• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Policarpo Quaresma


Darico Nobar: Boa noite, pessoal de casa e do auditório! Está no ar mais um Talk Show Literário, o programa de entrevistas que coloca todo mês a literatura brasileira dentro da sua televisão. [A banda do programa toca a música de abertura da atração]. Hoje, nosso convidado é Policarpo Quaresma, o mais brasileiro de todos os brasileiros. [Plateia em delírio aplaude e grita o nome do entrevistado enquanto ele se dirige ao palco]. Olá, Policarpo!

Policarpo Quaresma: Boa noite, Darico. Boa noite, amado público do meu Brasil varonil!

Plateia [em coro]: Booooooooooooooooa noiiiiiiiiiiiiiiiiite!

Darico Nobar: Que loucura essa receptividade do auditório, hein? Você parece ser muito querido pelos brasileiros. É sempre assim que o povo o saúda?

Policarpo Quaresma: É sim. Não há nação mais calorosa, receptiva e carinhosa do que a brasileira. As pessoas dos quatro cantos deste país sabem receber e valorizar aqueles que amam e idolatram sua pátria. Prova maior disso foi o sucesso da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Em toda a história, nunca houve competições mais alegres e festivas do que essas realizadas em nosso território.

Darico Nobar: Ainda bem que você tocou nesse assunto. Esse é um tema delicado que gostaria de discutir. O surgimento de evidências de desvios de verba pública, de má gestão e de desperdício de dinheiro para a promoção desses grandes eventos esportivos não o incomodam? Há quem diga que a atual recessão econômica que o país atravessa é, em parte, reflexo dos excessos causados para a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil. Você concorda com essa visão?

Policarpo Quaresma: Os estrangeiros, enfim, puderam ver de perto as intermináveis qualidades do povo brasileiro e os encantos do nosso país. Você percebeu que nenhum gringo foi embora falando mal da nossa terra e da nossa gente?! Na verdade, eles voltaram para suas casas morrendo de inveja do nosso país e dizendo maravilhas do Brasil e dos brasileiros. Essas competições permitiram ao mundo descobrir a real face desta terra abençoada por Deus.

Darico Nobar: E a corrupção?! Você não acha que o dinheiro que foi gasto nesses eventos foi mal empregado? Enquanto isso, o povo morre por falta de hospitais e as crianças continuam frequentando uma das piores escolas do mundo...

Policarpo Quaresma: Meu amigo Darico, não existe corrupção no Brasil. [A plateia solta uma sonora risada no auditório. O apresentador acompanha o público em sua reação e dá uma gargalhada estridente].

Policarpo Quaresma: É verdade! Acreditem em mim... Por vários séculos, jamais tivemos qualquer governante ou homem público condenado à cadeia em nosso país. Isso demonstra o caráter honesto dos nossos representantes e, por que não, de todos os brasileiros. Agora, viaje para os Estados Unidos, para a Dinamarca, para a Austrália e para a Alemanha... Você encontrará um monte de agentes públicos cumprindo pena. Por quê? Porque lá eles roubam o dinheiro do povo e descumprem as leis. Acho isso repugnante! Não sei como se consegue viver em um lugar com essas características...

Darico Nobar: Contudo, nos últimos anos, muitos empresários, políticos e funcionários públicos brasileiros passaram a frequentar os bancos dos réus e as celas dos presídios. Se não houvesse corrupção, por que eles teriam sido condenados?

Policarpo Quaresma: Essas condenações são questionáveis. Sou totalmente contra a ação dos juízes de Curitiba. Você reparou que somente o tribunal da capital paranaense enxerga corrupção no Brasil! Será que o resto do país está errado e somente esses juízes estão certos? Para completar, me parece muito estranho direcionar as investigações a uma única agremiação partidária. E justamente a perseguição recai sobre o partido e os políticos que mais trabalharam em prol dos brasileiros nos últimos anos. Para mim, os juízes de Curitiba estão completamente equivocados e mancham a imagem do nosso respeitado país.

Darico Nobar: Policarpo Quaresma, deixa-me ver se entendi o seu ponto de vista. Você está defendendo os petistas investigados e presos?

Policarpo Quaresma: Não estou defendendo ninguém porque não sou advogado de defesa. Só estou apresentando o ponto de vista de quem analisa a situação com isenção. Na última década e meia, o Brasil cresceu e enriqueceu como nunca. A pobreza desapareceu e nossa população teve uma melhora considerável em seu padrão de vida. Os méritos desse progresso são exclusivamente do ex-presidente Lula e de seus correligionários. E aí o que aconteceu com eles? Repentinamente, são acusados de corrupção por um juizeco com mania de grandeza. A intenção era jogar a população contra seus benfeitores. Não posso ficar calado diante de tanta injustiça.

Darico Nobar: Você foi contra ou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff?

