• Ricardo Bonacorci

Livros: Suicidas – O aclamado romance policial de Raphael Montes


É muito legal conhecer os trabalhos artísticos dos jovens talentos da literatura nacional. Há uma nova geração de escritores brasileiros que já desponta com enorme sucesso junto ao público leitor e à crítica especializada. Quem acompanha atentamente o Bonas Histórias já deve ter percebido que abrimos espaço para os livros dos jovens autores do nosso país. Na semana retrasada, por exemplo, comentamos “Capão Pecado” (Tusquets), o mais famoso romance de Ferréz. Pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, Ferréz é um autor nascido e criado no Capão Redondo, bairro periférico de São Paulo. “Capão Pecado” inaugurou uma nova fase da Literatura Marginal.

No post de hoje, vamos deixar a periferia da cidade de São Paulo e vamos viajar até a zona sul do município do Rio de Janeiro. A ideia é falarmos da literatura policial e de terror de Raphael Montes, um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira atualmente. O carioca de apenas 29 anos foi apelidado de “Prodígio do Crime”. Ele se aproxima de atingir a respeitável marca de seis dígitos em livros vendidos. E olha que Montes tem apenas sete anos de carreira profissional. Nesse período, publicou três romances e uma coletânea de contos, além de ter participado de algumas antologias de contos e da produção de alguns roteiros televisivos e cinematográficos.

Ao longo dessa semana, minha leitura de Raphael Montes foi “Suicidas” (Benvirá), seu romance de estreia. Nesta trama policial ao melhor estilo noir, o jovem escritor carioca utilizou-se de um intricado jogo narrativo para contar a história de um grupo de nove jovens que praticou roleta-russa no porão de uma mansão.

“Suicidas” foi escrito quando Montes tinha entre 16 e 19 anos. Ou seja, o livro começou a ser produzido quando o autor estava no ensino médio e foi concluído nos anos iniciais do curso de bacharelado em Direito. Depois da obra finalizada, Raphael Montes enviou os originais para várias editoras. Porém, todas recusaram-se a publicar a história. Apenas quando o romance foi finalista do Prêmio Benvirá de 2010, a chance de vê-lo impresso apareceu. A Benvirá, editora do grupo Saraiva, decidiu lançar “Suicidas”. O romance foi publicado em 2012 e rapidamente se tornou finalista de importantes prêmios nacionais: Prêmio Machado de Assis de 2012 e Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria autor estreante. Em 2015, o romance foi adaptado para o teatro.

Depois do sucesso de “Suicidas”, Raphael Montes lançou “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), thriller de 2014, “O Vilarejo” (Suma das Letras), coletânea de contos de terror de 2015, e “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), romance policial de 2016. Essas obras foram traduzidas para vários idiomas e foram lançadas nos Estados Unidos e na Europa. Como roteirista, o carioca participou do seriado “Supermax” e da telenovela “A Regra do Jogo”, ambos da Rede Globo. No cinema, colaborou com o roteiro de “Praça Paris” (2016), filme dirigido por Lucia Murat.

O enredo de “Suicidas” se passa na cidade do Rio de Janeiro entre junho de 2008 e outubro de 2009. A parte principal da trama ocorre em setembro de 2008 no porão da Cyrille’s House, a casa de campo da família Vasconcellos. É ali que nove jovens na faixa de dezoito a vinte e um anos e vindos de lares da classe alta e média do Rio se reúnem em uma madrugada. Eles querem brincar de roleta-russa, enquanto se embebedam e se drogam. Para quem não sabe o que é uma roleta-russa, trata-se da prática de colocar uma bala no tambor de um revólver, girá-lo, apontar a arma para si próprio e apertar o gatilho. A sorte (ou o azar) indicará quem se safará do disparo (ou quem será a vítima do tiro). A brincadeira do grupo de amigos tem uma finalidade mórbida. Todos querem se suicidar. Na proposta deles, somente o último que sobrar vivo poderá escolher entre permanecer com vida ou dar o disparo fatal de misericórdia. Os demais não terão escolha: irão morrer naquela madrugada.

