• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Lya Luft


Hoje, vamos fazer a análise literária de Lya Luft. Depois de quatro meses navegando pelos mares da ficção internacional, estudando apenas nomes estrangeiros (em junho Régine Deforges - França, em julho Haruki Murakami - Japão, em agosto Nora Roberts - Estados Unidos e em setembro Markus Zusak - Austrália), o Desafio Literário retornou sua viagem para as águas (ou seriam páginas?) das obras nacionais. A proposta era investigar um grande nome da nossa literatura. Assim, neste mês de outubro, o Bonas Histórias leu e comentou seis livros de Luft, uma das escritoras brasileiras mais vendidas e aclamadas da atualidade.

Os títulos escolhidos para embasar a investigação sobre o trabalho de Lya Luft foram: "As Parceiras" (Record), romance de 1980, "O Rio do Meio" (Mandarim), ensaio de 1996, "Perdas & Ganhos" (Record), coletânea de crônicas de 2003, "Pensar é Transgredir" (Record), livro de crônicas de 2004, "Em Outras Palavras" (Record), outra obra de crônicas de 2006, e "O Tigre nas Sombras" (Record), romance de 2012. A partir dessas seis análises individuais (já disponíveis no blog), vamos compor, agora, o panorama geral da carreira e do portfólio artístico desta importante escritora brasileira.

Lya Fett (nome de batismo da autora) nasceu em Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, em 1938. Sua família é de origem germânica e seu pai foi advogado e juiz. Após a infância passada no Vale do Rio Pardo, Lya se mudou para Porto Alegre aos 21 anos. Na capital gaúcha se formou em Pedagogia e em Letras Anglo-Germânicas. Com os diplomas em mãos, começou a trabalhar como tradutora. Sua especialidade eram as traduções de obras literárias escritas em inglês e em alemão. Desses trabalhos, destacam-se as traduções para o português de Virginia Woolf, Hermann Hesse, Doris Lessing e Rainaer Maria Rilke.

Aos 26 anos, Lya se casou com Celso Pedro Luft, gramático e linguista dezenove anos mais velho do que ela. Foi neste momento que a escritora ganhou o sobrenome pelo qual ficaria famosa mais tarde. O casal teve três filhos na década de 1960. A partir de 1970, Lya Fett Luft passou a trabalhar como professora universitária, dando aulas de Linguística. Nesta década, concluiu os mestrados em Linguística Aplicada e em Literatura Brasileira.

Em 1985, Lya Luft deixou o Rio Grande do Sul e foi morar no Rio de Janeiro. Ela se separou de Celso Luft e passou a viver com Hélio Pellegrino, escritor e poeta mineiro radicado na capital fluminense. Contudo, em 1988, Pellegrino acabou falecendo vítima de problemas cardíacos. Viúva, Lya Luft voltou a viver com Celso Luft, em 1994. Contudo, um ano depois da união do antigo casal, o gramático também morreu, deixando a escritora duplamente viúva.

Após o sucesso de "Perdas & Ganhos", seu maior best-seller, Lya Luft se tornou colunista mensal da revista Veja, o principal periódico semanal do país. Hoje, aposentada do ofício de professora universitária, a gaúcha se divide entre a produção de suas colunas para a revista do Grupo Abril e o desenvolvimento de seus novos livros. Os trabalhos de tradução são agora feitos pontualmente.

Curiosamente, a carreira de escritora profissional de Lya Luft começou um tanto tarde. Somente aos quarenta e dois anos de idade, ela publicou seu primeiro romance, "As Parceiras", por uma grande editora. Até então, Lya só havia lançado livros de poesias e de contos de maneira quase informal, em pequenas tiragens. "Canções de Limiar", conjunto de poemas de 1964, foi premiado em um concurso organizado pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Em 1972 e em 1978, foram editados, respectivamente, "Flauta Doce" (poesias) e "Matérias do Cotidiano" (contos). Essas três primeiras obras fazem parte do que podemos chamar de "Fase Amadora" da escritora. Afinal, Lya Luft, nesta época (de 1964 a 1979), se dedicava muito mais às traduções do que à sua própria literatura.

