• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Álvaro


Darico Nobar: Olá, amigos do Talk Show Literário. No programa de hoje, vamos receber uma das personalidades literárias mais importantes da campanha abolicionista do século XIX. Com vocês: Álvaro! [A plateia saúda o entrevistado com muitas palmas].


Álvaro: Boa noite, Darico. Boa noite, prezado auditório.


Plateia: Boooooa noooooite!


Darico Nobar: Álvaro, você veio sozinho ao programa? Cadê a Isaura? A produção me garantiu que convidou o casal.


Álvaro: A Isaura é uma dama muito recatada. Não gosta de holofotes. Nunca gostou. Desde o traumático baile na minha casa em Recife, ela se recusa a comparecer aos eventos sociais e aos programas de televisão. Sempre que precisa ir, ela chama a Lucélia Santos ou a Bianca Rinaldi para representá-la. Como atrizes, as duas estão mais acostumadas a tais ocasiões. Além disso, a Isaura está trabalhando nesta noite. Por isso, pediu mil desculpas a você e lhe mandou um beijo.


Darico Nobar: Em que a Isaura tem trabalhado?


Álvaro: Durante a semana, ela é professora de música em escolas do subúrbio carioca. Como o salário de docente em nosso país é indecente, ela precisa trabalhar em três turnos em seis colégios diferentes para ganhar uns trocados. Aos finais de semana, a Isaura aproveita para tirar um extra. Ela canta e toca durante o dia em algumas praias do Rio e à noite em barzinhos. Neste momento, ela está fazendo uma apresentação em um restaurante da Zona Sul.


Darico Nobar: Nossa! A Isaura está trabalhando como uma escrava, né?


Álvaro: É triste verificar que ela se mata para ganhar tão pouco... Às vezes, ela reclama. Diz que a escravidão só mudou de configuração. Ao invés de dar comida e abrigo para os trabalhadores como no século XIX, os patrões do século XXI pagam uma merreca que mal dá para os assalariados viverem com o mínimo de dignidade. No fim das contas, a abolição acabou aumentando o número de escravos no país. Somos agora servos remunerados, o que é muito mais vantajoso para os empresários. Afinal, eles não precisam nos comprar no mercado como faziam antigamente.


Darico Nobar: Vocês estão morando no Rio, certo?


Álvaro: Sim. Desde que me casei com a Isaura, nós moramos aqui. Nosso barraco fica na Comunidade da Rocinha.


Darico Nobar: Álvaro, o que aconteceu com a sua riqueza? Até o final do século XIX você era um riquíssimo fazendeiro.


Álvaro: Sinceramente, não sei o que aconteceu. [Coloca as mãos no rosto, escondendo a face por alguns segundos]. Acho que no fundo nunca fui um bom capitalista como o Bernardo Guimarães supunha. Depois que dei liberdade para os meus escravos, bem antes da Lei Áurea ser promulgada, realizei uma pequena reforma agrária em minhas fazendas. Fiz isso décadas e décadas antes do João Goulart vir com a mesma ideia. Depois, um século antes de o Getúlio Vargas criar as leis trabalhistas e o salário mínimo, eu já conferia benefícios e ótima remuneração aos meus funcionários. Para completar, passei a pagar todos os impostos exigidos pelo governo, algo que até hoje a maioria dos ruralistas não fazem. Ah, e tem mais. Logo em seguida, subsidiei educação e saúde de qualidade para todos os meus colaboradores e seus familiares.


Darico Nobar: Que incrível! Há muito tempo você já praticava os mais modernos princípios empresariais em suas fazendas.


Álvaro: Sim. Por isso, meus negócios foram muito bem até 1910. Depois, infelizmente, várias pragas infestaram minhas fazendas. E nisso, minha fortuna se foi. Fui à falência completa com a perda de sucessivas colheitas. No último século, eu e a Isaura tivemos que trabalhar como empregados para sustentar nossa família. Ela como professora de música e eu como advogado.


Darico Nobar: É verdade que você, como advogado trabalhista, nunca conseguiu clientes importantes por ter, no passado, defendido abertamente a abolição da escravatura no Brasil?


Álvaro: Não sei se uma coisa tem relação com a outra. O que sei é que em quase um século e meio de advocacia, não consegui mais de três clientes remunerados. E dois deles, fazendeiros do Nordeste, me deram calote. A maioria dos casos que atendo diariamente é de trabalhadores explorados pelos patrões que não podem me pagar pelos serviços prestados. Falo isso com dor no coração, mas há muitos empresários que continuam tratando o povo como se ainda existisse escravidão em nosso país.


Darico Nobar: Você é uma pessoa politizada. Isso lhe trouxe problemas?


Álvaro: Você não faz ideia o que eu tive de passar nas últimas décadas. Até ameaça de morte eu recebi. Não é à toa que o Adoniran Barbosa, décadas e décadas depois, lançou o termo "Tiro ao Álvaro".


Darico Nobar: Eu soube que tentaram matar você. Como foi?


Álvaro: Ao todo, sofri cinco atentados. Nos cinco, fui baleado no peito, mas sobrevivi... O pessoal brinca que só não morri porque fui por muitos anos fazendeiro e, assim, não tenho coração... A polícia nunca descobriu os responsáveis. Hoje em dia vivo sobre a proteção da polícia. E imaginar que o Sérgio Buarque de Holanda acreditava no mito do brasileiro ser um povo cordial e pacífico.


