• Ricardo Bonacorci

Livros: O Tigre na Sombra - O mais recente romance de Lya Luft


"O Tigre na Sombra" (Record) é o último romance lançado por Lya Luft, a escritora analisada no Desafio Literário de outubro. Publicada em 2013, essa obra representou o retorno da autora gaúcha aos romances depois de 13 anos. Nesse período, Luft só escreveu ensaios, crônicas, livros infantis e uma coletânea de contos. O romance anterior de Luft tinha sido "O Ponto Cego" (Record), no longínquo ano de 1999.

"O Tigre na Sombra" mantém as principais características estilísticas de Lya Luft. Temos aqui: os dramas femininos, os conflitos conjugais, as intrigas familiares, a inocência da infância, a magia do sobrenatural, a imaginação fértil das crianças e os desafios típicos do envelhecimento. Esse conjunto temático vem embalado em uma trama psicológica profunda e intensa. Misturando realidade com fantasia, prosa com poesia e mistério com cenas banais do cotidiano, Luft apresenta mais uma vez um excelente texto. Apesar das eventuais escorregadas melodramáticas, temos uma história muito comovente.

Narrado em primeira pessoa por Dolores, chamada de Dôda pelos amigos e pelos familiares, esse romance apresenta a trajetória completa da protagonista-narradora da infância à velhice. Cada capítulo de "O Tigre na Sombra" foca um momento distinto da vida da personagem principal: a infância (Capítulo 1 - Espelhos que observam), a adolescência (Capítulo 2 - A menina de pernas curtas), a fase adulta (Capítulo 3 - Amores perturbados) e a velhice (Capítulo 4 - O tigre espera).

Os tempos de criança não foram fáceis para Dolores. Filha caçula de uma mãe insensível, egoísta e pouco amorosa, a menina sofreu com a indiferença e as críticas maternas. Para agravar o quadro de baixa autoestima da garota, ela ainda tinha um defeito em uma das pernas, que dificultava seu caminhar e provocava reações preconceituosas das outras pessoas. Apesar do apoio incondicional da irmã mais velha, Dália, dos ensinamentos do avô, um ex-marujo, do carinho da avó, chamada de Vovinha, e do pai bondoso, mas pouco atuante e propenso aos caprichos da mulher, Dôda cresceu fechada em seu mundo interior.

Introspectiva, a menina criou um mundo imaginário só seu. Nele, ela podia ser livre para exercer plenamente seus sonhos infantis. Simbolizando esse aspecto imaginativo da infância, Dôda tinha como animalzinho de estimação um filhote de tigre de olhos azuis, criado ficticiamente no quintal de casa. E sua melhor amiga era uma garota que aparecia no reflexo do espelho. Com o mesmo nome e com a mesma aparência da menina real, a amiga imaginária tinha uma personalidade diferente da verdadeira Dôda. A Dolores do espelho era geniosa e um tanto maldosa. Porém, isso não impediu a amizade entre as duas. Para brincarem, Dôda (a de carne e osso) e Dolores (a amiga imaginária) se encontravam ora no mundo real ora dentro do espelho.

Entre traumas, frustrações, descobertas e conquistas, Dôda cresceu, amadureceu e envelheceu. Pouco a pouco, a menina sonhadora, introspectiva, insegura e pouco confortável com o mundo real foi se transformando na profissional competente, na esposa amorosa, na mãe zelosa e na mulher habituada à realidade. Cada uma das fases da personagem principal é exposta ao leitor de uma maneira poética pela narrativa da própria Dôda. Sempre que a vida caminha para deixar a protagonista realizada, algo trágico acaba acontecendo, impedindo ou boicotando a plena felicidade dela. Muitas vezes, os vilões são as pessoas que Dolores mais admira e confia, o que torna tudo mais complicado para aceitar.

"O Tigre na Sombra", assim como todos os romances de Lya Luft, é um livro curto. Ele tem apenas 128 páginas. É possível lê-lo de uma só vez. Gastei pouco mais de duas horas e meia para concluí-lo. Ao final da leitura, fiquei em dúvida se essa obra era um romance ou uma novela. Sinceramente, sempre fico com essa interrogação em minha mente quando leio os trabalhos ficcionais de Luft. Para a escritora e para sua editora, trata-se de um romance e não de uma novela. E ponto final (Não quero entrar nessa discussão).

Com apenas quatro capítulos, o livro mistura de maneira interessante poesia e prosa. Apesar de breve, o romance é denso e bem profundo. Sua intensidade está na trama com muitos elementos melodramáticos e nas reflexões da personagem-narradora. Cada página, cada parágrafo, cada linha e cada palavra da obra representam um turbilhão de emoções da protagonista, que narra seus dramas íntimos sem medo de parecer ridícula aos olhos do leitor. O leitor, por sua vez, participa como confidente da narradora. O estilo do texto é de uma conversa confidencial entre amigas, como só as mulheres conseguem travar com naturalidade.

