• Ricardo Bonacorci

Livros: Ratos e Homens – A novela engajada de John Steinbeck


Em 1962, seis anos antes de falecer, John Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Era o coroamento definitivo de uma carreira bem-sucedida como escritor, iniciada no finalzinho da década de 1920. O autor norte-americano e sua ficção foram profundamente influenciados pela Grande Depressão, também conhecida como Crise de 1929, que abalou os alicerces da economia dos Estados Unidos e levou milhões de pessoas à pobreza. Elogiado pela crítica e adorado pelo público leitor, John Steinbeck produziu uma literatura engajada socialmente, com um olhar realista voltado para as camadas mais desfavorecidas da população. Apesar de mudar algumas vezes de estilo ao longo da carreira, em nenhum momento o escritor, nascido na Califórnia, em 1902, deixou de retratar os trabalhadores pobres, os miseráveis e as pessoas que foram jogadas no limbo social.

As duas obras-primas de John Steinbeck são “As Vinhas da Ira” (Record), de 1939, sobre os agricultores de Oklahoma explorados pelos patrões (o romance ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura), e “A Leste do Éden” (Record), de 1952, drama de duas famílias pobres do Vale do Salinas, na Califórnia. As histórias dos dois livros foram adaptadas, depois, para o cinema e são consideradas atualmente clássicos da literatura norte-americana. Contudo, Steinbeck possui outras duas publicações muito conhecidas e reverenciadas pela crítica e pelo público. São elas: “A Rua das Ilusões Perdidas” (BestBolso) e ”Ratos e Homens” (L&PM Pocket). A primeira novela, de 1945, nós já comentamos aqui no Blog Bonas Histórias em janeiro de 2016. Agora, chegou a vez de analisarmos a segunda.

Publicado em 1937, “Ratos e Homens” representou a consolidação da carreira literária de John Steinbeck. Depois do lançamento de quatro romances que não tiveram grande repercussão, o norte-americano fez grande sucesso com “Boêmios Errantes” (Record), em 1935. A segurança financeira e os elogios do mercado editorial frutos desse romance encheram o autor de confiança. Assim, “Ratos e Homens” veio, dois anos depois, para reafirmar o caminho trilhado e mostrar que “Boêmios Errantes” não fora sorte de principiante. O êxito de “Ratos e Homens” foi maior ainda e conferiu uma visibilidade à literatura de Steinbeck até então inédita. Com “As Vinhas da Ira”, dois anos depois, o autor californiano atingiu, no final da década de 1930, o status de um dos principais escritores de ficção dos Estados Unidos de sua geração, posto que ele nunca mais deixaria de ocupar.

A história de “Ratos e Homens” foi depois levada inúmeras vezes para o cinema, para a televisão e para o teatro. Na época do seu lançamento, a novela teve uma receptividade contraditória. Por um lado, recebeu muitos elogios da crítica, o que catapultou a carreira de Steinbeck para níveis até então não atingidos. A obra foi citada de maneira muito elogiosa pelos grandes veículos de comunicação do país. Por outro lado, várias cidades mais conservadoras dos Estados Unidos acabaram banindo o livro de suas bibliotecas públicas por considerá-lo ofensivo aos bons costumes. Afinal de contas, pensavam, onde já se viu fazer apologia à violência e ao assassinato? Para agravar o quadro, muita gente considerava que a narrativa usava palavras vulgares, era contrária ao espírito capitalista (algo que está no cerne da cultura norte-americana) e continha insultos racistas. Dessa maneira, além da lista dos mais vendidos do país, a obra também passou a ocupar a lista das obras censuradas pelos órgãos públicos.

A trama de “Ratos e Homens” é ambientada em uma região rural próxima à cidade californiana de Soledad. A história se passa durante a Grande Depressão, época onde os empregos e a circulação de dinheiro eram artigos raros. Dois homens pobres, George Milton e Lennie Small, se apresentam para trabalhar em uma fazenda local. Os dois são amigos inseparáveis há longa data.

Lennie é um rapaz alto, gordo e extremamente forte. Contudo, ele tem problemas mentais, o que o faz se comportar de maneira infantil. Psicologicamente, ele não passa de uma criança de oito anos de idade (é ingênuo e não tem qualquer malícia, por exemplo), apesar do porte de homenzarrão. Essas características o fazem arranjar involuntariamente várias confusões por onde passa. George, por sua vez, é magro, falante e bastante inteligente. Ele acaba agindo como um irmão mais velho de Lennie, tirando o grandão dos inúmeros problemas em que se mete.

Além da amizade, o que une os dois homens é um sonho em comum. Ambos desejam viver em uma terra própria, onde poderão plantar e criar animais, sem precisar contar com a boa vontade dos patrões. Para conseguir dinheiro para comprar seu sítio, George e Lennie comprometem-se a economizar toda grana possível. Só assim, acreditam, poderão adquirir sua propriedade. Porém, a dupla ainda não possui nenhuma moeda no bolso. Indiferentes a inviabilidade do plano, eles permanecem sonhando todas as noites com o dia em que terão sua própria terra.

Quando a novela começa, os dois protagonistas estão fugindo da última confusão armada por Lennie. Na fazenda em que a dupla tinha trabalhado anteriormente, Lennie fora acusado injustamente de estupro por uma moça. Ela achou que o rapaz alto e forte estava tentando arrancar seu vestido, enquanto Lennie só queria mexer no tecido de alta qualidade da roupa da moça. Diante do salseiro provocado na fazenda, não restou outra solução para George do que fugir com o amigo. Para sorte deles, conseguiram um novo emprego sem muito esforço longe dali.

