• Ricardo Bonacorci

Livros: História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas - A irreverência de Sandra Newman


No ano passado, andando despretensiosamente pela livraria Cultura do Conjunto Nacional, encontrei um livro que chamou minha atenção. Seu título: "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" (Cultrix). A autora, Sandra Newman, é uma professora norte-americana de redação e de literatura que também se arrisca na produção de novelas próprias.

"História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" não é uma obra tão nova assim. Ela foi lançada nos Estados Unidos em 2012 e no Brasil em 2014. Sua proposta também não é das mais originais. Neste livro, Sandra Newman queria fazer uma viagem pelos cânones da cultura ocidental. Ou seja, como este, existem dezenas de publicações com o mesmo objetivo. Qual foi, então, a grande novidade que me motivou a comprar esta obra? A linguagem! De um jeito divertido e desbocado, a autora fala abertamente sobre as principais obras literárias da história da civilização ocidental e dos seus escritores. Nunca um título foi tão fidedigno. Não há partes chatas em "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas". Se bem que prefiro o título original, "The Western Lit Survival Kit: How To Read The Classics Without Fear" (algo como "Kit de Sobrevivência da Literatura Ocidental - Como ler os Clássicos Sem Medo" em uma tradução livre). Parece ou não parece divertido?! Impossível não se apaixonar por este livro. Se você gosta de literatura, ficará ainda mais apaixonado por esta área. Se você não gosta, com certeza irá gostar e vai querer ler todos os clássicos.

A sensação é que Sandra Newman está conversando conosco em um bar sobre literatura (a bebida e os quitutes, infelizmente, não vêm junto com o livro). Não há nada mais interessante do que essa combinação para quem gosta de literatura. Quem está acostumado com os (enfadonhos) textos acadêmicos, a leitura de "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" é um tanto libertadora. A autora também é muito sincera em suas opiniões e colocações. Seu texto é mistura o tempo todo bom-humor e ousadia. Brincando, ela consegue cativar o leitor e passar sua mensagem com bastante propriedade.

Veja o que ela fala, por exemplo, sobre Rudyard Kipling: "Se você está se perguntando o que fez com que esse cara ganhasse o Prêmio Nobel, saiba que ler sua ficção não vai lhe dar a resposta. Dentre seus livros, aqueles que ainda são publicados foram deslizando, aos poucos, para a seção infantil". Ao comentar os romances românticos, ela é direta: "Tudo bem, a maior parte dessa literatura não é muito boa. Tem a profundidade de uma poça d'água. Mas também dá o mesmo prazer frívolo de comer um bolinho com chantili, com a vantagem de não engordar". A explicação sobre Dom Quixote é sublime: "Muitos dizem que Dom Quixote é o melhor romance já escrito. Alguns dos mesmos estudiosos o chamam também de 'primeiro romance'. Seria uma incrível sorte de principiante se o primeiro romance fosse também o melhor. Felizmente, como nossos leitores se lembrarão, os romances já eram escritos havia mais de mil anos, e Dom Quixote é somente um dos primeiros romances a serem equivocadamente chamados de 'o primeiro romance'. O herói é um cavalheiro empobrecido, já com alguma idade, que, tendo lido muitos romances (eu não disse), acaba acreditando que é um cavaleiro andante perseguindo por um feiticeiro do mal". Hilário!

"História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" possui aproximadamente 400 páginas e é dividido em catorze capítulos. A autoria respeita a ordem cronológica da história literária. Os quatro primeiros capítulos são sobre Grécia, Roma, Idade Média e Renascimento, respectivamente. O quinto é dedicado exclusivamente a William Shakespeare. Seu nome: "William Shakespeare, o Único a Ganhar um Capítulo só para Ele". Impossível ser mais direta do que isso. Os demais sete capítulo são chamados de: "Chegada dos Puritanos", "França e Inglaterra no Século XVII", "Era da Razão", "Os Românticos", "Os Estados Unidos Passam a Existir", "Belo Realismo" e "Realismo Incômodo". Os dois últimos capítulos são dedicados a literatura da primeira metade do século XX e a atual situação dos romances e da poesia na entrada do século XXI.