Darico Nobar: E não é?


Álvaro: Prefiro os versos do Adoniran: "Meu peito até parece sabe o quê?/ Táubua de tiro ao Álvaro/Não tem mais onde furar/Teu olhar mata mais do que bala de carabina/ Que veneno e estriquinina/ que peixeira de baiano/ Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver/Mata mais que bala de revórver".


Darico Nobar: Álvaro, essa música é uma canção romântica.


Álvaro: Só se for para você! Para mim, que tive o peito efetivamente furado por balas, ela fala do ódio dos brasileiros preconceituosos e elitistas por mim.


Darico Nobar: Em sua opinião, o Brasil evoluiu muito desde a Lei Áurea, em 1888?


Álvaro: Claro que não! O país só não regrediu porque não dá. Vivemos com a mesma gritante desigualdade social dos tempos do Império. O racismo continua se manifestando diariamente. Só não vê quem não quer. E a violência pelos quais os pobres precisam passar rotineiramente não mudou nadinha. As profissões de feitor e de capitão do mato continuam existindo, só que com novas denominações. A senzala agora fica mais distante da casa-grande, no alto dos morros.


Darico Nobar: Vamos voltar a falar de sua vida de casado. Quantos filhos você e a Isaura tiveram?


Álvaro: Nosso casamento é o melhor retrato do relacionamento romântico. Tivemos oito filhos e quarenta netos. De bisnetos e tataranetos, já perdi a conta...


Darico Nobar: Você e a Isaura ainda são personalidades famosas que mobilizam multidões por onde passam? Vocês chamam à atenção dos vizinhos, da comunidade e da imprensa quando vocês saem às ruas, por exemplo?


Álvaro: Não, não. Somos pessoas comuns. Quase ninguém sabe quem foi Álvaro e Isaura na literatura. Somos mais conhecidos hoje em dia como o advogado de porta de cadeia que não cobra pelos serviços e como a professora de música pobre que mora na Rocinha.


Darico Nobar: "A Escrava Isaura" é uma das histórias brasileiras mais conhecidas em todo o mundo. A que você remete o sucesso do romance de Bernardo Guimarães?


Álvaro: A grande sacada do autor foi ter colocado uma mulher branca na condição de escrava. Isso mexeu com os brios da burguesia caucasiana. Se a protagonista fosse uma negra, uma índia ou uma oriental, ninguém se preocuparia com a falta de liberdade dela. Porém, como era alguém branco, aí o bicho pegou para valer. Escravidão e injustiça só podem existir quando não somos nós os desfavorecidos e os violentados. Este é o pensamento mesquinho da maioria da elite brasileira ao longo da história.


Darico Nobar: O que me deixa intrigado até hoje é saber o motivo pelo qual a mãe do Leôncio, quando viva, não deu liberdade para a Isaura. Ela adorava a sua esposa, Álvaro. Você tem alguma explicação para isso?


Álvaro: Também não sei. Na verdade, não fico pensando sobre isso. O que sei é que tem um vizinho meu lá na Rocinha, um rapaz honesto e trabalhador, que cria um canário em uma gaiola. Ele adora aquele pássaro, que se chama Beethoven. O canário é lindo, canta que é uma beleza. Eu já cansei de falar para meu vizinho soltar o bichinho, mas ele não quer. Diz que não conseguiria viver sem a cantoria matinal do Beethoven. Vai ver a mãe do Leôncio também sofria do "Complexo do Canário".


Darico Nobar: Você chegou a conviver com Leôncio, antes de ele ter aquele fim trágico que conhecemos. Ele foi realmente um dos maiores vilões da nossa literatura?


Álvaro: Nunca vi o Leôncio como esse demônio que as pessoas pintam. Ele era apenas um fazendeiro rico e jovem como existem tantos por aí. Suas maldades e atrocidades não foram diferentes das cometidas pela maioria dos patrões escravocratas do interior do Brasil. Até o achei bonzinho no final das contas. Ele poderia ter feito coisas muito piores com a Isaura, mas não as fez. Se Leôncio fosse realmente maldoso, minha esposa não estaria viva e inteira hoje em dia.


Darico Nobar: Obrigado por nos conceder esta entrevista depois de tantos anos de ausência na mídia, Álvaro. Você gostaria de deixar uma mensagem final para nosso público?


Álvaro: Sim, gostaria de deixar o meu telefone e o da Isaura para quem precisar contratar um advogado trabalhista ou uma professora particular de música. A minha agenda está mais flexível, já a da minha esposa só tem horários disponíveis durante a semana das onze horas da noite às seis horas da manhã. Nos outros horários, ela está tocando nas escolas, nas ruas e nos barzinhos. Posso deixar o nosso telefone, Darico?


Darico Nobar: Sim. Deixe comigo o cartãozinho que nos próximos programas eu apresento para o nosso público. Hoje não vai dar porque já estouramos o tempo.


Álvaro: Obrigado, Darico. Estamos precisando mesmo de mais dinheiro.


Darico Nobar: Sem problema, Álvaro. [A plateia aplaude o convidado]. Galera do Talk Show Literário, até semana que vem com mais uma exclusiva entrevista com as principais personagens da literatura brasileira. Boa noite!


[A banda encerra a atração tocando "Vida de Negro", de Dorival Caymmi].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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