O tom do livro é de melancolia. Se no começo impera a imaginação e o aspecto lúdico do retrato da infância, à medida que Dolores/Dôda vai crescendo, isso vai pouco a pouco desaparecendo. A realidade vai suprimindo a fantasia, tornando a vida complicada e sem tanta beleza aparente. A melancolia é a consequência desse processo de amadurecimento. Na velhice, a narradora torna-se pessimista e intolerante, incapaz de perdoar aqueles que lhe fizeram mal no passado.

Apesar dos homens serem retratados como vilões (quase nenhum deles presta no romance), muitas vezes são as mulheres que causam as maiores decepções à personagem principal. Se os homens não são confiáveis, não podendo se esperar nada de produtivo ou benéfico deles, as frustrações causadas por eles são, portanto, mais limitadas. O mesmo não ocorre com as decepções femininas. Como as mulheres são mais fortes, carinhosas, altruístas, generosas, conscienciosas e parceiras uma das outras, quando elas vacilam (e vacilam feio, pode acreditar!), o estrago é bem maior (medido pela escala Richter).

Por falar nas mulheres, elas são retratadas como incompletas e divididas. De certa forma, "O Tigre na Sombra" se parece com "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso), obra clássica de Italo Calvino. Se na trama do italiano o homem era o ser incompleto e divido, aqui com Lya Luft a fragmentação está nas mulheres. Dolores/Dôda é em alguns aspectos parecida ao Visconde Medardo di Terralba.

O final de "O Tigre na Sombra" é muito bom. Seu desfecho é interessante, apesar de ser pouco surpreendente. O leitor com um mínimo de experiência na literatura e fazendo uma leitura atenta conseguirá prever o que irá frustrar a protagonista de maneira decisiva. Apesar dessa previsibilidade, o tom amargo, triste e solitário do romance é intensificado no capítulo final. Obviamente, quem exige sempre finais felizes para os romances irá sair frustrado daqui. Contudo, o que Lya Luft narra é a vida real e não a existência fantasiosa (afinal, a fase imaginativa e sonhadora está morta e enterrada na infância de Dolores). A vida pode sim ser triste, amarga e sombria, queiramos ou não admitir isso.

A impressão que tenho ao ler os romances de Luft é que sempre o último livro que leio dela é o melhor da escritora. Com "O Tigre na Sombra" não foi diferente. Ele é fruto do trabalho de uma autora madura e com um estilo próprio de narrar. Isso mostra a força da ficção de Luft. Ótima contadora de histórias, Lya tem a capacidade de emocionar seus leitores ao apresentar dramas reais, genuínos e profundos. Ao mergulhar na mente e na vida de suas personagens femininas, a escritora gaúcha descortina uma série de traumas, angústias e frustrações das mulheres de todas as gerações.

Ainda bem que Luft retornou aos romances com "O Tigre na Sombra". Por melhor que sejam suas crônicas e seus ensaios (gêneros priorizados pela autora nos últimos anos), Lya Luft também é uma excelente romancista. Em meu ponto de vista, a escritora gaúcha é até melhor romancista do que cronista ou ensaísta. Na ficção, Luft pode narrar muitas histórias diferentes e emocionantes, encantando seus leitores. Infelizmente, isso já não estava acontecendo em seus textos não ficcionais. Seus ensaios e suas crônicas estavam cada vez mais repetitivos e cansativos, não trazendo muitas novidades para a legião de fãs da autora. Por mais interessantes e originais que fossem no começo, as ideias da escritora possuem um limite (assim como a paciência do público). A overdose de publicações dos pensamentos e das opiniões de Luft, que inundaram o mercado editorial brasileiros nos últimos anos, foi a responsável por essa saturação.

Assim, "O Tigre na Sombra" é a volta não apenas ao romance, meu gênero preferido quando analiso a literatura de Luft, como também o retorno ao que a escritora sabe fazer de melhor e tem mais a acrescentar aos seus leitores.

Com a conclusão do estudo sobre "O Tigre na Sombra", terminamos as análises das seis obras de Lya Luft do Desafio Literário de outubro. O próximo passo é comentar com mais profundidade o estilo literário da autora gaúcha e sua trajetória na literatura comercial. Tendo esse objetivo em mente, retorno ao Blog Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 30, para apresentar a análise literária de Lya Luft. Não perca a conclusão do Desafio Literário desse mês!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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