A trajetória de Lya mudou radicalmente entre o final da década de 1970 e o início dos anos de 1980. Quem teve a ideia de transformar a poeta, contista e tradutora gaúcha em romancista foi seu editor, Pedro Paulo Sena Madureira. Após conhecer os contos de Luft, Sena Madureira sugeriu que a escritora parasse de escrever contos e concentrasse seus esforços na produção de romances. Do ponto de vista do editor, as narrativas curtas de Lya eram na verdade embriões de bons romances. Assimilando esse feedback, Lya Luft passou a desenvolver narrativas maiores. O resultado concreto dessa mudança estratégica apareceu com "As Parceiras", em 1980. O próprio Pedro Paulo Sena Madureira foi quem publicou a obra pela sua editora.

Com o lançamento de "As Parceiras", inicia-se a fase de escritora profissional de Lya. Seu romance de estreia foi lançado nacionalmente e recebeu avaliações muito positivas da imprensa e da crítica literária. Apesar de novata na função, Luft mostrava maturidade artística de uma escritora experiente. A obra possui um texto marcante e uma trama densa e tensa. "As Parceiras" é o mergulho na alma feminina e nas angústias da mulher madura. O livro questiona valores sociais, familiares e de gênero, expondo as preocupações femininas com o machismo da sociedade e os receios com a proximidade da morte.

A produção de "As Parceiras" está diretamente relacionada ao grave acidente automobilístico que Lya Luft sofreu em 1979. O episódio quase matou a escritora. Estar a poucos passos da morte transformou a vida da gaúcha. Ela passou a fazer tudo o que evitava e começou a questionar aspectos banais do cotidiano. Essas mudanças ajudaram-na a se lançar aos romances e a criar uma temática própria para seus livros (debate constante entre amadurecimento, envelhecimento e morte). Além de "As Parceiras", "A Asa Esquerda do Anjo", segundo romance da escritora lançado em 1981, também é fortemente influenciado pelo acidente automobilístico.

Com o sucesso de "As Parceiras", estavam abertas as portas do mercado editorial para a promissora e novata escritora vinda de Santa Cruz do Sul. Depois de "A Asa Esquerda do Anjo", mais cinco trabalhos de Lya Luft foram publicados na década de 1980: "Reunião de Família", romance de 1982, "O Quarto Fechado", romance de 1984, "Mulher no Palco", livro de poesias de 1984, "O Exílio", romance de 1987 e "O Lado Fatal", obra poética de 1989. Na década de 1990, foram lançados mais quatro títulos: "A Sentinela", romance de 1994, "O Rio do Meio", ensaio literário de 1996, "Secreta Mirada", romance de 1997, e "O Ponto Cego", romance de 1999.

Nota-se que de 1980 a 1999, a escritora se dedicou essencialmente às narrativas ficcionais longas (seguindo, portanto, o conselho de Sena Madureira). Poesia, contos e ensaios, quando lançados, representavam trabalhos pontuais da gaúcha. Por isso, esse período de 1980 a 1999 pode ser classificado como sendo a "Fase de Romancista" de Lya Luft.

Para conhecer melhor este período criativo de Lya, é interessante ler "O Rio do Meio". Vencedor do prêmio de melhor livro de 1996, dado pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), a obra discute por meio de sete ensaios a ficção produzida pela escritora até então. Depois de lançar seis romances (além de quatro obras poéticas e uma coletânea de contos), Luft sentiu a necessidade de discutir com seus leitores as características de sua literatura e debater alguns temas sensíveis às suas obras.

Em uma prosa que mistura ficção e realidade, a gaúcha expõe nas páginas de "Rio do Meio" o conteúdo no qual ela se propõe a falar em seus livros. Para responder a dúvida "Escrevo sobre o quê?", Lya Luft apresenta um conjunto de ensaios informais sobre a vida e a morte. Estão ali os conflitos de relacionamento entre marido e mulher, os desafios de envelhecer em uma sociedade fissurada pela juventude, os estilos antagônicos de homens e mulheres em encarar a realidade, os erros na construção das famílias e no gerenciamento do lar, as dificuldades na criação dos filhos e o medo natural da morte, entre tantos outros temas inerentes ao cotidiano moderno. Ler "Rio do Meio" é fazer um Raio-X da literatura de sua autora.

