente à casa de Tarzan, parando ao seu lado para refletir. A janela quebrada e a tranca da porta arrombada eram indícios de um ato de bravura e desprendimento. Obviamente, Tarzan não estava nada satisfeito, e no meio da manhã, sai de sua casa com fósforos e galão de gasolina. A intenção era clara.

Aproveitando-se de sua ligeireza, Zica sobe a cidade correndo desesperado. No caminho, encontra-se com sua avó, e lhe conta que Tarzan estava prestes a incendiar a casa do Sr. Ernesto, como vingança. Sem mais demora, continuou a corrida até o local e postou-se frente à porta, braços abertos, como um escudo humano.

“Moleque, saia daí!”, ordena-lhe Tarzan, alguns minutos depois.

Como um mártir, um rebelde, Zica dispõe seus pés como enraizados, e olha firme para os olhos de seu algoz. Este, por sua vez, não hesita e começa a despejar o líquido inflamável por toda a parte externa da residência, inclusive entre os batentes das janelas sempre abertas e da porta. Encharcado de gasolina, Zica sente seu coração tremer.

“Filho da puta!”, grita o menino. “Você não pode explodir isso aqui!”

“Posso sim, e vou! Ele acabou com meus negócios, e agora estou devendo para muitas pessoas.”

Dizendo isso, Tarzan acende um fósforo e o aprecia. Calmo, o deixa queimar em quase todo o bastão, até o fogo esmorecer perto de seus dedos. Acende outro, dessa vez sem requintes, e afasta-se um pouco. Arma com os dedos da mão direita para arremessar o flamejante fósforo, e não consegue conter um breve sorriso. Essa visão, comparada ao cheiro forte da gasolina, deixa a mente de Zica turva, e o faz aceitar esse destino tão rude, em nome do Sr. Ernesto.

A tensão e o silêncio só são quebrados quando um estampido, não muito longe, mas mesmo assim a certa distância, foi ouvido, e em seguida, quase que ao mesmo instante, uma bala penetra no corpo de Tarzan, na altura do coração, e rompe a costela para enfim se perder no horizonte. O corpo do contrabandista já cai morto, com o fósforo apagado. Em segundo plano, Zica observa sua avó rezando ao lado de dona Turmalina, e Mano Metido segurando uma arma de forma orgulhosa e ostensiva.

O abraço que recebeu após o trauma foi idêntico ao da morte, mas dessa vez, quem chorava era Xeila. “Zica, aprenda que o mundo é um moinho”, ela disse ao neto, que já estava sendo limpo por dona Turmalina. Para o menino, tudo foi impressionante, inclusive a presença de Mano Metido, que até então não passava de uma lenda distante.

“E agora, o que será feito da casa?”, indaga Xeila, já com intenções de lá organizar um brega.

“Pode ser uma casa de jogos, o que acham? Daria muito dinheiro para nós”, resumiu dona Turmalina, sempre alimentando seu vício.

“Nada disso”, sentenciou Mano Metido, virando-se para Zica. “Menino, sabemos de sua ligação com Sr. Ernesto, uma figura muito querida por todos em Macambúzios. Acredito que só você tenha o direito de escolher o que será feito da casa.”

Os olhos de Zica ficam um pouco brilhantes. Antes mesmo de terminada a pergunta já tinha a resposta. Jamais seu sonho substituiria a presença do velho, mas pelo menos seria uma forma de continuar sua missão com gerações vindouras.

“Eu quero que essa casa seja uma escola”, Zica finaliza a dúvida.

“Combinado. Eu já sei até quem terá interesse em aqui lecionar.”

Naquela noite, novamente, dormir foi difícil, apesar do cansaço físico e psicológico que os últimos dias impuseram. Entretanto, o menino sabia que seu mundo tinha mudado, apesar da sua avó continuar em casa, sua mãe continuar fazendo programas. Mas seu sonho de uma escola, não. Devia isso, claro, ao velho, que começava a fazer muita falta.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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