• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Leonardo


Darico Nobar: Boa noite, galera que curte o Talk Show Literário!

Plateia: Booooooooa nooooooooooite.

Darico Nobar: Que auditório mais animado, hein? Gostei disso! Essa empolgação toda irá aumentar quando vocês souberem quem é o nosso convidado de hoje. O entrevistado deste programa é o protagonista de "Memórias de um Sargento de Milícias", um dos primeiros romances do nosso país. Leonardo, por gentileza, venha para o palco! [Plateia aplaude o visitante].

Leonardo: Olá, Darico. Olá, plateia. Olá, amigos de casa. [O convidado fala olhando diretamente para seus interlocutores. Na última frase, ele olha para a câmera].

Darico Nobar: Leonardo, eu fiquei muito preocupado quando a produção me informou que seria o senhor o nosso convidado desta noite. Juro que temia que o senhor fosse aprontar alguma para cima de mim ou contra o meu programa. Afinal, sua fama de endiabrado é antiga. Corro esse risco hoje?

Leonardo: Imagine! [Faz um gesto com a mão direita, levando-a para cima e depois, com a palma aberta, para baixo]. Sou um homem sossegado agora. Os tempos em que eu aprontava o diabo ficaram para trás. Não espere que eu repita as atitudes imprudentes da minha infância e da minha juventude desvairadas depois de adulto, né?

Darico Nobar: Então, o senhor admite ter aprontado muito no passado?

Leonardo: Eu era um capeta sim. Para ser mais preciso, fui uma criança demoníaca, um adolescente totalmente maluco e um jovem desregulado. Não posso negar o meu passado. Admito: o Manuel Antônio de Almeida me retratou muito bem em seu romance.

Darico Nobar: O que me deixou mais intrigado ao ler "Memórias de um Sargento de Milícias" é que mesmo fazendo tudo errado, o senhor conseguia progredir na vida. Depois de aprontar vários golpes, virou cabo de polícia. Depois de ajudar alguns bandidos a fugir, ainda foi promovido a sargento da corporação. Como isso foi possível?

Leonardo: Oh, Darico, parece que você se esquece em que país nós estamos. Estamos no Brasil, meu caro! Aqui os caminhos são sempre tortos e movediços. Essa é a regra tanto na ficção quanto no mundo real.

Darico Nobar: Um protagonista romântico com muitos defeitos de caráter não é algo comum, não é? Não me recordo de outra obra romântica com esse perfil.

Leonardo: Esse é o problema dos leitores do Manuel Antônio de Almeida. Eles só se lembram dos meus erros. E os das demais personagens do livro, ninguém se recorda?! Todo mundo ali fez ao menos uma coisa muito errada. Meu padrinho era um homem respeitado e com uma moral inabalada. Porém, como ele conseguiu dinheiro para montar sua barbearia? Ele roubou. O nome do que ele fez é roubo. E a minha madrinha? Ela não era santa, coisa nenhuma. Na verdade, ninguém era santo ali. Todos tinham seus defeitos e cometiam seus deslizes. Entretanto, os leitores só se lembram dos meus erros juvenis. Acho isso muito injusto.

Darico Nobar: Do jeito que você fala, parece que todo mundo em "Memórias de um Sargento de Milícias" era desonesto ou era mau-caráter. O Major Vidigal, por exemplo, sempre pareceu um homem sério, trabalhador e muito honrado.

Leonardo: Um major que aceita promover seu pior cabo em troca de afetos de uma antiga namorada não me parece alguém muito honesto.

Darico Nobar: Nesse ponto você tem razão...

Leonardo: No fim das contas, ele era o mais sacana de todos. Um homem que manda prender e soltar as pessoas ao seu bel prazer, desrespeitando a Constituição e as leis, não pode ser visto como um cara muito correto, não é? O Major Vidigal sempre foi muito mais vilão do que eu. Entretanto, o pessoal nas ruas, principalmente o público que se identifica com a direita reacionária, costuma gostar de gente que brada aos quatro ventos: "Bandido bom é bandido preso". Fazer o quê? Se você não foi preso injustamente, essa medida parece positiva. O problema é quando você está no lado do mais fraco, do oprimido, daquele que vai para o camburão sem saber o motivo da detenção.

Darico Nobar: Como é sua relação hoje com o major?

Leonardo: Hoje em dia ela é ótima. Na verdade, o Vidigal não é major há muito tempo. Agora ele é general. Ele virou general no meu primeiro dia no Palácio Guanabara. E recentemente o nomeei Secretário de Segurança Pública.

Darico Nobar: Por falar nisso, gostaria de saber: como o senhor virou governador do estado do Rio de Janeiro?

Leonardo: Esse foi um processo natural. Depois que virei sargento de milícias, fui subindo na hierarquia militar. Tenho consciência que minha madrinha me ajudou um pouco nessa escalada. Ela sempre foi muito bem relacionada com os integrantes da alta cúpula do Exército.

Darico Nobar: Pelo o que sei o senhor ficou pouco tempo nas Forças Armadas.

Leonardo: Mais ou menos. Quando eu já era coronel, comandei uma operação no Complexo do Alemão para tirar um grupo de traficantes que não estava alinhado com o novo prefeito do Rio. Aí, ao invés de chegar atirando contra os caras, que também são pais de família, preferi o diálogo. Depois de dois meses de intensas negociações e do pagamento de uma elevada quantia por aquele ponto da cidade, eles aceitaram sair dali. Fizemos tudo na paz, sem a necessidade do disparo de um único tiro.

