Livros: Os Vestígios do Dia – O principal romance de Kazuo Ishiguro

Ontem, concluí a leitura de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), a principal obra de Kazuo Ishiguro. O escritor nipo-britânico conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 2017 e é aclamado pela crítica e pelo público como uma das vozes mais contundentes da ficção contemporânea. Por não ter lido nada deste autor até então, resolvi começar logo pelo seu romance mais famoso. E admito que estou até agora estupefato com a qualidade do livro que passou pelas minhas mãos neste final de semana. “Os Vestígios do Dia” é um trabalho literário sublime! Com extrema delicadeza e precisão, Ishiguro constrói uma narrativa dramática sobre um velho mordomo inglês. O protagonista-narrador da trama é um homem obcecado pela sua profissão e fanático pela obtenção da perfeição profissional. O resultado não poderia ter sido outro: a conquista do Man Booker Prize, o principal prêmio literário de língua inglesa. Mais tarde, esta história foi adaptada para o cinema. O longa-metragem de 1993 teve a direção de James Ivory e contou com um elenco de primeira (Anthony Hopkins, Emma Thompson, James Fox, Christopher Reeve e Hugh Grant). O filme recebeu oito indicações ao Óscar.

 

Nascido em Nagasaki, em 1954, Kazuo Ishiguro se mudou com os pais ainda pequeno para a Inglaterra. Criado desde os cinco anos de idade na Europa, onde permanece morando até hoje, o escritor é visto pela crítica literária e pelo mercado editorial mais como um autor inglês do que propriamente japonês. Afinal, seu texto é produzido na língua de Shakespeare e suas tramas são ambientadas essencialmente no Reino Unido. Formado em Inglês e em Filosofia no final da década de 1970, Ishiguro fez, em 1980, o curso de Escrita Criativa do britânico Malcolm Bradbury (não confundir com o norte-americano Ray Bradbury). Iniciava-se ali a carreira do nipo-britânico na literatura comercial. Após publicar contos e artigos em revistas e lançar uma coletânea de pequenas narrativas, Kazuo Ishiguro passou a escrever romances. Até este momento foram sete. O primeiro foi “Uma Pálida Visão dos Montes” (Rocco), título de 1982. O mais recente é “O Gigante Enterrado” (Companhia das Letras), de 2015.

Publicado em 1989, “Os Vestígios do Dia” é o terceiro romance de Ishiguro. Esta obra veio na sequência de “Um Artista do Mundo Flutuante” (Companhia das Letras), de 1986. Produzido em apenas quatro semanas, “Os Vestígios do Dia” é o retrato mais bem-acabado da força dramática da literatura praticada por Kazuo Ishiguro. Além de ganhar o Man Booker Prize, este romance é apontado por muitos críticos literários como uma das melhores ficções em língua inglesa da segunda metade do século XX. O jornal The Observer, por exemplo, colocou este livro na oitava posição dos melhores romances britânicos escritos entre 1980 e 2005. E o The Guardian vai além ao incluir esta obra de Ishiguro na lista de 1.000 romances universais que todo leitor de bom gosto deveria ler.  

 

“Os Vestígios do Dia” é narrado em primeira pessoa por Stevens, o velho mordomo de Darlington Hall, uma das residências mais tradicionais da Inglaterra. A história se passa no Verão de 1956. Stevens já está trabalhando ali há trinta anos. Entre o início da segunda metade da década de 1920 e o final da primeira metade dos anos de 1950, ele serviu Lord Darlington, um influente e engajado cavalheiro inglês. O longo tempo de permanência em um posto tão importante fez Stevens conhecer os principais mordomos de sua geração, que obviamente trabalhavam para as famílias mais nobres do país. Para o protagonista-narrador do romance, Mr. Marshall e Mr. Lane são os melhores mordomos que a Inglaterra já teve. Obcecado por integrar o grupo de elite de sua profissão, Stevens se dedicou com afinco durante anos para se tornar um mordomo perfeito.  

 

Com a morte recente de Lord Darlington, a mansão foi vendida para John Farraday, um ricaço norte-americano. Apesar da mudança de proprietário, Stevens continuou sendo o mordomo da residência. Contudo, os tempos dourados de Darlington Hall ficaram definitivamente para trás. Ao invés de dezenas e dezenas de funcionários para administrar o palacete e para recepcionar os vários convidados que eram presença constante na época de Lord Darlington, agora a casa tem apenas meia dúzia de empregados para cuidar de uma rotina com poucos visitantes. Isso é decorrência do estilo mais prático e menos requintado do Sr. Farraday. A nova configuração do trabalho deixa Stevens muito preocupado. A idade avançada e as atividades que se acumulam diariamente o fazem cometer pequenos deslizes, algo imperdoável para alguém perfeccionista e que deseja manter o status de grande mordomo.

