• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: G.H.


Darico Nobar: Boa noite! Você que nos assiste de casa não pense em trocar de canal. Não há programa melhor do que o Talk Show Literário em sua televisão. Hoje, nossa convidada é uma das personagens mais enigmáticas de Clarice Lispector. Com vocês, G.H! [Os aplausos do público dão as boas-vindas à entrevistada].

G.H.: Olá, D.N. Olá, pessoal!

Plateia: Ooooooooooooooi! [O auditório responde em um coro animado e orquestrado]!

Darico Nobar: G.H., você não se incomoda quando...

G.H.: Admito que é estranho estar diante de tanta gente. Estou mais acostumada a ficar em meu apartamento sozinha. Como é bom ficar na minha cobertura refletindo tranquilamente sobre a vida e analisando a condição humana. Sinceramente, não sei como reagirei a esta sessão de perguntas. Curiosa essa situação, né? Quando estou pensando no aconchego do meu lar, consigo divagar sobre todos os temas relevantes da nossa existência sem qualquer receio. Porém, quando interrogada, posso perder o foco do debate ou não ser tão profunda na análise do tema discutido. Para não cair nesse erro, vou logo avisando que não me responsabilizo pelo resultado final da nossa conversa. Não tenho prática nenhuma nesse negócio de diálogo.

Darico Nobar: Nós vamos falar sobre isso. Contudo, agora, gostaria de começar a entrevista tratando...

G.H.: Você tem razão, D.N. Às vezes, sou um pouco impaciente. Talvez ansiosa ou um tanto precipitada. E quem nos dias de hoje não sofre desses males, não é mesmo? Muitas vezes começo a falar sem me preocupar com a ordem natural das coisas, atropelando um pouco os assuntos e divagando infinitamente. Não acho isso de todo ruim. Início, meio e fim são termos subjetivos, né? O começo de algo pode ser o desfecho de outro fato, enquanto um final pode representar o início de outro acontecimento. Quem pode precisar exatamente onde tudo começa ou termina? Impossível! É tudo mesmo muito relativo nessa vida.

Darico Nobar: Sim, G.H. Esta é uma entrevista e gostaria de perguntar como você vê a questão...

G.H.: Esse talvez seja o principal paradoxo dos programas de entrevista. O único recurso do entrevistador é ficar fazendo perguntas para o convidado. Você já reparou nisso? Toda a verdade a respeito de algo está na opinião ou nos valores pessoais de quem é entrevistado. E se ele estiver equivocado ou não souber a resposta correta?! E se ele não quiser colaborar? Para piorar, o próprio protocolo desse tipo de programa inibe a comunicabilidade. Engraçado pensar nisso, né? A relação interpessoal baseada exclusivamente no questionamento unilateral empobrece a discussão. O entrevistador prepara um conjunto de perguntas com o pseudopropósito de guiar a conversa e de estimular o convidado. Será mesmo que esse comportamento ajuda no debate sadio? Tenho lá minhas dúvidas. Se o entrevistado quiser abordar outros temas mais interessantes e enriquecedores para o público, ele acaba podado pelo apresentador do programa, tendo sua iniciativa frustrada. Quando o convidado responde mecanicamente aos questionamentos, acabamos perdendo a riqueza, a pluralidade e a espontaneidade da discussão. Por isso, acho que o ideal seria deixar o convidado falar livremente. O monólogo reflexivo é uma maneira intensa de explanação e de troca de informações. A psicanálise usa esse recurso com propriedade há muito tempo. Não gosto das entrevistas tradicionais porque elas se parecem com interrogatórios policiais. Ainda bem que você, D.N., não é um entrevistado chato que fica tentando cortar a fala do convidado. Vivemos em uma democracia e temos o direito à livre expressão.

Darico Nobar: Concordo com você, mas este é um programa de entrevistas e eu preciso perguntar algumas coisas.

G.H.: Já sei! Você quer saber o meu verdadeiro nome, não é? Esse é o tipo de pergunta que se espera dos entrevistadores. Às vezes, vocês, âncoras dos talk shows, são tão previsíveis. Não sei como o público aguenta assisti-los. Qual o problema de eu me apresentar apenas pela sigla?! Isso é tão comum. Veja o caso do FHC e do JK. Alguém pode até me interpelar: "Na literatura não pode! Todas as personagens ficcionais precisam ter um nome". Não concordo. Alguém, alguma vez, já questionou Franz Kafka por ele ter chamado um de seus protagonistas de K.? Claro que não! Além do mais, acho tão bonito G.H. A sonoridade dessas letras dá um tom de mistério à minha personalidade. Acho melhor assim do que ser conhecida por algum apelido pejorativo, como muitos brasileiros gostam de fazer. Há inclusive personagens nacionais que são mais lembradas pelos seus apelidos jocosos do que pelos seus verdadeiros nomes. Acho horrível essa situação! Nunca dei liberdade para meus leitores me chamarem de forma carinhosa ou com qualquer intimidade. Cheguei até a pensar em assinar o romance como Senhora G.H. Acho que seria mais apropriado.

Darico Nobar: E...

G.H.: Lá vem você questionar o porquê falei romance e não novela. A Paixão Segundo G.H. pode ser encarada tanto como romance quanto como novela. A própria Clarice Lispector nunca se preocupou com essa questão, chamando a obra simplesmente de "coisa". Na primeira vez que a ouvi falar assim, confesso que fiquei um pouco ofendida. Depois compreendi sua intenção. Ela queria acabar de uma vez por todas com a polêmica vazia sobre a classificação da narrativa. Entretanto, eu gosto de pensar o livro como um romance. Apesar de ter poucas personagens e um enredo curto, creio na complexidade psicológica da sua trama.

