• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Maria Moura


Darico Nobar: Boa noite, galera do Talk Show Literário! No programa desta noite, vamos receber a mulher mais arretada da literatura nacional. Diante dela, não há marmanjo que não trema nas bases. Com vocês, Maria Moura! [O público aplaude a moça de cabelos curtos que entra no auditório armada e vestindo roupas masculinas típicas do Sertão. A impressão é que ela vai à guerra ou está voltando de uma batalha].

Maria Moura: Olá. [A visitante olha desconfiada. Em seu rosto, parece não haver espaço para sorrisos].

Darico Nobar: Dona Moura, você veio em paz, certo? Pergunto isso porque estou um pouco nervoso diante de tanta arma. Meus convidados não costumam subir ao palco para as entrevistas com pistolas e facas a tiracolo...

Maria Moura: Vim em paz. O armamento é apenas força de hábito. Você e seus agregados [aponta para as pessoas da plateia] podem ficar tranquilos. Maria Moura é mulher direita. Como prova da minha boa vontade, também ficarei desarmada. [A moça desmonta seu bacamarte e coloca as partes da arma em cima da mesa do apresentador. Ela repete o gesto com seu punhal e com seu cinto de balas. Nesse momento, é possível notar que a entrevistada é uma mulher bonita, com um corpo bem delineado].

Darico Nobar: Obrigado. Agora posso fazer meu trabalho sem preocupação.

Maria Moura: Só faço mal para quem me fez mal primeiro. Ou a quem eu sei que é ainda pior do que eu. Não uso o que tenho [indica as armas que jazem na frente do entrevistador] para tripudiar ninguém. O senhor nunca me viu e jamais me verá maltratando os homens, as mulheres ou mesmo as crianças com quem convivo.

Darico Nobar: Soube que a senhora mandou matar algumas pessoas, roubou muito por aí... [O apresentador dá uma gaguejada neste momento]. Há quem diga que seu grupo produziu pólvora ilegalmente por muitos anos e, ainda por cima, deu proteção a vários criminosos lá na Serra dos Padres. Seu passado é um tanto controverso. Pela legislação, uma pessoa com esse perfil seria enquadrada como criminosa em vários artigos. O que a senhora tem a declarar em sua defesa?

Maria Moura: A culpa não é minha se no Sertão se mata e se rouba muito. Lá, honra se lava com sangue e dinheiro se ganha colocando as mãos nele. Não prejudiquei ninguém que não merecesse. Geralmente, era ele ou eu. Preferi ficar viva e rica a morrer na pobreza. Quem não briga pelo que quer, se acaba rapidamente!

Darico Nobar: A senhora é uma mulher jovem e bonita. Pessoalmente é até mais graciosa do que o descrito em Memorial de Maria Moura. Por que a necessidade de andar armada e vestida como homem? Isso não tira sua feminilidade?

Maria Moura: E quem disse que eu me preocupo com essa tal feminilidade?! Até onde sei, ela não bota medo em ninguém nem enche o bolso de dinheiro. Sou mulher de respeito e de trabalho. Ninguém iria me temer se eu andasse por aí como uma donzela. A legítima Maria Moura é esta que o senhor está vendo: uma guerreira.

Darico Nobar: A senhora acha que não seria respeitada se as pessoas a vissem como alguém mais feminina e não tão masculinizada?

Maria Moura: Não acho, tenho certeza. Na sociedade sertaneja, mulher só é valorizada quando temida. Se o cabra não treme os joelhos, ele não te considera, não te obedece. Meu comando é feito com a garrucha na mão e o punhal na cintura. Talvez aqui no Rio de Janeiro, onde tudo é tão moderno, possa ser diferente. Tenho até curiosidade para saber como as mulheres fazem para se impor diante de seus bandos.

Darico Nobar: Não tinha parado para pensar nessa relação...

Maria Moura: Não deve haver muitas diferenças, não. Apesar da mudança de cenário, o bicho homem é igualzinho em todo lugar: ardiloso, pouco confiável, muito preguiçoso e acima de tudo ambicioso. Não podemos dar mole, jamais. Por isso, a mulherada que alcança o comando acaba obrigada, na maioria das vezes, a se comportar de forma agressiva. Do contrário, passam por cima da gente rapidamente.

Darico Nobar: Quais os ônus da liderança, Dona Moura?

Maria Moura: Sentimos uma grande solidão quando estamos no comando. Talvez, somos duronas para esconder um pouco nossos medos e nossas fraquezas. O problema é que mesmo assim, acabamos muito machucadas. Para mim, liderar é sofrer.

Darico Nobar: Você diz isso por causa das frustrações amorosas que teve?

Maria Moura: Não sou mulher de frustrações, fique você sabendo. [A entrevistada fecha o punho e dá uma batida forte na mesa].

Darico Nobar: Todos os seus relacionamentos afetivos foram, no final das contas, decepcionantes. Primeiro com Liberato, seu padrasto. Depois com Duarte, seu primo. E, por fim, com Cirino, seu grande amor. O que deu errado, Dona Moura?

Maria Moura: O problema é que não há homem que preste nesse mundo. Se tivesse, as coisas seriam bem melhores para todos, tanto para nós mulheres quanto para vocês. Homem é bicho infiel, insensível e ganancioso. Não dá para confiar neles.

Darico Nobar: Apaixonar-se novamente: esse é o seu pior medo?

