• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: André


Darico Nobar: Olá, Brasil! O Talk Show Literário de hoje promete ser sinistro! Segurem-se em seus assentos porque nosso convidado é André, o polêmico narrador de "Lavoura Arcaica". Por favor, recebam nosso entrevistado com respeito. [O público no auditório aplaude timidamente a entrada do rapaz no palco]. Boa noite, André.

André: Boa noite só se for para você!

Darico Nobar: Nossa!? O que aconteceu para você estar tão mal-humorado?

André: Você ainda pergunta?! É muita cara-de-pau fingir que não sabe de nada.

Darico Nobar: Não sei mesmo. Normalmente, as pessoas chegam felizes ao programa. Nunca, nestes cinco meses de talk show, um entrevistado tinha chegado tão bravo como você está agora.

André: Seus convidados devem ter personalidades muito fracas ou são condescendentes ao extremo com o sistema autoritário da TV atual.

Darico Nobar: Conte-nos, rapaz, o que o incomoda tanto.

André: A obrigatoriedade de responder às suas perguntas me deixa colérico, ninguém em casa pensa nisso quando assiste à televisão, o entrevistado sofre uma brutal pressão social, essa força invisível nos massacra, nos mutila, nos mata, somos vítimas de uma engrenagem opressiva da mídia; Estou me sentindo neste momento como um touro prestes a entrar em uma arena de rodeio, parece que há algo em cima de minhas costas me cavalgando e algo embaixo de mim apertando meus testículos...

Darico Nobar: Deixe-me entender a situação, André. Alguém o forçou a estar aqui hoje?! Porque até onde sei, nós fizemos o convite e você aceitou participar do programa. Entendemos que você tenha agido por livre e espontânea vontade.

André: Você fala assim porque nunca precisou ser o entrevistado.

Darico Nobar: Claro que não! Sou o entrevistador. Não posso agir de outra forma em meu próprio talk show.

André: No fundo, escondido por de trás dessa aparência civilizada, você é um ditador sanguinário e um sujeito egoísta como a maioria das pessoas, meu pai era assim lá na fazenda, o governo se comporta dessa mesma maneira, a sociedade nos obriga a seguir suas regras chatas e conservadoras, o mundo é um lugar pouco democrático, profundamente normativo e totalmente sem graça.

Darico Nobar: Você sempre fala sem respirar?

André: Só faltava essa, agora vão implicar até com o meu jeito de falar?!

Darico Nobar: Não, André. Esqueça isso. Vamos parar de discutir por coisas bobas, está bem? Gostaria de falar sobre o livro que você escreveu...

André: Olha aí, você novamente querendo pautar nossa conversa, eu não preciso fazer só o que você manda, também mereço ter voz ativa nesta entrevista idiota, você não pode agir o tempo inteiro como um tirano, eu tenho o direito de falar do que quiser.

Darico Nobar: Este será um longo programa... [O apresentador fala baixinho, mas os microfones captam suas palavras. Em seguida, ele volta ao tom de voz normal]. Explique-me, André, o motivo que o levou a iniciar "Lavoura Arcaica" se masturbando.

André: E qual o problema nisso?

Darico Nobar: Não é muito usual uma história começar com um rapaz se masturbando. Os leitores ficam um tanto chocados. Eles não gostam...

André: Se os leitores não gostam de uma punhetinha, eu gosto, por isso, me masturbo sempre que não tenho uma xereca à minha disposição, se não tivessem tantas câmeras aqui, talvez estivesse batendo uma agorinha mesmo para me acalmar, não vejo problema nenhum em gastar um capítulo, seja no início ou no final de uma novela, descrevendo atos prazerosos, se fosse me comportar seguindo os gostos, as vontades e a moral das pessoas medíocres, eu praticamente não viveria.

Darico Nobar: Você age sempre com a finalidade de agredir a sociedade com seus atos ou você faz o que tem vontade e, assim, acaba chocando os outros?

André: Não sou galinha para chocar nada e ninguém, se as pessoas são caretas, ridiculamente religiosas e aceitam as normas impostas pela sociedade há séculos sem contestar, o problema não é meu, sigo simplesmente meus instintos, vivo de forma natural, minhas ações são normais, anormais são os outros que vivem se anulando.

Darico Nobar: Você está dizendo que fazer sexo com a irmã é algo corriqueiro? Perder a virgindade com uma cabra é uma coisa que acontece com todo mundo? Incentivar o irmão caçula a fugir de casa e se opor a tudo o que o pai deseja é bacana? E agir lascivamente dentro de uma igreja é divertido? Sinceramente, não entendo seus comportamentos.

André: Não vejo problema nisso, até onde eu saiba, não existe nenhuma lei que proíba esses atos, transar em uma igreja, por exemplo, pode ser bem legal, os padres e as freiras fazem isso o tempo inteiro e ninguém se incomoda, em relação à minha irmã, eu era apaixonado pela Ana, não tenho culpa que ela era muito gostosa, com a cabra não foi amor, foi mais tesão de momento, coisa de menino descobrindo sua sexualidade, quanto ao meu irmão, alguém precisava abrir os olhos daquela topeira.

Darico Nobar: Você, então, não se arrepende desses atos e de suas consequências?

André: Claro que não, o tempo é o maior tesouro que o homem pode dispor, embora inconsumível, o tempo é nosso melhor alimento, precisamos aproveitá-lo intensamente, devemos seguir nossos instintos mais primitivos, matar nossas vontades mais viscerais e canalizar todos os nossos desejos sexuais, isso sim é viver.

