• Ricardo Bonacorci

Livros: Pic - A novela póstuma de Jack Kerouac


Hoje, o Bonas Histórias apresenta o sexto e último livro de Jack Kerouac do Desafio Literário deste mês. A obra é “Pic” (L&PM Editores), a novela póstuma do escritor norte-americano que foi um dos maiores expoentes da Geração Beat. Esta pequena narrativa é curiosa porque ao mesmo tempo em que possui características que fogem completamente do estilo de seu autor, ela também carrega algumas marcas estilísticas da literatura de Kerouac. Por exemplo, temos aqui uma surpreendente trama ingênua e sensível sobre a infância de um menino pobre e negro da Carolina do Norte. Quem leu “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Editores) jamais poderia imaginar algo tão delicado e sutil vindo de Jack Kerouac. Por outro lado, temos mais uma vez uma road story, gênero no qual o escritor norte-americano é ainda hoje uma das grandes referências.


“Pic” foi publicado pela primeira vez em 1971, dois anos após a morte de Jack Kerouac por cirrose hepática aos 47 anos. Entretanto, esta obra foi produzida de fato na primeira metade da década de 1950. Ou seja, este título pode ser classificado como pertencente à fase inicial da carreira do norte-americano. Infelizmente, algumas editoras tentam “vender” “Pic” para o mercado como se ele fosse “o último romance de Kerouac”. Isso acontece tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Trata-se de um erro crasso. Em primeiro lugar, temos aqui uma novela e não um romance. Além disso, se nos basearmos na ordem cronológica de seu desenvolvimento, “Pic” é uma das primeiras narrativas de Kerouac e não uma das últimas. E, por fim, este livro também não foi o último do norte-americano a ganhar as livrarias. “Visões de Cody” (L&PM Pocket), outra obra póstuma, só foi publicado integralmente em 1972, um ano depois de “Pic”. Dessa forma, não entendo o porquê chamar esta novela do início da carreira do principal escritor Beat de “seu último romance”.


Na época em que a história de “Pic” foi escrita, Jack Kerouac era ainda um autor desconhecido. Nessa fase de sua carreira, ele tinha sérias dificuldades para agradar os editores (algo que, para sermos sinceros, o acompanhou até o final da vida). As editoras insistiam em não querer publicar seus livros por vários motivos. As principais justificativas eram: obras extensas demais, tramas desconexas e fluxos de consciência excessivos no meio das narrativas. De certa forma, Kerouac sempre foi um escritor de maior sucesso de público do que de crítica. “Pic” é uma dessas criações renegadas pelo mercado editorial, que não viu valor em sua história.

Acredito que ela tenha sido desprezada até mesmo pelo seu criador. Na década de 1960, Jack Kerouac já era famoso ao ponto de insistir na publicação de uma obra que achasse interessante. Contudo, ele não se esforçou nem um pouco para ver uma de suas primeiras tramas ficcionais impressas. Por quê?! Acredito que ele mesmo reconheceu que este livro era fraquinho... Comparado a “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), “On The Road”, “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket) e “Big Sur” (L&PM Pocket), “Pic” é disparado a pior obra.


Esta novela é narrada em primeira pessoa por Pictorial Review Jackson, um menino de onze anos morador da zona rural da Carolina do Norte. Negro e pobre, Pic, como é chamado por todos, vive com seu avô em um barracão cedido pelo Sr. Otis, um rico proprietário de terras da região. O avô de Pic é um homem idoso, religioso e doente, além de paupérrimo. Ele cuida sozinho do neto desde que a mãe do garoto faleceu há alguns anos. O pai de Pic abandonou a família ao fugir de casa logo depois que o menino nasceu. A única companhia da família Jackson em seu barracão é um fiel e antigo cachorro.


Apesar das carências materiais e afetivas, a vida de Pic é tranquila na Carolina do Norte. O garoto gosta de explorar livremente as fazendas e a natureza da região. Os dias de alegria de Pictorial acabam quando seu avô fica seriamente doente e morre. Sem ninguém para cuidar do menino, Pic é enviado para a casa da Tia Gastonia. Lá, ele é desprezado e humilhado pelos parentes. Por causa das estripulias antigas do pai, o protagonista da novela passa maus bocados na residência da tia. Seu drama acaba quando Slim, o irmão mais velho de Pic, aparece para buscá-lo. Slim leva o menino para viver em Nova York. É iniciada a fase de viagens do pequeno Pictorial. Em pouco tempo, ele cruzará junto com o irmão muitas cidades norte-americanas em uma jornada que parece não ter fim. Essa peregrinação toda é narrada com a inocência do olhar de alguém que começa a deixar a infância e pouco a pouco entra na adolescência.

“Pic” possui 128 páginas. Elas estão divididas em 14 capítulos. É possível ler esta obra em uma única tarde ou noite. Foi o que aconteceu comigo na última sexta-feira à noite. Concluí esta leitura em aproximadamente três horas, em uma batida só (algo típico das novelas).


O primeiro aspecto que chama a atenção em “Pic” é a linguagem usada por Jack Kerouac. A narrativa do livro tenta emular ao máximo o discurso do garoto pobre e de pouca instrução. Assim, temos neste texto erros gramaticais propositais, palavras simples e fortes marcas de oralidade. Se esse recurso se aproxima do diálogo do cotidiano das pessoas da base da pirâmide social, por outro lado ele acaba ficando um tanto caricato. É como se os negros pobres falassem sempre errado e os brancos ricos fossem os únicos que falassem corretamente. De certa maneira, “Pic” me lembrou a narração de “Ratos e Homens” (L&PM Pocket), novela de John Steinbeck da década de 1930. Steinbeck era um autor que buscava a oralidade de seu texto com esse tipo de recurso. Veja isso no primeiro parágrafo de “Pic”:


“Ninguém nunca me amô como eu me amo, a não ser a minha mãe e ela já morreu. (O meu vô, ele é tão velho que lembra das coisa que acontecero há cem ano atrás mas o que aconteceu na semana passada e ontem ele não sabe). Meu pai foi embora há tanto tempo que já ninguém mais lembra como era a cara dele. O meu irmão, toda manhã de domingo com o terno novo na frente de casa, saindo pela velha estrada, e o meu vô e eu sentado na varanda balançando nas cadera e conversando, mas o meu irmão não dava a mínima e um dia foi embora e nunca mais voltô”.


A escolha do narrador em primeira pessoa foi acertadíssima. Acompanhamos a trama a partir da perspectiva do garoto ingênuo e sonhador. Sua adoração pelo avô falecido também deixa o texto ainda mais introspectivo e emocionante. O menino narra sua história diretamente para o avô, como se o velho ainda estivesse vivo e próximo ao protagonista. Incrível!

Em “Pic”, conseguimos ver na prática o racismo da sociedade norte-americana durante a metade do século passado. As personagens sofrem com a segregação racial em seu dia a dia. Um exemplo disso é a cena em que Pictorial e Slim não podem usar determinado assento em um ônibus por causa da cor de sua pele. Pic e seu irmão comentam de forma corriqueira sobre as diferenças entre a vida de negros e brancos. Dependendo da cidade dos Estados Unidos onde os negros moram, as coisas podem ser bem difíceis. Apesar da realidade dura (diria nua e crua!), o tom desta novela não é tão dramático como pensei que seria. Jack Kerouac opta pelo estilo tragicômico. Um bom exemplo dessa proposta é o capítulo em que Slim Jackson consegue e perde dois empregos em um mesmo dia.


Como uma boa narrativa de Kerouac, “Pic” é um road story. Pic viaja primeiramente da Carolina do Norte para Nova York com seu irmão. Eles percorrem de ônibus Washington, Baltimore, Maryland, Filadélfia e Nova Jersey. Depois, a dupla segue de Nova York para a Califórnia. Esta segunda jornada é feita pegando carona nas estradas (ao melhor estilo mochilão, que Kerouac conheceu tão bem!).


O maior problema deste livro é que sua história é recheada de banalidades. Em algumas partes, a trama fica sem sal. Não consegui visualizar um grande conflito do protagonista que motivasse a leitura. Apesar da beleza de boa parte da narrativa, é inegável a existência de muitas partes fracas. Minha sensação é que essa história precisava passar por uma boa edição, algo que definitivamente não aconteceu. Achei, por exemplo, desnecessários e sem graça os capítulos sobre as viagens dos irmãos pelos Estados Unidos (o que pode ser visto como um sacrilégio em se tratando de uma análise literária de Jack Kerouac).


Por outro lado, esta novela possui um ponto positivo inegável: flerte com a crítica social, algo que ficara até então em segundo plano nos trabalhos ficcionais de Kerouac – mais preocupado com aspectos existencialistas dos indivíduos do que com os dramas coletivos de seus conterrâneos. Exatamente por isso, um leitor desavisado poderia acreditar que leu John Steinbeck e não um autor da Geração Beat. Além de “Ratos e Homens”, lembrei muito de “A Rua das Ilusões Perdidas” (BestBolso) durante esta leitura.

Em suma, das obras de Jack Kerouac lidas até este momento no Desafio Literário de abril, “Pic” é o livro mais fraquinho. Se por um lado seu tamanho reduzido ajuda o leitor que deseja conhecer o trabalho literário de Kerouac de maneira rápida e introdutória, por outro esta novela não retrata exatamente a excelência das criações do autor norte-americano. Às vezes, vale mais a pena ler “On The Road”, que tem quase quatro vezes mais páginas e exige um esforço maior, do que “Pic”, aparentemente uma obra descartável.


Feitas as críticas individuais dos seis livros de Jack Kerouac, o Desafio Literário de abril parte agora para a conclusão dos estudos sobre o principal escritor da Geração Beat. Na próxima quinta-feira, dia 30, apresento no Bonas Histórias a análise abrangente da carreira e do estilo literário de Kerouac. Não perca a última parte do Desafio Literário deste mês. Até mais!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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