• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Gabriela


[O assistente de palco levanta a placa com a inscrição "3 minutos". Depois de sessenta segundos, uma nova sinalização é erguida: "2 minutos". Na sequência, surge a de "1 minuto". Por fim, o jovem funcionário da emissora ergue a placa "No Ar". A luz vermelha do estúdio se acende e todos começam a trabalhar em silêncio. As câmeras são apontadas para o apresentador. O público no auditório prende a respiração].

Darico Nobar: Boa noite! Estamos ao vivo para todo o país com mais um Talk Show Literário, o novo programa de entrevistas da televisão brasileira. Neste mês, vamos receber uma das mais carismáticas personagens da literatura nacional. Essa criação de Jorge Amado saiu das páginas dos livros e ganhou notoriedade também nas salas de cinema, nos palcos dos teatros e nas telas de TV do mundo inteiro. É com imenso prazer que chamo, aqui na frente, Gabriela! [Aplausos e assobios vêm da empolgada plateia sentada no auditório]. Muito obrigado pela sua presença.

Gabriela: É muito legal estar aqui. Oi, pessoal!

Plateia: Ooooooooooooooi!

Gabriela: Quanta gente, Seu Darico!

Darico Nobar: Pode me chamar apenas de Darico. Sem formalidades, por favor. O auditório está mesmo superlotado hoje. Tem gente até de pé na plateia.

Gabriela: Olhe lá atrás, Seu Darico. O público do fundão não está conseguindo me ver direito. Pessoal, se eu ficar de pé no sofá, vocês vão me enxergar melhor?

Plateia: Siiiiiiiiiim!

Darico Nobar: Aconselho você a ficar sentada. [As palavras do apresentador parecem ser ignoradas pela convidada]. Não é prudente ficar de pé no sofá quando se está usando saia. Vai que bate um vento e... Gabrieeeeeeela! Cuidado!

Plateia: Ehhhhhhhh!

Darico Nobar: Não é que sua saia se levantou mesmo. Tenha modos e desça daí! [Agora a entrevistada obedece, voltando para sua posição inicial]. Assim está melhor. E, por favor, fique sentadinha no sofá. Ainda mais hoje que você está sem calcinha, pelo que pude notar. Este programa está sendo transmitido ao vivo para todo o Brasil.

Gabriela: Nunca uso calcinha nem sutiã. Aperta muito a gente, sabe? O bom mesmo é usar um vestidinho leve e solto como este. Tudo fica bem ventilado nele. A Bahia é um lugar muito quente e se a gente não souber se vestir, morre de calor.

Darico Nobar: Outro motivo para você não ficar de pé no sofá.

Gabriela: Mas o povo gosta tanto, Seu Darico. Quer ver?

Darico Nobar: Não, eu não quero ver... Gabrieeeeeeeeela!!! [A entrevistada ergue-se do sofá e levanta a roupa].

Plateia: Ehhhhhhhh!

Darico Nobar: Por favor, moça, sente-se e abaixe sua saia. Isso... Agora sim.

Gabriela: O que foi? O senhor não gostou do que viu, Seu Darico?

Darico Nobar: A senhora é muito bonita, devo admitir, mas a questão não é essa.

Gabriela: O senhor também não é de se jogar fora. O senhor é solteiro?

Darico Nobar: Assim fico constrangido. Devo estar vermelho agora, não estou? [O apresentador está realmente ruborizado, mas ninguém responde a sua pergunta]. Deixe-me voltar ao meu papel de entrevistador. Se não, perco o emprego e ainda apanho lá em casa quando voltar. Tenho uma pergunta para fazer: você se casou novamente com o Seu Nacib depois que Gabriela, Cravo e Canela foi publicado?

Gabriela: Não. A gente não se casou mais. Na verdade, o nosso casório foi desfeito, anulado. É como se ele nunca tivesse acontecido. Foi o que me falaram na época. Casamento é uma coisa muito chata, fique o senhor sabendo. Uma mulher casada precisa andar de sapatos e não pode passear sozinha pelas ruas da cidade. Não sei como a mulherada aceita uma coisa dessas.

Darico Nobar: Então você não está mais com o Seu Nacib?

Gabriela: Agora não, porque estou aqui em seu programa no Rio de Janeiro e ele está lá na Bahia cuidando do bar. [Risos da plateia são ouvidos]. Será que o moço bonito está me assistindo? Quando estou em Ilhéus, sou a cozinheira dele. E também moro na mesma casa com ele. A cama é nossa, de nós dois juntinhos. E a gente brinca muito nela, quase todo dia, mas não somos casados não. Nem eu quero, nem ele quer. Estou com tanta saudade dele... Seu Darico, o senhor gosta de brincar?

Darico Nobar: Por favor, Gabriela, isso não é pergunta que se faça na televisão.

Gabriela: O moço bonito gosta. Sabe o que ele faz sempre comigo? Dê sua mão para mim que eu mostro. Obrigada. Ele gosta de colocar a mão dele aqui dentro do meu vestido, assim, e depois começa a subir...

Plateia: Ehhhhhhhh!

Darico Nobar: Gabrieeeeeeeeeeela, por favor!

Gabriela: Por que o senhor tirou a mão? Não vai me dizer que não gosta?

