• Ricardo Bonacorci

Livros: O Evangelho Segundo Jesus Cristo – A obra-prima de José Saramago


Neste final de semana, li “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), o quarto romance de José Saramago do Desafio Literário de abril. Para ser sincero, até este momento, estava ligeiramente decepcionado com as leituras do escritor português. Os três primeiros livros analisados neste mês no Bonas Histórias, “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras) e “A Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), são até interessantes, mas não chegaram a me empolgar. Como minha expectativa era altíssima (estamos falando de um Nobel), acabei pensando: “No final das contas, Saramago não é tudo isso!”. Estava com a impressão que ele era mais um autor supervalorizado pela crítica e pelo público. Aí pintou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Nem precisei concluí-lo para rever completamente minhas crenças. Já no terceiro capítulo desta obra-prima da literatura portuguesa, sentenciei: “Saramago é gênio!”. Sem dúvida nenhuma, esse é o seu melhor romance. Impossível alguém produzir algo melhor. Até agora, como diria minha irmã, estou besta. No linguajar dela, essa expressão quer dizer que estamos estupefatos.

É verdade também que esse livro é o mais polêmico da carreira de Saramago. As relações nada cordiais que a Igreja Católica tinha com o escritor ateu se deterioraram de uma vez por todas com a publicação de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. A partir desse ponto da história, o escritor português se transformou em um dos grandes inimigos dos católicos mais fervorosos. Não à toa, quando foi revelado o nome de Saramago para o Prêmio Nobel de 1998, o Vaticano emitiu uma nota de pesar, dizendo-se contrário a escolha. Essa aversão da Igreja por “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” se deu fundamentalmente pela exposição de um Jesus Cristo humano, carnal, traumatizado pelo seu passado e abalado emocionalmente com o destino que lhe fora imposto. Para completar, temos nessa narrativa um Deus egoísta, sádico e pouco poderoso que não poupou seu próprio filho do massacre perpetrado pelos homens.

Se por um lado o livro de Saramago é muito mais interessante como narrativa do que a própria Bíblia (seus personagens são muito mais verossímeis, sua trama é melhor amarrada, seu enredo tem vários conflitos que empolgam os leitores e sua prosa é deliciosa), por outro lado a obra afronta os dogmas do Catolicismo. Aos olhos da Igreja, a versão bíblica do escritor português configura-se como uma imperdoável heresia. Ou seja, como literatura, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é espetacular, mas como obra sacra não. Como analisamos no Bonas Histórias a literatura e não os aspectos religiosos, vou comentar este livro exclusivamente sob o ponto de vista da sua construção literária.

Publicado em 1991, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi o oitavo romance lançado por José Saramago. No início da década de 1990, o autor já era um nome importante da literatura portuguesa e europeia. Por isso mesmo, as críticas dos católicos foram tão ruidosas. Mesmo assim, esta obra foi a mais premiada de Saramago. Ela conquistou o Grande Prêmio de Romance e Novela APE/IPLB, concedido pela Associação Portuguesa de Escritores, e o Prêmio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, ambos em 1991. O teor polêmico do romance o fez ser excluído de vários prêmios de âmbito nacional e internacional por pressão das autoridades católicas. O subsecretário da Cultura de Portugal, por exemplo, vetou a inclusão do livro de Saramago na lista de romances portugueses que concorreriam a um prêmio literário europeu.

Mesmo no meio de tantas polêmicas, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” se transformou em uma das obras mais marcantes de José Saramago. Foi preciso a passagem dos anos para ela ser vista com mais isenção por parte da crítica. A mesma sorte não teve seu autor. Bombardeado pelas críticas dos religiosos, Saramago decidiu, em 1993, deixar Portugal e se mudar com a segunda esposa, Pilar, para a Espanha. Sua escolha foi pela ilha de Lanzarote, a mais oriental e pacata das Ilhas Canárias. Foi vivendo longe de Portugal que o escritor viu seu romance ser adaptado para o teatro em 2001. A peça “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” provocou, dez anos depois da publicação do romance, uma nova avalanche de críticas dos católicos. Em 2009, o escritor seria novamente alvo da ira católica com o lançamento de “Caim” (Companhia das Letras), outra de suas obras polêmicas sobre a narrativa bíblica.

