• Ricardo Bonacorci

Livros: Dom Casmurro - A eterna dúvida deixada por Machado


A última obra que analisarei, neste mês de maio, para o Desafio Literário é "Dom Casmurro" (Ática). Esta publicação integra, juntamente com "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret) e "Quincas Borba" (L&PM Pocket), a "Trilogia Realista" de Machado de Assis. Para muita gente, o autor carioca deixou o melhor do seu trabalho para esta terceira e última parte da sua trilogia. Desta maneira, "Dom Casmurro" seria o ápice artístico de Machado. Este romance psicológico levanta acalorados debates até hoje. Afinal, o marido apaixonado (e ciumento) fora ou não traído pela mulher prendada (e dissimulada)?! Há quem veja indícios de traição, enquanto outros apostam na retidão da esposa.

A leitura que fiz de "Dom Casmurro" nesta semana representou meu terceiro contato mais intenso com este livro. A primeira leitura aconteceu quando eu ainda era adolescente. A releitura inicial foi há cinco ou seis anos. Curiosamente, em cada uma delas, fiquei com uma impressão distinta. Esta, talvez, seja a principal comprovação da excelência artística deste romance: proporcionar ao leitor uma nova experiência a cada contato com a história. Assim, continuo com a indecisão sobre qual seria o melhor trabalho de Machado de Assis. Às vezes, acho que é "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Outras vezes, acho que é "Dom Casmurro". Juro que não consigo tomar partido nesta questão.

"Dom Casmurro" foi publicado pela primeira vez em 1899. Diferentemente dos outros integrantes da "Trilogia Realista", este romance já foi lançado diretamente em livro ("Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Quincas Borba" foram editados inicialmente em folhetins). Por isso, esta obra se apresentou logo de cara com um caráter mais consolidado aos leitores, o que agradou em cheio aos críticos e ao público. "Dom Casmurro" é considerado pela Universidade de Coimbra como sendo o terceiro principal romance da Língua Portuguesa de todos os tempos. O jornal Folha de São Paulo o coloca como o segundo principal romance brasileiro da história.

A trama de "Dom Casmurro" é narrada em primeira pessoa por um dos seus personagens, Bento de Albuquerque Santiago. Bentinho, como o rico advogado é chamado pela família, conta para o leitor a história da sua vida. Já idoso e morando sozinho em uma casa construída no bairro do Engenho Novo, o protagonista recapitula os principais momentos vividos. Ele volta até sua infância para iniciar o relato. Depois, segue em ordem cronológica até chegar a sua triste velhice.

O foco principal da narrativa é a relação da personagem principal com Capitolina, sua esposa. Capitu, como a moça era chamada pelos amigos e pelos familiares, foi a grande paixão de Bentinho. Os dois se conheceram ainda crianças e prometeram, naquela época, que iriam se casar. Depois de muitos obstáculos para concretizar este sonho, enfim, o casal conseguiu ficar junto. Contudo, o que parecia ser o estabelecimento de uma relação idílica ao lado da mulher amada se transformou, ao longo dos anos, em um pesadelo. Tudo culpa das suspeitas, por parte dele, de que era traído.

A infidelidade de Capitu seria com Ezequiel de Sousa Escobar, o melhor amigo de Bentinho. Apesar de não possuir nenhuma evidência concreta do caso extraconjugal da esposa com o amigo, Bento sempre acreditou que fora enganado pela dupla. O que mais o incomodava era a aparência de seu filho. O garoto, que também se chamava Ezequiel, era a cara de Escobar, acreditava o pai. A grande tristeza do protagonista era que, além de tê-lo traído, Capitu ainda havia colocado dentro de casa o fruto da sua traição para ele criar.

"Dom Casmurro" é um livro espetacular. Em relação ao seu estilo literário, não temos muitas novidades. Basicamente, Machado de Assis repete a fórmula consagrada nos dois primeiros livros da "Trilogia Realista": narração não linear; visão crítica (e ácida) do mundo burguês do século XIX; constante debate e interação com o leitor; inserção de reflexões por parte do narrador; intensa ironia; construção aprofundada do perfil psicológico das personagens; e texto metalinguístico. O brilhantismo de "Dom Casmurro" está no acréscimo de um elemento novo às tramas machadianas: a subjetividade do enredo.

