• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Paulo Honório


Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Eu sou o Darico Nobar e você está assistindo ao Talk Show Literário.

[A vinheta de abertura do programa, uma animação computadorizada simulando pessoas conversando em um estúdio, ganha a tela. Os nomes do apresentador e da equipe técnica são mostrados enquanto se ouve a música-tema da atração].

Darico Nobar: Na entrevista de hoje, vamos receber um dos mais respeitados empresários do agronegócio nacional. Com vocês, Paulo Honório!

[A plateia aplaude o convidado que surge no auditório e se dirige ao palco. Surpreendentemente, dois homens altos, fortes e armados o seguem. O grupo chega até a parte da frente do estúdio, onde as câmeras estão apontadas e filmam a cena].

Paulo Honório: Agradeço pelo convite, Darico. [O entrevistado senta-se no sofá]. É muito bom estar aqui nesta noite. [A dupla que acompanha o convidado permanece de pé em uma postura intimidatória].

Darico Nobar: Quem são esses homens, Seu Honório?! Eles não podem ficar conosco no palco. Esse lugar é restrito ao entrevistado e ao entrevistador.

Paulo Honório: Fique tranquilo. Esses são meus jagunços. Aonde vou, eles vão atrás para me proteger.

Darico Nobar: Até durante a entrevista?!

Paulo Honório: Eles jamais se desgrudam de mim.

Darico Nobar: Nosso auditório é um local seguro, Seu Honório. Além disso, não fico totalmente à vontade conversando com alguém tendo dois brutamontes mal encarados ao meu redor.

Paulo Honório: Você tem razão, meu rapaz. Minhas esposas reclamavam da mesma coisa quando íamos para nosso quarto. Casimiro, você e seu primo podem me esperar lá dentro. Está tudo bem aqui. Qualquer coisa, estou com o Trintão. Podem ir!

Darico Nobar: Obrigado, Seu Honório, mas quem é esse Trintão?

Paulo Honório: É o meu .38. [O convidado mostra o revólver em sua cintura].

Plateia: Ohhhhhhhhhhhh! [O susto é geral no auditório].

Darico Nobar: O senhor está armado?!

Paulo Honório: Por que a surpresa? Achei que aqui no Rio de Janeiro fosse normal cabra macho andar carregado. Vi tanta gente com fuzil pelas ruas de alguns bairros. O Brasil seria um país muito mais seguro se a população andasse armada até os dentes.

Darico Nobar: O senhor acha o Rio uma cidade perigosa?!

Paulo Honório: Viajei para cá para tratar justamente desse assunto com dois colegas políticos, o Jair Bolsonaro e o Marco Feliciano. Vim saber quais são as ideias desses rapazes. Lá em Alagoas, estão falando muito bem deles. Parece que eles querem lançar uma chapa para presidente. Voltando ao tema da criminalidade, tenho visto muitos vagabundos pelas ruas do Rio. Ontem mesmo, estava passeando no calçadão de Copacabana e um menino tentou roubar minha carteira. Nem precisei da ajuda do Casimiro. Saquei o Trintão e meti dez balas no moleque. Não sei como vocês conseguem morar em um lugar assim sem um bom trabuco ao lado. Se eu fosse o coronel desta cidade, já teria passado fogo em muito sem-vergonha por aí.

Darico Nobar: Exatamente como o senhor costuma fazer lá no Nordeste?

Paulo Honório: E você acha errado?! Devemos ser severos com quem não presta. Vai ver se eu mexo com os rapazes direitos e as moças de família. É claro que não!

Darico Nobar: Há quem diga que o senhor passou a perna no Luís Padilha, que era um moço honrado. E têm os boatos que o senhor mandou assassinar o Mendonça, um empresário respeitado na sociedade alagoana e dono da fazenda Bom-Sucesso.

Paulo Honório: Esses são assuntos totalmente diferentes. Não têm nada a ver com criminalidade. Esses episódios foram decisões de negócio. A natureza do capitalismo é assim mesmo, meu amigo. Quem nunca ouviu falar da alma selvagem do empresariado?!

Darico Nobar: O senhor, então, acha natural matar pessoas para progredir na vida ou para enriquecer?

Paulo Honório: É da natureza dos negócios, como falei. [O entrevistado acende um cachimbo, soltando uma nuvem de fumaça pelo estúdio]. Ninguém fala das pessoas que ajudei ao longo da vida, né? Quem deu um emprego e um bom salário para o Seu Ribeiro, mesmo ele sendo um velho preguiçoso? Quem bancou a vida confortável de Dona Glória, mesmo ela sendo uma fofoqueira imprestável? Quem aceitou os caprichos de Madalena para gastar dinheiro com uma escola para crianças estúpidas? Se eu fosse tão ruim como dizem, não teria ajudado tanta gente nas últimas décadas.

Darico Nobar: O que aconteceu com o senhor depois da publicação do romance São Bernardo? Pelo que posso ver, seu patrimônio cresceu muito de lá para cá.

Paulo Honório: Fiquei um tempo sozinho na minha fazenda. Apenas o meu cachorro e o Casimiro Lopes, que você já conheceu, ficaram ao meu lado nesse período difícil. Depois que a tristeza pela viuvez de Madalena passou, resolvi empreender outra vez. Tive novos desentendimentos com os vizinhos, é verdade. Também fiz outras parcerias com os políticos locais e ganhei a amizade dos juízes da região. Assim, pude quintuplicar o tamanho da fazenda São Bernardo. Com um projeto de irrigação que o governo do estado patrocinou, hoje minha fazenda é a mais produtiva do Nordeste. Produzimos mais de dez tipos de culturas agrícolas e temos gado de corte e de leite.

