• Ricardo Bonacorci

Livros: O Diamante de Jerusalém - O romance de espionagem de Noah Gordon


Depois do excelente “O Rabino” (Rocco), fiquei empolgado em iniciar a leitura de “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), o terceiro romance de Noah Gordon. Além de ter curtido bastante o livro de estreia do escritor norte-americano, post da semana passada, outro aspecto me entusiasmou para a nova leitura: esta publicação é uma trama de espionagem internacional. Ou seja, Gordon abriu mão, aparentemente, dos seus dramas pessoais e familiares, temas tanto de “O Rabino” quanto de “O Comitê da Morte” (Rocco), para lançar-se em um thriller sobre o paradeiro de uma joia sagrada e histórica do povo judeu. Como fã deste gênero, não foi nada complicado me atirar nas páginas desta obra. “O Diamante de Jerusalém” é o segundo livro que analisamos no Desafio Literário de junho. Quem está acompanhando regularmente o Bonas Histórias já sabe que neste mês o autor em foco é o romancista Noah Gordon, best-seller mundial.

Publicado em 1979, “O Diamante de Jerusalém” representou um importante marco na carreira de Noah Gordon. Para produzir este romance, o autor precisou deixar de lado a atuação como editor de revistas científicas (a Psychiatric Opinion e a The Journal of Human Stress), seu principal ofício até então. As repercussões positivas dos seus trabalhos ficcionais anteriores, “O Rabino” e “O Comitê da Morte”, lançados em 1965 e 1969, respectivamente, mostraram o potencial que a carreira de romancista tinha para Gordon. Contudo, a atuação como jornalista e editor demandava cada vez mais tempo e energia do norte-americano. Assim, no início da década de 1970, Noah deixou os cuidados das suas revistas para a esposa, Lorraine Seay Gordon. A partir daí, ele passou a atuar apenas como escritor. “O Diamante de Jerusalém” foi o primeiro título dessa nova fase. Depois de anos de pesquisas históricas, minerais, religiosas, arqueológicas, idiomáticas e geográficas, estava pronto o mais ambicioso livro de Gordon até aquele momento.

Se “O Diamante de Jerusalém” tem como novidade o fato de ser um suspense investigativo ao estilo Indiana Jones (com pitadas de Dan Brown), este título mantém algumas características imprescindíveis da literatura de Gordon: a trama tem como contexto a cultura judaica, o conflito é baseado nas diferenças religiosas e geopolíticas, a narrativa é ancorada em uma saga histórica e o protagonista se apaixona por uma “mulher proibida” (pelo menos do ponto de vista das crenças tradicionais da sua religião).

O enredo deste livro começa na época do Velho Testamento. Um grupo de quatorze sábios e religiosos hebreus liderados por Baruch segue as ordens divinas e rouba as principais joias do Templo de Jerusalém. Era ali que os judeus guardavam suas relíquias sacras como as Tábuas da Lei que Deus deu para Moisés no Monte Sinai, a arca e o manto que as cobriam, o querubim de ouro, o Tabernáculo, o peitoral do Sumo Sacerdote e outras joias de valor inestimável. Entre as preciosidades havia um diamante dourado e de tamanho gigantesco chamado de Pedra de Kaaba.

O roubo é uma ação preventiva. Uma vez na posse desses itens, o grupo deve escondê-los em diferentes lugares do seu território, evitando, assim, a incursão futura de ladrões estrangeiros. Segundo as premonições divinas, o território dos hebreus será invadido nos séculos seguintes e o templo de Jerusalém será saqueado e destruído. Para sinalizar onde estarão os artefatos para as futuras gerações, Baruch escreve em folhas feitas de cobre o paradeiro de cada peça. Obviamente, ele utiliza-se de mensagens cifradas para indicar a localização exata dos itens. Dessa maneira, apenas os judeus mais religiosos do futuro conseguiriam achar o tesouro do seu povo.

