• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Haruki Murakami


Nesse mês de julho, o Desafio Literário esteve concentrado no trabalho de Haruki Murakami, o principal escritor japonês da atualidade e um dos mais premiados autores contemporâneos. O sucesso deste artista das letras, hoje em dia, é global. Nome recorrente entre os favoritos ao Nobel de Literatura nos últimos anos, Murakami acabou preterido nas duas últimas premiações da academia sueca. Bob Dylan, em 2016, e Svetlana Alexijevich, em 2015, acabaram superando-o. Contudo, acredito que não demore muito até que esse carismático escritor seja condecorado com a honraria máxima da literatura mundial. Quem sabe não tenhamos novidades neste sentido já em 2017. Não seria surpresa nenhuma se o japonês recebesse o convite para uma viagem a Estocolmo ainda neste ano.

Para construir o perfil literário de Haruki Murakami, foram lidas, nas últimas quatro semanas, seis de suas histórias mais famosas. Como uma delas era uma trilogia, os livros lidos totalizaram oito. São eles: "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), de 1979, "Pinball, 1973" (Alfaguara), de 1980, "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982, "Norwegian Wood" (Alfaguara), de 1987, "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), de 1999, "1Q84 - Livro 1" (Alfaguara), de 2009, "1Q84 - Livro 2" (Alfaguara), de 2010, e "1Q84 - Livro 3" (Alfaguara), de 2010. Enquanto as duas primeiras obras são novelas, as demais são romances.

O que acho mais interessante na carreira de Haruki Murakami é que ele consegue ser, ao mesmo tempo, popular e cult. Traduzido para mais de 50 idiomas, o japonês é daquele tipo de autor que chega ao patamar dos best-sellers sem precisar abrir mão da qualidade artística do seu trabalho. Na verdade, foi a excelência de sua ficção que o tornou tão famoso mundialmente e que o fez tão querido pelo público leitor. Assim, ele consegue aliar expressivas vendas nas livrarias do mundo inteiro com uma coleção invejável de prêmios internacionais. No cenário japonês, o mais relevante foi o Yomiuri de 1995. Em escala internacional, o principal foi o Prêmio Franz Kafka de 2006.

O público japonês ama incondicionalmente Haruki Murakami. O escritor se transformou, ao longo dos anos, em um pop star nipônico, sendo tão popular quanto os mais celebrados cantores, atores, apresentadores de televisão e esportistas do país oriental. Os lançamentos dos títulos do autor costumam provocar grande frenesi nas livrarias do Japão, com grandes filas e cenas de fanatismo dos leitores mais empolgados. No Brasil, seus livros já ultrapassaram a marca das 300 mil unidades comercializadas. Na Europa e nos Estados Unidos, as últimas publicações de Murakami provocaram intensa correria às lojas. Um visitante desatento poderia achar que os lançamentos em questão fizessem parte das mais famosas coleções de J. R. R. Tolkien ou de J. K. Rowling, best-sellers juvenis.

Além disso, as obras do japonês possuem características bem peculiares. Seu estilo é inconfundível e sua temática é universal. As narrativas de Murakami incorporam angústias típicas da sociedade japonesa da segunda metade do século XX sem se esquecer de incluir elementos da cultura pop global. Tendo morado muitos anos nos Estados Unidos e sendo fortemente influenciado pelos escritores ocidentais, este autor é um artista diferenciado dentro da moderna ficção asiática.

E, afinal, quais são essas características que fazem da literatura de Haruki Murakami algo único e tão admirado por leitores e críticos? Para responder a essa intrigante questão, listei os dez pontos que mais chamaram minha atenção durante as análises dos oito livros do escritor japonês que compõem esta edição do Desafio Literário. Esses elementos estão a seguir:

1) A linguagem utilizada pelo autor é muito simples. Ele usa frases e orações curtas e com pouca variedade lexical. Trata-se de uma literatura extremamente objetiva e muito clara semanticamente. Esqueça também a multiplicidade de adjetivos e de advérbios. Se você achar uma construção sintática complexa no meio do texto, saiba que você deve ter pulado, inadvertidamente, alguma linha da página. Por isso, volte na leitura e a faça corretamente. Esta característica, contudo, é mais acentuada nas novelas do que nos romances e nos trabalhos iniciais do escritor.

