• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Ponciano de Azeredo Furtado


Darico Nobar: Olá, Brasil! No Talk Show Literário desta noite, vamos receber o destemido coronel de Sobradinho, a mais famosa personagem de José Cândido de Carvalho. Bem-vindo, Coronel Ponciano! É um prazer recebê-lo em nosso programa.

Ponciano de Azeredo Furtado: Boa noite, Seu Darico. [A plateia aplaude o entrevistado, enquanto ele acende calmamente um charuto]. A honra desta visita é toda minha e não abro mão de nenhuma parte dela. Aceita um Flor de Ouro?

Darico Nobar: Obrigado pelas palavras e pelo charuto. Apesar de não fumar, fique à vontade para... Coff, coff, coff! [O apresentador é atingido por uma baforada vinda do convidado].

Ponciano de Azeredo Furtado: A mocidade de hoje não sabe o que é bom! Degustar um bom fumo, desde os antigamentes, sempre foi um dos maiores prazeres masculinos. Não me diga, Seu Darico, que o senhor também não é chegado a se meter entre as pernas das moças nem aprecia o lambiscar de carne de porco na refeição?!

Darico Nobar: Que isso, Coronel?! Eu só não tenho o hábito de fumar charuto...

Ponciano de Azeredo Furtado: É como sempre digo: um homem é um homem e uma toupeira é uma toupeira. Se o problema for só esse, posso solucionar isso agorinha mesmo. Tome aqui. [Entrega para o apresentador um charuto tirado de uma caixa de madeira que o acompanha]. Este é um fumo de primeira, coisa fina mesmo. Acenda. Só pitando para o senhor lhe dar valor.

Darico Nobar: Vamos ver... [Depois de acender o charuto, o âncora do programa traga com prazer]. Nada mal, hein?! [A dupla, no centro do palco, fica alguns segundos fumando em silêncio].

Ponciano de Azeredo Furtado: Acho muito estranha essa modernização, sabe? Além de não gostar de fumar, a mocitude de agora tem uns hábitos esquisitóides. Hoje em dia é normal homem se deitar com homem na cama e mulher com mulher... Ninguém respeita os mais velhos e todo mundo vive com pressa. Até o apetite à mesa é malvisto. A maioria das pessoas está sempre de regime, mesmo estando imensa. Onde está o orgulho de possuir uma barriga larga? [Apalpa a sua com grande satisfação].

Darico Nobar: Novos tempos, Coronel. Novos tempos!

Ponciano de Azeredo Furtado: Se precisar de um bom rabo-de-saia ou quiser se esbaldar em uma matação de porco sem fim é só me avisar. Pelas bandas de Sobradinho, temos as duas coisas em excesso de quantidade e de qualidade. Ninguém fica na miserânia por lá, seja na mesa ou na cama.

Darico Nobar: Oh, Coronel Ponciano, o convite é tentador, mas sou casado!

Ponciano de Azeredo Furtado: Casado ou castrado?! Nem todo homem amarrado no altar é frouxo na cama. O senhor é meu convidado para uma vadiagem completa. É só aparecer em Sobradinho que será bem-vindo. Amigo meu é rei em minha fazenda.

Darico Nobar: Obrigado novamente, Coronel. O senhor parece ser um bom amigo.

Ponciano de Azeredo Furtado: É o que essa gente sempre fala por aí do Coronel Ponciano: não há homem mais leal e generoso do que um Azeredão Furtado!

Darico Nobar: Por falar na crença popular, gostaria de saber a veracidade de algumas histórias atribuídas ao senhor no romance "O Coronel e o Lobisomem". [O entrevistador abana as mãos para dissipar um pouco da fumaça dos charutos que insiste em cercá-lo]. São verdadeiros aqueles casos sobre lobisomem, sereia...?

Ponciano de Azeredo Furtado: Que pergunta mais escangalhada! [O entrevistado aumenta o tom de voz, falando com força e braveza pela primeira vez]. Claro que são! Por que não seriam?! O Coronel de Sobradinho, por um acaso, é mentireiro?

Darico Nobar: Não, Coronel. Pelo contrário: o senhor é um homem muito respeitado. O problema é que nem todo mundo acredita em lobisomens e em sereias. Às vezes, é mesmo difícil de crer que haja sereias no Sertão nordestino...

Ponciano de Azeredo Furtado: Tem sempre um ou outro sujeitinho que duvida que eu sozinho de mais pessoas tenha abatido uma onça selvagem no meio da mata. Ou que questione minha vitória na luta contra o valentão do circo. Se não fossem verdadeiras, essas histórias não teriam caído na boca do povo, né? Não há nada mais legítimo do que a língua da arraia-miúda.

Darico Nobar: Porém, as pessoas que cultivam essas narrativas são seus amigos e funcionários. Trata-se de gente simples que parece acreditar em muitas crendices.

Ponciano de Azeredo Furtado: Seu filho de égua, quem você pensa que é?! Está mangando de mim na cara dura, é isso?

Darico Nobar: Não, Coronel. Só estou perguntando se são verdadeiras as suas histórias. Infelizmente, muitos leitores não acreditaram em sua versão dos fatos...

Ponciano de Azeredo Furtado: Saiba que ainda está para nascer o descarado que irá chamar o neto de Simeão de loroteiro na fuça dele. Se os leitores acreditam ou não acreditam no livro não é problema do Coronel. Ele é um homem de alta patente militar, versado nas leis e possuidor de um caráter severista. Não admite, em nenhuma hipótese, falta de respeito ou pouco caso com sua biografia.

