• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Sérgio


Darico Nobar: Olá, amigos e amigas que curtem o melhor programa de literatura da televisão brasileira. Saibam que o Talk Show Literário está de volta! E na primeira entrevista desta segunda temporada, vamos receber a visita do narrador-protagonista de O Ateneu, clássico de Raul Pompéia. Sérgio, seja bem-vindo à nossa atração! [Palmas do público recepcionam o entrevistado que caminha até o centro do palco].

Sérgio: Oi, pessoal. Boa noite, Darico.

Darico Nobar: Fico feliz que você tenha aceitado o convite para esta conversa. Sei o quanto você é um homem tímido e reservado, avesso aos holofotes. Exatamente por isso, gostaria de começar a entrevista perguntando sobre os motivos que o levaram a escrever um romance tão polêmico. Qual era sua real intenção ao desnudar os comportamentos dos seus antigos colegas e professores do colégio interno?

Sérgio: Sempre vivi atormentado pelas lembranças do período escolar. Tudo culpa do que tive de passar nos dois anos de Ateneu. Lembrem-se: eu era apenas uma criança inocente quando fui atirado naquele lugar. Uma vez adulto, resolvi me vingar de todos que, de alguma forma, me castigaram ou me prejudicaram. Escrevi as histórias mais sórdidas de cada um dos meus antigos inimigos para exorcizar meus demônios internos e para mostrar as injustiças das quais fui vítima.

Darico Nobar: Você se orgulha dessa vingança ou já se arrependeu de ter exposto tanta gente a situações e episódios tão embaraçosos?

Sérgio: Não me arrependo de nada. Afinal, escrevi um romance que, em todo caso, é uma trama ficcional. Que mal pode haver em simples páginas impressas de uma história fictícia de uma criança?! Para amenizar, alterei os nomes verdadeiros das personagens. Fui, portanto, muito bonzinho com todos. Se fosse verdadeiramente vingativo, poderia ter feito coisas muito piores. Há ex-alunos que, para se vingarem do bullying sofrido no passado, voltam para suas antigas escolas e fuzilam a queima-roupa estudantes e professores. Outros preferem cometer suicídios, incapazes de conviver com as lembranças da infância e da adolescência. E tem aqueles que colocam fogo na instituição de ensino que odeiam. Não fiz nada disso. Escrevi simplesmente um livro, contribuindo para a cultura do nosso país. Transformei minha amargura em produto artístico. Se todos fizessem isso, o Brasil seria uma potência literária.

Darico Nobar: Nesse sentido, você tem razão. E como foi sua vida, Sérgio, depois de ter saído do Ateneu? Em que você foi trabalhar?

Sérgio: Concluí meus estudos em outro colégio interno. Meu pai até tentou me colocar em uma escola convencional, mas não me adaptei. Sentia muita falta dos tipos de colega e do clima de um internato. Uma vez concluída a escola, fui para o Exército.

Darico Nobar: E como era seu dia a dia servindo as Forças Armadas?

Sérgio: O Exército é muito parecido com os colégios internos. Há várias pessoas mandando e desmandando em você. E temos infinitas regras de comportamento para seguir. Também existem intensas rixas entre os soldados. Parece que um quer comer o outro vivo. Se você não encontra alguém mais experiente, mais forte ou com maior patente para ser seu protetor, fica difícil sobreviver naquele clima tão bélico.

Darico Nobar: Você, então, desaconselha os jovens a ingressarem nas Forças Armadas?

Sérgio: Não! Pelo contrário. Incentivo todos a se alistarem. Adorei os anos que passei por lá. Tive intensas relações com os rapazes que me protegiam. Eles me introduziram à vida adulta. O Exército é uma importante escola de formação masculina. Você aprende tanta coisa interessante e ainda perde os medos bobos da adolescência. Para completar, as Forças Armadas só têm rapazes fortes e sarados. Uma vez que você passa a tomar banho com eles diariamente, você nunca mais se acostuma a viver sem os amigos por perto.

Darico Nobar: São boas as lembranças desse período, certo?

Sérgio: Claro! Foi uma época de tantas amizades leais. Um protegendo o outro do frio e dos perigos da selva. Todos se dando mutuamente carinho e companheirismo. Para um homem progredir na vida, ele precisa obrigatoriamente da mão amiga e de um parceiro dando uma forcinha por trás. Foi nesse período como cabo que desabrochei e descobri minhas preferências.

Darico Nobar: E quais são essas preferências?

Sérgio: Descobri que gostava de... Gostava de... Ah, Darico, fico um pouco acanhado de dizer isso na frente das câmeras.

Darico Nobar: Pode se abrir para a gente, Sérgio. Somos seus amigos.

Sérgio: Eu gosto mesmo é de minas.

Darico Nobar: Mulher, você quer dizer?

Sérgio: Não! Aff! [Balança as mãos para baixo, em sinal de desaprovação]. Eu percebi que adorava trabalhar com mineração. Como é linda uma mina de extração mineral, com vários homens suados e sem camisa cavocando os buracos mais sensíveis da natureza. Por isso, fiz faculdade de engenharia e fui trabalhar na extração de minério de ferro em minas no interior do país.

Darico Nobar: Você trabalha até hoje com isso ou já se aposentou?

Sérgio: Aposentei há algumas décadas. Antes, atuei também em plataformas de petróleo em mares profundos. Era ali que passava vários meses do ano.

Darico Nobar: Viver confinado por muito tempo em ambientes exclusivamente masculinos e distantes da família não o incomodava?

Sérgio: Podia incomodar quem não estava acostumado ou quem não compreendia os prazeres das relações entre os homens. Nada contra as mulheres, por favor. Mas, os ambientes onde elas predominam são geralmente cercados de intrigas, picuinhas e baixo índice de lealdade. No universo masculino é diferente. Os homens se dão muito mais entre si. Todos se tornam amigos e companheiros. Passar os dias e as noites entre eles era divertidíssimo. O segredo da felicidade está em não ligar para os preconceitos sociais e ter a ousadia de buscar sempre algo novo com seus parceiros.

Darico Nobar: Sérgio, você é ou foi casado? Tem filhos e netos?

Sérgio: Nunca me casei. Também não tive filhos. Jamais encontrei, nesses mais de cem anos de vida, uma única mulher que me motivasse a subir ao altar e que me encorajasse a constituir uma família.

Darico Nobar: O que você tem a falar sobre os eternos boatos a respeito da sua sexualidade? Desculpe perguntar sobre isso, mas você é mesmo homossexual?

Sérgio: Fico entristecido quando, em pleno século XXI, as pessoas ainda querem rotular o indivíduo pelos seus hábitos sexuais. Que diferença faz para a literatura se sou homo, hétero ou bissexual? Nenhuma! Por isso, me recuso a sair do arma... Ou melhor, recuso-me a divulgar qualquer aspecto da minha vida pessoal.

Darico Nobar: Respeito essa sua postura. Ninguém tem nada a ver com isso. Outra pergunta: como você vê a educação brasileira nos dias de hoje?

Sérgio: Infelizmente, o sistema educacional brasileiro é precário e seus resultados são nulos. Ninguém parece se preocupar com o desenvolvimento dos meninos e das meninas em nosso país. As escolas são negligentes, as famílias são omissas e o governo é desinteressado. Outro dia, visitei um colégio público aqui no Rio de Janeiro e ninguém tinha ouvido falar de mim nem de minha obra. O Ateneu era, ali, um livro completamente desconhecido pelos estudantes do último ano do ensino médio.

Darico Nobar: Se você fosse ministro da Educação, o que faria para melhorar a realidade de nossas escolas?

Sérgio: A primeira providência seria voltar com os colégios internos. A educação em um internato é infinitamente superior à oferecida pelas escolas tradicionais. No colégio interno, as crianças se desenvolvem plenamente, tanto em relação ao conhecimento técnico quanto ao componente moral. A segunda medida seria separar meninos e meninas em instituições de ensino diferentes. Essa mania moderna de promover a igualdade de gêneros é um absurdo! Meninos devem aprender coisas de meninos e devem viver exclusivamente com seus amiguinhos. Meninas devem aprender coisas de meninas e devem conviver apenas entre si. Para terminar minha reforma educacional, a terceira ação seria promover a volta dos castigos físicos. Quando eu era criança, achava-os errados, injustos e improdutivos. Hoje, vejo que sou o homem bem-educado e integrado à sociedade por causa da mão pesada dos meus professores e diretores. Ameaça, violência, punição e autoritarismo são importantes recursos pedagógicos que jamais podem cair em desuso. Tenho pena das escolas e dos professores que não utilizam esses expedientes. Também tenho dó dos estudantes que não são criados com um pulso forte nem com a ameaça de uma chibata.

Darico Nobar: Essa visão educacional é um tanto polêmica, você não acha?

Sérgio: Pode ser polêmica, mas funciona. Não adianta os pedagogos chegarem com muito mimimi e, na hora do vamos ver, a escola moderna não entregar absolutamente nada do que prometeu. Prefiro o jeito antiquado e politicamente incorreto, mas que funcione na prática.

Darico Nobar: De qualquer forma, ainda sim essa visão ortodoxa pode assustar as pessoas... [Fala arregalando os olhos como se ele próprio fosse um desses opositores da escola proposta pelo entrevistado]. Sérgio, muito obrigado pela sua entrevista. [Plateia aplaude o entrevistado que retribui com acenos de mão tímidos]. O Talk Show Literário de hoje fica por aqui. [O apresentador fala olhando diretamente para a câmera 1]. Muito obrigado pela sua companhia e pelo seu carinho. Até a semana que vem.

Sérgio: Que ótimo, Daricuzinho! [O convidado dá um pulo de alegria e abraça o entrevistador]. Se você está me convidando para voltar é porque você adorou minha entrevista, né?! Acho que posso vir na semana que vem. Vou adiar um ou outro compromisso, mas estarei sem falta aqui. Sobre o que vamos conversar na próxima entrevista?

Darico Nobar: Não, Sérgio! Não o convidei. [Meio constrangido, tenta se afastar do entrevistado que insiste em abraçá-lo]. Eu apenas avisei o público em casa para ver o próximo programa. Já temos todos os entrevistados agendados até o final dessa temporada. Não podemos recebê-lo outra vez, ainda mais de maneira seguida.

Sérgio: Então, você não gostou de mim?! [O convidado faz cara de choro].

Darico Nobar: Gostei sim. Só não dá para repetir o entrevistado toda semana.

Sérgio: É assim que você me trata?! Usa uma vez e joga fora. Cavalo! Insensível! Saiba que eu sou muito vingativo! Você vai se arrepender por ter me tratado tão mal.

Darico Nobar: Pessoal, boa noite. [O apresentador fala outra vez olhando para a câmera. Créditos começam a subir na tela]. Hoje, nós ficamos por aqui. Tchau! [Vira-se para o convidado]. Sérgio, não fique bravo, você entendeu tudo errado.

Sérgio: Não adianta vir agora com desculpinhas. Você me desrespeitou na frente do Brasil inteiro. Não admito que me tratem assim. Sou uma personagem famosa da literatura e exijo mais... [A imagem do programa é cortada e uma nova atração da emissora entra no ar].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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