• Ricardo Bonacorci

Livros: O Diário Roubado - A adolescência de Régine Deforges


Comecei a leitura das obras de Régine Deforges pela novela "O Diário Roubado" (Klick). Lançado em 1978, este livro não foi o primeiro da autora. Deforges já havia publicado um ensaio e uma ficção anteriormente. Em 1975, chegou às livrarias francesas "O M'a Dit" (Sem tradução para o português), ensaio em que a francesa apresenta uma série de entrevistas com um importante escritor do seu país. Em 1976, ela lançou "Blanche et Lucie" (Também sem tradução), novela sobre a vida de suas avós.

A importância de "O Diário Roubado" para a carreira de Régine Deforges está no fato desta obra ter iniciado o estilo literário que marcaria, anos mais tarde, o portfólio artístico da escritora. Este livro é aquele em que Deforges imprime verdadeiramente sua personalidade. Surgem, neste momento, o feminismo como ideologia e o erotismo como componente literário.

Com pouco mais de 100 páginas, "O Diário Roubado" apresenta o drama da adolescente Léone. A moça de quinze anos vive em uma pequena cidade do interior da França durante a década de 1950. É a própria protagonista que narra (em primeira pessoa) a trama. Léone é uma adolescente muito bonita, que chama a atenção da maioria dos rapazes da sua cidade. Todos querem namorá-la. Entretanto, ela já tem uma namorada: Mélie. Mélie é a melhor amiga e colega de escola de Léone. As meninas possuem um romance homossexual há alguns anos. O relacionamento das duas não é assumido publicamente, porém muitas pessoas da cidade percebem aquele envolvimento entre elas.

Léone é verdadeiramente apaixonada por Mélie. A recíproca também é válida. As duas iniciaram suas vidas sexuais em conjunto. Apesar de se deliciar com as carícias e com o sexo da parceira, Léone tem curiosidade para saber como é transar com garotos. Ainda virgem (em se tratando de relação com homens), a protagonista tem alguns namoricos com alguns colegas de escola. O principal affair masculino de Léone é Jean-Claude. Às escondidas, os dois se encontram para namorar. Tudo é feito sem o conhecimento (e, principalmente, sem a concordância) de Mélie. Para Mélie, sua namorada é homossexual e não bissexual. Nem mesmo a personagem principal saberia se autodefinir claramente. Ela vive um momento de descobertas e de experimentações.

Exatamente quando Léone está quase aceitando fazer sexo com Jean-Claude, a vida da garota sofre uma reviravolta. O diário em que ela narra seus (vários) relacionamentos é roubado por Alain, amigo de Jean-Claude. Alain alega que Léone "humilha" sistematicamente Jean-Claude por preferir a companhia de Mélie ao do amigo. Na cabeça do ladrão de brochuras, é inconcebível uma garota bonita preferir a cama de uma colega do mesmo sexo à cama de um rapaz viril. É o preconceito da conservadora e machista sociedade francesa da década de 1950 se manifestando ardilosamente.

Quando o diário de Léone cai nas mãos de Alain, rapidamente os detalhes da vida da protagonista são revelados para a cidade inteira. O rapaz passa a ler os trechos mais picantes do caderno da protagonista em público. Assim, do dia para a noite, a homossexualidade de Léone vira assunto dos moradores locais. O choque é geral. Aos olhos dos habitantes do pequeno povoado francês, a adolescente torna-se uma figura abominável. De moça bonita e encantadora, ela se transforma em uma jovem depravada e ardilosa. Léa passa a ser a vilã da localidade, sendo alvo da ira e da chacota geral.

"O Diário Roubado" é uma boa novela. É possível ler este livro em uma única tarde (foi o que fiz no último sábado). Ele consegue prender a atenção do leitor desde o início. Tudo acontece muito rapidamente na primeira parte. Já nas páginas iniciais da narrativa, sabemos quem são os personagens envolvidos nesta história e a problemática que precisará ser resolvida pela protagonista.

O texto em primeira pessoa confere mais veracidade à novela. A obra é autobiográfica e foi inspirada em fatos reais vivenciados por Deforges em sua adolescência. A própria autora admitia isso. Quando jovem e morando em uma pequena cidade do interior da França, Régine teve seu diário roubado. Para seu desespero, nesta época, ela estava apaixonada por uma amiga. A fictícia Léone é, portanto, um alter ego da escritora.

O que chama mais atenção neste livro é, evidentemente, a ousadia da autora em introduzir uma grande quantidade de cenas de sexo homossexual na história. Léone e Mélie transam regularmente e cada ato sexual das adolescentes é descrito com detalhes picantes. A narradora não se cansa de comentar o que sua parceira faz na cama para dar-lhe prazer.

Não é à toa que Régine Deforges é até hoje considerada a maior representante da literatura erótica da França. Além de ter a coragem para detalhar cenas de sexo explícito, ela ainda acrescentou dois outros elementos até hoje polêmicos na literatura: relação sexual entre adolescentes e amor homossexual. A junção destes componentes é que transformou, no final da década de 1970, a história de Léone em uma novela tão explosiva.