O enredo de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é um tanto manjado: a trajetória de Jesus em seus trinta e três anos vividos na Terra. A história, porém, começa um pouco antes do protagonista nascer. A trama é desencadeada com a gravidez de Maria. Jesus é o primeiro dos nove filhos que Maria, uma dona de casa tímida e séria, e José, um carpinteiro humilde e pacato, teriam ao longo da vida. Quando engravidou pela primeira vez, Maria de Nazaré, como ela ficaria conhecida, tinha apenas dezesseis anos e José era um rapaz de vinte e poucos anos. Os dois tinham se casado há pouco tempo.

Assim que Jesus nasceu, seus pais precisaram fugir dos soldados de Herodes. O rei judeu queria matar todas as crianças do sexo masculino nascidas nos últimos anos em Belém. José conseguiu escapar com sua família, porém viveu, a partir daí, atormentado pelo trauma de não ter ajudado os demais meninos a escapar da violência dos soldados. Esse mesmo trauma será mais tarde compartilhado por Jesus. Aos treze anos, o adolescente descobre esse evento polêmico do passado de Maria e José e culpa seus pais pela morte das outras crianças. Por isso, Jesus rompe com a família e foge de casa, preferindo padecer sozinho pelas ruas.

Até atingir a maioridade, o jovem mora com um pastor de ovelhas nas regiões montanhosas do reino da Judeia. Ali, ele cresce, amadurece e aprende uma nova profissão (até então, só aprendera o ofício de carpintaria com o pai). As constantes brigas com o pastor fazem o rapaz abandonar a vida pastoril e levam-no de volta à cidade. Ao completar dezoito anos, Jesus conhece Maria, uma prostituta da cidade de Madalena. Ambos se apaixonam e passam a viver como marido e mulher. É nesse momento que Deus aparece para o jovem Jesus no meio do deserto e faz um pacto com ele: Deus quer que o rapaz se sacrifique no futuro. O acordo é selado por meio de um ritual sangrento realizado com uma ovelha.

A partir daí, Jesus passa a viver com Maria Madalena entre os pescadores. Ele usa seus poderes mediúnicos para descobrir onde estão os peixes nas águas. Mesmo não sendo efetivamente um pescador, ele orienta esses profissionais em busca de pescarias mais produtivas. Não é preciso dizer que o rapaz se torna o ídolo dos pescadores, sendo requisitado e querido por todos. A vida tranquila da personagem principal do romance só é abalada pelos traumas do passado (a morte dos meninos em Belém e as desavenças constantes com a família, principalmente com a mãe) e pelas constantes investidas de Deus (ele cobra o cumprimento do antigo pacto estabelecido entre os dois). Jesus não quer morrer em nome de uma causa que não acredita. Contudo, Deus será intransigente e cobrará o respeito ao acordo firmado nas areias do deserto.

“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é o romance mais volumoso de José Saramago que vamos analisar neste Desafio Literário. O livro possui aproximadamente 450 páginas. Como sua leitura é muito saborosa, acabei concluindo-a em apenas dois dias (metade do tempo que levei para finalizar as outras obras de Saramago). Para você ter uma ideia de como gostei desta publicação, iniciei a leitura na sexta-feira à tarde e no sábado de noite já tinha chegado à sua última página. Posso, assim, dizer que não desgrudei do livro neste final de semana.

Afinal, o que faz de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” um romance tão interessante? O maior mérito de José Saramago, neste trabalho, foi humanizar uma história amplamente conhecida até mesmo pelos leitores que não são católicos. O escritor português apresenta a mesma trama do Novo Testamento, mas com grande sofisticação narrativa e com um realismo desconcertante. A impressão é que estamos efetivamente diante do verdadeiro Jesus, de seus pais e das demais personagens bíblicas. O jeito objetivo, emocionante e divertido de Saramago relatar esta história nos faz acreditar que ela poderia muito bem ser a versão correta dos fatos e não a anterior, relatada com passionalidade cega pelos religiosos e pelas obras sacras há tanto tempo.