Maria Moura: Não tenho medo de paixonite nenhuma, fique sabendo. [A convidada cruza os braços e inclina levemente o tronco do seu corpo para frente]. As únicas coisas que temo nessa vida são morcego e cobra. Odeio bichos peçonhentos e traiçoeiros. Também não gosto de escuridão. Gosto de ver sempre o que há na minha frente.

Darico Nobar: E da solidão, a senhora não tem medo?

Maria Moura: O que é solidão para você pode não ser para mim. Esse é um conceito totalmente vago. O Beato Romano é quem dizia isso em suas pregações para os meus jagunços. Concordo com ele. Uma mulher que divide sua cama com o mesmo homem todas as noites ou aquela que sai sempre com vários homens diferentes podem ser, no fundo, mais solitárias do que outra que não sente o cheiro masculino há anos.

Darico Nobar: Quando falo em solidão, quero dizer a falta que faz um relacionamento duradouro... A senhora não gostaria de estar agora casada e com filhos ao invés de viver perigosamente por esse interiorzão sem fim?

Maria Moura: Se uma mulher disser que não sonha com casamento, com um homem bom ao seu lado, com uma rotina familiar satisfatória, com uma vida sexual ativa e com filhos ao seu redor, não acredite nela. Ou ela está mentindo ou há algo de muito errado com ela. Todas nós sonhamos com isso, não tem como negar. Por maior a fortuna da mulher, por mais poder e realizações profissionais que tenha, sua plenitude acontece, uma hora ou outra, em casa e na cama junto ao homem amado. Esse é um dos pressupostos da nossa espécie que jamais irá mudar. Digo espécie e não gênero. Isso se aplica tanto para as mulheres quanto para os homens.

Darico Nobar: Sua violência é fruto dessas frustrações amorosas? Pergunto isso porque o fim do seu relacionamento com Cirino a modificou muito. Se eu não estiver enganado, você ficou mais audaciosa como cangaceira depois disso, não?

Maria Moura: Acho que vou precisar disso mais cedo do que imaginei... [A entrevistada pega seu bacamarte de cima da mesa. Ela monta a arma e a coloca na sua cintura. Faz o mesmo com a faca e a cinta de munições, demonstrando muita raiva].

Darico Nobar: O que é isso, Dona Moura? A senhora ficou brava?!

Maria Moura: E como ficar calma na frente de um sujeito burro e machista?! Quer dizer que quando o homem sai por aí matando e roubando é instinto dele. Quando uma mulher faz o mesmo é porque ela é "mal-comida". É isso o que o senhor pensa?

Darico Nobar: Não, não! Não foi isso que eu quis dizer.

Maria Moura: Se fosse assim, o Lampião não teria feito Maria Bonita tão feliz e o Padre Cícero teria dezenas de mulheres esperando por ele em casa.

Darico Nobar: Desculpe-me, Dona Moura. Acho que me expressei mal.

Maria Moura: As ações do grupo da Casa Forte ficaram mais poderosas com o tempo porque adquirimos mais experiência e recursos. [A convidada esforça-se para manter a serenidade]. Assim, me parece natural as investidas mais grandiosas da nossa parte. Ou você acha que eu ia ficar roubando galinha na beira da estrada a vida toda?

Darico Nobar: Atualmente, qual é sua maior fonte de renda?

Maria Moura: Hoje em dia, tenho uma empresa de armamentos. Ela é a maior do país, chegando a exportar para vários países as armas e as bombas que fabricamos lá na Serra dos Padres. Quem comanda essa empresa no dia a dia é o Duarte. O Beato Romano nos ajuda muito, sendo o responsável pelos Recursos Humanos.

Darico Nobar: E sua fazenda? E o cangaço?

Maria Moura: Minha fazenda continua produzindo, mas não dá tanto lucro quanto a empresa de armamento. No Sertão, matar as pessoas sempre foi mais rentável do que alimentá-las. E continuamos no cangaço mais por hobby do que por profissão. Agora, os crimes mais rentáveis do país são os de colarinho branco. Para ficar rico não é mais necessário pegar em armas e ameaçar diretamente as pessoas.

Darico Nobar: A senhora se casou? Teve filhos? Diga-nos, por gentileza, mais sobre sua vida pessoal!

Maria Moura: Por quê? [A convidada saca sua pistola e aponta na direção da cabeça do apresentador]. Está querendo mangar de mim, é isso?

Darico Nobar: Não! É só curiosidade mesmo... [O medo é tão grande que ele treme].

Maria Moura: Não quero mais falar de mim nem da minha vida pessoal. Se eu não deixei a Rachel de Queiroz, uma amiga que estimava e respeitava muito, continuar o romance dela porque achei que já tinha exposto de mais minhas intimidades, imagine o que não faço com você, que tem uns pensamentos lesados sobre a minha pessoa e sobre as mulheres.

Darico Nobar: Achei que ela tivesse terminado o livro porque você tinha morrido.

Maria Moura: E você acha que existe cabra nesse mundo capaz de abater Maria Moura em combate? Não! Sou a "Rainha do Cangaço". Não nasci para ter esse tipo de fim.

Darico Nobar: Dona Moura, acho melhor encerrarmos o programa agora mesmo.

Maria Moura: Isso mesmo. Faça isso antes que alguém saia melado daqui.

Darico Nobar: Pessoal, obrigado por assistir a mais um Talk Show Literário. Na semana que vem retornamos. Beijo a todos! [Quando a música de encerramento entra, o apresentador volta-se para sua entrevistada]. Agora dá para a senhora abaixar essa arma?!

Maria Moura: Tome tino, seu machista desgraçado! [Ela abaixa a arma com alguma relutância].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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