Quando John Farraday comunica que precisará viajar algumas semanas para os Estados Unidos, Stevens é incentivado pelo patrão a sair alguns dias de férias. Para tirar o mordomo de casa, algo incomum nas últimas três décadas, o Sr. Farraday chega a oferecer seu carro e o custeio das despesas de gasolina para que o funcionário pegue a estrada e passeie um pouco. Com a intenção de visitar uma antiga governanta, Miss Kenton (agora Mrs. Benn), Stevens aceita o convite do patrão. Assim, ele realizará uma viagem em direção ao Oeste do país com o propósito de convencer Mrs. Benn a retornar à Darlington Hall para sua antiga função. Para tal, vai se aproveitar dos problemas matrimoniais que a ex-governanta aparentemente enfrenta. Com a possível contratação de Mrs. Benn, Stevens acredita que parte dos problemas com os funcionários na residência de Sr. Farraday serão resolvidos.

 

Entretanto, enquanto viaja para se encontrar com a antiga colega, o narrador tem suas lembranças afloradas. Ao invés de descrever sua viagem realizada no presente, Stevens relata na verdade os acontecimentos do passado. Ele narra sua trajetória como mordomo em Darlington Hall, sua relação com o pai, o relacionamento com Lord Darlington, as pessoas importantes que conheceu na residência e os entreveros com Miss Kenton. Mordomo e governanta tiveram um relacionamento profissional de altos e baixos. Ora eles tinham brigas homéricas e ficavam sem se falar por semanas, ora estavam em harmonia, analisando as atividades dos funcionários da residência em agradáveis chás.      

 

“Os Vestígios do Dia” possui 288 páginas. Elas estão divididas em sete capítulos, além do prólogo. Cada capítulo descreve um dia da viagem do protagonista (na verdade, cada seção do livro apresenta as lembranças que Stevens teve em cada etapa de sua jornada para o Oeste da Inglaterra). É possível ler este livro em apenas dois dias. Eu o comecei na sexta-feira à tarde e o concluí já no sábado. Não preciso dizer que esta leitura me prendeu como poucas. Simplesmente não consegui largar esta obra até chegar à sua última página.

 

Na versão brasileira editada pela Companhia das Letras, ainda temos ao final do romance um conto de Kazuo Ishiguro. A pequena narrativa chamada de “Depois do Anoitecer” foi publicada originalmente na revista New Yorker em maio de 2001 e apresenta o drama de Fletcher, o morador ilustre de um pequeno povoado. Depois de ter se tornado famoso nacionalmente, o protagonista retorna depois de muitos anos para sua terra natal, despertando as mais diferentes emoções nos habitantes do lugar. Apesar de interessante, o conto fica esvaziado quando colocado ao lado de um romance tão sensacional. Mesmo com a aparente relação entre os títulos das duas narrativas (“Os Vestígios do Dia” e “Depois do Anoitecer”), sinceramente não consegui encontrar nenhuma associação mais significativa entre essas histórias.    

É difícil precisar o que é mais incrível em “Os Vestígios do Dia”. Para começo de conversa, a escolha do protagonista foi acertadíssima. Stevens é uma personagem riquíssima e bastante contraditória. A obsessão do mordomo pelo trabalho e pela perfeição profissional o transforma em uma figura solitária, triste e melancólica. Até mesmo sua humildade é apenas aparente (ele aceita parecer mais importante do que é para os desconhecidos e para os pobres). No fundo, Stevens é um homem frio e calculista que tenta abafar qualquer tipo de sentimento que nutre pelas pessoas ao seu redor. Isso fica mais evidente no relacionamento com seu pai e com a governanta de Darlington Hall. Outro indício da frieza emocional da personagem é sua dificuldade para ser engraçado. A inabilidade para fazer pequenos gracejos o aflige profundamente. Na vida de Stevens, não sobra espaço para nada que não seja seu trabalho sério de servir ao seu patrão vinte quatro horas por dia, sete dias por semana.

 

De certa forma, Stevens não vive, ele apenas trabalha. Ele não tem um passado pessoal e sim uma trajetória profissional. A obsessão pela sua carreira molda não apenas sua rotina como também sua personalidade. Nesse sentido, temos um workaholic do nível mais grave. O mordomo se cobra o tempo inteiro na busca pela perfeição profissional. Ele deseja atingir o status de “grande mordomo” de sua geração, colocando seu nome na história de sua profissão.   

 

Porém, por mais que tente reprimir suas emoções ao máximo, Stevens acaba sutilmente dando sinais de vacilo pouco a pouco nessa área. O leitor mais atento poderá constatar nas páginas de “Os Vestígios do Dia” o quanto o mordomo sofre para não dar vazão ao seu lado humano e passional. Paradoxalmente, é nos momentos de maior importância da carreira do mordomo quando acontecem eventos de maior relevância em sua vida pessoal. Sem pensar duas vezes em qual atitude tomar, o protagonista acaba escolhendo sempre um lado para focar, desprezando completamente o outro. Somente no final da vida, ele se questionará se suas escolhas foram acertadas. Incrível!  

