• Ricardo Bonacorci

Livros: Primeiras Estórias – Os mais populares contos de Guimarães Rosa


Quando falamos sobre os grandes livros de João Guimarães Rosa, uma das mais icônicas figuras do Modernismo Brasileiro, logo pensamos em “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira), “Sagarana” (Nova Fronteira) e “Corpo de Baile” (Nova Fronteira). É inevitável. Para boa parte da crítica literária, esses títulos apresentam as obras-primas do autor mineiro nos três principais gêneros literários por ele trabalhado – o romance com “Grande Sertão: Veredas”, os contos com “Sagarana” e as novelas com “Corpo de Baile”.

Contudo, quando o assunto é popularidade, um quarto trabalho de Guimarães Rosa ganha relevância e, muitas vezes, bate os anteriores em número de leitores e em exemplares disponíveis à venda nas livrarias e para empréstimo nas bibliotecas. Estou me referindo à “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira), a coletânea de contos lançada em 1962.

Apesar de ser apenas o sexto livro publicado pelo escritor, posterior, portanto, a “Sagarana”, “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”, “Primeiras Estórias” adquire o status de obra introdutória à literatura roseana. Afinal, é por este livro que a maioria dos leitores consegue entender o intrincado jogo estético criado por Guimarães. Não por acaso, trata-se do título do autor mineiro mais lido nas escolas do país.

Isso acontece porque, convenhamos, a literatura de Guimarães Rosa não é nada fácil. Suas invenções linguísticas, uma mistura da fala popular com a erudita, os intermináveis neologismos e as tramas ancoradas no realismo fantástico exigem muito do leitor. Prova disso é “Grande Sertão: Veredas”, um trabalho primoroso, mas muito difícil para um leitor recreativo.

Em “Primeiras Estórias”, encontramos os principais elementos que caracterizaram a escrita de Guimarães Rosa. Porém, nas narrativas deste livro, tudo é um pouco mais palatável. Não há obra que sirva melhor como pontapé inicial no universo do mais original escritor mineiro de todos os tempos. Curiosamente, foi o que aconteceu comigo. Li pela primeira vez “Primeiras Estórias” na escola. Na faculdade, acabei relendo vários de seus contos. Posso afirmar que nas duas oportunidades achei o livro difícil (difícil, não impossível), mas gostei muito. Também li uma ou outra novela de “Corpo de Baile”. Por outro lado, somente muitos anos após formado e quanto já tinha me tornado um adulto com alguns fios de cabelo branco é que tive coragem para me aventurar nos demais livros de Guimarães. Aí, mergulhei em “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”.

“Primeiras Estórias” possui 21 contos distribuídos em 160 páginas. O livro, em si, é fininho, mas sua leitura é lenta. Acho que demorei mais de três noites para concluir essa última releitura do título. As narrativas são: “As Margens da Alegria”, “Famigerado”, “Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha”, “A Menina de Lá”, “Os Irmãos Dagobé”, “A Terceira Margem do Rio”, “Pirlimpsiquice”, “Nenhum, Nenhuma”, “Fatalidade”, “Sequência”, “O Espelho”, “Nada e a Nossa Condição”, “O Cavalo que Bebia Cerveja”, “Um Moço Muito Branco”, “Luas-de-Mel”, “Partida do Audaz Navegante”, “A Benfazeja”, “Darandina”, “Substância”, “Tarantão, Meu Patrão” e “Os Cimos”.

Em “As Margens da Alegria”, um menino do interior viaja com os tios para a cidade grande. Em meio às novidades da metrópole, o garoto se encanta com um peru que gruguleja no quintal da casa onde a família está. “Famigerado”, o segundo conto, temos um homem mal-encarado aparecendo no quintal de um sujeito pacato e instruído. O visitante cavalgou horas até ali só para descobrir o significado de uma palavra. “Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha” trata do drama de um homem que se vê obrigado a levar as duas mulheres de sua família até a estação de trem da cidade. De lá, as duas seguirão para o hospício de Barbacena.

Maria, a protagonista de “A Menina de Lá”, era uma criança calada, que gostava de ficar sentada sozinha no quintal de casa. Chamada pela família de Nhinhinha, a garota dizia coisas que ninguém entendia. Isto até o dia em que ela começou a fazer milagres. O quinto conto de “Primeiras Estórias” é “Os Irmãos Dagobê”. Nele, Damastor, o irmão mais velho e cruel dos Dagobê, foi brutalmente morto. Em seu enterro, aparece Liojorge, o assassino. A tensão entre os presentes é total. O que Doricão, Derval e Dismundo, os irmãos de Damastor, farão com Liojorge? “A Terceira Margem do Rio” apresenta o drama de um pai de família correto e trabalhador que decide viajar em uma canoa em meio ao rio. Sem nunca mais aparecer em uma das margens, o homem deixa sua família perplexa com seu comportamento.