Ao mesmo tempo em que se utiliza de várias passagens e de muitas personagens da história original, José Saramago também tem a ousadia de recriar a trama segundo seu ponto de vista. É aí que o livro ganha em riqueza narrativa. O autor insere em seu texto a ironia fina que é uma das suas marcas estilísticas, a crítica ácida ao Deus Católico e os dramas genuínos de personagens atormentadas pelo passado traumático, pelo destino trágico e pela violência do mundo antigo. Ao mexer em pontos espinhosos do enredo bíblico (virgindade de Maria de Nazaré, relacionamento de Jesus com Maria Madalena, comportamento de Judas Iscariotes), Saramago muda completamente o entendimento que se tinha desses conflitos e dessas personagens. Assim, nasce uma nova trama e um novo Jesus aos olhos atônitos dos leitores. É ou não é um espetáculo de criação literária, hein?!

E o que Saramago mudou de mais concreto nesta história? Para começo de conversa, ele tirou todas as passagens pouco verossímeis da trama bíblica. Esqueça, por exemplo, a mulher que engravidou virgem (como?), o casal que viveu a vida inteira sem realizar sexo para não cair em pecado (impossível), os reis magos que foram guiados por estrelas celestiais até a manjedoura da criança especial (difícil de acreditar) e a personalidade ilibada de Cristo que se manteve casto até o final da vida (pouco provável). Até mesmo uma criança percebe a quantidade de contradições e de inverosimilhança de muitas passagens da narrativa original. Saramago tira todas essas partes pouco críveis da história, deixando apenas os elementos fantásticos inerente às atitudes (poderes ilimitados) de Deus e do Diabo, além de feitos excepcionais realizados por Jesus em seus milagres (feitos esses guiados pelo poder divino). Ou seja, a fantasia que permanece na trama tem explicações dentro da própria história (não sendo, portanto, tão inverossímeis assim).

Para completar, Saramago acrescenta em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” doses magistrais de ironia que invertem completamente a lógica da história da Bíblia. Jesus deixa de ser o ungido da humanidade para se tornar a grande vítima de uma intriga celestial. Deus, uma entidade intocável para os católicos e para a maioria dos religiosos, tem revelada sua outra face, que havia permanecido até então descortinada. Para Saramago, o Todo Poderoso é uma figura mais próxima ao vilão do que ao do bom mocinho. Qualquer análise racional, fria e imparcial da questão irá dar razão ao escritor português.

Por falar nisso, repare no espetacular capítulo em que Deus conversa no meio do mar com Jesus. O diálogo da dupla tem a presença do Diabo. Esta é uma das passagens mais brilhantes do livro e que pode resumir a crença de Saramago sobre a religião católica. Os comentários feitos pelo Diabo, após ouvir a explicação de Deus sobre o destino da humanidade a partir da morte de Jesus, são simplesmente geniais. Essa cena é um dos momentos mais engraçados de toda a literatura universal. “É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue” e “Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá vir a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal morticínio e tais cemitérios, salvo se a algum malvado ocorrer a lembrança caluniosa de me atribuir a responsabilidade de fazer nascer o deus que vai ser inimigo desse” são frases memoráveis. É nessa hora que damos graças a Deus por Saramago ter sido um ateu. Só tenho dúvida se essas passagens superam em comicidade a última frase de Jesus dita no livro: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.

Enquanto degusta um enredo sutilmente modificado, o leitor pode verificar que o texto de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” possui boa parte das características estilísticas que marcaram a carreira de José Saramago. Estão presentes nesse romance: vírgulas substituindo o ponto final, ausências de pontos de exclamação e de interrogação, discursos sem travessão e diálogos sinalizados pela primeira letra maiúscula. Temos aqui o melhor de Saramago na versão mais Saramago possível.

“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é uma obra-prima da literatura contemporânea. Possivelmente, se o livro não fosse tão sensacional, ele não teria suscitado tantas críticas por parte da Igreja Católica. Foi através deste romance, no qual o autor utilizou-se de sua antipatia declarada pela religião, que José Saramago produziu o que considero o seu melhor trabalho. Não é preciso ler mais nada do autor para entender que o Nobel que ele recebeu foi merecido. Esta é uma das melhores obras que li em minha vida. Até agora, passados alguns dias de sua leitura, ainda estou anestesiado pela incrível experiência literária da qual passei. Incrível! Em outras palavras, estou besta!

O quinto livro de Saramago que será comentado no Desafio Literário de abril será “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras). Se “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é o livro mais polêmico do português, “Ensaio Sobre a Cegueira” é muito provavelmente a sua obra mais famosa. O post sobre esse romance será disponibilizado no Bonas Histórias no próximo domingo, dia 21. Continue acompanhando no blog o estudo sobre a literatura de José Saramago.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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