Terminada a cena do roubo, o romance avança para o tempo presente. Na Nova York dos dias de hoje, vive Harry Hopeman, um judeu norte-americano bem-sucedido. Um dos maiores especialistas em diamantes do mundo, ele é o dono da Alfred Hopeman & Son, Inc, uma respeitada loja de pedras preciosas localizada na Quinta Avenida. A empresa é voltada para o comércio de joias de valor histórico e religioso e foi fundada por Alfred, pai de Harry e um dos maiores entendidos de joias do planeta. Os Hopeman são uma família que vive há séculos manuseando e comercializando pedras preciosas. Não à toa, eles são referências internacionais nesse mercado.

Por causa da sua fama e de sua família, Harry Hopeman é convidado pelo governo de Israel para intermediar uma delicada negociação com Hamid Bardissi, um egípcio com um passado sombrio. Também chamado de Yosef Mehdi, o mulçumano diz estar com a posse do Diamante da Inquisição, o nome da joia dourada que foi retirada há séculos do Tempo de Jerusalém por Baruch e seus colegas. O Diamante da Inquisição é a denominação cristã para a Pedra de Kaaba. Afinal, ela foi roubada do esconderijo por invasores árabes (ou seja, não adiantou escondê-la) e, mais tarde, foi saqueada pelos cristãos nos tempos das Cruzadas. Depois de muito peregrinar, ela foi parar no Vaticano. Já no século XX, ela foi roubada mais uma vez do museu do Vaticano e desapareceu novamente. Agora, Hamid Bardissi/Yosef Mehdi diz estar com o diamante.

O governo israelense quer comprar a Pedra de Kaaba do egípcio. Entretanto, as autoridades de Israel querem, antes, atestar a autenticidade da joia. Daí a importância de Harry Hopeman. Ele é uma das poucas figuras no mundo capaz de verificar se a peça que Hamid Bardissi/Yosef Mehdi tem em mãos é um material legítimo ou uma falsificação. Com a missão de negociar com o egípcio, Harry viaja para Jerusalém para iniciar seus trabalhos. Sem saber quando vai conseguir regressar para casa, ele teme perder o bar mitzvah do filho, Jeffrey. O garoto é fruto do relacionamento de Harry com Della, sua ex-esposa. Mesmo separados, o antigo casal se dá tão bem que continuam fazendo sexo ocasionalmente e às escondidas, como se fossem amantes.

Ao chegar em Jerusalém, Harry Hopeman é recebido por Tamar Strauss, diretora de um importante museu local. A jovem e bela morena foi contratada pelo governo israelense para atuar em dupla com o norte-americano. Tamar nasceu no Iémen e é viúva de um médico israelense. Apesar de ser de uma família judia ortodoxa e já viver há anos em Israel, ela sofre na capital israelense o preconceito por ter vindo de uma região dominada historicamente pelos árabes. Enquanto aguardam o contato de Hamid Bardissi/Yosef Mehdi, Harry e Tamar terão muito tempo (e põe muito tempo mesmo nesta conta!) para se conhecer melhor e, principalmente, para aparar suas arestas (ambos possuem personalidades bem distintas).

Apesar de volumoso, “O Diamante de Jerusalém” é o menor livro de Noah Gordon que será analisado neste mês no Desafio Literário. Esta obra possui “apenas” 272 páginas (quando a média do autor é de mais de 420 páginas por título). Seu conteúdo está dividido em 28 capítulos e em quatro partes. Precisei dos dois dias deste final de semana para concluir esta leitura. Comecei no sábado de manhã e a terminei no domingo à noite. Devo ter levado aproximadamente 12 horas para percorrer todas as suas páginas.

Para ser sincero, não gostei de “O Diamante de Jerusalém”. Como suspense investigativo, este livro deixa muitíssimo a desejar. Seu principal problema é justamente oferecer uma aventura extremamente parada (quase não acontece nada em relação ao enredo principal). Ao invés de mergulhar no mistério do diamante perdido e em ações eletrizantes de captura da joia, Noah Gordon prefere mostrar a vida sentimental de Harry Hopeman e o seu passeio turístico pela Terra Santa. É isso mesmo que você leu: o maior especialista de joias religiosas e históricas do mundo passa semanas sem nada para fazer em Israel (o egípcio que deveria negociar com ele dá um chá de cadeira no norte-americano que dura quase o livro inteiro). Aí não há suspense que resista. Esse é o maior problema do terceiro romance de Noah Gordon, mas há outros.