Assim, começa “Ratos e Homens”, com George Milton e Lennie Small se apresentando para trabalhar em uma fazenda próxima à Soledad. O plano da dupla é se manter longe das confusões, enquanto realiza seu trabalho honesto nas plantações. Para isso, George Milton pede para Lennie não abrir a boca e não conversar com ninguém. Só assim, poderão ficar alguns meses naquele trabalho e conseguir o dinheiro necessário para a compra do seu terreno particular, o sonho secreto que alimentam há tanto tempo.

Entretanto, os planos da dupla não saem como o esperado. Além de Lennie se meter em novas (e maiores) confusões, ele acaba revelando sem querer para os demais trabalhadores da fazenda o desejo de ter uma propriedade. Como consequência, outros homens pobres que não têm onde cair mortos acabam se convidando para ir com a dupla de amigos para o lugar idealizado. A proposta que antes era apenas de George e Lennie torna-se, de repente, um empreendimento coletivo. O sonho começa a ganhar concretude, apesar das inúmeras dificuldades para ser viabilizado.

“Ratos e Homens” é um livro curtinho. Ele possui menos de 150 páginas e está dividido em seis capítulos. É possível lê-lo inteiro em aproximadamente duas horas. Foi o que fiz no último domingo à tarde.

A primeira característica da obra que chama a atenção do leitor é a oralidade dos diálogos. John Steinbeck escreve como as pessoas pobres da Califórnia efetivamente falavam no dia a dia. Ele segue, portanto, a lógica da realidade e não da gramática normativa no momento de fazer o registro das conversas. Se no início esse recurso parece meio depreciativo (mostrando o quão incultas são as personagens), depois acabamos seduzidos pela maneira realista de como o texto foi produzido. Há uma enorme diferença quando o narrador escreve seu relato (temos aqui um narrador em terceira pessoa do tipo onisciente, que prefere se manter oculto) e quando as pessoas da história falam. No primeiro caso, há o respeito às regras normativas da língua (o narrador evidentemente é alguém letrado). No segundo não. Esse acentuado contraste do texto (narração versus diálogos) dá concretude à trama e aproxima o leitor das personagens (uma das características da literatura de Steinbeck).

Outro ponto elogiável de “Ratos e Homens” é a construção de personagens carismáticas. Isso ocorre em poucas linhas com os protagonistas. Rapidamente, o leitor acompanha com entusiasmo as aventuras de George Milton e Lennie Small em seus novos trabalhos. Os dois homens têm bons corações e propostos nobres. Porém, diante do cenário adverso em que estão inseridos, eles se tornam vítimas das engrenagens sociais, que moem sonhos grandiosos e anseios genuínos de homens e mulheres de bem. Nesse sentido, podemos fazer uma analogia com o título da obra. George e Lennie seriam efetivamente homens com a capacidade de construir o mundo que ansiavam ou seriam como ratos em uma caixa, sofrendo os desmandos de um dono poderoso? Não por acaso, a palavra dos animais vem primeiro no nome do livro do que o termo que designa os seres humanos.

A construção das personagens secundárias também foi muito bem-feita, o que alimenta a qualidade e a quantidade de conflitos da narrativa. A novela não tem muitos coadjuvantes (são cerca de dez), mas cada um deles tem uma função essencial no enredo e características marcantes. O leitor consegue visualizar muito bem cada uma das personagens retratadas.

No subtexto deste livro, podemos encontrar: a descrição do racismo nos Estados Unidos da década de 1930, um problema grave que teria consequências político-sociais dali algum tempo em escala nacional; a pobreza generalizada, o que levava as pessoas para uma degradação físico e moral; os preconceitos sociais, expondo as divisões rígidas da sociedade norte-americana daquela época entre ricos e pobres; e a miséria do país, em uma de suas maiores crises econômicas. Ou seja, como um retrato histórico, “Ratos e Homens” é uma novela espetacular, levando o leitor para um período de tempo conturbado da vida norte-americana.

Ninguém foi melhor do que John Steinbeck para fazer críticas sociais e para apresentar a realidade da camada pobre do seu país no período da Grande Depressão. “Ratos e Homens” é um exemplo concreto dessa literatura reveladora e engajada. E George Milton e Lennie Small talvez sejam as personagens mais carismáticas de Steinbeck. A maneira como a dupla está presa ao seu drama, por mais que tente fugir da realidade difícil e por mais que sonhe com alternativas e dias melhores, emociona os leitores.

Outro aspecto da narrativa que chamou minha atenção foi a maneira como o autor começa cada um dos seus capítulos. Steinbeck optou por descrever o cenário como estratégia de iniciar/retomar sua história (ao invés de jogar a ação das personagens diretamente). Sinceramente, achei essa descrição de cenários um recurso um tanto antiquado (até mesmo para um escritor da década de 1930). Esse é o único ponto destoante da novela, que possui uma excelente fluidez narrativa. Sorte que o autor deixou essas descrições para os primeiros parágrafos dos capítulos, não aparecendo com tanta intensidade depois.

“Ratos e Homens” é um livro memorável, com um drama sensível e forte, protagonistas riquíssimos e uma mensagem extremamente inteligente. Em comparação à trama de “A Rua das Ilusões Perdidas”, gostei mais de “Ratos e Homens”. A história, os conflitos e as personagens desta novela são mais comoventes. Se “A Rua das Ilusões Perdidas” é uma boa obra literária, “Ratos e Homens”, por sua vez, é uma publicação excelente, uma verdadeira obra-prima.

Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#JohnSteinbeck #Novela #LiteraturaNorteAmericana

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento