• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Maria Capitolina Santiago


Darico Nobar: Olá, público cativo do Talk Show Literário! Esta noite tem tudo para ser sensacional. Este é o programa mais esperado do ano pelos apreciadores de Machado de Assis. Se eu fosse você, não desgrudava os olhos da frente da televisão. Nossa convidada de hoje é ninguém mais, ninguém menos do que Capitolina Santiago, uma das mais intrigantes personagens da literatura brasileira. [Dá uma leve batida na mesa com a mão esquerda e faz o gesto para alguém se aproximar]. Venha para cá, Capitu! [Aplausos e assobios ressoam pelo auditório quando a entrevistada adentra o palco. Ao som de uma animada música tocada pela banda, a moça caminha até o apresentador e se senta no sofá].

Capitolina Santiago: Olá, Sr. Nobar. Tudo bem?

Darico Nobar: Melhor agora que estamos em sua companhia. Admito que estou um pouco nervoso por recebê-la em nossos estúdios. Quando criamos este programa de entrevistas no ano passado, a primeira pessoa que pensamos em chamar foi você. Porém, a senhora estava na Europa e não conseguimos localizá-la.

Capitolina Santiago: Eu moro na Suíça há muito tempo. Quando vocês fizeram o primeiro convite, não pude aceitá-lo porque não sabia quando viria ao Brasil. Desde o meu exílio no final do século XIX, jamais tinha retornado ao país. Mesmo assim, a lembrança do Talk Show Literário me deixou lisonjeada. Sou uma grande fã do programa, que é transmitido na Europa por uma emissora via satélite. Não perco nenhuma das suas entrevistas, Sr. Nobar. Por isso, prometi para mim mesma que na primeira vinda ao Rio de Janeiro, iria conversar com o senhor. E aqui estou!

Darico Nobar: Obrigado pelas palavras, Capitu. Fico muito feliz em saber que a temos em nossa audiência. E por que essa ausência tão prolongada de nosso país?

Capitolina Santiago: Seria muito difícil, para mim, andar pelas ruas brasileiras e conviver com a curiosidade sem limites dos meus compatriotas. Todos ficariam questionando meus comportamentos e meus valores. Haveria quem se aproximasse de mim só para perguntar: "Você traiu mesmo o Bentinho?". Se conversasse com algum homem fora de casa, já iriam inventar que estaríamos tendo um caso. Acho que não conseguiria viver com essa opressão em meu cotidiano. Sabe como é a língua do povo, né?

Darico Nobar: Por que a senhora nunca participou de programas de televisão nem veio à público contar sua versão sobre o fim do casamento com Bento Santiago? Acredito que centenas de veículos de comunicação teriam interesse em ouvi-la. As pessoas têm curiosidade sobre sua vida. Acho isso normal.

Capitolina Santiago: O problema é que o Bentinho foi muito sacana comigo. Além de levantar suspeitas sobre meu caráter, ele divulgou aos quatro cantos que eu teria morrido no exterior. Como ninguém procurou saber se tais palavras eram verdadeiras ou foram expressas em sentido figurado, fui tida como falecida, me tornando automaticamente inacessível à mídia e ao público. Por isso, ninguém me procurou nesses anos todos para saber minha versão dos acontecimentos. O primeiro convite que recebi para participar de um programa de televisão foi o do Talk Show Literário. Saiba que estou muito contente com a chance de, enfim, esclarecer os vários mal-entendidos dos quais sempre fui vítima.

Darico Nobar: A publicação de Dom Casmurro fez com que seu nome fosse eternizado na literatura como sinônimo de mulher dissimulada, pouco confiável e, por que não, infiel. Você guarda rancor do autor do romance, seu ex-marido, por esse estigma?

Capitolina Santiago: Ex-marido é para essas coisas, né? [A convidada ri de seu comentário]. Para começo de conversa, tenho uma interpretação diferente do livro. [Ela volta a ficar séria]. Dom Casmurro não é uma obra sobre a infidelidade feminina, como Madame Bovary ou Primo Basílio, por exemplo. Sou uma mulher totalmente distinta de Emma e de Luísa, aquelas duas despudoradas! A autobiografia de Bentinho trata do ciúme doentio de um homem desequilibrado emocionalmente. O foco da trama está, portanto, nas paranoias dele, não no meu comportamento como esposa.

Darico Nobar: Contudo, o relato do seu ex-marido acabou depreciando sua imagem.

Capitolina Santiago: Volto a contestar essa visão. A narrativa dele é muito favorável a mim. Sou descrita como uma dama exemplar em todas as perspectivas: ótima dona de casa, boa mãe, esposa zelosa, filha dedicada e nora atenciosa. Sou retratada também como alguém econômica e desinteressada de bens materiais. Bentinho sempre me viu como uma mulher bonita e amável. Além disso, não houve nenhuma passagem que, explicitamente, me denegrisse. Até nas páginas sobre o enterro do Escobar, quando muitos dizem que me excedi nos lamentos, vejo a narrativa fiel aos fatos. Estava triste pela morte de um amigo e nada mais. Contive-me, como era meu papel naquele instante. Foi o próprio Bentinho quem afirmou isso. É só ler o livro. O problema é que a maioria das pessoas nunca leu Dom Casmurro com a atenção necessária, preferindo me julgar pelo que ouviram dizer sobre mim. Aí não dá!

Darico Nobar: Apesar dessa apresentação inicial favorável, é seu marido quem lança, durante o romance, insinuações sobre uma possível infidelidade da sua parte.