Darico Nobar: Você nunca se deu bem com seu pai. Por quê?

André: Meu pai não sabia viver, ele era o tipo de homem que se preocupava exclusivamente com o trabalho e com a família, em sua concepção, não havia mais nada importante nesse mundo, todo dia era exatamente igual para ele, e nós precisávamos segui-lo naquela rotina enfadonha de fazenda.

Darico Nobar: Você se sente culpado pelo que aconteceu com ele? Há quem diga que suas atitudes o tenham levado a um grande desgosto.

André: Não tive culpa nenhuma, foi ele quem trilhou seu próprio destino, o maior desgosto dele não foi o que fiz e sim o que ele mesmo fez com a filhinha amada.

Darico Nobar: E por que mesmo ele agiu daquela maneira?

André: Porque aquele desgraçado preferia ver a filha morta a imaginá-la transando comigo, veja como nossa sociedade é hipócrita, é melhor o sujeito assassinar uma jovem do que permitir a felicidade sexual dela, acho isso um absurdo.

Darico Nobar: Você é casado hoje em dia? O que você fez depois da tragédia que vimos no desfecho de "Lavoura Arcaica"?

André: Logo depois dos enterros dos meus familiares, fiquei muito abalado, eu e o Lula, meu irmão caçula, não o amigo do Raduan Nassar, que fique bem claro, fugimos de casa, aquele ambiente era muito opressor, vivemos um período, sei lá quanto tempo, em uma casinha afastada da cidade; Na primeira noite, fiquei com vontade de comer o rabo do Lula, pedi para ele baixar as calças e ficar de quatro, ele obedeceu e eu me diverti como nunca, adorei aquela experiência e passei a transar com ele todas as noites, nunca mais achei uma bundinha tão boa quanto aquela.

Darico Nobar: Você e seu irmão viraram amantes?

André: Não, comer homem é legal no começo, depois perde a graça, rapidamente me enjoei do Lula, regressei sozinho para a casa da minha família.

Darico Nobar: E o Lula?

André: Meu irmão nunca mais voltou para nossa fazenda, acho que ele deve ter ido morar na cidade grande, perdi o contato com ele.

Darico Nobar: Você contou para sua família o que aconteceu entre vocês?

André: Claro, foi a primeira coisa que fiz ao voltar, contei tudo durante o jantar, na mesa da sala, minha mãe ficou arrasada, coitadinha, ela é muito religiosa, reprimida até, nunca se jogou verdadeiramente aos prazeres mundanos, ela sempre acreditou na ladainha besta que os padres falam na Igreja, mas quem ficou furioso para valer foi meu irmão mais velho, o Pedro, ao ouvir os detalhes do meu relato, ele quis me matar com a faca que estava usando, só que eu fui mais rápido, enfiei um garfo na garganta dele, o Pedro morreu na hora, você tinha que ver a sujeira que ficou na mesa, ninguém teve mais apetite para terminar a refeição naquela noite.

Darico Nobar: E a vida na sua casa depois disso, como foi?

André: Acho que tudo melhorou com a morte do meu irmão mais velho e da minha mãe, sim, porque ela faleceu logo em seguida, morte natural que fique bem entendido, dessa vez ninguém pode me culpar; Sem nenhum outro homem em casa, passei a cuidar da fazenda do meu jeito, aí, a vida se tornou melhor, passei a fazer apenas o que eu queria e proibi todo mundo de lá de ir à igreja, sabe como é, igreja é lugar que faz o povo ficar com minhocas na cabeça; Casei com a Rosa, minha irmã mais velha, ela nunca foi tão gostosa quanto a Ana, mas deu para o gasto, tivemos três filhos, dois apresentaram problemas... coisa congênita, em outras palavras, nasceram idiotas, e morreram logo, mas a terceira, a Maria, se tornou uma menina linda e saudável, a minha Mariazinha, a razão da minha existência, o xodôzinho do papai.

Darico Nobar: Então, você está casado com a Rosa, sua irmã?!

André: Não mais, faz cinco anos que nos separamos e a expulsei de casa, a Rosa estava muito velha para o meu gosto, agora estou vivendo com outra mulher.

Darico Nobar: Huuuuum... Posso saber com quem?

André: Com a Maria, ela está uma mocinha deliciosa, se ela já está assim com dez anos, fico imaginando quando tiver dezoito, vinte aninhos, com certeza ficará mais gostosona do que a Ana era, pode acreditar em mim.

Darico Nobar: Você é um maníaco! Saía já do meu programa, seu pedófilo!

André: Olha só, o apresentador ficou nervosinho. [Gesticula de maneira teatral].

Plateia: Uhhhhhhh! [As vaias do público abafam as vozes no palco].

Darico Nobar: Caia fora, André! Não quero nunca mais vê-lo na minha frente.

André: Você é um louco, faz o convite, eu perco um dia viajando até aqui e depois fica bravinho comigo, me expulsando sem motivo nenhum, sabia desde o começo que não devia ter vindo nesse programa de lixo.

Darico Nobar: Fora! Suma daqui! Se não ligo para a polícia. Você deveria é ficar trancado em uma prisão. [André levanta-se e sai do palco com o peito estufado. Enquanto caminha, faz gestos obscenos para o público, que continua a vaiá-lo. Alguém chega a tacar algo na direção do convidado, mas o objeto não atinge o alvo]. Pessoal, por favor, me desculpem pelo programa de hoje. Se foi constrangedor para vocês, imaginem para mim aqui na frente. Prometo que o próximo Talk Show Literário será melhor. Até porque pior não poderá ser, né? Até a semana que vem. Tchau!

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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