A maneira encontrada por Murakami para desenvolver textos enxutos e diretos é um tanto exótica. Ele primeiro escreve em inglês (língua em que possui intimidade, mas não grande repertório linguístico) para só depois "traduzir" para o idioma japonês (sua língua materna). Assim, ele acredita conseguir extrair "a essência das palavras e das ideias", sem correr o risco de ser muito descritivo ou redundante. Ou seja, seus livros dão ênfase à trama e aos sentimentos das personagens e não à riqueza vocabular. Curiosamente, esse recurso estilístico não torna as narrativas de Murakami pobres ou limitadas. Pelo contrário. A leitura é gostosa e possui uma beleza refinada. Com um conjunto de palavras simples, o escritor prova que é possível construir histórias emocionantes, bonitas, complexas e muito interessantes.

2) As personagens de Haruki Murakami são tradicionalmente pessoas solitárias e melancólicas. Elas não têm quase nenhum vínculo social, familiar ou de amizade. É como se ficassem fechadas em seu mundinho interior, interagindo minimamente com o ambiente externo e com os demais indivíduos. Geralmente, são personagens órfãs ou desprezadas pelos pais na infância. Sem sólidas bases no lar paterno/materno, esses indivíduos se transformam em "lobos solitários" ainda na adolescência, estendendo a existência isolada e triste para a fase adulta.

Desde muito jovens, eles saem de casa por vontade própria, por imposição da família ou por necessidade da vida. São geralmente migrantes que chegam à Tóquio em busca de um futuro melhor. A rotina na metrópole é baseada no isolamento e nos relacionamentos pobres com pouquíssimos amigos. Suas rotinas são banais e recheadas de cenas simples. Não me recordo agora de nenhum protagonista que tenha vindo de uma família normal/tradicional ou que levasse uma vida feliz, convencional e emocionante na capital japonesa.

3) Os livros de Murakami são escritos em primeira pessoa. Das obras analisadas neste Desafio Literário, apenas "1Q84" foge desse padrão (a saga foi escrita em terceira pessoa). Os narradores são tradicionalmente os protagonistas. Apenas em "Minha Querida Sputnik", a personagem principal não é quem conta a história (ela é amiga do narrador, que assume um papel secundário na trama).

Os protagonistas-narradores de Murakami são muito parecidos entre si e se confundem muitas vezes. A impressão que tenho é que todos são exatamente iguais, sendo no final das contas a mesma pessoa. De maneira geral, eles carregam fortes traços autobiográficos do seu autor. Ou seja, o narrador típico das obras de Murakami é o próprio escritor japonês em algum momento de sua vida ou uma espécie de alter ego seu.

As personagens principais são homens jovens e solitários. Eles amam a literatura e a música e trabalham com algo relacionado ao universo das Letras e/ou da Educação. São, portanto, professores, tradutores, publicitários e escritores. Eles não têm muitos amigos e suas rotinas são monótonas e banais. Sem namoradas ou esposas, os protagonistas são adeptos do sexo casual. Estes personagens masculinos são muitas vezes apaixonados por moças que os encaram apenas como bons amigos. Não tendo o amor correspondido, iniciam intrincados triângulos amorosos. As personagens femininas principais, muitas vezes, são frígidas, propensas ao homossexualismo, estão presas a relacionamentos do passado ou sofrem com o conservadorismo religioso de suas famílias. Tudo isso as distanciam do narrador, que sobre com seu amor platônico por elas.

4) Por falar em amor platônico e nos desencontros afetivos, é preciso abordar a questão do erotismo, uma importante característica da literatura deste autor. As históricas de Haruki Murakami possuem muitas cenas de sexo, reflexões sobre a sexualidade de suas personagens e discussões sobre os relacionamentos. Todos os seus romances e suas novelas têm protagonistas que falam, pensam, querem, sofrem, fogem ou fazem sexo sem parar. Há todo tipo de prática sexual nesses livros: homossexualismo, masturbação, sexo oral, sexo casual, swing, ménage, traição/infidelidade conjugal, orgia, sexo com pessoas mais velhas, etc. Para completar, há também algumas doenças e violências sexuais: estupros, vício em sexo, frigidez, relacionamentos amorosos com menores de idade, etc. A frigidez feminina é a mais comum dessas doenças psíquicas e aparece com frequência nas histórias de Murakami.