Na época do lançamento dessa obra, Lya Luft não sabia que escrever textos não ficcionais iria transformá-la em uma das principais autoras contemporâneas do Brasil. Apesar do sucesso de "Rio do Meio", a consagração maior (ou seria definitiva?) viria sete anos mais tarde com a edição de um pequeno livro de crônicas. "Perdas & Ganhos", publicado em 2003, é até hoje o maior sucesso editorial da gaúcha. O best-seller segue a linha do debate direto, sincero e informal sobre temas sensíveis ao cotidiano das pessoas maduras. Estava criado um estilo literário único na literatura nacional.

"Perdas & Ganhos" é um livro libertador e esclarecedor para as mulheres. Ao percorrer as páginas da coletânea de crônicas, as leitoras podem entender, enfim, a origem dos seus dramas mais íntimos. Também podem identificar o que acontece/aconteceu em suas vidas em cada fase de sua existência. Para os homens de todas as idades, a publicação é profundamente didática. Afinal, eles podem compreender de uma vez por todas o que se passa na alma de suas companheiras. Com esse conhecimento, será difícil culpá-las quando as coisas não derem certo na família ou no matrimônio (muitas vezes, são elas as maiores vítimas e não as principais vilãs das crises conjugais).

Se Lya Luft já era uma romancista reconhecida no cenário nacional antes de "Perdas & Ganhos", depois do lançamento desta coletânea de contos seu status como escritora elevou-se ainda mais. Ela passou a ser uma autora best-seller, com o poder de arrastar multidões por onde fosse ou passasse. As vendas desta obra atingiram a marca de sete dígitos (algo fenomenal em se tratando do mercado editorial do nosso país). A publicação permaneceu por mais de dois anos na lista dos mais vendidos do Brasil e foi traduzida para vários idiomas. Se pensarmos bem, trata-se de um feito notável para um livro de crônicas, gênero historicamente pouco procurado nas livrarias brasileiras. Reconhecida nacionalmente pelos leitores, Lya Luft é, hoje em dia, uma das vozes mais influentes tanto na literatura em língua portuguesa quanto em nossa sociedade.

Com "Perdas & Ganhos", Lya Luft atingiu o auge na nova fase de sua carreira. Os romances deixam de ser o foco de seu trabalho a partir dos lançamentos de "Histórias do Tempo", coletânea de ensaios de 2000, e de "Mar de Dentro", conjunto de crônicas sobre a infância da autora, lançado em 2002. Essas duas obras precederam "Perdas & Ganhos" e inauguraram a "Fase Cronista" de Luft (período que vai de 2000 até os dias de hoje). A partir daí, a escritora passou a concentrar-se na produção de coletâneas de textos não ficcionais. Apesar de a autora continuar publicando esporadicamente outros gêneros narrativos (poesias, romances e histórias infantis), as crônicas passaram a prevalecer em quantidade de títulos publicados e em unidades vendidas nas livrarias.

Depois de "Perdas & Ganhos", Lya Luft publicou mais treze livros: "História de Bruxa Boa", livro infantil de 2004, "Pensar é Transgredir", crônicas de 2004, "Para Não Dizer Adeus", coletânea de poesias de 2005, "Em Outras Palavras", crônicas de 2006, "A Volta da Bruxa Boa", obra infantil de 2007, "O Silêncio dos Amantes", reunião de crônicas de 2008, "Criança Pensa", crônicas sobre a infância, de 2009, "Múltipla Escolha", crônicas de 2010, "A Riqueza do Mundo", crônicas de 2011, "O Tigre Na Sombra", romance de 2012, "O Tempo é um Rio que Corre", ensaios de 2013, "Paisagem Brasileira", ensaios literários e políticos de 2015, e "A Casa Inventada", ensaio recém-publicado. Note, portanto, a quantidade de material não ficcional editado nesse período.