Capitolina Santiago: Sim, porque estamos falando de um homem com ciúme doentio. Repito: O problema está nele, não comigo. Não dei margem nenhuma para que ele suspeitasse de traição da minha parte. Procure alguma cena ou situação embaraçosa a meu respeito! O senhor não encontrará nada que macule minha retidão.

Darico Nobar: Houve um episódio emblemático quando, certa noite, Bento foi ao teatro. A senhora reclamou de indisposição e não quis acompanhá-lo, insistindo para que ele fosse sozinho. Ao voltar mais cedo, seu ex-marido encontrou Escobar perto da sua casa. E a senhora não parecia mais tão doente quando ele chegou do passeio.

Capitolina Santiago: E no que tal passagem poderia abalar minha reputação?! Quem nunca ficou indisposta e depois de algumas horas de descanso melhorou? E foi o senhor mesmo quem disse que o Escobar foi visto perto de minha casa. Ele ia para lá porque tinha negócios a tratar com meu marido. Do jeito que vocês falam, até parece que pegaram o Escobar na cama comigo ou nu no interior do meu quarto.

Darico Nobar: As semelhanças de seu filho com o Escobar não levantam suspeitas?

Capitolina Santiago: E quem disse que os dois eram parecidos? O Bento! Apenas ele afirmava essa tolice. Ninguém mais comentou isso. Na verdade, fui eu quem iniciou essa história ao comentar, por acaso, que Ezequiel e Escobar tinham olhos semelhantes. Se soubesse até onde esse comentário chegaria, jamais o teria feito.

Darico Nobar: Então, eles não eram parecidos?

Capitolina Santiago: Ezequiel e Escobar eram tão parecidos como eu sou do senhor.

Darico Nobar: Como assim?!

Capitolina Santiago: Cada um deles tinha dois olhos, uma boca, duas orelhas, um nariz, dois braços e duas pernas. Essas eram as semelhanças entre eles.

Darico Nobar: E isso era motivo para tanta neura por parte do seu ex-marido?

Capitolina Santiago: Para alguém profundamente inseguro de si e que tinha ciúme até dos mortos, essas características não podiam ser meras coincidências e sim provas irrefutáveis de minha traição. Vale lembrar o apelido do Bentinho. Ele era chamado, desde a juventude, de Dom Casmurro. Ou seja, era teimoso, inflexível e birrento. Quando botava uma ideia naquela cabeça dura dele, ninguém mais a tirava de lá. Foi o que aconteceu com essa história de Ezequiel ser filho do Escobar.

Darico Nobar: As semelhanças entre eles chegaram a incomodá-la na época?

Capitolina Santiago: Claro que não! Até porque eles não eram assim tão parecidos, como já expliquei. Talvez os olhos fossem iguais. Só os olhos. Semelhanças maiores, tínhamos eu e a mãe da Sancha. E nem por isso, alguém criou teorias conspiratórias a respeito dos nossos pais.

Darico Nobar: Por que a chamavam de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada"?

Capitolina Santiago: Essa foi uma expressão criada pelo José Dias, o sanguessuga dos diabos que não saía do pé do meu marido. Sempre odiei aquele sujeitinho bajulador, interesseiro e preguiçoso. Foi ele quem colocou minhocas na cabeça do Bentinho. Desde a infância do meu ex-marido, o José Dias alimentava intrigas a meu respeito. Não é de se impressionar que o Bentinho tenha crescido com dúvidas em relação ao meu caráter.

Darico Nobar: Por que Dom Casmurro faz tanto sucesso ainda hoje?

Capitolina Santiago: Porque é divertido falar mal da vida alheia e questionar a fidelidade de uma dama respeitada da sociedade. Vivemos em um mundo machista, onde toda mulher é, na crença popular, promíscua, precisando de supervisão em tempo integral. Se der qualquer chance, ela irá trair seu esposo ou namorado. Note que nunca ninguém questionou o comportamento do Bentinho. Ele podia flertar com minha melhor amiga, por exemplo, pois tinha a certeza que esse episódio passaria despercebido pelos leitores. Nunca vi ninguém o chamar de infiel por causa disso!

Darico Nobar: Você acha que Bento e Sancha tiveram um caso?

Capitolina Santiago: Se não tiveram, ficaram muito próximos de ter tido. É o próprio Bentinho quem comenta o affair entre eles em sua autobiografia. Se não fosse o falecimento trágico do Escobar, tenho certeza que meu ex-marido teria ido para a cama com a minha amiga de infância. Isso é, se eles não foram...

Darico Nobar: Para terminarmos essa conversa memorável, preciso que a senhora seja mais enfática em relação a sua fidelidade conjugal. Ainda não está claro se você foi ou não fiel ao Bento Santiago durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos. O que a senhora tem a dizer sobre isso? Você e o Escobar foram amantes? Seja explícita nesse momento, por favor. Nada de rodeios!

Capitolina Santiago: Sou a principal interessada em esclarecer essa questão de uma vez por todas. Por isso, afirmo, olhando nos seus olhos e diante dessa enorme plateia, que sou uma mulher...

[A energia elétrica é abruptamente interrompida no bairro do Jardim Botânico, onde a emissora está localizada. Um blackout atinge grande parte da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Sem gerador próprio, as câmeras do programa se apagam e os microfones ficam inutilizados. A transmissão ao vivo é paralisada. Sem luz no estúdio, o público é retirado às pressas do auditório por medida de segurança. O mesmo ocorre com os funcionários do programa e com a visitante. Na casa dos espectadores, uma mensagem surge na tela dos televisores: "Serviço interrompido por problemas técnicos. Retornaremos em breve". A emissora fica quatro minutos fora do ar. Quando retorna à operação, uma nova atração já está sendo exibida].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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