Livros: O Guarani - A criação de um mito nacional

Peri e Ceci são dois dos mais famosos personagens da cultura brasileira. O sucesso de "O Guarani" (Paulus), publicado inicialmente em 1857, primeiro em folhetins e depois em livro, transformou seu autor em um dos escritores mais populares da sua época. Curiosamente, José de Alencar escreveu obras mais importantes. "Senhora", por exemplo, é considerado o seu principal romance, obra-prima do Romantismo nacional (este é o meu livro favorito deste período). Dentro da temática indianista, "Iracema" é muito superior em qualidade ao livro "O Guarani". Contudo, foi a história do índio Peri e da jovem filha de português Ceci que encantou o público, transformando estes personagens nos primeiros representantes da genuína literatura brasileira.

 

Este romance de José de Alencar serviu de inspiração para outros artistas nacionais. Poucos anos depois do seu lançamento, em 1870, "O Guarani" foi adaptado à ópera por Carlos Gomes. Esta foi a criação mais famosa do músico. No século XX, o livro também foi levado ao cinema, à televisão e ao teatro com bastante êxito. A primeira versão desta trama a chegar ao cinema é datada de 1912, quando o cinema ainda era mudo.  

"O Guarani" foi o segundo romance publicado por José de Alencar. A obra de estreia foi "Cinco Minutos", que nunca teve grande repercussão entre o público e a crítica. Pertencente ao gênero romântico e sendo do tipo indianista, "O Guarani" representou um importante passo para a construção de uma literatura verdadeiramente brasileira. Ao elevar o índio ao protagonismo das tramas ficcionais, ao transformá-lo em herói e ao descrever as belezas do Brasil, o autor rompeu definitivamente com o perfil das narrativas portuguesas. Pela primeira vez na história, a grande colônia propunha um tipo de literatura único e singular em relação ao praticado até então na metrópole. A inspiração foi a figura romântica do "bom selvagem", criada pelo francês Jean-Jacques Rousseau no século anterior.

 

Neste romance, a família Mariz vive em uma fortaleza particular construída em uma remota região entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. A história se passa na primeira década do século XVII, período inicial de colonização do Brasil. Ao redor da construção só há mata e tribos indígenas selvagens. O povoado mais próximo fica há dias de caminhada.

 

O patriarca da família Mariz é Dom Antônio, um fidalgo português orgulhoso da sua nacionalidade. Ele vive com a esposa Dona Lauriana, uma dama paulistana. O casal teve dois filhos: Cecília e Diogo. Com a família, ainda mora Isabel. Considerada sobrinha de Dom Antônio, a moça é na verdade sua filha bastarda, fruto de um relacionamento extraconjugal do português com uma índia. Cecília e Isabel se dão muito bem, se comportando com legítimas irmãs.

 

A proteção do isolado lugar é garantida por uma legião de bandeirantes que habita a fortaleza conjuntamente com a família Mariz. Os valentes homens são os responsáveis por fazer expedições ao interior do país em busca de minerais preciosos. Nestas viagens, eles aproveitam para abastecer a remota casa com todos os artigos e alimentos que ela necessita. Além disso, protegem a localidade da invasão e da agressão indígena.

 

Os dois bandeirantes de maior destaque do grupo são Dom Álvaro de Sá e Loredano. Enquanto o primeiro é o chefe dos aventureiros e é leal às ordens de Dom Antônio de Mariz, o segundo é um traidor que desejava dar um golpe na família proprietária do lugar. Os dois rapazes também são apaixonados por Cecília. A linda moça de dezoito anos, loira e de olhos azuis, é a típica mulher romântica: lânguida, passional, idealista e fútil. Ela não ama nenhum dos dois bandeirantes. A jovem ainda não fora picada pelo "mosquito do amor".

 

Cecília é protegida por um índio chamado Peri. O rapaz selvagem vive nas redondezas da fortaleza e venera a filha do fidalgo português com uma paixão religiosa. O rapaz chama a moça por um apelido carinhoso: Ceci. A palavra é oriunda do tupi-guarani e significa "aquela que provoca dor e desgosto". Peri faz tudo o que a jovem deseja, se comportando como um escravo leal a sua senhora. Ele encara o perfil do índio romântico: leal, corajoso, integrado perfeitamente à natureza, imbatível e de coração nobre. Será Peri o responsável por proteger Ceci dos planos cruéis de Loredano e de um grande ataque perpetrado por índios inimigos à fortaleza da família.

"O Guarani" é um livro cativante. Para quem considera os romances românticos parados, sem aventura e desprovidos de ação, José de Alencar irá surpreender até mesmo os leitores mais reticentes. À medida que você começa a lê-lo, você não quer mais parar. O que atrai a leitura é a grande quantidade de acontecimentos paralelos. Esta característica confere muita ação e dinamismo à trama. Por exemplo, enquanto a fortaleza é alvo da ira de indígenas ferozes, há conspiração no seio dos bandeirantes responsáveis por dar segurança ao local. Ao mesmo tempo, existe um plano para raptar Cecília Mariz e há intrigas visando a expulsão de Peri da fortaleza. Tudo isso embalado com desencontros amorosos envolvendo variados personagens.

 

O maniqueísmo, como ocorre na maioria das histórias românticas, é acentuado. Todas as personagens são do tipo plano. Os violões são repulsivos e incorrigíveis. Os heróis são descritos como pessoas perfeitas e com espírito nobre. O embate entre o bem e o mal acontece desde o início e vai até o final. A passionalidade também é exacerbada. Os ideais românticos forçam homens e mulheres a atitudes extremas. A morte geralmente é vista como a maior prova de amor.  

 

O que é curioso nesta história é o tipo de relacionamento entre Cecília e Peri. Os dois se amam, durante quase todo o livro, de uma maneira singular para uma obra romântica. Ela vê o índio como seu leal protetor e, depois, como um irmão. Ele, por sua vez, venera a moça como uma figura sacra. Não há desejo de nenhuma das partes para a formação de um casal típico. Eles não se veem como amantes e não enxergam o outro como um possível parceiro amoroso. Isso só irá acontecer no finalzinho, depois de quase 300 páginas de comportamento extremamente imaculado e inocente entre os protagonistas.

 

Ou seja, o índio demora até se tornar efetivamente um homem aos olhos da moça. E Cecília demora até ser encarada como uma mulher de fato por Peri. Muito provavelmente, tal recurso do autor seja por causa do preconceito da época. Foi necessário preparar o leitor do século XIX para um tipo de relacionamento não habitual na literatura (moça branca com um índio). Além disso, os personagens principais representam a integração do brasileiro típico (indígena) com o europeu colonizador (a filha do português). Esta união não foi um processo célere durante a história do país e do continente americano. Foram necessários séculos para uma convivência minimamente harmônica.

 

O final é interessante. Juro que me lembrei do Stephen King, um adepto de desfechos explosivos, trágicos e sangrentos. Quem diria que José de Alencar tivesse semelhanças com o escritor norte-americano da atualidade, hein? O final de "O Guarani" também permite uma dupla interpretação. O encerramento do romance é do tipo aberto. O que acontece de fato com os protagonistas? É esta a questão que o leitor se faz quando fecha o livro pela última vez. Eu tenho uma opinião a este repeito. Só não posso contar aqui porque estragaria a leitura de quem ainda não o fez.

 

O que posso afirmar é que "O Guarani" é uma obra muito interessante e bastante divertida. Li o livro em dois dias, tamanho foi meu interesse. Trata-se de uma leitura que indico para todos os públicos.

 

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