Ao mesmo tempo, há uma diferença gigantesca entre a prática sexual e o amor. As vontades carnais dos indivíduos são distintas dos sentimentos e das emoções afetivas. Ou seja, amor e sexo não se misturam. Muitos casais que se amam ficam sem transar entre si. Eles preferem outras companhias ao do principal parceiro afetivo. Enquanto os amantes permanecem castos (entre si), eles procuram visitar a cama de outras pessoas para "aplacar os instintos naturais do corpo". Trata-se de um grande paradoxo. A fidelidade conjugal não passa pela monogamia e sim pelo respeito ao corpo da pessoa amada. É muito curiosa essa relação entre o amor e o sexo. Por isso, os triângulos amorosos são uma constante nas tramas de Murakami e formam uma variada teia de situações inusitadas.

5) Outro aspecto marcante de Haruki Murakami e presente em todas as suas obras é a intensa citação a elementos da cultura pop. Neste caso, a música e a literatura (duas grandes paixões do escritor) destacam-se. Além das referências a canções e livros, também há uma infinidade de menções a filmes, programas de televisão, games, esportes, culinária e hábitos de lazer e de entretenimento. Muitos desses elementos culturais marcaram tanto os japoneses quanto as sociedades ocidentais na segunda metade do século XX.

Ler Murakami é, portanto, mergulhar na riqueza da cultura popular contemporânea. Não é coincidência que alguns títulos de seus livros fazem referência direta a elementos pop: "Pinball" remete a um game eletrônico japonês que ganhou o mundo, "Norwegian Wood" é uma música dos Beatles, "Sputnik" é a nave espacial soviética da década de 1960 e "1Q84" faz alusão ao livro "1984", clássico literário de George Orwell.

6) As neuroses, os medos e os desequilíbrios de ordem psicológica das personagens são uma das principais características da literatura de Haruki Murakami. As psicopatias descritas nos livros são recorrentes e muito parecidas. A impressão que temos é que não há ninguém efetivamente são nessas obras. Todos os indivíduos possuem níveis elevados e variados de complexos emocionais. Suas relações interpessoais são precárias e um tanto doentias. O mutismo, a depressão, a solidão, a melancolia e a indecisão das personagens acarretam sérias dificuldades para suas vidas. As relações sentimentais e sexuais são fragmentadas, frustrantes e perecíveis. O suicídio é, muitas vezes, o caminho encontrado para dar fim à amargura e ao sofrimento diário. A vida não tem sentido para a maioria das pessoas. De maneira geral, o trabalho literário de Murakami apresenta uma epidemia de suicídios e de indivíduos depressivos. Grande parte das personagens se mata ou quer se matar, não achando motivação para continuar vivendo.

7) O bom humor de Haruki Murakai aparece com frequência ao longo de suas tramas. Às vezes, o tom bem-humorado é sutil e inteligente. Em outros momentos, ele é debochado e um tanto escrachado, com cenas de total nonsense. Ou seja, o leitor pode ir do sorriso sutil à risada gostosa.

8) Apesar dos elementos sombrios (solidão, monotonia, amargura, incompreensão com o mundo, relacionamentos frágeis e superficiais, famílias desfiguradas, suicídios, depressão, amores frustrados e sexo banalizado), as tramas de Murakami não têm um ambiente opressor e um clima pesado, mórbido. Pelo contrário. Suas narrativas, por mais paradoxal que possa parecer, são leves e encantadoras. A explicação para essa característica é o humor perspicaz de Murakami, a enxurrada de elementos da cultura pop inseridos na história e a ótima construção das personagens, normalmente sensíveis e carismáticas. O autor japonês tem a competência de falar com beleza e lirismo dos temas mais densos da alma humana.

9) Muitas das histórias deste autor possuem um caráter desconexo ou têm múltiplos focos narrativos. Em alguns casos, o protagonista conta a história à medida que vai se lembrando das emoções vividas, não respeitando a ordem cronológica dos fatos. Em outras ocasiões, conhecemos a trama sob o ponto de vista de várias personagens diferentes, que relatam simultaneamente os acontecimentos. Assim, cabe ao leitor a responsabilidade para compor mentalmente a narrativa.