Darico Nobar: Por que você comeu uma barata?! [Sua fala sai bem rápida]!

G.H.: Não precisa falar tão depressa. Até parece que vou sair correndo... Também não sou surda, tá! Não grite comigo. Fale normal que eu respondo às suas perguntas. Essa questão da barata é realmente muito controversa. Já ouvi muita gente falando: "Li sua história até o momento em que aparece a barata. Tenho pavor de insetos! Não aguentei e fechei o livro na hora. Nunca mais consegui lê-lo". Há quem tenha me confessado: "A cena em que você morde a barata é tão nojenta que fiquei com ódio do livro. Isso não é algo que se faça com os leitores". Geralmente, quem tem essas reações de repulsa são as mulheres. Até mesmo as mulheres mais independentes, bem-sucedidas e poderosas tornam-se menininhas tolas e frágeis quando se deparam com uma barata. Aí não tem feminismo que aguente. Foram séculos e séculos de empoderamento feminino para um insetinho insignificante destruir tudo em uma fração de segundos.

Darico Nobar: Por que você...

G.H.: Desculpe interrompê-lo, mas preciso falar antes que eu esqueça. Tenho um pequeno probleminha de memória e se eu não falar imediatamente, pode ser que nunca mais recorde o que ia falar. Você como entrevistador me entende, né? A prioridade é sempre do entrevistado, certo? Fique tranquilo que assim que disser o que pensei, eu passo a palavra para você. Não sou daquele tipo de pessoa que começa a falar e desembesta, não dando vez para mais ninguém. Nada é mais desagradável do que conversar com um sujeito que não ouve a gente... Mas o que eu ia falar mesmo? Não acredito. Esqueci! Não falei para você não me interromper, D.N. Se você não tivesse me atrapalhado com essa sua mania de querer me perguntar as coisas, eu não teria esquecido. Nunca mais vou lembrar o que eu ia falar...

Darico Nobar: Você estava falando da barata e das mulheres, ou algo assim.

G.H.: Isso mesmo! Obrigada. Lembrei. O que queria falar é que o pior pesadelo para uma mulher, mesmo em pleno século XXI, é o aparecimento de uma barata em sua casa. Se estivermos sozinhas, a situação pode se tornar mais traumática. Sabendo disso, pensei em acabar de vez com esse temor. Os psicólogos falam que é preciso encarar os medos de frente. Foi o que fiz. Matei a barata e ainda por cima resolvi comê-la. Esse gesto praticamente me libertou de todas as minhas angústias, das minhas preocupações e dos meus receios. Repare que não engoli o bicho de uma vez. Não! Mordi provando cada sabor do líquido branco que ele expelia. A partir de então, me tornei uma mulher mais livre e forte. Hoje, consigo encarar a vida de maneira mais leve e lúcida.

Darico Nobar: Você repetiu esse ato alguma outra vez? [Novamente, fala de forma acelerada, engolindo algumas sílabas e expelindo um pouco de saliva].

G.H.: Nunca mais uma barata entrou em minha residência depois daquele dia. Pelo menos, eu nunca mais achei nenhuma por lá. Quando a gente consegue extirpar nosso medo, o universo passa a girar de outra maneira. Quem sabe não são as baratas que agora têm medo de mim. Porque a notícia que eu devorei uma deve ter se espalhado pela comunidade de insetos da cidade. Assim, elas passaram a temer a minha pessoa, fugindo da minha vista. Esse é o grande conceito da antropofagia: devore seu inimigo e torne-se mais forte do que ele. Desde então, aconselho todas as mulheres a comerem uma barata o quanto antes. Só assim, elas poderão se livrar do sentimento de nojo e de medo que as persegue.

Darico Nobar: G.H., infelizmente o nosso tempo...

G.H.: Estou vendo a plaquinha que levantaram para você. Não sou analfabeta! [Olha para um dos lados, verificando o que se passa em seu entorno]. O tempo do programa está no fim, né? Eles estão pedindo para você se despedir de mim e para me agradecer pela minha presença no programa. Não precisa fazer isso. Eu mesmo me despeço do público. Pessoal, tchau. Boa noite!

Plateia: Booooooooooooa noiiiiiiiiiiiite!

G.H.: Agora a plaquinha está dizendo para você encerrar o programa e falar que o Talk Show Literário voltará na semana que vem nesse mesmo horário. É esse o nome do programa? Talk Show Literário... Não gostei. É um nome muito formal. Além disso, a maioria das palavras está em inglês. Não gosto desse estrangeirismo. Devemos valorizar mais os símbolos nacionais. Qual o problema do nosso idioma natal?

Darico Nobar: Esse nome foi...

G.H.: Lá vem você com alguma explicação esfarrapada. Não quero ouvir suas desculpas, tá? Eu já disse que não gostei do nome e nada vai mudar minha impressão a esse respeito. Você, às vezes, parece meu ex-marido, tentando justificar o injustificável... Acho que não falei dele ainda hoje, né? Ele era o tipo de homem que... [O microfone da entrevistada é cortado].

Darico Nobar: Galera, até o próximo Talk Show Literário. Boa semana para todos! [Com o encerramento do programa, o apresentador se levanta da sua poltrona para ir embora. É possível ver a convidada ainda sentada no sofá falando...].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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