Darico Nobar: Ou seja, o senhor se transformou em um empresário de renome nacional.

Paulo Honório: É o que os inimigos falam... [O convidado ri da própria fala].

Darico Nobar: No começo da entrevista, o senhor mencionou ter tido "esposas", um termo no plural. O senhor se casou outra vez depois da morte de Madalena?

Paulo Honório: Sim, me casei mais duas vezes. Sabe como é: homem sem mulher em casa não vive direito. Porém, eu aprendi muito com o meu primeiro casamento. Prometi para mim mesmo que nunca mais casaria com moça comunista nem com mulher com a cabeça entupida de modernidade. Foi o que fiz. Minha segunda esposa foi a Patrícia, uma das netas do Mendonça. Ela era uma mulher encantadora. Não dava trela para os empregados e sabia mandar como um general. Diziam que perto dela eu era um anjinho. A bichinha era um capeta de brava com todo mundo.

Darico Nobar: E o que aconteceu com ela?

Paulo Honório: Infelizmente, acabou morrendo ainda jovem. [Uma nova tragada no cachimbo produz outra grande nuvem de fumaça]. O pessoal diz que eu tinha muito ciúmes dela, mas não é verdade. Não a envenenei quando ela passou a dar mais atenção ao meu filho do que a mim. Isto é tudo maldade que sai da boca do povo.

Darico Nobar: O senhor teve mais filhos? Com a Madalena sei que teve um.

Paulo Honório: Tive três filhos homens. "Filho mulher" não conta, né? Com a Madalena tive um, mas nunca falei com o menino. Nem sei por onde ele anda. Acho que Dona Glória o levou quando saiu da fazenda. Acho que foi isso... Com a Patrícia, tive outro filho homem. O rapaz começou a trabalhar cedo lá em São Bernardo e hoje é um dos meus melhores empregados. Sempre esqueço o nome dele. Se o Casimiro estivesse aqui, perguntava para ele. Ele tem uma memória melhor do que a minha.

Darico Nobar: Agora o senhor está casado pela terceira vez?

Paulo Honório: Não. Estou novamente viúvo. Acho que essa é uma sina que tenho. Minha última mulher era filha de um empregado da fazenda. Era uma moça muito boa e prendada, cinquenta anos mais nova do que eu. Não opinava sobre nada e era muito obediente, como uma esposa deve ser. Um dia, contudo, ela sumiu e nunca mais apareceu. O Casimiro foi atrás dela e só achou a mala abandonada. Há quem diga que tenha fugido por não aguentar minha truculência. Mas isso também é intriga do povo.

Darico Nobar: Vocês tiveram mais um filho, certo?

Paulo Honório: Acho que tivemos um rapaz, sim. Não lembro direito... Ele deve estar agora com alguém lá na fazenda ou a mãe deve tê-lo levado quando fugiu de casa com o amante. Espero que o Casimiro tenha passado fogo na criança também. De preferência com o mesmo tiro que matou a mãe e o amante dela. Assim, economizo. Há pessoas nesse mundo que não valem o preço da bala do revólver da gente.

Darico Nobar: Quais foram as pessoas que mais o ajudaram nessa impressionante ascensão de garoto pobre que vendia cocada a empresário de sucesso?

Paulo Honório: A Negra Margarida, o sapateiro Joaquim e os senadores Fernando Collor de Mello e Renan Calheiros. Sem eles, eu ainda seria um pobre analfabeto ou um empresário de pequeno porte.

Darico Nobar: Mais ninguém?

Paulo Honório: E a mim mesmo, né? Porque se eu não tivesse arregaçado as mangas e enfrentado as dificuldades da vida, não teria chegado aonde cheguei.

Darico Nobar: Para chegar onde o senhor está agora, quantas pessoas precisou... Como posso dizer? Quantas pessoas o senhor... Teve de tirar do seu caminho?

Paulo Honório: Matar, você quer dizer. Não tenho vergonha em falar sobre isso. A vida não é fácil para ninguém, ainda mais no campo, lá em Alagoas. Todos os dias, precisamos enfrentar nossos inimigos de frente. Se não os matarmos, seremos mortos por eles. O que você prefere: ver alguém na horizontal ou amanhecer com a boca cheia de formigas?! As mortes são ossos do ofício. Quando se deseja empreender no Brasil, é necessário aceitar as regras duras do jogo. Não é possível ser bem-sucedido e ao mesmo tempo ser bonzinho. Empresário que paga todos os impostos, que é amigo dos funcionários, que faz parceria com os fornecedores, que agrada os clientes, que não polui o meio ambiente e que tem uma relação impessoal com os governantes não vai longe. Se não eliminarmos nossos concorrentes, eles acabam conosco primeiro.

Darico Nobar: Pessoal, este foi o polêmico Paulo Honório! [Os aplausos da plateia são agora comedidos]. O Talk Show Literário volta no mês que vem com mais uma conversa com uma grande personalidade da nossa literatura. Boa noite a todos e até o nosso próximo episódio.

[No instante em que a banda toca a música de encerramento do programa e todos começam a se preparar para deixar o auditório, ouvem-se dois tiros sendo disparados].

Darico Nobar: O que é isso?! [O apresentador pula aterrorizado da sua cadeira. Muitas pessoas na plateia se atiram no chão assustadas].

Paulo Honório: Não é nada de mais, Darico. Só dei dois tiros para cima para avisar o Casimiro que o programa acabou. Olha ele aí. Casimiro, podemos ir embora. Vá buscar meu carro. Até a próxima, Darico. Boa noite!

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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