Darico Nobar: Calma! Ninguém está acusando ninguém. Só estamos conversando.

Ponciano de Azeredo Furtado: Assim, é melhor. Conversando é que a gente se entende, não é mesmo?

Darico Nobar: Claro, meu amigo. Mudando um pouco de assunto: por que o senhor nunca se casou?

Ponciano de Azeredo Furtado: Não foi por falta de pretendentes. Dona Isabel Pimenta ardia de sentimentos pelo Coronel. Dona Branca dos Anjos nunca o esqueceu. Ela sonha com uma amizade colorida com ele até hoje. Esmeraldina, se não fosse uma mulher sem valor, poderia ter sido alvo do afeto do neto de Simeão. Se não casou até hoje, foi porque o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado não achou uma mulher à sua altura.

Darico Nobar: Entendo.

Ponciano de Azeredo Furtado: Mesmo não tendo casado, o importante é que não lhe faltou companhia feminina. O outro lado de sua cama nunca ficou vazio por muito tempo. Rabos-de-saia e teúdas e manteúdas souberam ocupar esse lugar satisfadamente.

Darico Nobar: E o que mais o incomoda nos últimos anos, Coronel?

Ponciano de Azeredo Furtado: A coisa que mais me tira do sério é essa mania das pessoas de agora de se meter nos assuntos privados do sujeito. Não entendo isso!

Darico Nobar: Como assim?

Ponciano de Azeredo Furtado: Toda semana aparece alguém em minhas terras para reclamar de algo diferente. É um que diz ser do Ministério do Trabalho, alegando que pratico trabalho escravo. É outro que fala como funcionário da Receita Federal e exige o pagamento de impostos. Certa vez, acho que o caboclo era do Ministério do Meio Ambiente, surgiu lá alguém perguntando o que eu estava fazendo com a água do rio. Onde já se viu tamanha intromissão?! E teve até um sem-vergonha dizendo-se delegado e querendo saber as idades das meninas que se deitavam comigo. Como não tenho paciência para essas coisas, sou obrigado a colocar todos para correr. Aí, dizem que o Coronel Ponciano é bravo e mal-humorado. Como não ser? Como?!

Darico Nobar: Coronel Ponciano, o senhor tem algum grande arrependimento?

Ponciano de Azeredo Furtado: Neto de Simeão não é homem de arrependimentos! [Dá mais uma baforada]. Mesmo assim, tem sempre uma historinha aqui e outra acolá que ele tem vontade de contar. Se não fosse tão liso de vaidadeação, o Coronel teria falado para todo mundo o caso dos marcianos que apareceram em Sobradinho e que foram expulsos pelo trabuco cuspidor de balas de Azeredo Furtado.

Darico Nobar: Como assim? Marcianos no Sertão?! Nunca tinha ouvido falar disso.

Ponciano de Azeredo Furtado: Isso se sucedeu há muito tempo. Somente o povo da região é que ficou sabendo. Todos se desesperaram quando os sujeitinhos de olhos grandes e de corpo verde chegaram. Eu nunca fiz questão de contar essa história porque, sabe como é, o Coronel Ponciano nunca gostou de se gabar pelos seus feitos.

Darico Nobar: Conte-nos, então, Coronel. O que aconteceu?

Ponciano de Azeredo Furtado: Certa noite, Janjão Caramujo me acordou dizendo que tinha uma casca de tatu gigante de metal embicada no pasto. Não dei atenção para o caso na hora. Devia ser mais uma invencionice do mulato. No dia seguinte, uma multidão veio até minha casa. Pediam uma intervenção do Coronel. Os marcianos tinham chegado a Sobradinho e queriam levar nossa água e nosso gado. Parece que no planeta deles não tem essas coisas...

Darico Nobar: E o que o senhor fez?

Ponciano de Azeredo Furtado: Não deixei, né? Água a gente até pode substituir por cerveja e pinga, não tem problema. Mas viver sem picanha e sem filé mignon não dá! Então, peguei minha espingarda e fui até o mato. Como não entendi o que os sujeitinhos verdes diziam - eles não falavam português nem eu marcianês - resolvi me comunicar de maneira universal. Descarreguei as balas do meu trabuco neles.

Darico Nobar: E eles foram embora?

Ponciano de Azeredo Furtado: Se fosse o senhor, o que faria no lugar deles?

Darico Nobar: Eu teria saído correndo...

Ponciano de Azeredo Furtado: Pois foi exatamente o que fizeram. No caso, saíram voando em disparada. Com o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado ninguém brinca.

Darico Nobar: Coronel, esta entrevista foi incrível. Sempre descobrimos uma história nova ao conversar com o senhor. Infelizmente, nosso programa de hoje terminou.

Plateia: Ahhhhhhhhh

Ponciano de Azeredo Furtado: Seu Darico, vê se apareça qualquer dia desses lá em Sobradinho para prosseguirmos na prosa. [Dá mais uma tragada no charuto].

Darico Nobar: Claro, Coronel. Será um prazer poder retribuir sua visita. E obrigado mais uma vez pela sua presença nesta noite. [O público no auditório aplaude o entrevistado]. Pessoal de casa e da plateia, valeu pela companhia de vocês e até a semana que vem com mais um Talk Show Literário. [A banda toca uma música, encerrando o programa].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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