• Ricardo Bonacorci

Livros: O Vilarejo – Os contos de terror de Raphael Montes


No finalzinho do ano passado, fiquei tão encantado com a leitura de “Suicidas” (Benvirá), o romance policial de estreia de Raphael Montes, que resolvi, dessa vez, ler outro livro do jovem escritor carioca. Minha escolha foi por “O Vilarejo” (Suma das Letras), sua coletânea de contos de terror. Li esta obra na noite retrasada e, agora, vou comentá-la neste post do Bonas Histórias.


Raphael Montes, para quem ainda não o conhece, é um dos principais nomes da nova geração da literatura brasileira. Sucesso precoce de crítica e de público, o escritor de apenas 29 anos já foi traduzido para vários idiomas e teve suas obras lançadas no exterior. Finalista de vários prêmios literários importantes no Brasil e best-seller nas livrarias nacionais, Montes é especialista na produção de thrillers policiais e de narrativas aterrorizantes. Por isso, seu apelido de “Prodígio do Crime”. Além da literatura, o carioca tem se dedicado, nos últimos anos, também aos roteiros televisivos e cinematográficos. Trata-se de um autor que precisa ser conhecido por quem gosta da boa literatura praticada pelos escritores da nova geração.


Publicado em 2015, “O Vilarejo” é o terceiro livro da carreira de Raphael Montes. Esta obra, a única coletânea de contos do autor até aqui, veio depois do lançamento dos romances “Os Suicidas”, de 2012, e “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), de 2014. O portfólio literário do escritor é completado por “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), livro de 2016, até agora a sua última publicação.


“O Vilarejo” possui sete contos que, de alguma forma, se interligam. Daí a dúvida: esta obra seria uma novela ou uma coletânea de contos?! Preferi a segunda classificação, a escolhida pela editora responsável pela sua edição, apesar de reconhecer a linearidade narrativa do livro. Os elementos responsáveis pela interligação das histórias são: o mesmo ambiente (um antigo povoado sombrio de uma região remota da Europa Oriental), as mesmas personagens (que aparecem de maneira recorrente nas diferentes tramas) e a mesma temática (cada conto apresenta um pecado capital - influências essas dos sete demônios que atormentam a alma humana desde o começo dos tempos).

No Prefácio de “O Vilarejo”, Raphael Montes se apresenta como o tradutor dos contos do livro e não como seu autor. A proposta faz parte da brincadeira literária do escritor carioca de misturar ficção e não ficção. Esse mesmo expediente narrativo já havia sido feito por ele com brilhantismo em seu romance de estreia, “Os Suicidas”. Segundo Montes, o proprietário de um sebo em Copacabana entregou-lhe três cadernos do acervo comprado de uma senhora muito idosa, falecida há pouco tempo no Rio de Janeiro. O caderno continha textos em uma língua estrangeira misteriosa. Interessado em descobrir o que os manuscritos diziam, Montes começou a investigar o conteúdo dos textos desses cadernos.


Depois de muita pesquisa, ele descobriu que o material continha sete histórias de terror escritas em cimércio, uma língua morta. Com um dicionário dado pelo único estudioso desse idioma no mundo, um professor italiano, Montes passou a se dedicar ao ofício de traduzir os cadernos. Assim, pouco a pouco, começaram a surgir os relatos de um antigo povoado cimércio. Sem registros exatos de sua localização, a única coisa que se sabe é que o povoado ficava na Europa Oriental.


As histórias foram possivelmente produzidas ou embasadas no trabalho de Peter Binsfeld, um teólogo que viveu na Alemanha no século XVI. De acordo com Binsfeld, cada um dos demônios dos Sete Reis do Inferno é responsável por invocar um pecado capital nos homens: Belzebu promove a gula, Leviathan a inveja, Lúcifer a soberba, Asmodeus a luxúria, Belphegor a preguiça, Mammon a ganância e Satan a ira. Esses demônios nomeiam os sete contos da coletânea.