A roleta-russa foi uma ideia de Zak Vasconcellos, o anfitrião. Depois que seus pais milionários morreram em um acidente de carro, o rapaz, um universitário do curso de Direito metido a playboy, decidiu tirar sua vida. Para o suicídio ganhar ares megalomaníacos, ele convidou alguns dos seus conhecidos mais deprimidos para participar. Assim, juntaram-se à comitiva Alessandro, o amigo de infância de Zak, Otto, o amante secreto do playboy, Waléria, a moça que havia engravidado de Zak, e Danilo, um vizinho com Síndrome de Down. Vieram também Ritinha, Noel e Lucas, três colegas da faculdade de Direito. Maria João, a irmã de Lucas, completou o bando.

O suicídio coletivo foi narrado em tempo integral e em primeira pessoa por Alessandro Parentoni de Carvalho, um jovem introspectivo que sonhava em ser escritor. Depois de ouvir inúmeras recusas das editoras que não queriam publicar seus romances, ele decidiu, em uma atitude desesperada, narrar a roleta-russa em que participaria com Zak. Em sua mente, o relato cruel e real iria despertar a curiosidade das editoras. Além disso, o apelo de ser um autor póstumo iria ser um fato decisivo para sua entrada no mundo editorial. Alessandro queria virar um romancista, nem que para isso precisasse morrer com uma bala na cabeça.

Enquanto acompanha o relato de Alessandro no porão da Cyrille’s House, os leitores podem ver as anotações do rapaz nos meses que antecederam a tragédia. Assim, conseguimos compreender as motivações que levaram o grupo de jovens a praticar algo tão radical. Além disso, os leitores também verificam a investigação da delegada Diana Custódio Guimarães para essa tragédia. Um ano depois do suicídio coletivo dos jovens, Diana marcou um encontro com as mães dos envolvidos para tentar solucionar o caso, até então inconcluso. A policial quer ver se elas podem fornecer mais informações. A reunião é gravada e a transcrição do áudio do encontro é apresentada nas páginas do livro.

Essas três partes do romance (o relato de Alessandro no porão da casa dos Vasconcellos, as anotações precedentes ao fatídico dia e o áudio da conversa da delegada com as mães) estão interpostas durante todo o livro. Cada capítulo da obra é uma dessas partes. O trio se reveza o tempo inteiro na exposição dos mistérios da trama. A construção final do quebra-cabeça é feita com o vai-e-volta do tempo narrativo. O leitor volta ao “passado” e avança ao “futuro” para descobrir o que ocorreu na fatídica madrugada da roleta-russa juvenil.

“Suicidas” é aquele tipo de livro em que sabemos como ele vai acabar logo nas primeiras páginas (diria que o título já conta como a trama termina). Mesmo assim, isso não estraga em nada a graça da obra. O interessante desta história está em descobrir como os jovens irão se matar no porão da Cyrille’s House e, principalmente, quais são os motivos para cada um dos suicídios. O suspense aumenta quando descobrimos que os pais de Zak Vasconcellos não morreram vítimas de um acidente corriqueiro de automóvel. Eles foram assassinados. À medida que os capítulos avançam, o drama se torna cada vez mais surpreendente. Raphael Montes se mostra mestre em trazer reviravoltas para seu romance e alimentar o leitor com várias novidades durante a trama.

O livro de estreia do autor carioca tem quase 500 páginas. É, portanto, um romance parrudo, um tijolão. É muito legal ver um escritor até então iniciante com uma proposta tão ousada e substancial, sem medo de arriscar. Apesar de volumosa, “Suicidas” é uma obra de leitura rápida. Concluí a publicação inteira em duas noites. Se você for como eu e gostar de ler à noite, saiba que provavelmente sua leitura se estenderá pela madrugada a dentro. Será difícil desgrudar das páginas desta obra. Falo isso com propriedade de causa.

“Suicidas” é um romance policial original e muito bem desenvolvido. O que mais chama a atenção do leitor é o estilo próprio de Raphael Montes. Com apenas 19 anos de idade (idade em que o autor produziu a obra), ele já mostrava maturidade e ciência de todas as etapas do processo narrativo em seu livro de estreia. Sem dúvida nenhuma, trata-se de um talento natural do ofício da escrita ficcional.

As grandes inovações desta publicação estão na escolha dos focos narrativos e na apresentação fragmentada da trama em diferentes tempos narrativos. Os relatos de Alessandro Parentoni de Carvalho são apresentados ao público depois dos acontecimentos trágicos. Ou seja, já sabemos (mais ou menos) o desfecho (ou achamos que sabemos). Mesmo assim, acompanhamos a narração dele feita no presente, como se vivenciássemos aquilo em tempo real. É muito legal esse recurso. O tripé (antes, durante e depois da roleta-russa) é intensificado pela transcrição do áudio da delegada Diana. Aqui a história passa a ser escrita em terceira pessoa, sem um narrador efetivo. Portanto, além dos diferentes tempos narrativos, temos dois tipos de narradores (em primeira e em terceira pessoa). Raphael Montes apresenta aos seus leitores um complexo quadro narrativo, que a cada página se torna mais sedutor. Sensacional, não?!

O estilo noir é intensificado pela ambientação sombria da realidade dos jovens da classe média e alta do Rio de Janeiro. O drama de cada personagem é difícil de ser desmascarado em um primeiro momento. É preciso mergulhar em suas rotinas e nos seus dilemas mais íntimos para entender suas decisões de se suicidar. Adorei a construção das personagens do romance. A maioria delas é do tipo redondo, o que aumenta a complexidade da narrativa. Repare como Raphael Montes cria uma história com dezenas de personagens e, mesmo assim, o leitor não fica confuso. Cada figura é tão autêntica, forte e relevante para a trama que rapidamente acabamos entendendo o quadro geral e o papel de cada uma delas na história.

Também fiquei encantado com o desfecho de “Suicidas”. Depois de alimentar o suspense com várias peças aparentemente soltas, o autor consegue encaixá-las com excelência no final, apresentando um desenlace surpreendente. É verdade que o(s) culpado(s) é(são) um tanto óbvio(s) para quem já é conhecedor dos romances policiais. Saquei o que estava acontecendo antes da metade do livro. Mesmo assim, o último capítulo é incrível, capaz de derrubar o leitor da cadeira (ou do sofá ou de onde ele estiver lendo). A brincadeira de misturar realidade ficcional e realidade não ficcional presente na última linha da página final só torna a proposta do autor ainda mais rica. Impossível não gostar disso e não ficar com o queixo caído.

Esse final híbrido que mescla realidade ficcional e realidade não ficcional só valoriza ainda mais as partes do livro que exploram os desafios de Alessandro, uma das personagens principais, em ingressar no mundo da literatura comercial. É muito legal ver que cada pecinha do quebra-cabeça narrativo tem uma função pré-determinada e exerce um poder de influência no leitor.

O principal ponto negativo, a meu ver, neste livro de Raphael Montes é a inverossimilhança do registro escrito na madrugada derradeira no Cyrille’s House. Não é preciso ser escritor para saber que ninguém consegue registrar simultaneamente os acontecimentos reais em uma folha de papel com tamanha riqueza de detalhes. Curiosamente, o desfecho da trama ainda deu margem para Montes explicar essa incompatibilidade entre realidade e ficção, porém o autor não fez nenhuma correção. Achei esse um erro sério de natureza narrativa.

Outra questão que me pareceu pouco verossímil é o fato de alguém deprimido conseguir levar oito amigos para uma noitada suicida. Será mesmo que Alessandro, Otto, Waléria, Danilo, Ritinha, Noel, Lucas e Maria João aceitariam o convite de Zak para uma roleta-russa com o desfecho marcado? Alguns casos parecem um tanto forçados. Se Waléria não queria praticar o aborto, por que então aceitaria se matar? Se Maria João abominava o suicídio, por que iria praticá-lo? E se Otto estava radiante com a possibilidade de viver com o amor de sua vida, por que iria para uma roleta-russa? Muitas das justificativas apresentadas não me convenceram.

Tirando um ou outro tropeço, naturais em qualquer romance de estreia, “Suicidas” é uma excelente narrativa policial. Gostei de sua proposta e, ainda mais, de sua execução. Raphael Montes soube construir um drama denso, sombrio e fortíssimo com muitos mistérios e surpresas. Se você gosta de thrillers com reviravoltas, este livro é um prato cheio. Conhecer a literatura de Montes é se inteirar do que há de melhor em nosso país na área do suspense e do terror. Em suma, é um autor imperdível para quem gosta de bons livros nacionais.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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