• Ricardo Bonacorci

Livros: Emboscada no Forte Bragg – O romance de Tom Wolfe sobre o jornalismo


Aproveitei esse final de semana de Carnaval para conhecer “Emboscada no Forte Bragg” (Rocco/L&PM Pocket), o romance do norte-americano Tom Wolfe sobre os meandros éticos do jornalismo investigativo. Peguei emprestada esta obra na Biblioteca Parque Villa-Lobos na semana passada e só agora tive a oportunidade de lê-la. Em época de vazamento de dados pessoais de autoridades, da manipulação de imagens e depoimentos pela mídia e da exposição pública de conversas privadas, a temática deste livro de Wolfe continua surpreendentemente atual. Infelizmente, isso se aplica tanto ao Brasil quanto aos principais países do mundo.

Mais conhecido como um dos fundadores do New Journalism (olhar literário para os fatos do cotidiano e para os textos jornalísticos) e autor de várias obras não ficcionais, Tom Wolf, que faleceu em maio de 2018, escreveu cinco romances. O mais famoso deles foi exatamente sua estreia na ficção: “Fogueira das Vaidades” (Rocco), de 1987, um clássico da literatura norte-americana. “Emboscada no Forte Bragg” é seu segundo livro desse gênero, lançado quase dez anos depois de “Fogueira das Vaidades”. Considerada leitura obrigatória nos bons cursos de jornalismo, “Emboscada no Forte Bragg” apresenta boa parte das características que notabilizaram a literatura de Wolfe. Além disso, este título tece uma crítica ácida (diria até mordaz) sobre a atividade e o papel da imprensa livre. Impossível ficarmos indiferentes a um debate tão polêmico quanto esse.

Curiosamente, a primeira publicação desta história aconteceu, entre dezembro de 1996 e março de 1997, na revista Rolling Stone. A trama foi lançada em quatro capítulos (“Eu, Irv”, “A Importância de Lola Thong”, “O Verdadeiro Macho” e “Culpado, Culpado, Culpado!”). Somente depois da boa repercussão no periódico é que “Emboscada no Forte Bragg” ganhou uma versão em brochura e passou a ser vendido regularmente nas livrarias.

Pelo tamanho enxuto (são apenas 136 páginas), há quem classifique este título de Tom Wolfe como uma novela (concordo com essa opinião). De qualquer forma (sendo um romance pequeno ou mesmo uma novela), trata-se de uma leitura muito rápida. Precisei de aproximadamente três horas e meia para ir da primeira à última página do livro. Ou seja, é possível lê-lo em uma única tarde. Foi o que fiz no último sábado (quem disse que não dá para juntar Carnaval e literatura, hein?).

“Emboscada no Forte Bragg” mostra ao leitor o trabalho da equipe de jornalismo do Dia & Noite, um programa de notícias de uma emissora de televisão sediada em Nova York. Irv Durtscher é o produtor executivo da atração. Ele, um judeu gordinho, careca e careta de 42 anos de idade, anseia por reconhecimento tanto do público quanto dos colegas de profissão. Responsável principal pelo sucesso do programa, Irv é apenas uma figura patética que fica escondida nos bastidores da TV. Nem os chefões do canal parecem reparar nele e em seu trabalho.

A principal personalidade do Dia & Noite é Mary Cary Brokenborough, a âncora da atração. Com mais de 40 anos de idade, a loira elegante e charmosa vinda do Sul do país é uma das mais famosas jornalistas norte-americanas da atualidade. Para infelicidade de Irv Durtscher, é ela quem ganha todos os méritos pelo excelente trabalho realizado pela equipe do programa. Além da dupla produtor executivo-apresentadora, integram o Dia & Noite vários profissionais (câmeras, maquiadores, repórteres). Anthony Ferratti, por exemplo, é um dos mais carismáticos produtores regionais.

Em busca de um furo (notícia dada em primeira mão), a equipe do programa monta uma emboscada para pegar os culpados pelo assassinato de Randy Valentine, um jovem soldado gay do Exército dos Estados Unidos. Valentine foi espancado até a morte em um banheiro de um bar em Bragg Boulevard, na cidade de Fayetteville, na Carolina do Norte. Os principais suspeitos são James Lowe, Virgil Ziggefoods e Randall Flory, soldados de elite das Forças Armadas norte-americanas. O trio está alocado no Forte Bragg, uma base militar naquela região. Apesar das suspeitas que pairam sobre eles, o porta-voz do Exército veio à público para rechaçar qualquer culpa dos seus soldados e depositar total confiança em Lowe, Ziggefoods e Flory. A maioria da imprensa acreditou nas palavras da autoridade do governo.

