• Ricardo Bonacorci

Livros: Hibisco Roxo – O romance de estreia de Chimamanda Ngozi Adichie


O Desafio Literário de maio começa suas análises por “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), o primeiro romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Considerada uma das escritoras mais influentes da atualidade, a nigeriana nasceu, em 1977, em Enugu, capital do estado homônimo que fica ao sul do país africano. A infância de Adichie foi passada em Nsukka, cidade universitária de Enugu. Porém, sua família é original da vila de Abba, no estado vizinho de Anambra. Curiosamente, esses três locais foram usados como cenários do livro de estreia da autora. E essa não é a única “coincidência” entre ficção e realidade. Muitas passagens de “Hibisco Roxo” se aproximam de fatos vivenciados por Chimamanda e por seus familiares na época em que moravam na Nigéria.

Contudo, antes que alguém me acuse de inferências indevidas ou caluniosas, alerto que a maior parte do enredo desta obra é proveniente do talento da autora em produzir ficção. A escritora usou os lugares, os ambientes e as situações políticas da Nigéria de sua infância e juventude, além de alguns acontecimentos pessoais, para criar uma história forte, bonita, emocionante e FICCIONAL. O resultado é um romance de grande qualidade dramática e narrativa.

Filha de um casal de professores da Universidade da Nigéria, Chimamanda Ngozi Adichie teve cinco irmãos e vivenciou de perto os horrores da instabilidade política de seu país durante as décadas de 1980 e 1990. A ditadura militar e os golpes à democracia eram constantes no período Pós-Independência. Como consequência, surgiram conflitos armados internos que trouxeram mortes para a família da escritora e arruinaram as finanças e o patrimônio dos Adichie. Não vendo perspectiva em sua terra natal, Chimamanda e seus parentes decidiram imigrar para os Estados Unidos. Pouco a pouco, eles foram deixando a Nigéria, cada vez mais mergulhada em um caos social e econômico.

Desde 1996, a autora mora na América do Norte com alguns de seus familiares. Ali, ela se formou em Comunicação e Ciências Políticas e iniciou sua carreira de escritora. “Hibisco Roxo” é resultado do curso de mestrado em Escrita Criativa realizado na Universidade Johns Hopkins de Baltimore. Atualmente, Chimamanda Ngozi Adichie é casada com Ivara Esege, um médico nigeriano, e possui uma filha pequena deste relacionamento.

Publicado em outubro de 2003, “Hibisco Roxo” inaugura a fase mais importante da carreira literária de Chimamanda Ngozi Adichie: a de romancista. Antes do lançamento desta obra, a nigeriana já havia produzido contos, poesias e peças teatrais. Alguns desses trabalhos até foram premiados na Nigéria, na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas não trouxeram reconhecimento e fama à sua autora. Isso só viria acontecer de fato com “Hibisco Roxo”.

O romance histórico foi muito bem-recebido pela crítica literária internacional. Prova maior desse feito está nos vários prêmios que o livro abocanhou no exterior, além de ter sido indicado às mais importantes premiações da língua inglesa. Este romance de Adichie conquistou, por exemplo, o Prêmio Hurston-Wright Legacy de 2004 na categoria melhor livro ficcional de estreia e o Prêmio dos Escritores da Commonwealth de 2005 de melhor obra de autor estreante. No Orange Prize e no Booker Prize de Ficção, ambos de 2004, “Hibisco Roxo” foi indicado. Com esta publicação, Chimamanda Ngozi Adichie iniciava com pé direito sua trajetória como uma das principais romancistas contemporâneas do continente africano e da língua inglesa.

“Hibisco Roxo” se passa na Nigéria no período Pós-Colonial. O país africano está sofrendo com uma grave crise político-econômica. As Forças Armadas derrubaram o governo civil eleito democraticamente e iniciaram uma ditadura militar que já demonstrava que iria durar muitos anos. Revoltada, a população se manifestou contrária aos caminhos que o país seguia. Com isso, a repressão se intensificou. Os militares passaram a perseguir seus opositores. Com a censura e o estado de exceção constitucional, os casos de corrupção foram potencializados e a desigualdade social aumentou ainda mais.

Nesse cenário caótico, assistimos ao drama familiar de Kambili, uma adolescente tímida e solitária de 15 anos. Filha de Eugene Achike, um empresário milionário da cidade de Enugu, Kambili tem sua rotina pautada pela mão opressora do pai. É a jovem quem narra em primeira pessoa a sua história e a de seus parentes mais próximos. Se você acha que o ambiente político da Nigéria está feio é porque não sabe o que está acontecendo no interior da mansão dos Achike. Ali, o bicho pega para valer!

Eugene é um católico fervoroso que sempre exigiu de toda a família obediência incondicional aos preceitos mais conservadores de sua religião. Ele também tem vergonha dos idiomas, das crenças e dos hábitos nativos da Nigéria. Em sua cabeça, a cultura inglesa-cristã é superior à dos povos primitivos da África e deve ser seguida pelos nigerianos. Ele acredita também que seu país evoluirá como nação quando a maioria do povo viver sob a influência do Catolicismo e da cultura ocidental.

Buscando tornar esse sonho realidade, Eugene Achike se transforma em um fanático religioso. Beatrice, sua esposa, Jaja, o filho mais velho, e Kambili, a caçula do clã, são obrigados a respeitar as rígidas ordens do patriarca e a moral bíblica. Caso contrário, são alvos da ira e da violência descomunal do empresário.

Dessa maneira, o cotidiano da narradora do romance e de seu irmão mais velho é caracterizado por grande melancolia e aridez emocional. Kambili e Jaja passam os dias estudando e rezando. O pai estipula a rotina diária dos filhos, não dando margem a qualquer diversão ou confraternização social. Os adolescentes acabam vítimas de uma bolha de superproteção. Apesar da riqueza material da família, eles não podem usufruir das alegrias e do conforto do dinheiro do pai. Como uma boa filha, Kambili procura ser obediente a Eugene, mesmo que isso implique em anular suas vontades e seus desejos mais íntimos.

Se dentro de casa Eugene Achike é um déspota cruel e um fanático religioso violento, fora dos muros da residência ele é visto como uma figura pública amada pelos nigerianos. Dono do jornal Standard, um dos poucos veículos de comunicação que fazem oposição ao governo militar, o pai de Kambili age como um democrata e um defensor da liberdade de expressão. Ele também é um dos principais filantropos do país. O empresário não poupa os recursos obtidos em suas várias fábricas quando o propósito é ajudar o próximo. Ele investe nos parentes mais necessitados, nos moradores pobres de Abba, povoado natal de sua família, nos funcionários de seus negócios e na Igreja Católica local. Sob a perspectiva da opinião pública, não há homem mais honrado e bondoso em Enugu.

A harmonia da família Achike e o poder ilimitado de Eugene em seu lar são quebrados em um Domingo de Ramos. Jaja, com 17 anos, enfim se rebela contra as imposições paternas e provoca uma séria briga doméstica. Eugene não aceita a nova postura do filho e promete puni-lo exemplarmente. Para entender como sua família chegou a este ponto, Kambili faz uma retrospectiva dos meses anteriores ao Domingo de Ramos. Nesse flashback, o leitor poderá compreender o que precipitou o comportamento de Jaja e a explosão de violência de Eugene. Após entendido o passado recente da família, a narradora avança três anos em sua história. Aos 18 anos, Kambili não é mais alguém tão frágil e tímida. Mesmo assim, ela ainda vive sob as sombras do passado trágico.

“Hibisco Roxo” é um romance de 328 páginas. Esta narrativa está dividida em quatro partes: I) Quebrando Deuses – Domingo de Ramos, II) Falando com Nossos Espíritos – Antes do Domingo de Ramos, III) Os Pedaços de Deuses – Após o Domingo de Ramos e IV) Um Silêncio Diferente – O Presente. A primeira parte tem um capítulo só (vai da página 7 a 22). A segunda é a maior do livro. Ela tem 12 capítulos (página 23 à página 268). A terceira e a quarta partes têm, respectivamente, três capítulos (página 269 a 306) e um capítulo (307 a 321).

Li esta obra em dois dias neste final de semana. Comecei sua leitura na sexta-feira à tarde e a concluí no sábado à noite. Confesso que fiquei encantado com a literatura praticada por Chimamanda Ngozi Adichie. Esta sua publicação de estreia é um drama sensível e contundente. Apesar de novata no ofício, a escritora nigeriana já demonstrava grande maturidade literária. Admito que fiquei com o queixo caído. Achei este livro simplesmente espetacular!

Um dos aspectos mais legais desta obra está na possibilidade de o leitor acompanhar a cultura, a sociedade e a história nigeriana. Ao longo da narrativa de Kambili, vemos a culinária, as religiões, as vestimentas, as crenças, as lendas, as músicas e as festas típicas deste país africano. Também podemos ver na prática um pouco do dialeto igbo (tanto a família Achike quanto os familiares de Chimamanda são descendentes deste povo).

A história recente da Nigéria está intimamente relacionada à trama ficcional do livro. Assim, ficamos sabendo, em meio às páginas do romance, da instabilidade política do período Pós-Colonial, com seus golpes de estado e guerras civis. A sociedade nigeriana que surge em “Hibisco Roxo” é corrupta, desigual, violenta, injusta, racista e machista. Sem uma democracia mais pujante, os civis se tornam vítimas dos desmandos dos militares. De alguma forma, infelizmente, essa realidade lembra um pouco as características da sociedade brasileira.

Contudo, o que está no cerne desta obra literária é o choque cultural entre a antiga Nigéria e a nova Nigéria (tema central de todas as publicações da primeira fase da literatura de Adichie). As crenças, a cultura e os hábitos dos povos ancestrais africanos são uma forte oposição ao modelo de vida trazido pelos colonizadores europeus no século XX. Eugene Achike é quem catalisa essa discussão ao máximo, representando o homem negro que se curva incondicionalmente à cultura inglesa e à fé católica. O ódio que o rico empresário sente por tudo o que está relacionado ao modelo de vida nativo (inclusive seu pai, Papa-Nnukwu, descrito como um pagão tradicionalista) indica o quanto ele incorporou a visão de mundo racista dos colonizadores.

Não à toa, Eugene é a personagem mais rica em termos literários de “Hibisco Roxo”, roubando em muitos momentos o papel de protagonismo da narradora. Mesmo quando não está fisicamente em cena, ele ainda sim está presente na mente de Kambili e de seus familiares, impondo a todos uma violência psicológica sem limites. O que torna o Sr. Achike tão complexo é a dualidade de sua personalidade. Ele pode agir como uma pessoa deplorável em determinada situação assim como pode se comportar como um homem adorável logo em seguida. A contradição entre o indivíduo autoritário, violento, fanático e desumano e a personalidade altruísta, socialmente engajada e bondosa oferece várias camadas dramáticas ao romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Impossível alguém ficar indiferente a esse conflito.

Por falar em Eugene Achike, repare nas semelhanças existentes entre o macroambiente e o microambiente de “Hibisco Roxo”. Se o pai de Kambili age para restituir a democracia e a pluralidade de vozes e visões em seu país, ele é, ao mesmo tempo, o déspota violento e antiquado dentro de casa. Aí, quem irá agir para a derrubada da ditadura de Eugene no seio familiar será Jaja. É muito legal notar essa contradição na história de Adichie. Dependendo da perspectiva (macro ou microambiental), Eugene Achike pode ser o herói ou pode ser o vilão da trama. Incrível esse recurso narrativo!

Outra personagem riquíssima (em termos literários) de “Hibisco Roxo” é a Tia Ifeoma, irmã de Eugene. A garra e a coragem da professora universitária servem como oposição ao universo machista da Nigéria antiga e contemporânea (afinal, a única semelhança entre as culturas do passado e do presente é o desprezo pelas mulheres). Ifeoma serve como semente para a construção do feminismo que embasaria boa parte da literatura de Chimamanda Ngozi Adichie dali em diante (mais sutil nos romances e mais escancarada nas coletâneas de crônicas).

A rotina banal na casa da tia é um mundo surpreendente e encantador aos olhos de Kambili e de seu irmão. Após viverem alguns dias ao lado de Ifeoma e dos três filhos dela em Nsukha, Jaja e a irmã se transformam completamente. De volta ao lar paterno, Kambili e Jaja não aceitarão mais a rotina imposta por Eugene. É o início das contestações de Jaja e da explosão de violência do Sr. Achike.

Apesar de ser uma das obras menos conhecidas de Chimamanda, “Hibisco Roxo” é um romance espetacular que deveria ser mais valorizado pelo grande público. Darei sequência ao Desafio Literário de maio com um pensamento claro: se os cinco livros seguintes de Adichie tiverem a mesma qualidade de “Hibisco Roxo”, estaremos diante de uma das mais talentosas escritoras da atualidade. Para descobrir se isso é verdadeiro ou não, analisarei na próxima quinta-feira, dia 9, “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), o segundo romance da autora. Continue acompanhando no Bonas Histórias o estudo sobre a literatura de Chimamanda Ngozi Adichie.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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