• Ricardo Bonacorci

Livros: Deixe-me em Paz - O polêmico best-seller de Murong Xuecun


Já dizia a letra da música de Roberto Carlos: "E como vou saber/O que eu devo fazer/Que culpa tenho eu?/Me diga amigo meu/Será que tudo/O que eu gosto/É imoral, é ilegal/Ou engorda...". Lembrei-me desses versos ao ler, no último domingo, "Deixe-me em Paz" (Geração), best-seller do chinês Murong Xuecun. Considerado um dos mais polêmicos romances asiáticos da última década, esse livro foi proibido em seu país natal (proibição ainda em voga). A implacável censura da República Popular da China achou que "Deixe-me em Paz" passou dos limites ao expor a crueldade de uma sociedade corrupta, violenta, gananciosa, imoral, individualista e extremamente consumista. Basicamente, todas essas características são valores modernos de um país cada vez mais capitalista e menos comunista, em oposição às tradições seculares da sociedade chinesa.


E como ninguém resiste a algo imoral e ilegal (Roberto, você tem razão: a mistura de depravação com proibição é um afrodisíaco poderoso!), o livro foi um sucesso retumbante tanto em seu país natal (quem disse que a censura imposta pelas autoridades chinesas surtiu o efeito desejado, hein?) quanto no exterior, virando um best-seller internacional. Estava, assim, iniciada a construção de uma das mais incríveis e inusitadas carreiras literárias deste século.


Impossibilitado de editar seu romance na China, Murong Xuecun (pseudônimo de Hao Qun, autor nascido em 1974) publicou inicialmente a obra apenas na Internet. Milhões de leitores foram atraídos para o blog do escritor. O boca a boca foi a melhor propaganda da trama seca e mordaz que encantou rapidamente os jovens chineses ávidos por uma literatura diferente e empolgante. Com o sucesso doméstico, editoras europeias e norte-americanas foram seduzidas a publicar o romance censurado, mas que atraía um grande contingente de leitores.

Assim, "Deixe-me em Paz" foi lançado no exterior. Rapidamente a obra ganhou o status de best-seller mundial, atraindo a atenção de leitores dos quatro cantos do planeta. Por consequência, Murong tornou-se um premiado escritor. Em 2009, "Deixe-me em Paz" e seu escritor foram finalistas do Man Asian Literary Prize. Esta obra de Murong deu origem, anos mais tarde, a uma série literária. Chamada de "Trilogia de Chengdu", a saga do personagem principal continua pela moderna China capitalista do tempo atual.


"Deixe-me em Paz" narra em primeira pessoa os dramas de Chen Zong. Morador da cidade de Chengdu (daí o nome da trilogia), a quinta mais populosa da China, o protagonista tem aproximadamente trinta anos e trabalha como gerente de vendas de uma empresa de autopeças. Ambicioso, mulherengo, desonesto e adepto a uma boa maracutaia, Chen Zong relata a séria crise pela qual está vivendo. Para ser preciso, o rapaz está passando por várias crises ao mesmo tempo, cada uma relativa a um campo de sua vida.


No aspecto profissional, ele vê seu pior inimigo dentro da empresa, Gordo Dong, ser alçado ao posto de gerente geral da fábrica. Assim, inicia-se um intenso combate entre os dois para ver quem primeiro puxa o tapete do outro. Na esfera particular, a vida de Chen está um inferno. O casamento com Zhao Yue parece caminhar para o divórcio. Enquanto trai a esposa com todas as mulheres que vê pela frente, o narrador desconfia que também esteja sendo enganado. A suspeita é que Zhao Yue tenha um amante.

Para piorar as coisas (sim, sempre é possível piorar!), Chen Zong ainda engravida Ye Mei, a noiva de seu melhor amigo, Li Liang. Em pouco tempo, as amizades de mais de uma década do rapaz com Li Liang e com Cabeção Wang (seu segundo melhor amigo) serão postas à prova. Para encerrar o drama, uma dívida milionária tira o sossego da personagem principal. Chen Zong deve uma fortuna. Se esses antigos compromissos financeiros não forem pagos no curto prazo, ele irá à bancarrota.