Entretanto, a equipe do Dia & Noite não engoliu a versão oficial das Forças Armadas e decidiu extrair por conta própria uma confissão dos soldados. Liderada por Irv Durtscher, a reportagem investigativa do programa tenta elucidar de uma vez por todas o caso. Para tal, os jornalistas se valem de todos os expedientes possíveis (éticos e não éticos) para alcançar seus objetivos: grampeiam com microfones e câmeras um bar de striptease onde Lowe, Ziggefoods e Flory costumam frequentar; contratam uma prostituta para seduzir os rapazes; aproveitam-se do estado de embriaguez dos jovens para entrevistá-los sem que eles saibam; produzem um vídeo erótico para captar a atenção dos rapazes; levam os suspeitos para uma arapuca; e, por que não, usam e abusam da edição nas entrevistas realizadas. Pronto! Com uma armação dessas (coisa de profissional, né?), o time do Dia & Noite acredita que conseguirá extrair a confissão do trio e, assim, produzir um furo que será noticiado no país inteiro.

A principal discussão proposta por Tom Wolfe em “Emboscada no Forte Bragg” é: até onde pode ir o trabalho dos jornalistas na investigação de um caso? O leitor sabe exatamente o que aconteceu no bar no dia em que Randy Valentine foi espancado até a morte (portanto, não estou revelando aqui nenhum spoiler!). O jovem foi assassinado porque seu agressor era homofóbico (o criminoso o pegou praticando sexo oral em um homem no banheiro do estabelecimento). Porém, é aceitável manipular imagens, depoimentos e situações para se conseguir uma confissão?! Essa é uma pergunta delicadíssima que fazemos o tempo inteiro durante a leitura desse romance. Os jornalistas do Dia & Noite ultrapassam várias vezes a linha da ética (no melhor dos casos, chegam ao tênue limiar entre o certo e o errado). Na TV e na imprensa de modo geral, os fins seriam as justificativas dos meios escolhidos? A resposta aqui é, infelizmente, positiva.

Outra questão que pode ser levantada, que vem na esteira da anterior, é sobre a vaidade dos jornalistas. São nítidas as rivalidades dentro da equipe do programa. Irv Durtscher e Mary Cary Brokenborough não se suportam, mas trabalham juntos em busca de um objetivo em comum: a busca pelo furo jornalístico. E para alcançá-lo vale tudo. A busca pela audiência a qualquer custo é a mola propulsora da atividade dos repórteres investigativos. Não há nada, inclusive a ética e o bom senso, que os impeça de seguir agindo livremente em busca da verdade. Portanto, temos nesta obra uma crítica extremamente ácida e contundente da sociedade e da prática jornalística.

Por essa pegada de engajamento social e de denúncia, “Emboscada no Forte Bragg” é uma publicação muitíssimo original. Sinceramente, não lembro agora de nenhum outro título literário que tenha debatido tais questões sobre o jornalismo com tanta ênfase. Já no cinema, recordo de alguns exemplares. “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole: 1951) é um clássico de Billy Winder que mostra até onde pode atingir a ambição de um repórter atrás de uma boa notícia. Mais recentemente, fiquei encantado com “O Abutre” (Nightcrawler: 2014), longa-metragem de Dan Gilroy que apresenta os bastidores dos programas de TV sensacionalistas.

Em relação à narrativa deste romance, o que mais me impressionou positivamente foi o realismo da história de Tom Wolfe. A sensação que temos durante a leitura é que a trama é verídica (não, ela não é – trata-se de uma ficção!). Como o escritor norte-americano conseguiu esse efeito de transformar sua história inventada em algo próximo ao real? A explicação passa pela descrição minuciosa de personagens e cenários, pelo relato das especificidades técnicas dos jogos de câmera e de som utilizadas na gravação do programa e, principalmente, pelo tipo de conflito dramático armado (complexo e variado). Não apenas temos a impressão de que os fatos narrados aconteceram de verdade como também conseguimos vê-los em nossa imaginação. Wolfe é mestre na construção de enredos verossímeis. Observar os detalhes do desenvolvimento de sua literatura é algo maravilhoso.

As outras características marcantes de “Emboscada no Forte Bragg” são: humor inteligente e sarcástico (por vezes, caricato), narrativa com alta velocidade (apesar das muitas descrições), desfecho esplendido, protagonistas são na maioria das vezes personagens esféricas (o que enriquece ainda mais a trama), intertextualidade cultural e literária, texto com um tom muito crítico e linguagem que tenta se aproximar da oralidade e do coloquialismo (essencialmente na reprodução das falas dos soldados).

De maneira geral, temos um romance/novela quase perfeito. Nem mesmo os pequenos tropeços narrativos (em uma cena Mary Cary Brokenborough não entende o linguajar de Lowe, Ziggefoods e Flory, para logo depois entender tudo o que eles dizem) e os preconceito linguístico (ridicularização do jeito de falar dos jovens soldados sulistas) conseguem prejudicar a qualidade excepcional de “Emboscada no Forte Bragg”. Indubitavelmente, o conjunto interminável de pontos positivos da obra acaba escondendo um ou outro aspecto negativo.

Tom Wolfe pode até ser um dos jornalistas mais revolucionários da segunda metade do século XX. Entretanto, na minha visão, ele também é um grande escritor ficcional. Conhecer esse outro lado do trabalho do cultuado pioneiro do New Journalism é muito prazeroso (até mesmo para quem está em pleno Carnaval).

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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