Darico Nobar: Eu já disse que estamos ao vivo! E eu sei muito bem que o Seu Nacib é um homem ciumento. O que ele vai pensar da gente

se estiver vendo o programa na televisão?

Gabriela: Ele é muito ciumento mesmo. Fica bravo por qualquer coisinha.

Darico Nobar: Esse seu cheiro de cravo e canela não sai nunca do seu corpo? Quando você se aproximou de mim, pude senti-lo com mais intensidade.

Gabriela: Não sei. Não sinto nada. Deve ser de ficar muito tempo na cozinha do bar. O cheiro dos alimentos passa para mim. Os homens comentam desse meu cheiro.

Darico Nobar: É um perfume doce, delicioso... Agora, preciso fazer uma pergunta bem delicada para você. Portanto, pense bem antes de respondê-la.

Gabriela: Se for de matemática, vou logo avisando que não sei nada desse assunto! A parte dos números do bar Vesúvio fica toda com o moço bonito.

Darico Nobar: Não é nada sobre matemática, prometo. [O apresentador sorri com o jeito espontâneo da entrevistada]. Algumas personagens literárias ficaram marcadas como mulheres infiéis. Emma Bovary e Luísa Carvalho, a prima do Basílio de Brito, por exemplo, carregam até hoje o estigma de adúlteras. Com você, não aconteceu isso, apesar de ter se deitado com o Tonico Bastos. Você se considera uma precursora do movimento feminista e da revolução sexual feminina?

Gabriela: Não conheço essas duas que o senhor falou. Por isso, não vou julgá-las. Também não entendi direito sua pergunta... O que sei é que faço o que me dá vontade. Só assim consigo ficar alegre e achar graça no mundo. Acho tão feio quando a pessoa fica se proibindo de fazer as coisas gostosas da vida, seja por medo dos comentários dos outros ou por falta de coragem para ser feliz. Uma mulher, seja ela de qualquer idade, classe social ou período da história, deve fazer aquilo que irá deixá-la satisfeita. E não há nada de errado no fato de um homem e uma mulher se deitarem juntos. Isso é da nossa natureza, não é? Não tem nada a ver com estado civil ou com o tipo de relacionamento que eles mantêm.

Darico Nobar: Você já fez alguma coisa na vida em que tenha se arrependido?

Gabriela: Nunca pensei nisso... Deixe-me ver... Acho que a única coisa que não faria de novo é me casar com o moço bonito.

Darico Nobar: Você não gosta do Seu Nacib?

Gabriela: Gosto sim. Gosto muito. Exatamente por isso, não deveríamos ter nos casado. O período da nossa vida mais chato foi quando estivemos oficialmente unidos. Agora que largamos mão disso, as coisas voltaram a ficar numa boa. Quando homem e mulher se gostam, basta ficar juntos para serem felizes. Quando se coloca a Igreja no meio ou se cria muitas regrinhas chatas, aí a chance de o caldo entornar aumenta!

Darico Nobar: Quais as três coisas que você mais gosta de fazer lá em Ilhéus?

Gabriela: Brincar! Brincar com as crianças na rua, brincar com os homens no quarto e brincar de fazer comida gostosa para os fregueses do bar do Seu Nacib.

Darico Nobar: É verdade que Ilhéus se modernizou muito nos últimos anos?

Gabriela: É sim! Agora ela é uma cidade muito mais moderna. Tudo graças às famílias Falcão e Magalhães. Se não fosse o Mundinho Falcão Neto e o Antônio Carlos Magalhães, o sul da Bahia não seria uma região tão próspera como é hoje.

Darico Nobar: Quais são as atrizes que você mais admira?

Gabriela: Gosto muito da Juliana Paes e da Sônia Braga. Elas são lindas!

Darico Nobar: Para terminar, preciso saber: qual o segredo do seu tempero?

Gabriela: Juro que não sei. Acho que o Seu Amado exagerou ao descrever meus dotes culinários. Sou apenas uma cozinheira convencional que faz tudo com muito capricho.

Darico Nobar: Gabriela, obrigado pela sua presença no Talk Show Literário.

Plateia: Ahhhhhhhhhhh.

Darico Nobar: Como passou rápido essa entrevista, né?

Gabriela: Seu Darico, será que eu poderia voltar outra vez em seu programa, outro dia, quem sabe, para a gente conversar mais? Gostei tanto de ficar na frente do público, aparecendo na televisão.

Darico Nobar: Claro! Será um prazer recebê-la novamente. Pessoal, até mês que vem e boa noite a todos!

[O quinteto musical toca uma canção de encerramento do programa. Os créditos sobem na tela dos televisores do público em casa. Quando as câmeras são desligadas, a luz vermelha do estúdio se apaga. O funcionário que permanecia segurando a placa com os dizeres "No Ar" pode, enfim, descansar. Ele abaixa a sinalização demonstrando grande cansaço nos braços].

Gabriela: Seu Darico, o programa terminou?

Darico Nobar: Sim.

Gabriela: As câmeras estão desligadas?

Darico Nobar: Agora estão. Por quê?

Gabriela: Acho que o senhor não viu direito. Tenho uma pintinha de nascença ao lado do umbigo. [A moça levanta a saia]. Olhe! Não é bonitinha?

Darico Nobar: Gabrieeeeeeeeeeeeeeeeela! Baixe a saia, por favor!

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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