"Perdas & Ganhos" é realmente um livro espetacular. Sem sombra de dúvida, é a melhor obra da escritora. Em suas páginas, Lya Luft expõe todo o seu talento ao falar sobre temas femininos, de assuntos familiares, de crises de relacionamentos e dos desafios da fase madura da vida. Contudo, este livro é uma exceção entre os títulos não ficcionais da autora publicados após o ano de 2000. As demais coletâneas de crônicas de Luft têm um conteúdo muito, muito, mas muito fraco.

Em 2004, Lya Luft lançou "Pensar é Transgredir", seu primeiro livro de crônicas após "Perdas & Ganhos". A sensação é que a obra foi produzida muito rapidamente para atender ao público ávido por mais textos não ficcionais da escritora. Assim, a editora e a autora acabaram reféns do seu próprio sucesso, agindo com oportunismo comercial. Apesar dos ótimos resultados alcançados nas livrarias do país (mais em reflexo da qualidade do livro do ano anterior do que por méritos deste novo título), "Pensar é Transgredir" possui um conteúdo muito pobre.

Muitas das crônicas desse livro são repetitivas: a maioria das suas histórias e dos seus exemplos já foi usada em obras precedentes da autora. E, para piorar, os temas tratados por Luft nessas páginas não trazem qualquer novidade aos leitores. Afinal de contas, quem hoje em dia se incomoda com a condenação da camisinha e do homossexualismo pela Igreja Católica? O quão válido é falar do preconceito aos descendentes alemães (loiros de olhos azuis) em um país onde a discriminação aos negros, por exemplo, é muito maior? E qual a tragédia se um amigo muito idoso não quer se inserir no mundo computacional?! A impressão é estar lendo uma coletânea de clichês pouco relevantes para os leitores contemporâneos. Assim, o resultado de "Pensar é Transgredir" é muito decepcionante! Até agora, este foi um dos piores livros lidos por mim neste ano (se não tiver sido o pior).

"Em Outras Palavras", publicado três anos após "Pensar é Transgredir", cai no mesmo erro do antecessor. Os textos extraídos da coluna "Ponto de Vista", produzidos pela autora para a revista Veja, constituem a base das crônicas de "Em Outras Palavras". O problema é que as colunas de Luft na revista semanal são terrivelmente chatas, repetitivas e rasas. No livro, esse efeito se torna ainda mais nítido (afinal, lemos o material de uma só vez, algo que não acontece na revista).

Quando Lya Luft aborda temas sensíveis às suas obras (construção de famílias saudáveis, desafios das relações conjugais, complexidade da alma feminina, beleza da infância, machismo, abuso moral e sexual e envelhecimento), ela vai muito bem, pecando apenas por ser extremamente repetitiva. Você já sabe o que ela irá dizer frase a frase. São de um tédio absurdo essas crônicas. Se você já tiver lido "Perdas & Ganhos" saberá todas as opiniões da escritora sobre esses assuntos.

Quando Lya Luft tenta variar o repertório temático, ela cai em assuntos genéricos demais (violência da sociedade, corrupção endêmica no país, impunidade, consumo de drogas, tráfico de entorpecentes, injustiças sociais, conflito de classes, política, consumismo, pedofilia, crítica cinematográfica, etc.). Aí, o problema é a pouca relevância do texto apresentado ou a falta de novidades das reflexões propostas pela autora. Muitas vezes, ao ler as crônicas de Luft tenho a impressão de estar diante de uma vovozinha que tenta passar lições de moral para seus netinhos.

A própria sazonalidade típica das crônicas atrapalha a relação entre autor, leitores e texto. Afinal de contas, qual o interesse por saber sobre o encalhe de uma baleia nas praias cariocas ou o frenesi pela votação da lei do desarmamento, eventos ocorridos há muitos anos?! Tanto "Pensar é Transgredir" quanto "Em Outras Palavras" (e todos os demais livros de crônicas da autora, exceto "Perdas & Ganhos") padecem desse mal.

O tédio causado pelas obras não ficcionais de Lya Luft da "Fase de Cronista" não é encontrado nos romances da gaúcha. Isso fica evidente em "O Tigre na Sombra", última obra ficcional da autora. Lançado em 2012, o livro significou um retorno em grande estilo aos romances, depois de 13 anos sem publicações neste gênero. O romance anterior de Luft tinha sido "O Ponto Cego", no longínquo ano de 1999. Naquele momento, Luft ainda vivia sua "Fase de Romancista".

"O Tigre na Sombra" mantém as principais características temáticas e estilísticas da ficção de Lya Luft. O livro apresenta os dramas femininos, os conflitos conjugais, as intrigas familiares, a inocência da infância, a magia do sobrenatural, a imaginação fértil das crianças e os desafios típicos do envelhecimento. A autora embala esses elementos em uma trama psicológica profunda e intensa. Mistura-se o tempo inteiro poesia e prosa de maneira maravilhosa. Não tem como o leitor não ficar admirado com o resultado final desta obra. "O Tigre na Sombra" é uma história muitíssimo comovente e interessante, possuindo ótimas personagens femininas (um dos dons literários de Luft).

Concluída a análise das obras de Lya Luft, vamos agora fazer um apanhado geral do perfil estilístico da autora. A seguir, são apresentadas dez características de sua literatura:

1) Lya Luft navega com tranquilidade em muitos gêneros literários. Ela escreve poesia, conto, crônica, ensaio, romance e (ufa!) história infantil. É muito legal ver uma escritora tão polivalente. Repare que ao longo de sua carreira, Luft jamais foi uma artista monogênero. Apesar de focar em algumas produções específicas (primeiro na poesia, depois nos romances e mais tarde nas crônicas), ela jamais abandonou os outros tipos textuais.

2) A literatura da autora possui três fases distintas. Nas décadas de 1960 e 1970, temos o período em que Lya Luft escrevia de maneira informal. Neste momento da história, seus livros foram publicados em pequenas tiragens e não ganharam as livrarias do país. Por isso, chamamos esse estágio de "Fase Amadora". Também poderíamos chamá-la de "Fase Poetisa", pois a maioria das obras da escritora eram coletâneas de poemas. A partir de 1980, há uma mudança radical na produção da autora. Lya Luft passa a priorizar a publicação de romances. É a sua "Fase Romancista". É aqui que temos as melhores obras de Luft. A "Fase Romancista" vai até 1999. A partir de 2000, Luft passa a focar seu trabalho nos livros de crônicas. Temos, portanto, a "Fase Cronista". Esse é o período de maior sucesso da escritora. "Perdas & Ganhos", seu terceiro livro dessa fase, se torna uma das obras mais vendidas do país nos últimos anos. Lya se torna uma autora best-seller. Podemos dizer que a escritora gaúcha permanece até hoje na "Fase Cronista".

3) Quando produz crônicas, os melhores textos de Luft abordam: desvalorização da infância, as principais falhas na criação de filhos e netos, o comportamento recorrente das mulheres que se anulam visando a felicidade de filhos e maridos, a violência das sociedades machistas, os temores mais íntimos de mulheres e homens, os dramas dos relacionamentos amorosos, as dificuldades mais comuns do convívio familiar, a angústia de envelhecer em uma sociedade que cultua a juventude, a busca pela felicidade na fase madura da vida, os desafios da velhice e as maneiras de lidar com a morte e as perdas naturais da existência humana.