A mania do autor em relatar a vida inteira de várias personagens também incomoda a leitura. Se ele fizesse isso com uma, duas ou três figuras, beleza. Entretanto, Gordon faz isso com quase uma dezena de pessoas. E muitas dessas personagens não estão relacionadas diretamente ao conflito principal (como Julius Vidal e Isaac Vitalo, por exemplo). Aí nos perguntamos: para que esse excesso de páginas relatando a vida de figuras secundárias, hein?! Ao invés de avançar, o livro está sempre regredindo. Regredindo não, patinando sem andar para frente. Depois de alguns capítulos assistindo a este padrão de narrativa, o leitor fica se perguntando: cadê a história que me foi prometida?

Além disso, há muitos trechos sumarizados. A impressão é que essa obra tem mais passagens sumarizadas do que cenas propriamente. Isso incomoda bastante o leitor mais exigente, principalmente na primeira metade do livro. Não há nada pior do que um romance longo e sumarizado. A impressão é que a obra não foi editada corretamente (muitas vezes, a exclusão de capítulos, páginas e trechos daria mais dinamismo à trama e resolveria boa parte dos seus problemas narrativos).

Para completar os elementos negativos de “O Diamante de Jurusalém”, temos um protagonista difícil de engolir. Se Michael Kind de “O Rabino” era uma figura carismática, Harry Hopeman é um ricaço do tipo almofadinha (o que ele faz com sua roupa suja é um bom indicativo disso). Ele não contribui para deixar a história mais legal. A união do protagonista com Tamar Strauss, uma pessoa muito mais interessante e complexa, também é morninha e sem muito sal. Ou seja, nem a parte romântica do livro empolga.

É verdade que o final desta publicação reserva as partes mais surpreendentes e eletrizantes da narrativa. Nesse ponto, eu gostei do desenlace. Além disso, o desfecho é melancólico, bem factível e real. Noah Gordon não faz concessões ao leitor mais romântico na hora de colocar um ponto final na sua trama. Achei esse expediente excelente!

“O Diamante de Jerusalém” tem alguns aspectos muito parecidos a “O Rabino”. Assim como ocorreu no romance de estreia de Noah Gordon, este tem um protagonista em que a família mudou o sobrenome. Esta obra possui uma intriga histórica (Guerra do Yom Kippur, Guerra dos Seis Dias, Inquisição, Holocausto) e geopolítica (disputa por Jerusalém e conflito na Palestina), além de uma narrativa ambientada na cultura judaica. “O Diamante de Jerusalém” também está sempre voltando para trás. Se sua história avança quase nada para frente, ela mergulha com tudo no passado (tanto na vida das personagens quanto na trajetória do povo hebreu e da Pedra de Kaaba/Diamante da Inquisição).

Quem gosta de uma road story, “O Diamante de Jerusalém” é um prato cheio. A história percorre Nova York, Jerusalém, Massada, Monte Sinai, Jordânia, Tel Aviv, Beit Jimal, Veneza, Roma/Vaticano, Iémen, etc. É uma pena que esses cenários não sejam usados para reforçar o suspense. Por isso minha decepção. Se adorei “O Rabino”, detestei “O Diamante de Jerusalém”.

Para desvendar os próximos passos da carreira de Gordon, o livro seguinte que será analisado no Desafio Literário é "O Físico" (Rocco). Esse romance foi publicado em 1986 e se tornou o maior sucesso do escritor. Esta história deu origem a uma trilogia e foi inclusive adaptada para o cinema. O post sobre "O Físico" será publicado no Blog Bonas Histórias no dia 14 de junho, próxima sexta-feira. Não perca a terceira parte do estudo sobre a literatura de Noah Gordon.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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