• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Fabiano


Darico Nobar: Boa noite, pessoal. O Talk Show Literário de hoje está no ar! Neste programa, vamos trazer o mais famoso sertanejo dos nossos romances. Essa criação de Graciliano Ramos é capaz de resistir a todas as adversidades, sejam elas do ambiente inóspito ou das injustiças provocadas pelo "bicho homem". Com vocês, Fabiano! [Os aplausos da plateia ecoam com grande intensidade, mas mínguam logo em seguida].

[Ninguém aparece no palco do auditório].

Darico Nobar: Fabiano, pode entrar. Venha para cá, por favor!

[Não há nenhum movimento que indique a presença do convidado nos estúdios da emissora. Por alguns segundos, o silêncio é total no auditório].

Darico Nobar: Fabiano, cadê você?! Produção, onde está o nosso entrevistado?

Produção: Ele está aqui sim, Darico. [A voz vem de algum alto-falante]. Está posicionado na entrada do auditório, mas não se mexe. Parece paralisado. Alguém poderia ajudá-lo a chegar até o palco?

Darico Nobar: Deixem comigo. Eu o trago para cá.

[O âncora do talk show sai de sua posição original e se dirige para a parte de trás do estúdio. Alguns segundos depois, ele reaparece ao lado de Fabiano. A plateia aplaude a entrada da dupla. Entrevistado e entrevistador sentam-se em frente às câmeras de televisão no centro do palco].

Darico Nobar: Fabiano, quase que você se perde dentro dos nossos estúdios, hein? Seria uma ironia e tanto já que você fez, ao lado de sua família, uma caminhada de milhares de quilômetros entre o Nordeste e a cidade de São Paulo. Curioso isso, não?

Fabiano: É.

Darico Nobar: Já que citei sua família, quero começar nosso bate-papo perguntando sobre eles. Como estão todos? Estão bem?

Fabiano: Ahã.

Darico Nobar: Gostaria de ter conhecido pessoalmente Sinhá Vitória, essa mulher guerreira e destemida que o acompanha há tantos anos. É uma pena que ela não tenha conseguido vir ao Rio para participar com você do nosso programa. Disseram-me que ela ficou trabalhando em São Paulo. No que ela trabalha mesmo?

Fabiano: Diarista.

Darico Nobar: E os meninos, estão bem?

Fabiano: Ahã.

Darico Nobar: Se não me engano, você e sua esposa tiveram dois filhos. Certo? [Fabiano balança a cabeça negativamente]. Não?! Já sei. Depois da publicação de Vidas Secas, nasceram mais algumas crianças. Quantos filhos vocês tiveram ao todo?

Fabiano: Quinze.

Darico Nobar: Uau! Isso sim é uma família grande, Fabiano. Você e Sinhá Vitória, por um acaso, não tinham televisão em casa ou não conversavam de vez em quando? [O apresentador e a plateia riem, mas o convidado mantém sua seriedade, não esboçando nenhum sorriso]. Desculpe-me pela brincadeira.

Fabiano: A gente ficou sem televisão em casa por muito tempo.

Darico Nobar: Imagino o quão difícil deve ter sido essa época. [Um tanto constrangido pelo seu comentário anterior, o apresentador retoma a fisionomia séria].

Fabiano: A casa da gente nunca foi de luxo, fique o senhor sabendo.

Darico Nobar: De qualquer forma, uma família grande sempre é uma dádiva.

Fabiano: Seis crianças morreram assim que nasceram. [A fala do entrevistado é em tom sereno, sem carregar qualquer dose de piedade ou tristeza].

Darico Nobar: Sinto muito, Fabiano.

Fabiano: Outros dois morreram na adolescência, assassinados por policiais.

Darico Nobar: Que triste!

Fabiano: Agora só tem... Tem... Sobraram cinco ou seis mais ou menos.

Darico Nobar: Sete pelas minhas contas. Quinze menos oito dá sete! E por falar nos seus filhos, você sabe os nomes de todos? Faço tal questionamento porque fiquei intrigado durante a leitura de Vidas Secas. Os nomes próprios das crianças não foram citados pelo autor em nenhum momento. É como se elas não fossem importantes ou não tivessem sido transformadas em gente ainda.

[Fabiano fica em silêncio].

Darico Nobar: Curioso isso, né?

Fabiano: Ahã.

Darico Nobar: Sinto que você não é chegado a falar muito, Fabiano. Você está tímido diante das câmeras ou esse é um hábito seu?

[Fabiano balança a cabeça positivamente].

Darico Nobar: Imagino que seja um hábito... Conte-me, Fabiano, onde sua família mora atualmente?

Fabiano: Heliópolis.

Darico Nobar: Conheço um pouco esse bairro de São Paulo. Você trabalha no quê?

Fabiano: Auxiliar de pedreiro.

Darico Nobar: Profissão digna e importante. Meu pai e meu avô também trabalharam como pedreiros. Muitos nordestinos vieram para o Sudeste e ajudaram a erguer as maiores cidades do país. É um trabalho muito pesado.

Fabiano: Hummm.

Darico Nobar: Já faz mais de setenta anos que você vive em São Paulo. Sua vida hoje é melhor do que a antiga que você levava lá no Sertão?

Fabiano: De jeito maneira!

Darico Nobar: O que o incomoda?

Fabiano: Continuo ganhando quase nada, Doutor. Trabalho como burro de carga e moro em um barraco. Até fome eu e minha família passamos na cidade.

Darico Nobar: Mas no Sertão vocês passavam sede.

Fabiano: E aqui não? A água é cara na cidade. Isto é, quando ela chega nas torneiras. O que adianta ter muitos rios em São Paulo se são tudo poluído.

Darico Nobar: Então, você se arrepende de ter feito a viagem para cá?

Fabiano: Ahã.

Darico Nobar: Por quê?

Fabiano: No Sertão, a gente vivia na natureza. Era mais feliz. A pessoa é mais livre. Ainda volto para lá um dia

Darico Nobar: Quem foi a pessoa que mais o decepcionou?

Fabiano: O único que ganhou com nossa viagem foi o Doutor Graciliano. Ele era um homem bom e se dizia comunista, mas não dividiu o dinheiro do livro dele com a gente. E pior, largou minha família a pé no meio da estrada.

Darico Nobar: Por outro lado, graças à publicação do romance, ele conseguiu denunciar as mazelas sociais de uma região até então ignorada pelos brasileiros.

Fabiano: Ahã.

Darico Nobar: Você leu o livro Vidas Secas?

Fabiano: Não leio, não, senhor.

Darico Nobar: Viu ao menos o filme do Nelson Pereira dos Santos?!

Fabiano: Não tenho tempo para essas coisas. Mas a patroa da minha mulher levou ela no cinema para ver. Isso foi a muito tempo atrás.

Darico Nobar: E a Sinhá Vitória gostou?

Fabiano: Não.

Darico Nobar: Por quê?

Fabiano: Disse que o povo no cinema ficou mais triste com a morte da Baleia do que com o sofrimento da gente.

Darico Nobar: Isso os incomodou?

Fabiano: Naquele tempo, sim. Hoje, não. [Depois de um longo silêncio, retoma a frase]. Agora a gente já está acostumada com as pessoas que sentem mais pena dos cachorros do que dos pobres.

Darico Nobar: Você acha que até hoje o nordestino sofre muito preconceito?

Fabiano: Sei não.

Darico Nobar: A transposição das águas do rio São Francisco irá amenizar as secas que o Sertão sofre historicamente?

[Fabiano faz uma expressão corporal de indecisão].

Darico Nobar: Você gostaria de encerrar esta entrevista falando algo específico ou passando alguma mensagem para nossos espectadores?

[Fabiano balança a cabeça negativamente].

Darico Nobar: Pessoal, esta foi a instigante entrevista de hoje. Muito obrigado pela sua presença em nosso programa, Fabiano.

Fabiano: Tá.

Darico Nobar: Galera, até semana que vem com mais um Talk Show Literário inédito e exclusivo. Boa noite!

[Apresentador se levanta do seu assento e acompanha o convidado, ainda meio perdido no estúdio, para a parte de trás do auditório].

------------------------------

O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.

#TalkShowLiterário #GracilianoRamos

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento