• Ricardo Bonacorci

Livros: Os Transparentes - O romance adulto de Ondjaki


Com a análise de "Os Transparentes" (Companhia das Letras), sexto e último livro de Ondjaki lido nesse mês, concluo as leituras do Desafio Literário de novembro (e do ano de 2017 como um todo). Assim, na próxima quarta-feira, dia 29, já terei condições de postar, aqui no Blog Bonas Histórias, uma avaliação completa da literatura desenvolvida pelo principal escritor angolano da nova geração. Contudo, neste post, vou apresentar minha crítica individual sobre "Os Transparentes", o último grande romance lançado por Ondjaki.

Publicada em 2012, essa obra ganhou alguns prêmios relevantes no cenário internacional nos últimos anos. Em 2013, "Os Transparentes" conquistou o Prêmio José Saramago, atribuído à melhor obra literária escrita em língua portuguesa por um jovem autor (foi a primeira vez que um africano recebeu tal condecoração). No ano passado, o livro conquistou, na França, o Prémio Littérature-Monde na categoria "Literatura Não Francesa".

Com pouco mais de 400 páginas (maior livro do autor até aqui), "Os Transparentes" é realmente uma leitura muito interessante. O que mais gostei dessa publicação é que Ondjaki demonstrou, enfim, que é um autor com capacidade para escrever um romance volumoso e de temática adulta (fatos que já estava começando a duvidar...).

Nessa obra, o escritor angolano abandona o relato da sua infância (algo que pontuava todas as suas obras até então e que já estava ficando um tanto cansativo/repetitivo) e avança na narração da vida adulta dos seus conterrâneos. Assim, temos agora conflitos de outra natureza: a corrupção do país africano, a política em Luanda, o sexo, a violência, os dramas sentimentais e as injustiças sociais. Isso tudo foi realizado com o estilo característico da literatura de Ondjaki, que mistura uma apurada dose de fantasia com um olhar nu e cru da difícil realidade do seu país natal. Mantendo sua graça, seu texto inteligente e, principalmente, seu bom humor, o escritor constrói um incrível panorama de Angola (que por sinal, é um país parecidíssimo em muitos pontos ao nosso Brasil).

Por isso, considero "Os Transparentes" tão importante para a literatura de Ondjaki. Se esse não é o melhor romance da sua carreira, posto ocupado em minha opinião por "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), "Os Transparentes" é, ao menos, aquele em que o escritor mais disse, mais revelou e mais inovou.

Com essa publicação, Ondjaki dá o primeiro passo para iniciar uma nova fase em seus trabalhos literários. Enfim, ele tornou-se um autor realmente maduro e pronto para investigar a vida adulta dos seus conterrâneos. Minha expectativa é conhecer, nos próximos anos, novos livros voltados para o público mais velho. Por melhor que sejam as tramas infantis e/ou sobre a infância de Ondjaki (e elas são mesmo excelentes!), o escritor já estava pronto para seguir novos rumos narrativos (investindo em novas temáticas).

O enredo de "Os Transparentes" gira em torno da rotina em um prédio pobre na periferia de Luanda. O edifício acaba servindo de cenário para uma coleção interminável de histórias que, de alguma forma, se cruzam o tempo inteiro. Temos aqui várias personagens sendo retratadas: Odonato, um homem que vai ficando transparente por não comer, VendedorDeConchas e o Cego, parceiros inseparáveis que percorrem as ruas da capital angolana comercializando produtos extraídos do mar, MariaComForça, uma trabalhadora incansável, Assessor, o político corrupto, Paizinho, rapaz órfão que sonha em encontrar a mãe, Noé, o dono do bar, JoãoDeVagar, o empresário malandro, e mais uma infinidade de outros tipos....

É difícil apontar qual seja a história principal e quais sejam as secundárias. Talvez a principal trama seja exatamente a do próprio prédio, com a riqueza de histórias em seu interior e a variedade de seus habitantes. Até mesmo quando retrata pessoas e situações externas ao prédio (funcionários públicos do governo, jornalistas, cientistas, etc.), Ondjaki as leva sempre para o cortiço. Tudo interfere direta ou indiretamente na vida dos moradores daquele lugar.

