• Ricardo Bonacorci

Livros: La Bodega - O último romance de Noah Gordon


O sexto e último livro do Desafio Literário de junho é "La Bodega" (Rocco), romance histórico ambientado na Espanha do século XIX. Li esta obra de Noah Gordon neste final de semana. “La Bodega” é a mais recente publicação do autor norte-americano que acumula ao longo da carreira nove títulos, sendo oito romances históricos e uma coletânea de contos infantis. Por Gordon já ter 92 anos e não estar mais trabalhando com tanto afinco, o que é natural pela idade avançada, é de se supor que este livro seja a sua despedida da literatura comercial. Ao menos é essa a impressão de boa parte do mercado editorial - ninguém espera um novo lançamento do escritor para os próximos anos.

Publicado em 2007, “La Bodega” nasceu de uma ideia que Noah Gordon teve quando escrevia, no finalzinho da década de 1990, “O Último Judeu” (Rocco), seu sétimo romance. Após se apaixonar pela cultura espanhola e pela história do país ibérico, matérias-primas de “O Último Judeu”, o romancista se tornou também um aficionado por vinhos. Curiosamente, a paixão de Gordon pela bebida de Baco só ocorreu na meia-idade, quando ele precisou viajar rotineiramente para a Europa para realizar pesquisas in loco para suas obras ficcionais. Vale lembrar que a maioria de suas histórias se passam justamente no Velho Continente.

Dessa maneira, pensou Noah Gordon de forma perspicaz, nada melhor do que construir uma trama histórica na Espanha tendo como contexto dramático o dia a dia de um vinhedo catalão. Para mostrar a formação das vinícolas espanholas, o escritor optou por ambientar sua história no século XIX, período em que as primeiras iniciativas de se produzir bons vinhos na região floresceram. Pronto: estava criado o enredo do romance. Como consequência, temos uma narrativa mais leve e com um charme todo especial, principalmente para quem adora os vinhos e o processo de produzi-los. Segundo as palavras de Gordon, “La Bodega” é “uma carta de amor a um país e a uma bebida”.

Esta história começa em Languedoc, no Sul da França. É o ano de 1874. Josep Alvarez é um jovem catalão que trabalha há quatro anos no grande vinhedo de Leon Mendes, um produtor francês de vinhos de excelente qualidade. Por sua dedicação e por seu compromisso para com o trabalho, o espanhol se tornou muito próximo do proprietário do lugar. Por isso, Mendes recebe com tristeza a notícia que Josep precisará deixar a propriedade. O rapaz recebeu uma carta informando sobre a morte de seu pai, Marcel Alvarez, um pequeno proprietário de um vinhedo na Catalunha. Por isso, ele precisará retornar o mais rápido possível para a Espanha para ver como sua família está e como ficarão os negócios do clã.

O problema inicial é que voltar é muito perigoso para o protagonista. Josep deixou a Península Ibérica justamente por problemas políticos, quando atuou em uma milícia na sangrenta Guerra Civil da segunda metade do século XIX (não confundir com a Guerra Civil espanhola do século XX!). Mesmo ciente que está colocando sua vida em risco, ele decide fazer o caminho de volta. Ao chegar à Santa Eulália, seu povoado natal, Josep descobre que o irmão mais velho, Donat, abandonou a pequena fazenda de uvas do pai e foi morar em Barcelona, onde trabalha como funcionário de uma fábrica têxtil. Por isso, a propriedade dos Alvarez está à venda. Não concordando com aquilo, Josep decide comprar o lugar do irmão. Depois de contrair uma alta dívida, ele passa a ser o único proprietário do vinhedo de Marcel.

A ambição de Josep é transformar o vinhedo dos Alvarez em uma referência de qualidade na região. Se conseguir isso, ele deixará de produzir uvas para a confecção de vinagre e passará a produzir uvas para a transformação em vinhos de boa qualidade, uma raridade na Espanha daquela época. Todos riem de sua proposta. Porém, o rapaz tem dois trunfos para realizar seu sonho: ele aprendeu as técnicas no vinhedo francês de Leon Mendes de como produzir bons vinhos e possui uma obstinada vontade de trabalhar duro. Será suficiente essa receita para ele conseguir alcançar seus planos? Enquanto se dedica com afinco à sua terra, Josep Alvarez ainda terá que tomar cuidado para que seu passado como soldado da milícia carlista não atrapalhe suas pretensões empresariais.

“La Bodega” é o livro mais curto de Noah Gordon que analisamos no Desafio Literário deste mês. A obra tem 328 páginas, que estão divididas em cinco partes e em 62 capítulos. Não se trata obviamente de um romance fininho, mas para quem se acostumou com os tijolões do autor, “O Físico” (Rocco) e “Xamã” (Rocco), por exemplo, tem quase 600 páginas cada um, trata-se de uma leitura mais rápida. Tanto é que li este livro em duas noites.

Quando falo sobre a celeridade de leitura, não me refiro apenas a uma questão de número de páginas. “La Bodega” também é uma trama mais leve se comparada aos dramas das obras antecessoras, o que facilita muito a leitura e a experiência literária do leitor. Temos aqui uma história com menos violência, com menor quantidade de personagens, com menos viagens realizadas pelo protagonista (não podemos classificar o livro, por exemplo, como uma road story), um conflito mais simples (e, por que não, mais banal) e uma narrativa mais direta. Perto de “O Rabino” (Rocco), de “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), dos títulos da “Trilogia da Família Cole” e de “O Último Judeu”, podemos dizer que “La Bodega” é um romance sucinto. Os fãs mais antigos de Noah Gordon podem até reclamar da menor intensidade dramática deste livro, mas é inegável que ele possua seus méritos.