A pretensão do livro é servir de guia para os leitores comuns, apontando o que cada um deve ler dos cânones a partir dos seus interesses e de seus conhecimentos literários. Na introdução, a autora explica: "Este livro trata a literatura ocidental como um parque de diversão. É um guia para os diversos brinquedos; sugere quais são apropriados para todas as idades, quais serão considerados insuportavelmente tediosos por todas as idades e quais talvez exijam bastante de você, mas lhe darão em troca uma experiência que você não vai encontrar em nenhum outro lugar. Para os leitores que já ingeriram um bocado generoso dos Grandes Livros, esta obra oferecerá uma perspectiva unificadora, novas ideia e piadas de mau gosto à custa dos autores dos quais você mais gosta e menos gosta".

Para oferecer um guia mais didático aos leitores sobre os cânones, a autora classifica todos os livros analisados em três categorias: importância (histórica), acessibilidade (o quanto é fácil lê-los e, principalmente, entendê-los) e diversão (o quanto é possível se divertir com a leitura). As notas vão de 1 a 10. Segundo estes critérios, obras como "Ilíada", "Odisseia", "Decamerão" e "Crime e Castigo", por exemplo, recebem pontuação máxima em importância. Já "Fausto" de Goethe recebe nota 3 no quesito diversão (ou seja é chatíssimo). Ele só é superado em chatice [pr The "Confidence Man" (não traduzido para o português) de Herman Melville. Esta foi a obra mais chata avaliada por Sandra Newman (nota 1). "Ulisses" de James Joyce é apontado como o livro mais incompreensível (nota 1). "Joyce simplesmente inventou uma maneira interessante de tornar muito difícil a leitura de um romance realista" é a conclusão da autora.

Admito que li vorazmente esta obra. Minha pretensão inicial era ler um capítulo por noite, para degustá-lo com calma e bem (como se fosse uma caixa de um bombom saborosíssimo). Não consegui. Engoli a caixa de doce inteira em três noites. É claro que fiquei os dias seguintes um tanto assonado (mas com um sorriso no rosto lembrando as partes mais engraçadas do que havia lido).

O único defeito do livro (acreditem, achei um!) é focar quase que exclusivamente na literatura francesa e inglesa, transformando-as em sinônimos de literatura ocidental. É verdade que "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" abre exceções para os maiores nomes da poesia e do romance alemão, russo, espanhol, italiano e grego. Porém, mesmo assim, a impressão é que se não fossem os ingleses, os franceses e os norte-americanos ainda estaríamos praticando a arte rupestre. Como assim não citar Luís Vaz de Camões e sua obra-prima "Os Lusíadas"? Por que excluir totalmente o Realismo Fantástico Sul-Americano? Como é possível não analisar alguém como Jorge Luis Borges (ele só aparece na hora de analisar os escritores europeus e norte-americanos). Até onde sei, a América do Sul e Portugal ainda ficam no lado ocidental do planeta, né?

Tirando este detalhe, este livro é para ser colocado na cabeceira de todo amante (principiante) de literatura. Trata-se de uma obra imprescindível para quem deseja iniciar os estudos dos clássicos da cultura europeia e norte-americana. Coloco essa resalva porque o conteúdo de "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" é um tanto superficial (para quem já está estudando ou trabalhando neste campo há muitos anos). A biografia dos autores, a análise dos cânones, a descrição do contexto histórico e análise das correntes literárias são bem resumidas. Esta brevidade é o que torna o ritmo do livro rápido e interessante. Por isso, não espere encontrar aqui análises profundas (não é esta a intenção da autora).

Sandra Newman, sou agora seu fã incondicional. E "História da Literatura Ocidental Sem as Partes Chatas" foi, com certeza, uma das obras mais prazerosas que li no ano passado.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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