4) "Perdas & Ganhos" é a melhor publicação da autora. Contudo, os livros de crônicas não fazem parte da melhor faceta da literatura de Lya Luft. O que torna suas coletâneas não ficcionais péssimas (exceção feita a "Perdas & Ganhos") é o fato de Luft ser uma brilhante pensadora do universo feminino, mas uma fraca analista da realidade contemporânea. Quando ela embarca nos dramas, nas angústias, nos desafios e na complexidade da alma das mulheres, Luft é brilhante (apesar de muitíssimo repetitiva - Se você ler "Perdas & Ganhos", não precisará ler mais nenhuma obra de crônica da autora). Não conheço ninguém mais capacitada e talentosa do que a gaúcha para tratar desse assunto, seja na ficção ou na não ficção. Porém, quando ela resolve debater, por exemplo, os problemas da violência urbana, a corrupção dos políticos no país, a crise moral da sociedade e o comportamento juvenil, temos uma escritora rasa e com um olhar pouco apurado. Esse é o principal problema dessas crônicas. Lya Luft não é original nem brilhante quando escreve sobre temas genéricos.

5) Por outro lado, os romances de Luft são excelentes (Sena Madureira tinha toda a razão!). Se eles não tiveram resultados comerciais tão satisfatórios quanto às obras de crônicas, ao menos suas qualidades narrativas são de altíssimo nível. É difícil encontrar um romance ruim da autora. O que Lya faz de melhor na literatura está concentrado nas suas narrativas longas.

6) A ficção de Lya Luft enfoca a vida caótica de suas personagens femininas. As protagonistas dos romances da escritora são sempre mulheres desesperadas, loucas, sufocadas, injustiçadas e anuladas. Ao lado dessas figuras melancólicas, temos homens bárbaros, rudes, violentos, confusos, passivos e/ou insensíveis. Não à toa, os papéis de vilões das tramas cabem a eles.

7) Os enredos dos romances de Lya Luft giram frequentemente em torno dos dramas familiares de suas protagonistas. Temos, aí, histórias intensas e com grande grau de profundidade psicológica. A realidade é ácida e corrosiva. Na retrospectiva da vida das personagens femininas, a infância é normalmente descrita como a fase mais pura, lúdica e feliz da existência. Por sua vez, a juventude e a maturidade são estágios de anulação profissional e de casamentos infelizes. E a velhice é a etapa do medo, das revelações do passado e da solidão. A impressão que temos é que uma vez adulta, a mulher está fadada a infelicidade eterna.

8) As temáticas dos romances de Luft abordam quase sempre o papel da mulher e do homem na sociedade ao longo das últimas gerações, o processo de envelhecimento/amadurecimento, os relacionamentos familiares, os desafios do casamento, as aspirações e sonhos femininos, o receio da morte, a constituição das famílias e as diferentes maneiras de se criar os filhos.

9) Os textos de Luft não promovem diretamente o feminismo. Eles também não parecem possuir grandes pretensões ideológicas. O que eles (e aqui está a principal qualidade da autora) fazem é debater aspectos comuns da vida das mulheres de maneira sincera em histórias ficcionais que muito bem poderiam ser verídicas. Todas as angústias e frustrações femininas são concentradas nas personagens de Luft. Enquanto muitas leitoras podem se identificar com os dramas descritos nas páginas dos romances da autora gaúcha, os leitores masculinos conseguem entender o que, afinal, se passa na mente da mulherada (algo sempre complicado para nós, homens). Curiosamente, os livros da autora são normalmente curtos. Ou seja, suas narrativas são condensadas para aumentar a dramaticidade da trama.

10) A linguagem de Lya Luft é simples e bonita. Sua prosa possui muitos elementos poéticos. A autora consegue extrair beleza onde a vida se mostra mais triste e árida. Os desfechos muitas vezes abertos dos romances convidam os leitores para participarem da construção narrativa. E a inserção de passagens sobrenaturais confere certo tom de magia às histórias. A misturar realidade com fantasia, prosa com poesia e mistério com cenas banais do cotidiano, Luft apresenta textos belíssimos e com uma identidade literária bem peculiar.

Assim, terminamos o Desafio Literário de Lya Luft. No próximo mês, vamos analisar a literatura de Ondjaki, um dos principais escritores angolanos da nova geração. Não perca a sequência da investigação do Blog Bonas História sobre os grandes escritores nacionais e internacionais de hoje e de ontem.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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