• Ricardo Bonacorci

Livros: A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar - O humor por Ricardo Araújo Pereira


Como se produz o humor?! Essa pergunta tira o sono de muitos escritores, roteiristas e artistas. E foi justamente essa indagação o que motivou Ricardo Araújo Pereira, um dos mais famosos comediantes portugueses da atualidade, a estudar a fundo o tema. As análises e as pesquisas de Ricardo resultaram no livro "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" (Tinta da China). Esta obra pode ser classificada como um manual teórico da produção humorística. Esse, por um acaso, é o subtítulo da publicação. A hilaridade, portanto, discutida em "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar - Uma Espécie de Manual da Escrita Humorística" já começa em seu nome um tanto estrambólico.


Com muito bom humor (presente tanto no texto quanto no projeto gráfico da obra), com análises profundas sobre a questão debatida, com uma linguagem acessível e com citações de situações engraçadas extraídas da TV, da literatura, do teatro, das artes plásticas e da vida comum, Ricardo Araújo Pereira apresenta um ensaio interessantíssimo sobre as engrenagens da dinâmica do riso. Impossível não concordar com sua visão e com suas explanações sobre as diferentes estratégias cômicas.


Este livro é espetacular! Li "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" no último final de semana e fiquei encantado com seu conteúdo. Com apenas 120 páginas, é possível ler esta obra em uma batida só. Devo ter levado aproximadamente uma hora e meia, duas horas para concluí-la integralmente.


O livro é voltado para escritores (contistas, cronistas, novelistas, romancistas, roteiristas, dramaturgos, poetas e ensaístas), cineastas, músicos, publicitários e jornalistas que desejam entender o funcionamento do humor. Vale a pena dizer que o texto cômico é uma das narrativas mais difíceis de ser produzida. Muita gente experiente e talentosa na literatura considera a trinca textual mais complexa de ser feita aquela composta por terror, humor e cenas de sexo. Apesar desse direcionamento aos profissionais da escrita, o livro de Ricardo Araújo Pereira é também acessível aos leitores de todos os tipos, que podem degustá-lo sem problema nenhum.

Publicado em dezembro de 2016 em Portugal, "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" foi lançado no ano seguinte aqui no Brasil. Nascido em Lisboa, em 1974, Ricardo Araújo Pereira foi um dos destaques da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016, quando divertiu a plateia com seu humor singular. Criador do "Gato Fedorento", grupo cômico nascido no stand-up comedy e que se tornou um clássico da televisão lusitana, Ricardo tem atuação destacada na TV, no rádio, na mídia impressa, na Internet e na literatura de seu país.


"A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" está estruturado em nove capítulos. No primeiro, chamado de "Preâmbulo Relativamente Inútil", o autor apresenta as três teorias clássicas do humor (Teoria da Superioridade, Teoria da Percepção das Incongruências e Teoria da Descarga de Energia Psíquica) e, logo depois, detalha cada uma delas. No segundo capítulo, "Considerações um Pouco Mais Proveitosas", Ricardo Araújo Pereira explica a função do humor em nossas vidas. São muito legais as conclusões que ele chega. Entre elas temos: comédia é uma forma especial de tragédia, com a diferença que se acrescenta certa distância à narração dos fatos ocorridos; fazer rir é fácil ou é impossível (não há meio termo para o escritor); e humor é um modo especial e raro das pessoas olharem para as fatalidades da vida e do cotidiano.


Nos seis capítulos seguintes, "Opor Uma Coisa a Outra Coisa", "Imitar Uma Coisa", "Virar Uma Coisa de Pernas Para o Ar", "Aumentar Uma Coisa", "Mudar Uma Coisa para Outro Sítio" e "Repetir Uma Coisa", o comediante apresenta as seis estratégias possíveis para se provocar o riso no público. As estratégias são nomeadas como os títulos de seus capítulos.

E na parte derradeira do livro, "Últimas Palavras", temos o fechamento dos argumentos do autor. Nesse capítulo final, Ricardo Araújo Pereira conclui que fazemos graça das coisas como uma forma de espantar o medo da morte. O riso, portanto, seria um mecanismo de alívio às angústias existenciais do ser humano. O bom humor serve, acima de tudo, para anestesiar a dor e o sofrimento da vida cotidiana. Sensacional essa abordagem!


Apesar de estar escrito em português de Portugal, algo que poderia atrapalhar a leitura de alguns brasileiros, "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" é um livro totalmente compreensível para os leitores de nosso país. A editora brasileira publicou por aqui a versão sem adaptações do original lusitano. Quem gosta do uso tradicional do nosso idioma (como eu), esse é mais um tempero interessante para a leitura. Como o português do velho continente é bonito, hein? A única palavra da obra que não conhecia (e que está presente logo no comecinho do primeiro capítulo) é "caraça".


O ponto forte desta publicação está na mistura impecável de bom humor (a especialidade de Ricardo Araújo Pereira - ele não fica apenas na teoria e contamina seu texto com esse expediente maravilhoso) com um estudo rico sobre o tema. Além disso, assistimos durante os capítulos a um vasto número de exemplificações, o que torna tudo mais didático e relacionado ao nosso dia a dia. Ou seja, o texto do livro consegue ser ao mesmo tempo engraçado, profundo (apresenta teorias oriundas dos gregos antigos e da psicanálise freudiana, por exemplo) e com várias citações da cultura popular (canção de Chico Buarque, episódios do seriado Seinfeld, cenas dos filmes de Monty Python, etc.). Impossível não gostar desta leitura.


Repare também na beleza do projeto gráfico do livro. Seu visual é divertido e está compatível com o conteúdo/proposta da obra. A impressão é que a medida em que vamos virando as páginas, mais e mais novidades nos são apresentadas através dos elementos visuais.

Esta é uma leitura obrigatória para quem escreve humor ou para quem deseja iniciar nesse difícil ofício. Ler Ricardo Pereira de Araújo é um exercício muito bom para ver como se faz isso com naturalidade e com profundidade conceitual.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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