Policarpo Quaresma: Fui e sou totalmente contrário à destituição de uma pessoa eleita democraticamente pelo povo e que nunca cometeu qualquer ato criminoso. O impeachment foi um golpe político perpetrado por um grupo de indivíduos que jamais será eleito pelo voto direto. A saída da senhora Rousseff da presidência foi um atentado à liberdade do nosso país. Senti-me fuzilado quando ela deixou o poder.

Darico Nobar: Por falar em fuzilamento, muita gente achou que você já estivesse morto. Entretanto, você está aí vivinho. O que aconteceu de fato?

Policarpo Quaresma: O problema é que no romance do Lima Barreto, eu tenho um desfecho triste. Sou preso e fico esquecido na cadeia por muitos anos. Foi mesmo um momento difícil que tive de superar. Quando minha história foi adaptada por Alcione Araújo para o cinema, ele mudou o final, tornando-o ainda mais trágico. Foi ideia dele a cena do fuzilamento. Essa versão também foi propagada por algumas adaptações teatrais. Infelizmente, as pessoas passaram a acreditar que eu tivesse morrido. Já dizia Joseph Goebbels: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade".

Darico Nobar: Esta situação o incomoda?

Policarpo Quaresma: A questão de acharem que eu morri não me incomoda nem um pouco. O que me deixa verdadeiramente furioso é quando fazem insinuações sobre minha relação com a Olga.

Darico Nobar: Afinal, você teve ou não teve um caso de amor com sua afilhada?

Policarpo Quaresma: É claro que não! Basta ler o romance do Lima Barreto para se descobrir isso. A Olga é uma mulher casada. Mal casada é verdade, mas uma esposa direita e honesta. Além disso, eu sempre a vi como uma filha e aposto que ela sempre me enxergou como um pai. Esses boatos começaram depois do filme do Paulo Thiago. Novamente, a culpa é do Alcione Araújo, que adorava desvirtuar minha vida e macular minha reputação quando produzia seus roteiros cinematográficos.

Darico Nobar: É verdade que você é virgem até hoje? Há quem o aponte como homossexual. O que você tem a dizer sobre essas duas alegações que o povo faz?

Policarpo Quaresma: Meu grande e único amor é o Brasil. Sou um homem apaixonado pela minha nação. Não a troco por nada e ninguém. Por isso, nunca tive namorada, muito menos namorado. Como sou fiel ao meu país, fica difícil ter olhos para outras coisas e pessoas. Se eu ligasse para o que o povo diz nas ruas, não seria um homem convicto das minhas crenças e dos meus valores. Em relação ao fato...

Darico Nobar: Que barulho é este?! [Um apito dispara atrapalhando a conversa].

Policarpo Quaresma: É a minha tornozeleira eletrônica apitando. Infelizmente, preciso voltar para minha casa o mais rápido possível.

Darico Nobar: Meu Deus, você está usando uma tornozeleira eletrônica! Por quê?

Policarpo Quaresma: É uma longa história... Há alguns anos, resolvi ajudar um prefeito na reforma educacional que a cidade dele precisava realizar. Assim, trabalhei algum tempo na Secretaria de Educação do município. No período de reeleição, surgiram denúncias infundadas de corrupção e meu nome foi citado por acaso. Não sei direito a história toda. Só sei que me enviaram outra vez para a cadeia. Recentemente, fui solto, mas agora preciso usar este aparelhinho. Quando ele apita, eu preciso voltar para casa em meia hora.

Darico Nobar: Que situação chata, Policarpo.

Policarpo Quaresma: Com o tempo a gente se acostuma.

Darico Nobar: Já que temos mais alguns minutos de Talk Show Literário e você precisa antecipar sua saída, por que você não escolhe uma música para nossa banda tocar? Assim, a plateia poderá se entreter com algo nesses momentos finais de programa sem entrevista.

Policarpo Quaresma: Ótima ideia! Gostaria de ouvir o hino nacional.

Darico Nobar: O hino brasileiro?!

Policarpo Quaresma: Sim. Algum problema?

Darico Nobar: A princípio nenhum. Banda, vocês sabem tocar o hino? [Os integrantes do quinteto musical se entreolham envergonhados. Após uma rápida discussão interna, eles fazem com a cabeça um gesto negativo]. Desculpe-nos, Policarpo. Nossa banda só conhece músicas comerciais. Ninguém sabe tocar nem cantar o hino.

Policarpo Quaresma: Tudo bem. Já estou acostumado com isso. [O barulho vindo da tornozeleira eletrônica fica mais alto]. Eu preciso ir mesmo... Obrigado pelo convite e boa noite! Tchau, pessoal.

Plateia [em coro]: Tchaaaaaaaaaaau!

Darico Nobar: Boa noite, Policarpo. Bom regresso a sua casa. Galera, este foi mais um Talk Show Literário. Espero vocês no mês que vem. Até lá!

[Para encerrar o programa, a banda toca instrumentalmente "Bohemian Rhapsody", uma das canções mais famosas do Queen].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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