10) As novelas e os romances de Murakami possuem uma pegada reflexiva, um clima um tanto onírica e forte componentes fantásticos. É nas pequenas e banais cenas da vida diária que as personagens refletem sobre a razão de suas existências e exprimem suas angústias mais íntimas. O medo da morte, a indefinição quanto ao futuro, a busca pelo amor verdadeiro, a dificuldade de relacionamento, a frieza emocional da sociedade contemporânea, a dificuldade da transição da adolescência para a vida adulta, a busca pela aptidão profissional e o saudosismo em relação a um passado que não voltará nunca mais são alguns dos temas discutidos. Alguns desfechos são do tipo interpretativo. Cabe ao leitor juntar as peças do quebra-cabeça narrativo e montar sua própria conclusão dos romances. As reflexões a que os leitores são levados são interessantes e ricas. A compreensão da realidade das personagens passa longe da racionalidade, da objetividade e do pragmatismo da ciência moderna. O transcendentalismo é parte essencial para a leitura do mundo contemporâneo.

Por falar nisso, há também muitos elementos fantasiosos no meio das histórias. A magia, o sobrenatural, o místico e o espiritual sobressaem, avançando para o primeiro plano das tramas. É comum surgirem carneiros mágicos, pessoas com capacidade mediúnica, passagens para outros planos cósmicos, criaturas sobrenaturais, duas luas no céu, etc.

Essas são as dez características mais marcantes da literatura de Murakami.

Nascido em Kyoto, em 1949, e graduado em Artes Teatrais, o jovem Haruki Murakami foi proprietário de um bar de jazz na capital japonesa entre 1974 e 1982. Paralelamente à iniciativa empreendedora, ele traduzia para a língua japonesa obras clássicas do ocidente. Fluente em inglês desde a infância, Haruki sempre foi um apaixonado pela literatura, tendo o hábito de ler vorazmente os originais dos principais livros europeus e norte-americanos. Outra de suas paixões é a música. Não é à toa que ele quis abrir um negócio onde pudesse ouvir boas canções durante o expediente.

Somente após completar trinta anos de idade, Murakami começou a trabalhar como autor ficcional. Curiosamente, ele decidiu escrever após assistir a uma partida de beisebol (ele é aficionado por esportes). No instante em que o jogador rebateu a bola no campo, Haruki, que estava na arquibancada, pensou: "Vou criar uma história minha". Foi o que ele fez. Usando as madrugadas, único tempo livre disponível, e uma mesa da cozinha de sua casa, ele produziu duas novelas: "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973". Por isso, o autor chama até hoje esses seus primeiros trabalhos de maneira pejorativa de "novelas de mesa de cozinha"

"Ouça a Canção do Vento" foi escrita em 1978. Uma vez terminada a trama, Murakami enviou os originais da sua primeira ficção para um concurso literário da revista Gunzo dedicado a jovens escritores. Sua certeza de êxito era tanta que o autor não ficou com nenhuma cópia da história. A novela foi premiada e publicada naquele mesmo ano.

O enredo de "Ouça a Canção do Vento" é simples e monótono. A novela se passa no verão de 1970. Quem narra a história em primeira pessoa é um estudante de biologia de vinte anos de idade que não tem seu nome revelado. Aproveitando o recesso universitário, ele retorna para sua pequena cidade natal onde ficará por dezoito dias. Enquanto está de férias, o rapaz passa o dia fumando e bebendo na companhia do seu amigo, Rato. Ambos são fregueses assíduos do bar do J, um chinês que imigrou para o Japão há muitos anos.

Esse livro é sobre as lembranças amorosas do protagonista e sua rotina banal na cidade natal. Quando o personagem principal não está no bar bebendo e fumando, ele fica parado em algum lugar contemplando a paisagem ou pensando em suas antigas namoradas.

A boa receptividade da crítica fez com que o jovem Murakami, então com 30 anos de idade, escrevesse a continuação dessa história. Em 1980, era publicado "Pinball, 1973". Essa nova novela se passa três anos após o término de "Ouça a Canção Vento". O narrador é o mesmo e continuamos sem saber seu nome. Uma vez concluída a faculdade, o protagonista permanece morando em Tóquio, mas não quer mais saber da biologia. Ele é agora sócio de um escritório de traduções. A empresa é especializada em traduzir para o idioma japonês obras literárias clássicas.

A vida do rapaz segue monótona, solitária e entediante. A novidade é o surgimento de duas jovens gêmeas. Elas passam a viver com a personagem principal, dando vazão ao antigo desejo sexual masculino de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Enquanto estabelece um relacionamento pouco convencional com as moças, o narrador começa a procurar pela cidade uma antiga máquina de Pinball.