Na época do seu lançamento, não foram poucas as pessoas do mercado editorial e livreiro que proibiram a venda do livro na França. Naqueles anos, obras literárias como "Cinquenta Tons de Cinza" (Intrínseca) e filmes como "O Azul é a Cor Mais Quente" (La Vie d'Adèle: 2013) não eram benquistos pelo público tradicional. O erotismo era visto essencialmente como algo despudorado e infame, desvinculado totalmente das manifestações artísticas populares.

"O Diário Roubado" é, em si, um bom drama. A narrativa é muito simples, porém bem escrita. A linguagem é coloquial e o leitor não encontrará grandes recursos literários utilizados pela autora. Deforges procura simplificar sua história ao máximo, delimitando os personagens em mocinhos e vilões. O maniqueísmo prevalece durante toda a novela e segue imutável do início ao fim. Não espere, portanto, grandes reviravoltas ou surpresas na trama.

O principal mérito literário deste livro é jogar luz aos preconceitos da sociedade conservadora do interior da França nos anos de 1950 (preconceitos estes ainda existentes nos dias de hoje em muitos lugares do mundo). Em uma cultura machista e patriarcal, a homossexualidade feminina era encarada, infelizmente, como um desvio de caráter. Repare na indignação da protagonista com a intransigência das pessoas de sua cidade em relação a sua vida particular.

Além disso, discutir o desabrochar da sexualidade adolescente e debater os dramas típicos desta fase da vida são sempre bons motes para a ficção. Lembremo-nos de "Quem É Você, Alasca?" (Intrínseca) de John Green, "O Ateneu" (Pinguim) de Raul Pompeia e "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor) de J. D. Salinger. Todos estes livros abordaram com brilhantismo algum tema juvenil.

Apesar da boa história, do belo panorama social e da contundente crítica de costumes, o elemento que torna "O Diário Roubado" único é a sua parte erótica. As várias cenas de sexo conferem um tempero especial à trama de Léone. Atire a primeira pedra quem não se diverte ao saber da intimidade alheia! Para a década de 1970, estas narrativas sexuais, em se tratando de literatura, foram ousadíssimas. Hoje, com a banalização do sexo, seja na televisão, no cinema, na Internet ou na literatura, os momentos a dois (ou seria, momentos a duas?) vividos por Léone e Mélie parecem brincadeiras de criança.

O ponto mais amargo do livro é seu desfecho. Fique tranquilo(a) que não vou contá-lo, apenas analisá-lo (não costumo divulgar os spoilers). O final é previsível e, o que é pior, muito condescendente com os preconceitos sociais em voga (algo sempre combatido por Deforges). A autora opta pelo caminho mais conservador. De certa forma, Léone acaba se curvando aos desejos da comunidade da sua cidade natal. Se esta solução parece bem realista, ao mesmo tempo, ela é frustrante. Minha sensação é que Régine Deforges acabou agradando o público conservador com este desfecho. Afinal, ela já havia causado tantas polêmicas durante a história. Ou Régine simplesmente narrou o que efetivamente aconteceu. Como uma obra autobiográfica, o destino de Léone não foi muito diferente do que aconteceu de verdade com a própria escritora.

"O Diário Roubado" (Le Cahier Volé: 1992) foi adaptado ao cinema e lançado nas salas de cinema da França em 1993. O longa-metragem foi dirigido e roteirizado por Christine Lipinska. Contudo, o roteiro do filme possui vários pontos distintos se comparado ao enredo literário. Por exemplo, a personagem principal da produção cinematográfica se chama Virginie (e não Léone). Além disso, a garota sonha em ser escritora (ponto inexistente no livro). Na tela, dois amigos e uma amiga de Virginie são apaixonados por ela. No diário que é roubado, a adolescente escreve suas fantasias sexuais que almeja ter com os três parceiros possíveis (na literatura, ela escreve sobre sua vida e sobre seus sentimentos, não sobre seus sonhos).

Estas são apenas algumas das diferenças entre o longa-metragem e o livro. Se fosse listá-las todas, faltariam páginas para apontá-las. Existe uma infinidade delas! Não se assuste, portanto, se você achar que está vendo histórias totalmente distintas. Praticamente a trama do filme é uma e a do livro é outra, com apenas alguns pontos que coincidem.

Agora que finalizei a novela "O Diário Roubado", posso iniciar a leitura de um romance de Régine Deforges. O próximo livro deste mês do Desafio Literário é "A Revolta das Freiras" (Best Seller). Este é o primeiro romance histórico produzido pela autora francesa, um tipo de gênero que ela abordaria muito ao longo de sua carreira. Vou começar a leitura de "A Revolta das Freiras" agora mesmo e, no sábado, eu retorno ao blog para comentá-lo. Não perca!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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