“Pirlimpsiquice” retrata uma turma de alunos que inicia os ensaios de uma peça teatral na escola. Com vergonha do conteúdo do espetáculo, os garotos inventam uma trama diferente para os demais coleguinhas. Em “Nenhum, Nenhuma”, o oitavo conto, um menino encontra uma casa velha no meio do mato. Ao adentrá-la, ele conhece uma Moça, um Moço, um Velho e uma Velhinha. O drama daquela gente mexerá muito com o pequeno visitante. “Fatalidade” fala de Zé Centeralfe. Sua esposa está sendo assediada por um valentão local. Sem saber mais o que fazer, Zé Centeralfe pede a ajuda de um homem erudito.

Em “Sequência”, uma vaquinha vermelha foge da fazenda de Pedra. Seo Rigério, o proprietário, organiza uma busca do animal. Um de seus filhos é o responsável pela captura da vaquinha. “O Espelho” mostra a aflição de um homem ao ver seu reflexo. A imagem refletiva no espelho é um mistério para ele. “Nada e Nossa Condição” é a história de Man Antônio. Ele sempre fora um fazendeiro pacato e melancólico. A viuvez acabou intensificando essas características.

O décimo terceiro conto do livro é “O Cavalo que Bebia Cerveja”. Nele, Reivalino Belarmino é um jovem que trabalha para Seo Giovânio, um italiano que adquiriu terras no Brasil. Reivalino odeia seu patrão. Obeso, Giovânio compra muitas garrafas de cerveja e diz que elas são para seu cavalo, pois não bebe uma gota de álcool. Em “Um Moço Muito Branco”, um misterioso rapaz aparece na comarca de Serro Frio após uma forte tempestade. Sem memória e sem falar a língua dos moradores, o rapaz provoca a curiosidade de todos, sendo adotado por Hilário Cordeiro, um homem altruísta. “Luas-de-Mel” retrata a conduta de Joaquim Norberto. Proprietário da fazenda Santa-Cruz-da-Onça, o narrador da trama recebe uma carta de um velho amigo. Na mensagem, Seo Seotaziano pede que o fazendeiro dê abrigo a um jovem casal que pretende se casar escondido.

Em “Partida do Audaz Navegante”, quatro crianças - as irmãs Ciganinha, Pele e Brejeirinha, e o primo Zito – brincam no sítio enquanto discutem as aventuras do Audaz Navegante, personagem de uma história ficcional. Mesmo apaixonado por uma moça, o marinheiro embarcou em direção a terras longínquas e desconhecidas. “A Benfazeja”, o décimo sétimo conto, enfoca Mula-Marmela, uma mulher velha, feia e pobre. Ela matou o marido e agora cuida do filho dele, um rapaz cego. Mula-Marmela é desprezada pela população pelo crime que cometeu. Mereceria ela alguma piedade? “Darandina” fala de um homem bem vestido que é pego em flagrante roubando uma caneta. Na fuga, ele é perseguido por uma multidão ensandecida e sobe em uma árvore. Lá em cima, passa a se comportar como um louco.

Sionésio, um importante fazendeiro, se apaixona por Maria Exita, uma de suas empregadas em “Substância”. Nessa história, o protagonista precisa decidir entre o amor que sente pela moça ou pelo preconceito social que os separa. “Tarantão, Meu Patrão” trata da surpreendente vitalidade de um fazendeiro idoso. Após recrutar uma turma de jovens desocupados, ele parte para a cidade com o objetivo de matar seu médico. E em “Os Cismos”, o último conto da coletânea, o menino da primeira história deste livro retorna mais cedo daquela viagem pela cidade grande. Em casa, descobre que a mãe está muito doente.

As narrativas de “Primeiras Estórias” são muito boas. Várias delas podem ser consideradas obras-primas de nossa literatura. As minhas favoritas são “As Margens da Alegria”, “A Menina de Lá”, “Famigerado”, “A Terceira Margem do Rio”, “Luas-de-Mel” e “Tarantão, Meu Patrão”.

O primeiro elemento que chama a atenção neste livro é a pluralidade de estilos narrativos e de pontos de vista. Guimarães Rosa navega pelo drama psicológico, pela sátira social, pelo realismo-fantástico, pela anedota e pela reflexão filosófica. Seus protagonistas são crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, pessoas ricas e indivíduos pobres. Em comum entre os contos temos o cenário. Apesar de ele não ser especificado, é nítido que as narrativas se passam no interior de Minas Gerais. Esta é a região retratada tipicamente pela literatura roseana.

O estilo tradicional de Guimarães Rosa está todo ali: suas invenções linguísticas, a criação de neologismos, a mistura do popular com o erudito e os narradores com fortes cargas dramáticas. Trata-se de uma leitura um tanto difícil, mas muito mais fácil do que encontramos nos outros livros do autor. Para entender plenamente as histórias e o jeito como as narrativas são construídas, o leitor precisa ler os contos com certa calma e muita atenção. O trabalho vale a pena.

Guimarães Rosa prova ser um dos grandes escritores da nossa história ao emocionar o leitor de maneiras diferentes. Cada um dos contos de “Primeiras Estórias” tem uma abordagem distinta. Somos agraciados com narrativas jocosas, românticas, patéticas, sarcásticas, misteriosas, socialmente engajadas, psicológicas e de aventura. É um livro realmente saboroso. Uma vez concluído e compreendido, o leitor se sentirá encorajado a ler os demais materiais deste incrível escritor. Tomara que isso aconteça com você também. Pelo menos comigo foi assim.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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