No começo da leitura, a avalanche de personagens e de histórias paralelas pode confundir um pouco a cabeça do leitor. Porém, logo essa impressão se dissipa. O carisma das fictícias criaturas e a particularidade de suas vidas tornam cada trama muito marcante, sendo impossível confundi-las a partir de certo ponto do romance. Outro aspecto que pode atrapalhar um pouco o leitor brasileiro é a linguagem utilizada por Ondjaki. Por ser repleto de gírias angolanas (principalmente nos diálogos das personagens), o livro demora a se tornar totalmente claro aos olhos de quem não está familiarizado com o português africano. Por isso, use a abuse do glossário no final do livro (apesar de muitos termos típicos não estarem contemplados ali).

O principal ponto positivo de "Os Transparentes" está sem seu humor sutil e muito inteligente, que retrata com propriedade as injustiças e a corrupção de um país subdesenvolvido. Há cenas hilárias e vários personagens cômicos. Provavelmente, as melhores situações sejam: o diálogo da jornalista inglesa com os fiscais governamentais durante a inauguração do cinema GaloCamões; a entrega da marmita destinada ao filho de Odonato para um carcereiro corrupto; a proibição do governo angolano da realização de um eclipse solar que iria ocorrer no país; os festejos pela morte da CamaradaIdeologia; e os discursos inflamados do CamaradaEsquerdista no bar do Noé.

Por sua vez, as mais engraçadas personagens são: Carteiro, que passa o dia entregando as cartas escritas por ele mesmo, em um esforço inútil para conseguir melhores condições de trabalho; CamaradaMudo, que curiosamente fala; JoãoDeVagar, um empresário trambiqueiro metido em todo tipo de negócio escuso, como a fundação de uma igreja evangélica inspiradas nas brasileiras (ou seja, destinada a surrupiar dinheiro dos fiéis mais pobres); e DessaVez e DaOutra, dupla de fiscais governamentais corruptos, interessados unicamente em angariar propina. Impossível não rir das tramas protagonizadas por essas figuras.

Outro elemento que merece destaque positivo é a crítica social bem feita pelo autor. Além de escancarar os problemas do seu país, Ondjaki mostra os reflexos da desigualdade de renda, das injustiças sociais e da corrupção na vida das pessoas comuns. Boa parte da transparência de Odonato deve-se à sua condição financeira. Sua pobreza o transformou em um homem invisível aos olhos dos seus conterrâneos (e, principalmente, do governo). Muito legal essa analogia!

O único aspecto negativo do livro está nas inovações realizadas por Ondjaki no seu texto. Tentando imitar José Saramago (que criou um estilo próprio para a pontuação e para as letras maiúsculas e minúsculas), o angolano optou por apresentar uma linha textual criativa e única. Por exemplo, não há ponto final no final dos parágrafos. Também não se coloca a primeira letra de cada frase em maiúscula. Esse expediente não atrapalha a leitura do romance (rapidamente o leitor se acostuma com essas particularidades da obra), porém ele também não acrescenta nada. Ou seja, foi um recurso desnecessário na minha visão. Uma narrativa tão interessante não precisava de mais nada para se tornar valorizada.

De certo modo, "Os Transparentes" me fez lembrar alguns bons livros que já li. "O Cortiço", clássico de Aluísio Azevedo, é um deles. O retrato do prédio angolano é, em muitos pontos, parecido ao cortiço naturalista do século XIX, principalmente no que tange a descrição da vida do grupo de pessoas pobres que moram em seu interior. Também recordei "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado. Tanto na obra do baiano quanto na do angolano, a política macroeconômica interfere diretamente na vida das pessoas comuns, para o bem ou para o mal. Também temos um pouco de "O Processo", de Franz Kafka, e seus intermináveis dramas burocráticos. E a excelente dupla DessaVez e DaOutra me fez recordar os gêmeos Dupont e Dupont, os atrapalhados detetives dos quadrinhos das Aventuras de Tintim.

Assim, "Os Transparentes" é um bom livro. Ele é interessante, original, inteligente e muito engraçado. Quem estiver procurando algo criativo para ler nesse finalzinho de ano, aqui vai uma boa dica de leitura.

Como prometido, vou retornar ao blog na próxima quarta-feira, dia 29, para fazer a análise literária completa de Ondjaki. Será o sétimo e último panorama autoral do Desafio Literário de 2017. Não perca!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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