• Ricardo Bonacorci

Livros: A Bicicleta que Tinha Bigodes - A literatura infantojuvenil de Ondjaki


Depois de conhecer quatro livros de Ondjaki destinados ao público adulto - "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral), "Os da Minha Rua" (Língua Geral) e "AvóDezanove e o Segredo do Soviético" (Seguinte) -, li nesse final de semana uma obra infanto-juvenil do escritor angolano: "A Bicicleta que Tinha Bigodes" (Pallas). Quem acompanha regularmente o Blog Bonas Histórias sabe que Ondjaki está sendo analisado nesse mês no Desafio Literário.

"A Bicicleta que Tinha Bigodes" utiliza-se do mesmo cenário, das mesmas personagens e das mesmas situações de boa parte dos livros anteriores do autor: sua infância passada em Luanda durante a década de 1980. Em primeira pessoa, um miúdo (garoto) narra as delícias e os medos da sua meninice. Ou seja, a grande diferença dessa publicação para as precedentes está no tipo de leitor almejado. Agora, o público-alvo são as crianças. Temos, portanto, um menino (personagem-narrador) falando diretamente para a molecada sobre sua infância, compartilhando impressões e visões. Achei incríveis tanto a proposta editorial quanto a execução e o projeto gráfico do livro. Como livro infantil, "A Bicicleta que Tinha Bigodes" é diferenciado.

Essa obra foi lançada em 2011 e conquistou alguns prêmios relevantes nos cenários nacional e internacional nos anos seguintes. Os principais deles foram: Prêmio Bissaya Barreto, em Portugal, em 2012, e o Prêmio FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), no Brasil, em 2013, na categoria "Literatura em Língua Portuguesa".

O enredo de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" gira em torno de um concurso literário infantil promovido pela Rádio Nacional de Angola. A criança que escrevesse a melhor história ganharia uma bicicleta. Empolgado com o prêmio oferecido ao vencedor, o menino que narra a trama lançasse ao desafio de produzir um conto. Contudo, sem uma boa ideia, ele não avança nada na empreitada.

Assim, o narrador recorre à ajuda de Isaura e de JorgeTemCalma, seus inseparáveis amigos. O plano do trio mirim é aparentemente simples, mas um tanto fantasioso. Eles querem roubar um pequeno baú da casa do Tio Rui, um vizinho que é escritor e possui um farto bigode. Dentro do baú há centenas ou milhares de palavras deixadas pelo escritor e que poderão ser usadas na construção da história da meninada.

O primeiro aspecto que chama a atenção no livro é o seu bom humor. Há várias cenas realmente divertidas. A graça é leve, sutil e inteligente, ao estilo de Ondjaki. Contudo, na maioria das vezes, o humor é mais adulto do que infantil. A criançada até pode achar engraçada a narrativa, mas são os adultos que vão compreender com mais propriedade as melhores sacadas produzidas pelo escritor angolano. O melhor exemplo disso ocorre quando Isaura batiza os bichinhos que surgem no quintal da sua casa com nomes de presidentes de vários países do mundo. No caso de dois sapos que são irmãos, a escolha da menina é óbvia: Raul e Fidel. Os episódios protagonizados por Fidel e Raul são bem engraçados.

Outro elemento positivo de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" é seu projeto gráfico. Além de bonita, a obra apresenta algumas surpresas interessantes. A carta produzida pelo protagonista para a Rádio Nacional, parte essencial do enredo da publicação, materializa-se aos olhos do leitor em um bolso falso no final do livro. A solução encontrada pela editora foi incrível, chegando a emocionar os leitores mais sensíveis. Ou seja, além de esteticamente agradável, o recurso utilizado integra-se totalmente à história narrada. Fantástico!

Apesar de citar muitas personagens repetidas (aí estão novamente a AvóDezanove, a Tia Alice...) e vários episódios já comentados (outra vez a avó rega as plantas sem água, as personagens ficam encantadas com as telenovelas brasileiras...) em obras anteriores de Ondjaki, não considerei esse livro muito repetitivo (como achei, por exemplo, "Os da Minha Rua" e "AvóDezanove e o Segredo do Soviético"). A maioria dos elementos narrativos de "A Bicicleta que Tinha Bigodes" são originais, apesar de resvalar em um ou outro ponto já mencionado anteriormente.

Assim, de maneira geral gostei do livro. "A Bicicleta que Tinha Bigodes" possui uma narrativa bonita e simples, encantando os leitores infantis (e os mais crescidinhos também). Ver o ponto de vista de uma criança esperta e divertida sempre é salutar, principalmente quando sua trama é bem escrita. Ondjaki é especialista em apresentar a infância com sensibilidade e beleza.

E para terminar o Desafio Literário desse mês, retornarei no próximo sábado, dia 25, com a análise do livro "Os Transparentes" (Companhia das Letras). Esse romance adulto de Ondjaki foi o último grande lançamento do escritor angolano. Será muito bom conhecer essa obra também. Aguardem novidades para os próximos dias....

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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