A primeira história se chama “Belzebu – Banquete para Anatole”. Nele, vemos as atitudes desesperadas de Felika. Em meio à fome e ao frio que castigam impiedosamente o povoado cimércio, ela precisa cuidar da casa e dos filhos enquanto aguarda a volta do marido, Anatole. Diferentemente dos demais habitantes da localidade que estão sofrendo bastante pela falta de comida, Felika, paradoxalmente, estoca uma boa quantidade de alimentos em sua residência.

Em “Leviathan – As Irmãs Vália, Velma e Vonda”, vemos o relacionamento harmonioso de Vália, uma moça de dezessete anos, com seu namorado Krieger, um rapaz muito bonito e bondoso. Contudo, uma das irmãs de Vália, Velma, de apenas treze anos, passa a desejar Krieger. A menina não se importa com a diferença de idade entre eles nem com os sentimentos da irmã mais velha. A inveja pelo namorado bonito de Vália irá levar Velma a realizar monstruosidades. A garota prefere que os envolvidos padeçam de infelicidade a não ter seus objetivos conquistados.


“Lúcifer – O Negro Caolho”, o terceiro conto do livro, aborda a atitude, à princípio, generosa da Sra. Helga. Ela salva Mobuto, um estrangeiro alvo do preconceito local por causa de sua pele escura, da execução que seria cometida pelo ferreiro Ivan. Solidária com o rapaz, a Sra. Helga o leva para sua casa e passa a alimentá-lo. Como gratidão, o rapaz começa a trabalhar de graça na propriedade da família Helga. Entretanto, à medida que o tempo passa, a proprietária vai ficando cada vez mais soberba, desprezando e agredindo Mobuto.


“Asmodeus – A Doce Jekaterina” é a trama em que Mikhail, um homem obeso e feio, é acometido da luxúria. Na fase adulta, ele sempre recorreu aos préstimos sexuais das prostitutas locais. Na juventude, ele estuprava recorrentemente Jekaterina, sua vizinha de apenas treze anos. O jovem Mikhail forçava a menina a manter segredo do que fazia com ela.


A quinta narrativa é “Belphegor – A Verdadeira História de Ivan, o Ferreiro”. Nela, conhecemos os segredos terríveis de Ivan, considerado um homem trabalhador e vigoroso por todos os habitantes do povoado. Porém, a realidade é bem distinta. O rapaz odeia o serviço de ferreiro e há muito tempo não faz nenhum esforço para manter seu ofício. A preguiça o domina. Seu trabalho é feito de maneira oculta por duas escravas, mantidas presas no porão de sua oficina.

“Mammon – O Porquinho de Porcelana da Sra. Branka” relata o drama da menina Latasha. Órfã, a garotinha viveu com a avó, a Sra. Branka, desde o seu nascimento. A vida na casa da Sra. Branka sempre foi pautada por muitas economias. Avarenta, a avó não oferecia nenhum conforto para a neta. A situação de Latasha só piorou quando as duas receberam a visita do antigo contador da família. Ele alertou a Sra. Branka para a possibilidade dela se tornar pobre no futuro se novas economias não fossem feitas.


“Satan – Um Homem de Muitos Nomes”, o último conto de “O Vilarejo”, narra a saga de Anatole Suhanov em busca de alimentos para sua família. Após dois meses percorrendo sem sucesso a floresta em busca de caça, Anatole sucumbe de frio e de fome. Nesse momento, ele recebe a ajuda de um senhor aparentemente altruísta. Mais tarde, sua verdadeira identidade será revelada, causando desespero no Sr. Suhanov.


No posfácio, Raphael Montes volta a surpreender os leitores ao revelar quem é a autora dos cadernos oferecidos ficticiamente a ele. Trata-se de uma conhecida habitante do antigo povoado da Cimércia. Não posso adiantar mais nada, ao risco de estragar o desfecho brilhante desta coletânea de contos.