Darico Nobar: Você fala como se tivesse comprado um ponto comercial.

Leonardo: Foi mais ou menos isso. O problema é que sem os traficantes por perto, o Complexo do Alemão ficou totalmente desamparado. Quem iria dar segurança, saúde e educação para a comunidade? Quem iria realizar os projetos sociais e organizar os bailes funks?! Quem faria a entrega de gás, a instalação dos serviços de TV a cabo e a organização das linhas de ônibus? Com essas preocupações em mente, os moradores pediram que eu ficasse no comando das ações da favela. Foi assim que saí do Exército e formei a primeira milícia do Rio de Janeiro. Passei a comandar o Complexo do Alemão pessoalmente. Hoje, aquela região da cidade é uma maravilha para se viver. Os moradores andam tranquilamente sem se preocupar com nada.

Darico Nobar: Então o senhor virou um miliciano?

Leonardo: Por que a surpresa? Na vida, a gente precisa prosperar sempre. De sargento de milícias para chefe dos milicianos é um bom progresso!

Darico Nobar: E de miliciano para governador também.

Leonardo: Esse salto não foi de uma vez só. Demoraram algumas décadas para isso acontecer. Eu me tornei primeiro vereador. Depois deputado estadual, prefeito e senador. Só recentemente fui eleito governador com o voto de quase três quartos da população do estado.

Darico Nobar: E o senhor continua casado com a Dona Luisinha?

Leonardo: Claro que sim. Sou um homem romântico, não se esqueça disso. Para completar, sou também um homem muito honesto. Qual político brasileiro pode dizer que está casado com a mesma mulher há mais de 150 anos, hein? Sou casado até hoje com a Luisinha e moramos na mesma casa. Isso sim é prova de fidelidade e honradez. Acho que no Brasil só o Paulo Maluf pode se comparar a mim em honestidade. Ele lá em São Paulo e eu aqui no Rio de Janeiro.

Darico Nobar: No início, Manuel Antônio de Almeida tentou esconder que era ele o autor de "Memórias de um Sargento de Milícias". Quando a obra foi publicada em folhetins, o pseudônimo criado para estampar a história foi "Brasileiro". Alguma vez ele explicou ao senhor por que fez isso?

Leonardo: Não! Nunca falamos a esse respeito. Ele acabou morrendo muito novo. Não tive chance de conhecê-lo bem. Porém, não vejo problema, à princípio, de se criar um pseudônimo. Os escritores fazem isso o tempo inteiro. O problema foi o nome escolhido: Brasileiro!? Que ideia mais estapafúrdia! Essa cunha não passa nenhuma credibilidade nem transmite uma imagem honesta. Com esse nome, a impressão é que o romance foi feito às pressas, a trama é tola e o acabamento gráfico é de baixíssima qualidade. A imagem é tudo hoje em dia. Vivemos nos tempos do Marketing.

Darico Nobar: Falando em imagem e em Marketing, o senhor fez algum tratamento estético nos últimos anos ou passou por alguma cirurgia plástica? Olhando para o senhor, parece que estou diante de alguém com quarenta e poucos anos, no máximo cinquenta.

Leonardo: Não, não! Eu nunca fiz cirurgia plástica nem tratamento estético. Políticos como eu, o Michel Temer, o Vladimir Putin e o Silvio Berlusconi não envelhecemos. Deve ser nossa genética que nos deixa assim tão jovens depois de anos de vida pública. Fazer o bem para a população também é muito rejuvenescedor.

Darico Nobar: Mas se o senhor tivesse recorrido a qualquer intervenção estética, não teria vergonha em revelá-la ao público, não é?

Leonardo: Claro que não! Sou um homem muito honesto e sincero. Não gosto de maracutaias. Você confia em mim, não confia Darico?

Darico Nobar: Senhor governador, eu é que sou o entrevistador nesta noite. [Apresentador e convidado riem simultaneamente]. Sou eu quem deve fazer as perguntas aqui, não o senhor.

Leonardo: De qualquer forma, tome aqui um santinho meu. Vou concorrer à reeleição no ano que vem e conto com o seu voto para continuar na Guanabara. Os fluminenses precisam dos meus serviços para os próximos quatro anos.

Darico Nobar: Apesar de morar no Rio de Janeiro, eu voto em São Paulo. Sou de lá.

Leonardo: E por que você não muda de região eleitoral? É muito fácil. Meu assessor pode ajudá-lo nisso. Guaracy, venha aqui. [O governador olha para o lado e fala com alguém que as câmeras não podem captar]. Tenho um servicinho para você...

Darico Nobar: Pera aí, senhor governador. Eu preciso terminar o programa. Depois a gente vê isso, tá? Além do mais, eu quero continuar votando em São Paulo...

Leonardo: Então termina logo esse seu programinha para a gente tratar do que interessa de verdade. Guaracy, ligue para o rapaz que faz os títulos eleitorais para a gente e peça para ele fazer um para nosso amigo...

Darico Nobar: Pessoal, obrigado pela sua companhia em mais um Talk Show Literário. Na próxima semana, voltaremos com mais uma entrevista exclusiva com uma importante personagem da literatura brasileira. Até lá!

Leonardo: Darico, podemos mudar também a região eleitoral da sua esposa. Ela vota em São Paulo como você? Se fizermos isso, será que ela votará em mim? [Microfones do palco são cortados pela produção].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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