As primeiras novelas publicadas encheram seu autor de confiança. Ele percebeu que queria mesmo era exercer essa atividade profissionalmente. Em 1982, Haruki Murakami vende o bar de Jazz que administrava em Tóquio e concentra sua atenção na literatura comercial. Virou, assim, um escritor profissional. Os leitores brasileiros só tiveram acesso às narrativas de estreia do mais popular escritor japonês da atualidade no finalzinho de 2016. A Alfaguara, editora com os direitos de publicação das obras de Murakami no país, lançou um livro que contém as duas novelas.

Apesar da cada vez maior procura dos leitores do mundo inteiro pelas obras iniciais da carreira de Murakami, o escritor nunca viu com bons olhos essas suas novelas de estreia. Tanto "Ouça a Canção do Vento" quanto "Pinball, 1973" ficaram muitos anos sem novas edições (inclusive no Japão) por imposição de Murakami. O japonês considera sua primeira obra literária efetiva o romance "Caçando Carneiros", de 1982. Apesar de interessantes, quando comparadas aos demais livros de Murakami, as "novelas de mesa de cozinha" se mostram mais simples e um tanto banais. Isso fica evidente quando lemos "Caçando Carneiro".

O primeiro romance de Murakami é também seu primeiro sucesso comercial. O êxito do livro o transformou em um autor conhecido e muito querido no Japão. O sucesso de "Caçando Carneiro" também alcançou o exterior. O livro teve ótima aceitação nas livrarias dos Estados Unidos e da Europa. Haruki Murakami se transformou, então, em um best-seller internacional.

"Caçando Carneiros" é uma ótima criação. Além de muito divertido, o livro possui um mistério de estilo nonsense que prende o leitor nas páginas. Para completar, a história tem muito mais ação do que as publicações antecessoras.

Essa obra continua a história narrada nas duas primeiras novelas. Em "Caçando Carneiros", o narrador retorna seus relatos no ano de 1978. Agora, o protagonista é sócio de uma agência de publicidade. Sua vida pacata e sua rotina banal sofrem uma grande reviravolta quando ele se apaixona por uma modelo que também trabalha como prostituta. Além da nova paixão, a personagem principal recebe uma missão peculiar de um homem misterioso que visita seu escritório. O visitante quer que ele encontre um carneiro mágico que havia sido retratado em um dos anúncios de sua agência. Aí, a história ganha contornos fantásticos e engraçadíssimos. Tudo é possível nessa intrigante trama.

O livro "Dance Dance Dance" (Alfaguara), publicado em 1988, coloca ponto final à saga do introspectivo personagem sem nome, descrevendo sua procura pela namorada de orelhas maravilhosas que (cuidado: aí vai um pequeno spoiler!) desaparece misteriosamente no final de "Caçando Carneiros".

A década de 1980 foi muito produtiva para Haruki Murakami. Depois de "Caçando Carneiro", o japonês publicou, em 1987, "Norwegian Wood". Este romance é considerado sua obra-prima. O livro vendeu mais de 12 milhões de unidades no mundo todo, sendo publicado em mais de quarenta países. Além de famoso e best-seller, Murakami passou a ser visto como um dos principais escritores contemporâneos, com uma obra admirada e desde já clássica. "Norwegian Wood" se transformou rapidamente em um ícone cultural de sua geração.

Com fortes traços autobiográficos, "Norwegian Wood" trata com lirismo as angústias da juventude. Usando o nome de uma canção dos Beatles, o livro tem como temática principal o amor incompleto e fragmentado, típico dos tempos modernos. Se passando essencialmente em Tóquio no ano de 1968, a trama é narrada em primeira pessoa por Toru Watanabe, um universitário de 19 anos. Ele apresenta o triângulo amoroso entre ele, Naoko, uma moça frígida por quem é apaixonado platonicamente, e Midori Kobayashi, uma colega de universidade lasciva.

Dos livros que analisei de Murakami, esse é o meu favorito. Sem sombra de dúvida, "Norwegian Wood" é também uma das melhores obras ficcionais que já li em minha vida. Não me surpreenderei se ele se tornar em um futuro próximo um dos clássicos do século XX. Nesse romance, encontramos um autor em sua plenitude artística e com total domínio do trabalho de produzir uma narrativa sensível, profunda e inquietante.

A fama internacional fez Haruki Murakami receber muitos convites de trabalho. Assim, o escritor optou por morar durante a primeira metade da década de 1990 nos Estados Unidos. Sua volta ao Japão ocorreu em 1995. Desde então, ele mora na região metropolitana de Tóquio.

"Minha Querida Sputnik" é o primeiro romance dessa nova etapa de sua vida. Publicado em 1999, o romance é o mais enxuto do japonês e também o mais filosófico, gerando intensa reflexão por parte do leitor. Misturando espiritualidade e intrincados dramas amorosos, Murakami produziu uma narrativa sensível e emocionante. Ao mesmo tempo, é a trama mais triste e amarga de sua carreira. Em meio a um Japão moderno, superpovoado e tecnológico, os indivíduos continuam sofrendo por amor, sem conseguirem canalizar suas emoções de maneira positiva.

A história de "Minha Querida Sputnik" é narrada em primeira pessoa por K. O rapaz é um jovem professor de uma escola primária de Tóquio. Ele é apaixonado por Sumire, uma moça que sonha em ser escritora, mas que vê K apenas como um bom amigo. O problema de Sumire é que ela nunca se apaixonou e não sente atração por ninguém, se mantendo virgem aos 22 anos. Isso até ela se apaixonar por Miu, uma mulher casada (e com dois filhos) e quase duas décadas mais velha. A paixão da jovem é avassaladora e altera seus hábitos e suas crenças sobre a vida. Para sua tristeza, esse amor não é correspondido por Miu. "Minha Querida Sputnik" é o apelido carinhoso dado por Miu a Sumire.

Mais recentemente, entre 2009 e 2010, Haruki Murakami publicou "1Q84", sua ambiciosa trilogia. Inspirado no livro "1984" (Companhia das Letras), clássico de George Orwell, a obra japonesa apresenta uma trama fantástica que se passa em um universo paralelo. Os três livros de "1Q84" ultrapassaram a marca de oito milhões de unidades vendidas globalmente. No Japão, sua primeira edição se esgotou no primeiro dia. Ao final do primeiro mês, os leitores japoneses já tinham adquirido um milhão de cópias, um recorde no mercado editorial local. Nos Estados Unidos, as livrarias tiveram que abrir à meia-noite no dia de lançamento da obra para atender à grande demanda de clientes.

O enredo de "1Q84" se passa no Japão durante o ano de 1984. Nos capítulos ímpares, conhecemos a vida de Aomame, uma jovem assassina que trabalha como instrutora de artes marciais em uma academia de Tóquio. Nos capítulos pares, lemos sobre Tengo Kawana, um professor de matemática que sonha em ser romancista. Ambos levam vidas solitárias e monótonas na capital japonesa. As tramas se entrelaçam quanto Aomame e Tengo são misteriosamente levados para um mundo paralelo. Lá, eles precisam escapar das ameaças dos inimigos em comum. Além disso, eles tentam se encontra para viver juntos depois de anos de distanciamento.

Os três livros da série são muito intrigantes. Vale notar que Murakami também tem a capacidade de produzir uma obra mais robusta e longa. Se até então o escritor japonês havia produzido novelas e romances com enredos simples, pessoais e de pouca densidade narrativa, "1Q84" inverte essa característica. A história é muito complexa, recheada de personagens inusitadas, acontecimentos fantásticos e ações típicas dos mais movimentados romances policiais modernos.

De forma geral, "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" são as histórias mais melancólicas e introspectivas do autor. "Caçando Carneiro", por sua vez, é o livro mais engraçado e escrachado de Murakami, com uma trama totalmente amalucada. "Norwegian Wood" é a mais erótica e densa. "Minha Querida Sputnik", apesar de ser a mais breve, também é a mais reflexiva e com mais elementos filosóficos. E "1Q84", por fim, é a mais longa (distribuída ao longo de três livros grossos) e a mais eletrizante, com um enredo com muita ação e suspense.

A escolha do nome de Haruki Murakami para o Desafio Literário de 2017 foi acertadíssima. Conhecer seu trabalho é se inteirar do que há de melhor na literatura contemporânea. O principal autor japonês da atualidade é um artista rico e universal, com a incrível capacidade de criar tramas emocionantes, sensíveis, peculiares e de extrema beleza.

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#HarukiMurakami #AnáliseLiterária

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento