• Ricardo Bonacorci

Livros: Cidade Pequena, Cidade Grande - O romance de estreia de Jack Kerouac


Neste final de semana, li “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), o romance de estreia de Jack Kerouac. Nada melhor do que nos valermos da primeira publicação do escritor norte-americano considerado o pai da Geração Beat para darmos o pontapé inicial no Desafio Literário de abril. Para quem ainda não está por dentro das últimas novidades do Bonas Histórias, reafirmo nosso compromisso: neste mês vamos analisar a literatura de Jack Kerouac, um dos principais nomes da literatura dos Estados Unidos na segunda metade do século XX. Nas próximas quatro semanas, comentaremos no blog seis dos mais importantes livros de Kerouac. Ou seja, este título é apenas o primeiro que estudaremos.


Quando “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi publicado pela primeira vez, em 2 de março de 1950, Jack Kerouac ia completar 28 anos de idade. A obra foi escrita entre 1947 e 1949, quando o autor ainda amador morava com a mãe no bairro do Queens, em Nova York. Foi a morte do pai de Jack, em 1946, vítima de câncer no estômago, que o estimulou a produzir este romance. Com fortes tintas autobiográficas (algo que marcaria a literatura de Kerouac ao longo de sua carreira), o livro narra a saída de Peter Martin, um dos oito filhos de uma família católica da Nova Inglaterra, de sua pequena cidade natal. Ele vai para Nova York, a fervilhante capital cultural dos Estados Unidos (daí o título da publicação). Não é preciso dizer que Peter é o alter ego do escritor norte-americano: ambos nasceram em Massachusetts em 1922, tinham mães de origem francesa, jogaram futebol na faculdade, tinham paixão pela literatura, aventuraram-se pela Marinha mercante e viajaram pelo país pedindo carona.


“Cidade Pequena, Cidade Grande” é o único romance convencional de Jack Kerouac (convencional no sentido narrativo, pois aqui temos uma trama clara, dramas explícitos e um texto linear). Quando escreveu esse livro, o autor não tinha ainda desenvolvido a técnica polêmica da escrita automática, que seria apresentada ao público pela primeira vez em “On The Road” (L&PM Pocket), em 1957. Mesmo assim, a crítica literária considera esta obra de estreia de Kerouac como a gênese da Geração Beat. Afinal, já tínhamos aqui boa parte das características que marcariam a temática deste autor e de sua corrente literária: personagens desajustadas socialmente, retrato das angústias dos jovens da época, choque cultural entre as gerações (nova versus antiga), vontade descontrolada de viajar, necessidade de viver a “vida louca” (uso das drogas e das bebidas, propensão ao sexo livre e pouca preocupação com o dinheiro e com o trabalho), supremacia das amizades em relação à família e intertextualidade cultural (literatura, música, cinema, filosofia...).

Mistura de saga familiar com romance de formação, “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi fortemente influenciado pelo estilo da literatura de Thomas Wolfe. O próprio Jack Kerouac afirmou várias vezes em entrevistas que sua pretensão era escrever um “grande épico wolfiano”. As principais críticas ao livro recaíram justamente neste ponto. Para a maior parte da imprensa norte-americana, Kerouac era um escritor talentoso e com potencial, mas que se perdia ao emular excessivamente seu ídolo literário. Assim, “Cidade Pequena, Cidade Grande” não passava de uma cópia bem-feita dos trabalhos de Wolfe. Na visão geral, Jack Kerouac era um escritor iniciante que ainda não tinha conseguido encontrar sua voz e seu estilo.


Outra crítica que era feita de forma recorrente é que, nesta sua obra de estreia, Kerouac estava mais preocupado com a extensão do texto do que com a precisão da narrativa. Com isso, a trama se alongava desnecessariamente por dezenas, dezenas e dezenas de páginas, o que incomodava muitos leitores. Se eles reclamaram sobre a extensão do primeiro livro do autor é porque ainda não tinham lido “On The Road”, esse sim um romance caudaloso e excessivamente longo. Pelo visto, um trabalho mais intenso de edição/editoração não iria fazer mal ao primeiro livro de Jack Kerouac.


Não é verdade o que se tem propagado por aí que “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi um sucesso de crítica e de público. O que aconteceu foi exatamente o contrário. As baixas vendas e as enxurradas de comentários negativos abalaram fortemente a autoestima de seu autor, que triste ficou meses sem escrever. Se este livro ficcional de estreia de Jack Kerouac tivesse tido o êxito que alguns querem atribuir, na certa alguma editora teria desejado publicar a segunda obra do escritor, algo que não ocorreu nos sete anos seguintes.


Curiosamente, quando este romance chegou às livrarias norte-americanas, o nome que estampava suas capas era de John Kerouac (primeiro pseudônimo do autor já que seu verdadeiro nome era Jean-Louis). Jack, outro nome tipicamente norte-americano (em contraste com o francês Jean-Louis), só apareceria ao público com o lançamento de “On The Road”.

Narrado em terceira pessoa (uma exceção no portfólio literário de Kerouac), o enredo de “Cidade Pequena, Cidade Grande” inicia-se em 1935. George Martin é o respeitável dono de uma gráfica em Galloway, cidade fictícia de Massachusetts, na Nova Inglaterra. Vindo de New Hampshire, ele é casado com Marguerite Courbet, uma mulher descendente de família francesa. Os dois possuem oito filhos: Rose tem 21 anos e é a mais responsável da trupe; Ruth de 18 é querida e carinhosa com todos; Joe tem 16 anos e é o filho irresponsável; Francis tem 15 e é o mais deprimido, introspectivo e intelectual dos Martin; Peter, com 13 anos, sonha em ser jogador de futebol; Elisabeth tem 12 e desde cedo é muito solitária; Charles, de 9 anos, é o determinado; e Mickey, caçula de 6, faz o tipo de criança sonhadora. O casal ainda teve outro filho, Julian, que faleceu ainda pequeno.


Os Martin vivem em uma grande casa no subúrbio de Galloway e possuem um bom padrão de vida. Até então, os negócios sempre caminharam muito bem para George. Sua gráfica tem muitos clientes, maquinário moderno e bons funcionários. Como consequência, ele é um homem muito respeitado na cidade, com muitos amigos e admiradores. Contudo, seu vício em jogos de cavalo pode lhe trazer sérios problemas financeiros. Além disso, sua inocência (não nota a aproximação de aproveitadores) e sua vaidade (sempre querendo mostrar que está bem aos “amigos”) podem agravar ainda mais a situação já delicada do patriarca dos Martin.


Enquanto acompanhamos à derrocada lenta e gradativa de George Martin, assistimos simultaneamente à ascensão de seus filhos mais velhos. Rose se torna enfermeira, Ruth permanece ajudando a mãe em casa, Joe vai trabalhar como caminhoneiro, Francis deseja fazer faculdade de primeira linha, Peter vira o astro local de futebol americano e Elisabeth foge para se casar com um pianista.


Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, George vai, enfim, à falência, perdendo tanto a gráfica quanto sua casa. Assim, ele, agora um homem de meia-idade e com problemas de saúde, precisa procurar emprego para continuar se sustentando. Nesta época, seus filhos maiores acabam saindo de casa e se espalhando pelo país. Este é o começo da separação e da desunião do clã.

A história de “Cidade Pequena, Cidade Grande” acompanha a saga da família Martin por uma década. A trama vai de 1935 a 1945, justamente quando a Segunda Guerra Mundial termina. Ao final do conflito bélico, os Estados Unidos e o mundo já não eram mais os mesmos. E o clã até então capitaneado por George e Marguerite também não seria mais igual. Com a exceção do caçula, todos os filhos do casal seguiram por caminhos distintos ao dos pais e deixaram há muito tempo de viver em Galloway. O próprio casal abandonou a pequena cidade da Nova Inglaterra e foi morar em Nova York, onde George conseguiu se empregar em uma gráfica local.


“Cidade Pequena, Cidade Grande” tem 392 páginas e está dividido em cinco partes. Li este romance no último sábado e domingo. Devo ter levado aproximadamente doze horas para percorrer todo o seu conteúdo. Confesso que gostei bastante desta obra. Apesar de ser mais extensa do que o necessário, trata-se de uma trama forte e sensível. Para completar, o livro possui o charme de desvendar um pouco do passado de Kerouac antes da fama e de indicar alguns detalhes de sua família. Por mais elementos ficcionais que a história tenha, ainda sim ela é calcada em elementos autobiográficos.


Apesar de ter apreciado “Cidade Pequena, Cidade Grande”, admito que seu início é muito chato (e bota chato nisso!). Chega até a ser assustador! Por três dezenas de páginas, Jack Kerouac descreve sem pressa nenhuma as cenas mais banais da cidade de Galloway. Ao invés de focar em algo particular, ele prefere relatar cenas gerais daquela região do país. Parece que nada de importante acontece por ali. Aí não tem como o leitor se interessar pela trama, né? Se esse não for um dos começos mais entediantes (e equivocados, diria eu) da literatura norte-americana no século XX, não sei mais o que pode ser caracterizado como tal. Não me surpreenderia se soubesse que muitos leitores fecharam o livro nessa parte e se recusaram a continuar a sua leitura (isso quase aconteceu comigo, tá?).


Só mergulhamos realmente em sua leitura quando a narrativa, enfim, volta-se para o dia a dia da família de protagonistas. Ufa! Primeiro são as diabruras dos meninos mais velhos de George e Marguerite pelas florestas da cidade. Depois, assistimos à rotina do Sr. Martin em sua gráfica, em casa e no hipódromo que ele gosta de frequentar. Depois de embalar, o romance pega fogo e aí não conseguimos mais largar as suas páginas. Para alívio geral da nação, apenas as primeiras 30 páginas do livro são chatas.

Por falar em estranhamento inicial, demorei um pouco para entender a pegada plural dessa narrativa. O enredo de “Cidade Pequena, Cidade Grande” não foca em uma personagem em especial (como é comum na maioria dos romances) e sim na família inteira (ou quase inteira). Ao invés de termos um narrador próximo a alguém, temos um narrador que se desloca livremente pelos cenários e pelas figuras retratadas. São vários os integrantes dos Martin enfocados simultaneamente: George, Joe, Peter, Francis e Elisabeth. Uma vez compreendida essa dinâmica narrativa, fica mais fácil acompanhar a trama.


À medida que a história vai se desenrolando, o conflito geracional (pais versus filhos) fica cada vez mais intenso e nítido para o leitor (é justamente esse o conflito principal de “Cidade Pequena, Cidade Grande”). No início, são desentendimentos pontuais ou briguinhas tolas que atingem o seio familiar. Depois, quando as crianças já não são mais tão crianças (se tornaram adultos e donos de seus narizes), as rupturas pelos estilos de vida distintos se tornam inevitáveis (daí a diáspora dos Martin). Não à toa, os filhos de George e Marguerite (Joe, Francis, Peter e Elisabeth) escolhidos para serem acompanhados pelo narrador são exatamente aqueles mais revoltados com a rotina paterna. Os descendentes que emulam a ideologia dos pais (Rose, Ruth, Charles e Mickey) quase não aparecem nas páginas do livro, assim como a mãe (Marguerite) que parece ficar feliz com qualquer decisão dos seus rebentos.


Há ótimas cenas de futebol americano e de turfe nesse livro. O retrato das décadas de 1930 e de 1940 tanto do interior de Massachusetts quanto de Nova York é fascinante. A sensação é de estarmos realmente nesses lugares acompanhando as personagens. Incrível! A descrição das viagens pelo país (algo que já podemos chamar de princípio de um road story) também empolgam.


Outro elemento que gostei foi da forte intertextualidade cultural presente em “Cidade Pequena, Cidade Grande”. Citações literárias, musicais, cinematográficas, filosóficas e psicológicas aparecem do início ao final da obra. As personagens principais também foram muito bem construídas. Por mais contraditórios que sejam os filhos de George, ainda assim torcemos e nos afeiçoamos por eles. O mesmo acontece com os patriarcas dos Martin. Eles são figuras extremamente reais e intensas. Incrível notar as diferenças e as semelhanças entre pais e filhos e entre os irmãos!

Repare na estreita ligação de amizade das personagens principais com figuras do mesmo sexo: Peter com Alexandre Panos, Francis com Wilfred Engels, Joe com Paul Hathaway e Elisabeth com Patricia Franklin. Boa parte da literatura de Jack Kerouac foi construída em cima desta relação de grande proximidade de seus protagonistas com amigos do mesmo sexo. É só lembrar de Sal Paradise e Dean Moriarty, figuras centrais de “On The Road”, para entender o que estou dizendo. Quase sempre a amizade genuína é mais forte do que as relações familiares e conjugais. Segundo essa concepção kerouaquiana, você pode trocar várias vezes de mulher ao longo da vida e pode passar décadas sem ver seus parentes. Porém, o verdadeiro amigo estará sempre ao seu lado aconteça o que acontecer.


Dos pontos que não gostei em “Cidade Pequena, Cidade Grande”, aponto em primeiro lugar os diálogos. Apesar de tensos e com aparência sincera/genuína, principalmente quando envolvem as discussões familiares, os discursos deste romance não são tão legais a ponto de impactar a trama ou de esclarecer os conflitos pessoais de cada personagem. Na certa, Kerouac ainda não havia se aprimorado, até este momento, como deveria nesse quesito.


Outra questão delicada é a pouca participação do elenco feminino. Jack Kerouac mostrava já neste primeiro trabalho a força em descrever a rotina e o universo masculino. Por outro lado, as mulheres sempre tiveram papéis secundários em suas tramas e posições meramente decorativas em suas histórias. Elas quase sempre estão esperando passivamente seus homens voltarem de longas viagens e aceitam sem problemas as infidelidades conjugais dos parceiros. Chega a ser revoltante como muitas delas são tratadas. Curiosamente, Elisabeth é a única integrante feminina dos Martin que é retratada com um pouco mais de profundidade (e seu comportamento é quase idêntico ao dos irmãos).


Concluída a análise da primeira obra do Desafio Literário de abril, vamos já planejar a próxima leitura deste mês. O segundo romance de Jack Kerouac que será comentado no Bonas Histórias é "On The Road" (L&PM Pocket), justamente o maior sucesso do autor beat. Esse romance foi publicado em 1957 e se tornou um best-seller imediato. Vou ler essa obra ao longo desta semana e, aí, na próxima sexta-feira, dia 10, faço o post com minhas impressões. Não deixe de acompanhar os novos capítulos do estudo sobre a literatura de Jack Kerouac, hein?


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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