• Ricardo Bonacorci

Livros: Bom Dia, Camaradas - O primeiro romance de Ondjaki


Neste primeiro final de semana de novembro, li o livro "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), romance de estreia de Ondjaki. Antes de essa obra chegar às livrarias, o escritor angolano só tinha publicado uma coletânea de poesias. Em "Bom Dia, Camaradas", Ondjaki narra de maneira engraçada, lírica e autobiográfica sua infância em Angola, no final da década de 1980. O cenário é o mais adverso possível: a guerra civil que assolava o país africano há anos, a violência rotineira que a população precisava enfrentar e o governo comunista que administrava a nação. Em meio a essas adversidades, o pequeno narrador e protagonista da trama, com seu olhar infantil sobre a realidade, escancara a beleza da vida cotidiana. Além de dar muitas risadas, achei esse livro de uma incrível sensibilidade poética.

Publicado em 2001, "Bom Dia, Camaradas" recebeu muitos elogios da crítica literária em Angola, em Portugal e no Brasil. A obra foi finalista do Prêmio Portugal Telecom, realizado no Brasil, em 2007. Logo de cara, Ondjaki já se posicionava como um dos grandes ficcionistas de seu país. Nos anos seguintes, o escritor só comprovaria a força de sua prosa, consolidando uma das mais criativas carreiras literárias da atualidade.

O enredo de "Bom Dia, Camaradas" é aparentemente simples. Durante os anos de 1980, o filho de um importante funcionário público do governo comunista de Angola relata sua rotina de criança. Em sua infância passada em Luanda, o menino vai à escola e estuda bastante para passar de ano. Ele brinca com os amiguinhos, admira o pai, vai às festas dos colegas e conversa muito com os professores cubanos. Ele também nutre grande admiração pelo cozinheiro da casa, o Camarada António, um senhor pobre e simples que gosta muito do "miúdo" (garoto em português angolano). Além disso, o protagonista passeia pela capital do país com a tia que viera de Portugal para visitar a família depois de muitos anos. Para completar, o menino se envolve em uma grande confusão na escola.

Qual é a graça de um relato tão banal?! Não faça esse questionamento, por favor, antes de ler o livro. A graça dessa obra está na maneira como Ondjaki narra os acontecimentos. Se o enredo é simples, seu conteúdo é riquíssimo. O escritor é profundo e poético, enaltecendo a beleza da infância com rara felicidade. Em muitos momentos, "Bom Dia, Camaradas" lembra as aventuras dos quadrinhos de "O Pequeno Nicolau", dos franceses René Goscinny e Jean Jacques Sempé, o filme "A Vida é Bela" (La Vita e Bella: 1998), do italiano Roberto Benigni, e o romance "Terra Sonâmbula", do moçambicano Mia Couto.

O primeiro aspecto que chama a atenção nesse livro é o humor. Admito que chorei de rir em várias cenas (a fuga das crianças da escola é hilária). A visão infantil sobre a realidade é capturada com precisão por Ondjaki. A impressão que temos durante a leitura é que o narrador é mesmo um garoto (no caso, uma criança travessa e muito engraçada). A ironia fina do narrador mostra a beleza da infância. Por mais difícil que seja o cotidiano de um país e de uma família, a molecada consegue achar graça e se divertir com o que tem. É verdade que o protagonista é de uma família rica. Ou seja, não precisou passar pelas carências e pelas dificuldades que a maioria dos seus conterrâneos (Uma ironia já que Angola, nessa época, era um país comunista). Mesmo assim, o relato de uma nação mergulhada em uma guerra civil e administra por comunista é de impressionar o leitor contemporâneo.

A violência em Luanda na década de 1980 era epidêmica. Há muitas cenas chocantes de brutalidade e de maldade extrema. Para se ter uma ideia, o Rio de Janeiro pós-Sérgio Cabral é uma cidade pacífica perto da realidade da capital angolana daquela época. Lá, por exemplo, era comum a invasão de grupos paramilitares às escolas. Meninos eram raptados e forçados a se tornar soldados, meninas eram levadas para serem usadas como esposas dos rebeldes, professoras eram estupradas e retalhadas e professores e diretores eram mortos a sangue frio.

Apesar dessa visão chocante da Angola no pós-independência, o livro de Ondjaki não tem o espírito pesado e denso que poderia se esperar com tal cenário. Pelo contrário! A trama é leve, engraçada e espirituosa. Afinal, para o olhar infantil do narrador, tudo aquilo não passa de uma grande brincadeira protagonizada pelos desajustados adultos.

Há cenas ótimas durante o romance. Repare particularmente no diálogo inicial do narrador com o cozinheiro da família, o Camarada António, e na discussão do menino com a Tia Dada sobre as diferenças entre Angola comunista e Portugal capitalista. E deleite-se com a fuga das crianças ao perceberem que o Caixão Vazio, grupo terrorista que vandalizava colégios em Luanda, apareceu um dia na sua escola. Mesmo sendo um tanto óbvio o desfecho desse episódio para um leitor minimamente atento, ainda sim é muito engraçado ver o alvoroço da molecada.

Outro charme de "Bom Dia, Camaradas" é a sua linguagem. O português angolano é muito interessante para quem gosta de estudar e conhecer as variações linguísticas. É possível entender perfeitamente a narrativa e, ao final do livro, você terá acrescentado ao seu vocabulário algumas palavras como "miúdos", "matabichar" (essa é a melhor!), "baldar", "filipar", "fobado", "geleira" e "candongueiro" (juro que não consigo falar esta). Na última página do romance, há um glossário com a explicação dos principais termos. É muito legal ver essas expressões típicas do português africano. Se o romance de Ondjaki tivesse sido passado integralmente para o português brasileiro na certa perderia muito de sua riqueza linguística e seu encanto cultural.

Há também questões filosóficas debatidas com singeleza e lirismo nesse livro. Afinal, qual o mérito de um país ter se tornado independente se sua população vive pior? E qual a vantagem de uma sociedade pretensamente igualitária se a maioria das pessoas ainda passa por graves necessidades?

A beleza de "Bom Dia, Camaradas" não está apenas no retrato da infância e no olhar das crianças para a realidade. O amadurecimento natural da vida, a relação com a natureza, os pequenos prazeres do cotidiano, o enfrentamento das perdas (sejam elas provocadas pelas mortes de pessoas amadas ou pela partida de amigos e familiares para regiões distantes) e os medos em relação ao futuro (tanto pessoal quando de uma nação) são temas trabalhados com primor nessa obra.

Esse primeiro romance de Ondjaki possui uma leitura rápida. Com apenas 136 páginas, é possível lê-lo em uma única tarde. Foi o que fiz ontem. O livro é tão pequeno que o considerei mais uma novela do que um romance. Como Ondjaki e sua editora o classificaram como romance, preferi manter essa denominação (apesar de não concordar com ela).

Mesmo apresentando a realidade do ponto de vista infantil, essa obra não é para crianças. Pelo contrário. É preciso ser adulto e possuir muita maturidade para compreender as ironias, as críticas e a proposta de Ondjaki. O autor também não esconde os traços autobiográficos de sua trama. Logo no início, ele agradece às personagens que tiveram seus nomes verdadeiros mantidos na história. Achei essa uma bela homenagem.

Gostei tanto de "Bom Dia, Camaradas" que estou curioso para saber o que Ondjaki ainda nos reserva. A próxima leitura deste Desafio Literário é o livro de contos "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), lançado originalmente em 2005. Minha análise crítica desse novo livro de Ondjaki será publicada aqui no Blog Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 9. Até o próximo post, pessoal!

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#Ondjaki #Romance #Drama #RomanceHistórico #LiteraturaAngolana

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento