Teoria Literária: Elementos da Narrativa - 4 - Tempo Narrativo

Um aspecto fundamental da narrativa ficcional que o analista literário deve estudar é o tempo. O Tempo Narrativo é o quarto elemento da história ficcional que vamos comentar nesta segunda temporada da coluna Teoria Literária. Ao todo, são onze os componentes constituintes da narrativa (BONACORCI, 2018). Nos meses anteriores, vimos no Bonas Histórias os três primeiros componentes: o Enredo, a Personagem e o Espaço Narrativo. No próximo mês, a discussão será centrada no conceito da Ambientação, o quinto elemento da narrativa. E em julho vamos tratar da Realidade Ficcional, o sexto componente. A proposta desta coluna é apresentar ainda neste ano todos os aspectos que formam uma obra literária.

 

O Tempo Narrativo constitui um dos elementos mais importantes da prosa ficcional. Existem três tipos de tempo em uma narrativa: o Cronológico, o Psicológico e o Metafísico (MOISÉS, 2014, p. 130).

O Tempo Cronológico é aquele relacionado à marcação objetiva da passagem do tempo. São as horas, os minutos e os segundos em que as cenas se sucedem. São os dias, as semanas e os meses em que as histórias acontecem. São também as variações dos anos e das décadas envolvendo uma trama. Por fim, é o período histórico no qual um enredo está situado. Portanto, o Tempo Cronológico está associado diretamente à movimentação dos ponteiros no relógio. Ele indica o avançar do tempo físico no qual as personagens e todos os elementos naturais do espaço estão sujeitos (GANCHO, 2014, p.25).

 

Esse processo fica evidente em A Volta Ao Mundo em Oitenta Dias, clássico do francês Júlio Verne.  Phileas Fogg, o protagonista da trama, luta contra a passagem dos dias para ganhar uma aposta. Sua viagem ao redor do planeta precisa terminar até um determinado horário de uma data específica. Aspectos objetivos e verídicos da passagem do tempo (no caso, os fusos horários) são os responsáveis pelo surpreendente desfecho do romance.

 

O Tempo Psicológico, por sua vez, caracteriza-se pela desobediência ao Tempo Cronológico. Inverte-se, assim, a ordem natural dos acontecimentos. Como o Tempo Psicológico respeita unicamente o fluxo de pensamentos e de lembranças das personagens (geralmente do narrador), sua trama não possui uma ordem temporal linear (começo, meio e fim). Passado, presente e futuro podem se misturar na história narrada, a depender do desejo, da memória e do fluxo de consciência dos protagonistas (GANCHO, 2014, p.25).

 

Um bom exemplo de romance que se utiliza desse tipo de Tempo Narrativo é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Brás Cubas, o narrador criado por Machado de Assis, começa sua história pelo final. Ele narra sua vida depois de morrer, iniciando seu relato pelo seu enterro. A partir daí ele volta mais no tempo e faz uma narrativa de sua vida, indo e voltando no espaço temporal de acordo com suas lembranças. Ou seja, o recurso utilizado é do flashback (volta no tempo). O flashback é uma das técnicas mais populares utilizadas pelos autores ficcionais para "retroceder" no espaço temporal da narrativa. Há também o flashforward (avanço no tempo), porém este é menos popular. Caramuru, épico de José de Santa Rita Durão, utiliza o flashforward quando Catarina Paraguaçu, esposa do herói, faz previsões sobre o que acontecerá com o Brasil e com os portugueses nas "futuras" guerras travadas com os invasores holandeses.

 

E o terceiro, e último, tipo de Tempo Narrativo é o Tempo Metafísico. Esse é aquele tempo associado a um elemento mítico ou coletivo. A passagem do tempo adquire, assim, um aspecto transindividual. É o tempo dos arquétipos, para usarmos um conceito próprio do psicanalista Carl Jung. É o tempo da variação fantasiosa, que não respeita as regras convencionais do mundo real. Se o Tempo Cronológico segue linearmente e se o Tempo Psicológico flui de acordo com os interesses (memórias e imaginação) de uma personagem, o Tempo Metafísico é reversível, fluindo em circularidade (MOISÉS, 2014, p. 131).

 

Um caso famoso de Tempo Metafísico é o que a personagem Phil Connors, um repórter de televisão egocêntrico e sarcástico, vivencia no filme norte-americano Feitiço do Tempo (Groundhog Day: 1993). Na trama do longa-metragem, Phil fica preso "eternamente" ao Dia da Marmota, evento mais importante do ano na pequena cidade de Punxsutawney, na Pensilvânia. Assim, todo dia, quando o jornalista acorda, acontecem as mesmas coisas (afinal, sempre é o mesmo dia). Por mais que o protagonista se esforce e tente mudar a realidade entediante em que está preso, algo é imutável em sua vida: Phil sempre acordará no mesmo lugar e no mesmo dia.

 

Na literatura, um bom exemplo de trama que usa o Tempo Metafísico é a saga Outlander, série de romances da norte-americana Diana Gabaldon. Nessa história, Claire Randall descobre uma fenda temporal em uma montanha escocesa. Com isso, ela pode viajar no tempo, migrando do século XVIII para o século XX e vice-versa. Ou seja, o enredo não respeita nem o Tempo Cronológico nem o Tempo Psicológico. O que temos aqui é a instituição de um Tempo Metafísico, criação ficcional proposta pelo autor e comprada pelos leitores durante a leitura da obra.  

 

Ao analisar uma trama ficcional, o analista literário deve procurar classificá-la de acordo com os três tipos de Tempo Narrativo. Dependendo das opções escolhidas pelo narrador da história/autor da obra, a narrativa adquire características peculiares ao tipo de variação temporal proposto.  

 

Bibliografia:

 

BONACORCI, Ricardo. Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira. Projeto de Iniciação Científica. Varginha: Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), 2019.

 

GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. 9a ed., Série Princípios, São Paulo: Ática, 2014.

 

MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 19a ed. São Paulo: Cultrix, 2014.

 

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