Como esse herói chinês irá superar tantas adversidades em tão diferentes frentes? Essa é a dúvida que temos como leitores. A opção de Chen Zong é fazer algo que ele está bem acostumado desde a infância: aprontar mais e mais. O remédio para cada coisa que ele aprontou e não deu certo é uma nova maracutaia, ainda mais criativa e indecente do que a anterior. Assim, a bola de neve de problemas acaba só se avolumando interminavelmente. Aqui está a graça tragicômica desta história.


Chen Zong é um homem antiético, egoísta e profundamente hedonista. Ele não pensa duas vezes antes de: propor um aborto para a jovem amante; solicitar uma propina para os fornecedores da companhia onde trabalha; fraudar notas fiscais de despesas de viagem; espionar descaradamente a intimidade da esposa; e criar um escândalo sexual que prejudique um rival. Como ninguém é de ferro, enquanto apronta tudo isso, Chen não resiste às boas bebedeiras e às noites de jogatina desenfreada. Também vai para a cama com todas as mulheres que pintam a sua frente. Para isso não há o menor critério. Suas parceiras sexuais podem ser meninas menores de idade, prostitutas, velhas gordas e esposas dos amigos. “Sendo mulher, que mal tem?”, pensa o anti-herói de “Deixe-me em Paz”.

A literatura e o protagonista de Murong Xuecun são parecidos aos de Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna e Reinaldo Moraes, por exemplo (para limitarmos as comparações à ficçao brasileira). Nesse sentido, “Deixe-me em Paz” pode ser visto como a versão chinesa de “Pornopopéia” (Objetiva). As semelhanças de Chen Zong com José Carlos Ribeiro, o polêmico protagonista do romance de Reinaldo Moraes, são incontáveis. Com muita violência, sarcasmo, sexo, corrupção, sabotagem e referências à cultura pop, a trama de Murong narra com uma sinceridade incômoda o submundo de uma metrópole chinesa atual. Enquanto Chengdu é o retrato da Nova China, Chen Zong escancara um tipo de homem sórdido que não pensa em mais nada além de si próprio, em suas vontades e em como subir na vida.


Com pouco mais de 300 páginas, "Deixe-me em Paz" é uma leitura saborosa (obviamente para quem gosta de se aventurar pelo mundo-cão) e rápida. Li o livro inteiro no domingo. A trama é muito bem escrita e prende o leitor desde o início. É impossível parar de lê-la. O humor do texto, as confusões do enredo e a personalidade contraditória do protagonista (um típico caso de anti-herói que é "adotado" pelos leitores, que passam a torcer por ele, independentemente de suas ações) dão um colorido especial ao romance. Portanto, não é à toa que "Deixe-me em Paz" tenha ganhado tantos prêmios internacionais e tenha virado um best-seller mundial. Sua história é muito boa e foi muito bem construída pelo autor. Fiquei com vontade de ler a sequência da saga de Chen Zong. Infelizmente, o restante da "Trilogia de Chengdu" ainda não foi publicado no Brasil.


O único ponto negativo deste livro que identifiquei durante a leitura está nos confusos nomes chineses. Os leitores brasileiros, não acostumados com os nomes próprios tipicamente chineses, podem se confundir um pouco. Em vários momentos, confesso que acabei me perdendo. "Quem é quem?" e, principalmente, "Quem é essa personagem que está sendo citada agora?" foram as perguntas que me fiz em algumas páginas. Porém, nada muito sério que estrague a compreensão do todo e a experiência literária.

Atualmente, Murong Xuecun vive nos Estados Unidos e escreve para o New York Times. Considerado um dos principais críticos da censura e da falta de democracia na China, o escritor transformou-se em um importante militante a favor da liberdade de expressão em seu país natal. “Deixe-me em Paz” também se tornou um dos principais títulos da literatura chinesa contemporânea. Vale a pena conhecê-lo.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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