 

O formalismo, a seriedade e o jeitão contido do protagonista (um típico mordomo inglês) estão presentes no texto do livro. Essas características foram justamente o elemento que primeiro chamou minha atenção nesta leitura. O tom da narrativa é totalmente condizente com a personalidade e a função exercita pelo narrador na trama. Realmente, a impressão que temos é estar ouvindo a voz de um mordomo de uma tradicional família inglesa. A elegância e o formalismo de suas palavras e do seu relato intensificam a experiência literária. A personagem principal deseja relatar essencialmente a vida de seu ex-patrão, envolvido com o nazismo durante o período entre guerras, a dinâmica de trabalho em Darlington Hall em sua fase dourada e as particularidades da profissão de mordomo. Contudo, sem querer, ele acaba expondo seus dramas mais íntimos, obviamente a parte mais interessante do romance. Por mais que tente colocar sua trajetória pessoal e suas particularidades em segundo plano nesta história (como mordomo, ele está acostumado a passar despercebido aos olhos das outras pessoas), Stevens é alçado magicamente para o primeiro plano da trama.  

Ao mesmo tempo, “Os Vestígios do Dia” também tem um aspecto de confidência muito forte. Stevens conversa diretamente com o leitor, apresentando aspectos de sua vida e de suas experiências sem qualquer temor ou rodeio. O tom de diálogo é bastante acentuado, principalmente quando o narrador chama os leitores para a conversa e quando apresenta figuras até então desconhecidas para eles (que pouco a pouco vão se tornando familiares também a quem lê o romance). Nesse aspecto, achei primoroso o expediente narrativo utilizado por Kazuo Ishiguro. O escritor fala de um assunto particular do universo do narrador-protagonista (profissão de mordomo) com tanta beleza e paixão que acaba cativando o leitor, que a princípio não se interessaria por um tema tão específico como este. Aí reside o grande charme de “Os Vestígios do Dia”. A leitura se torna agradabilíssima pela curiosidade que temos para desvendar o que há por trás do relato conceitual e prático de um mordomo sobre sua profissão.    

 

Curiosamente, ao invés de avançar (seguir para frente) no relato da viagem do protagonista, o romance acaba caminhando o tempo inteiro para trás (mergulhando no passado de Stevens). Somente no último capítulo da obra, passado e presente se juntam. O impacto desse encontro é inevitável e profundo. Apenas nesse instante, o leitor consegue compreender o genuíno drama da personagem principal.

 

O ritmo da narrativa não é, vale a pena alertar, acelerado. Talvez isso desagrade um pouco os leitores mais ansiosos e com dificuldades para se ater ao subtexto do romance. A trama vai se desenrolando aos poucos, de maneira bem tímida (o que é perfeitamente compatível com a personalidade do narrador-protagonista). Para entender a intensidade dos relatos do mordomo é preciso investigar o que está nas entrelinhas. “Os Vestígios do Dia” é o típico livro em que o subtexto é mais forte, grande e contundente do que sua parte denotativa.      

 

Outra questão que merece destaque é o humor fino desta história. Diferentemente do que Stevens diz nas páginas do romance, ele consegue sim ser engraçado (ao menos é em sua narrativa para o leitor). Há relatos hilários durante os capítulos: episódio protagonizado pelo pai da personagem principal, que também foi mordomo, quando uma onça apareceu embaixo da mesa da sala; explicação da vida sexual dos homens através da analogia de pássaros e de abelhas para o filho de um hóspede que está prestes a se casar; chegada de Stevens em um carro fino em uma pequena e pobre aldeia do interior do país; etc. O humor aqui é na maioria das vezes trágico-cômico. Há também ótimas cenas dramáticas que ficarão por muito tempo na cabeça do leitor. As principais delas são referentes ao auge da carreira da personagem principal. Justamente quando vivia os momentos máximos de sua carreira, episódios decisivos de sua vida pessoal afloravam (morte do pai e noivado de Miss Kenton).     

O livro de Ishiguro também apresenta vários choques culturais: entre gerações (mordomos da época do pai de Stevens e mordomos da época de Stevens), entre nações (estilo de vida nos Estados Unidos versus estilo de vida na Inglaterra), entre ricos e pobres, entre patrões e empregados, entre famílias tradicionais e novos ricos e entre a fase madura e a juventude do protagonista. O romance caminha sempre entre uma dessas dualidades.  

 

Ao mesmo tempo em que assiste ao drama particular de Stevens em Darlington Hall, o leitor também acompanha os principais acontecimentos geopolíticos das décadas de 1930, 1940 e 1950: a ascensão do nazifascismo na Europa Pós-Primeira Guerra Mundial, o surgimento do antissemitismo, do totalitarismo e de grupos paramilitares (“camisas negras”), o crescimento da germanofobia na Inglaterra e na França, a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o início da supremacia norte-americana na política mundial. Quem gosta e conhece História, na certa irá se deliciar com as citações de passagens e de personagens reais de uma das épocas mais turbulentas do continente europeu.

 

“Os Vestígios do Dia” é realmente um dos melhores livros que li nos últimos cinco anos. Somente pela leitura desta obra já é possível dizer que a entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2017 foi parar em boas mãos. Kazuo Ishiguro é um dos principais escritores da atualidade e precisa ser lido. Admito que fiquei com vontade de conhecer mais romances seus e até de incluir o autor no Desafio Literário do próximo ano. Quem sabe não tenhamos mais análises das obras de Ishiguro em um futuro próximo no Bonas Histórias, hein? Confira!

 

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