O que mais gostei em “La Bodega” é que, enfim, assistimos a uma narrativa de Gordon sem grandes problemas de foco narrativo. ALELUIA! ALELUIA!! ALELUIA!!! O narrador em terceira pessoa fica o tempo inteiro grudado ao protagonista, Josep Alvarez, não o abandonando em nenhum momento. Apesar de ser algo simples, que não requer grandes habilidades literárias por parte do autor ficcional, esse recurso tinha sido, até então, ignorado em todos os romances de Noah Gordon, acarretando graves problemas para suas narrativas. Ainda bem que o escritor norte-americano mostrou, em sua última publicação, que sabe escrever tramas seguindo a lógica do foco narrativo, algo que, sinceramente, estava duvidando.

Outro aspecto extremamente positivo de “La Bodega”, que por sua vez não é uma grande novidade quando olhamos para o trabalho de Noah Gordon de maneira geral, é a mistura bem azeitada entre realidade e ficção. A inserção de passagens históricas reais e de figuras verídicas extraídas das páginas dos livros da História espanhola dão um colorido especial à narrativa. Em muitos momentos, o leitor se pergunta: será que essa personagem é verídica e será que esse fato aconteceu de verdade? As dúvidas entre onde começam a ficção e onde terminam os relatos reais conferem um sabor todo especial ao romance. Incrível!!!

Para realizar algo tão portentoso assim, não é preciso dizer que Noah Gordon realizou extensas e intensas pesquisas documentais e biográficas. Sua reconstrução histórica da Espanha do século XIX está calcada em um profundo trabalho investigativo. Apesar de não ficar explicitado esse aspecto no texto (mais um fato positivo!), o leitor mais atento consegue notar os cuidados do autor com os detalhes geográficos e políticos da sua trama. Quando entramos nos relatos do dia a dia do vinhedo e da produção dos vinhos, a fidedignidade da narrativa se torna ainda mais forte. A verossimilhança desta história é total. A sensação do leitor é de estar acompanhando presencialmente a rotina em uma verdadeira plantação de uvas do século retrasado.

Diferentemente de todas as obras anteriores de Gordon, “La Bodega” não apresenta um conflito de natureza religiosa nem étnica. A questão central aqui é de ordem econômica e emocional. Josep Alvarez só quer produzir vinhos de qualidade na fazenda de sua família. Para isso, ele precisará superar as dificuldades financeiras, as desconfianças de todos e os pesadelos do seu passado como soldado opositor ao governo de Madrid. Se por um lado a simplicidade do conflito em “La Bodega” joga um pouco contra (se comparado às sagas rebuscadas dos livros anteriores do autor), por outro lado ela é mais delicada, sensível e humana, além de ser profundamente convincente. Na minha concepção, Noah Gordon escreveu “La Bodega” mais para aplacar suas vontades pessoais (uma história que o atraía) do que para conquistar novos leitores ou para satisfazer os antigos fãs (uma história que atraía os outros). Isso me parece evidente.

O único elemento negativo de “La Bodega” é a linguagem utilizada pelas personagens. As pessoas do século XIX falam exatamente igual a como falamos no século XXI. Esse problema é potencializado quando descobrimos que elas pensam e agem também como os indivíduos de hoje em dia. Aí alguém pode se perguntar: é possível um autor contemporâneo reproduzir o discurso de época de suas personagens ficcionais? Há exemplos bem positivos nesse sentido. Um caso elogioso que me vem à mente agora é "Outlander - A Viajante do Tempo" (Saída de Emergência), romance da norte-americana Diana Gabaldon que deu origem a uma bem-sucedida série literária. Parte da experiência do leitor em relação à viagem temporal proposta por Gabaldon está na diferença de linguagem das personagens ao longo dos séculos.

Confesso que gostei de “La Bodega”. Como uma leitura leve e descompromissada, o último romance histórico de Noah Gordon cumpre muito bem seu papel, ainda mais se lembrarmos que a obra é uma homenagem à Espanha e aos vinhos. Seu principal mérito é mostrar algo um pouco diferente dos títulos anteriores do autor. Só por isso, sua leitura já vale a pena. O seu charme está exatamente em sua simplicidade narrativa. Depois da coleção extensa de violência, das viagens intermináveis dos protagonistas e dos preconceitos étnico-religiosos sem fim dos romances anteriores de Gordon, acompanhar uma trama do norte-americano mais pé no chão e com uma pegada mais corriqueira foi algo prazeroso e tranquilo. Note que fiz tudo para não chamar esse romance de água com açúcar. Afinal, por mais que tente, Noah Gordon dificilmente conseguirá ser água com açúcar. Porém, se alguém um dia insistir em usar esse rótulo para alguma de suas obras, na certa “La Bodega” é quem ganhará essa marca.

Por mais que tenha gostado deste romance, é verdade também que ele está abaixo da excelência dos trabalhos literários anteriores do autor. “O Rabino”, “O Físico”, “Xamã” e “O Último Judeu”, por exemplo, são publicações muito (e põe muito nisso!) melhores do que “La Bodega”. Esta supera em qualidade apenas “O Diamante de Jerusalém”, disparado o título mais fraco de Gordon. Porém, essa questão deve-se muito mais à alta qualidade dos trabalhos precedentes de Gordon do que a falta de relevância de “La Bodega”.

Com o término das críticas individuais dos seis livros do autor norte-americano selecionados para este mês, chegou o momento de partirmos para a análise geral da literatura de Noah Gordon. Nela, vamos discutir prioritariamente o estilo literário do escritor, além de pontuarmos um pouco mais os aspectos de sua biografia, de sua carreira e de seu legado artístico. O post final do Desafio Literário de junho estará disponível, no Bonas Histórias, a partir de domingo, dia 30. Não perca a conclusão do nosso estudo literário sobre Noah Gordon!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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