Nunca uma história foi tão suscetível à interpretação do leitor. O que realmente aconteceu? Esta é a pergunta que todos se fazem à medida que a história vai sendo apresentada. Como na vida real, o certo e o errado e a verdade e a mentira dependem do ponto de vista de quem analisa a questão. A definição dos acontecimentos ocorridos na família Santiago, portanto, depende mais da opinião dos leitores do que das descrições feitas pelo autor da obra. A cada capítulo, a cada episódio, a cada página e a cada palavra dita por Machado de Assis, tentamos desvendar o mistério sobre o comportamento de Capitu. Assim, o debate sobre a possível traição sofrida por Bentinho está mais no campo das ideias do que da prática. Nem mesmo o protagonista, que narra a trama com passionalidade, tem qualquer certeza do que efetivamente aconteceu. Tudo não passa de suspeitas e de impressões.

O que deixa a história ainda mais rica é descobrir que a principal característica de Bento Santiago é o ciúme exacerbado. Tudo é motivo para ele desconfiar do caráter e dos atos da esposa. Uma vez que compreendemos que a trama nos é apresentada por um homem "cego de paixão" e "totalmente inseguro de si", começamos a duvidar do que ele nos transmite. Desta maneira, "Dom Casmurro" é muito mais uma obra que trata do ciúme doentio do que, propriamente, da traição conjugal. Por isso, não é possível compará-lo de maneira nenhuma a "Madame Bovary" (Abril) de Gustave Flaubert ou "Primo Basílio" (Penguin) de Eça de Queirós.

Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar? O menino Ezequiel é, afinal, filho de quem? Estas perguntas dependem unicamente das interpretações de cada leitor. Diria até que nosso ponto de vista sobre esta questão está relacionado às nossas próprias características. Um leitor ciumento, muito desconfiado, inseguro de si e/ou que tenha passado por episódios traumáticos de traição em sua vida pessoal, provavelmente, irá achar Capitolina Santiago infiel. Outro leitor, desta vez menos passional, mais lúcido, menos melindrado e sem traumas, muito possivelmente, considerará a esposa de Bento como sendo uma mulher exemplar.

Eu, por exemplo, não tive qualquer certeza sobre a fidelidade de Capitu na minha primeira leitura. Curiosamente, naquela época (adolescência), eu era muito inseguro e um pouquinho desconfiado das minhas namoradas (jamais fui uma pessoa ciumenta). Também não tinha muita experiência de vida para compreender o comportamento feminino. Assim, era natural minha dúvida. Na segunda vez que li "Dom Casmurro", já comecei a acreditar na retidão de Capitu. Não era de se admirar esta minha visão. Nesta fase da vida, eu já era um homem trintão, bem menos passional e ainda menos desconfiado das ações de minhas parceiras. Viu como nossa interpretação desta história é um reflexo direto da nossa personalidade!

Agora, com a nova leitura do livro, tive "certeza" da fidelidade de Capitu. Para mim (atualmente com uma taxa de ciúme beirando o 0% - acredite!), o lunático desta história é Bentinho. Ele não soube amar e ser amado por uma mulher maravilhosa como Capitolina. Capitu, em minha visão, não apenas não traiu Bento Santiago como jamais deu margem para suas suspeitas. O ciúme exacerbado do narrador foi o responsável por "achar pelo em ovo" e destruir sua vida e sua relação com a esposa.

A inspiração de Machado de Assis para a criação de Bento Santiago, um personagem tão rico e enigmático quanto Capitu, pode ter vindo de si mesmo. Pouca gente fala sobre isso atualmente, mas o maior romancista de nossa história era um homem profundamente ciumento. Por ser feio, mulato e ter vindo de uma família pobre, Machado possuía grande insegurança. Ele morria de ciúmes da esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais Assis. Apesar de ela ser mais velha do que ele e ser muito feia, seu marido constantemente ficava enciumado quando Carolina conversava ou interagia com outros homens.

"Dom Casmurro" é uma obra espetacular. Além de ser leitura obrigatória, este tipo de livro exige uma releitura de tempos em tempos. Será que terei a mesma visão da história daqui dez ou vinte anos? Fiquei com esta dúvida agora.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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