“O Vilarejo” é um livro curtinho. Ele não ultrapassa as 100 páginas. É possível lê-lo em duas ou, no máximo, três horas. Para quem gosta de uma leitura rápida (para ser concluída em uma única noite) e de qualidade (ao ponto de tirar o sono ou render alguns suspiros de admiração), esta obra é uma ótima opção. Apesar de estarem interligadas, as sete histórias da coletânea podem ser lidas aleatoriamente. As únicas recomendações são: comece pelo prefácio e deixe o posfácio para o final. Sei que são recomendações óbvias, mesmo assim quis deixá-las explícitas. Assim, sua experiência de leitura não correrá o risco de ser prejudicada.

Dois pontos chamaram mais minha atenção em “O Vilarejo”. Em primeiro lugar, o teor forte das histórias de terror contido em todos os contos deste livro. Esqueça as tramas leves e o tom infantojuvenil que muitas vezes inundam as obras desse gênero. Nesta coletânea de narrativas curtas de Raphael Montes, o que encontramos são temas pesados, cenas fortíssimas e personagens de crueldades sem limites. Estupro, canibalismo, infanticídio, tortura, mutilação, escravidão e traições são alguns dos expedientes corriqueiros das páginas desta publicação. É preciso estômago forte para percorrer este livro de ponta a ponta. Por outro lado, quem gosta de boas e fortes histórias de terror, aqui temos um prato cheio. As literaturas de Stephen King, de Edgar Allan Poe e dos irmãos Grimm parecerão coisas de criança perto das narrativas macabras de Raphael Montes.


O segundo elemento interessante é a construção lapidar das histórias. É possível notar, desde o início, o trabalho coerente e profundo do escritor na produção dos sete contos. Cada um deles relaciona-se a um demônio e, por consequência, a um tipo de pecado capital. Durante a leitura podemos identificar com clareza quem é quem: a personagem gulosa, a invejosa, a soberba, a luxuriosa, a preguiçosa, a gananciosa e a irada. A trama geral do livro é tão bem amarrada que inevitavelmente achamos se tratar de uma novela e não de uma coleção de contos.


Note também as ilustrações incríveis feitas por Marcelo Damm, que aparecem no meio das páginas. Alguns dos seus desenhos fazem o leitor se arrepiar, conferindo um aspecto ainda mais aterrorizante à publicação. E o que falar do trabalho gráfico feito por Rafael Nobre, hein? A palavra que me vem à mente é espetacular! “O Vilarejo” não é apenas um livro com um conteúdo textual muito bom (para quem gosta de tramas de terror intenso), mas é também uma obra literária que agrada muito aos olhos dos leitores mais exigentes. Os detalhes de sangue escorrendo nas páginas têm um efeito maravilhoso para quem gosta desse tipo de gênero literário.

E como não poderia ser diferente em se tratando de um trabalho de Raphael Montes, o desenlace é mais uma vez incrível e muitíssimo surpreendente. O jovem escritor carioca sabe como impressionar seu leitor com um detalhezinho final que transforma completamente a experiência de leitura em algo inesquecível. Se em “Suicidas” as últimas duas palavras foram capazes de provocar uma grande surpresa no leitor, aqui é a imagem final que nos instiga. Por isso mesmo, não fique vendo as ilustrações de Damm antes da leitura (elas podem antecipar as surpresas que o texto revelará na hora certa).


Tenho a impressão que cada vez que leio algo novo de Raphael Montes fico ainda mais impressionado com seu talento literário. Se o considerava um grande romancista policial, agora o vejo também como um exímio escritor de terror. Até onde esse rapaz chegará? Impossível saber. O que é possível dizer, desde já, é que é muito bom acompanhar sua trajetória artística. Quem acompanha as críticas literárias do Bonas Histórias, saiba que vou continuar apresentando regularmente as obras de Montes. Da nova geração de autores nacionais, o carioca é um dos meus favoritos.


Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento