• Ricardo Bonacorci

Livros: A Captura - O romance de estreia de Kenzaburo Oe


Em 1958, Kenzaburo Oe era um jovem escritor em início de carreira. Recém-formado em Literatura Francesa pela Universidade de Tóquio, o autor japonês, então com 23 anos, possuía uma pegada naturalista. Tímido e muito incomodado com o estilo de vida na cidade grande (ele nasceu em um povoado interiorano na Ilha de Shikoku e por lá viveu até os 19 anos), Oe retratava em seus primeiros textos a realidade nua e crua de um país ainda agrário, violento e pobre. No ano anterior, ele havia estreado na ficção com a publicação de três bons contos em revistas literárias. Contudo, foi a partir do lançamento de seu primeiro romance, “A Captura” (Luna), que ele entrava para o primeiro escalão da literatura japonesa.


“A Captura” conquistou o Prêmio Akutagawa, o principal do país, como a melhor narrativa curta japonesa de 1958 (sim, o romance foi classificado originalmente como um conto!). O livro curtinho, quase uma novela, impressionou positivamente a crítica literária com uma trama densa, incômoda e profundamente cruel. A linguagem espontânea de Oe, as personagens quase animalescas, a ingenuidade infantil do narrador e a aspereza do ambiente pobre e sujo do interior do país saltaram aos olhos dos leitores mais exigentes e dos apreciadores da estética naturalista. Apesar de, nesta época, ainda estar muito distante do posto de best-seller, Kenzaburo se tornou, com o sucesso de “A Captura”, um nome conhecido no mercado editorial local.


Seu romance de estreia foi inspirado em um episódio real. Aos dez anos de idade, Kenzaburo Oe, ainda morando nas montanhas de Ose, em Shikoku, no sul da península japonesa, teve o primeiro contato com pessoas estrangeiras e com a cultura ocidental. No final da Segunda Guerra Mundial, a tropa norte-americana desembarcou no povoado interiorano do Japão em uma ação de estreitamento diplomático e de combate às ideias comunistas.


Diferentemente do que era dito até então pelos governantes japoneses, os soldados dos Estados Unidos trouxeram comida, chocolate, doces e brinquedos para a população local. Com uma postura amigável e proativa, eles se empenharam na reconstrução do país asiático. Maravilhado com aquele comportamento altruísta dos estrangeiros (nessa época, o garoto não conhecia os detalhes sobre os lançamentos das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki), o pequeno Kenzaburo passou a nutrir grande admiração pela cultura ocidental. Não à toa, “A Captura” mostra a reação de encantamento de um garoto com a chegada repentina de um soldado negro em seu povoado.

“A Captura” foi editado em português apenas em julho de 1995. A tradução da obra ficou a cargo de Tomi Okiyama. Editado pela Luna Books, o livro tem uma introdução de Montse Watkins, esposa de Tomi Okiyama, e foi impresso no Japão (coisas do início do Plano Real!). Até hoje, essa é a única versão desse título em nosso país. Para conseguir comprar essa obra, só mesmo recorrendo aos sebos. Foi o que fiz no finalzinho de maio.


Narrado em primeira pessoa por um menino de um povoado isolado nas montanhas do Japão, a história de “A Captura” retrata um verão atípico que marcou para sempre seu protagonista e os demais habitantes daquele lugar. Em plena Segunda Guerra Mundial, um avião com três soldados estrangeiros caiu naquela região interiorana e paupérrima. Dois combatentes morreram na queda da aeronave, mas um soldado, um rapaz negro, sobreviveu. Ele teve a sorte de conseguir pular de paraquedas antes do avião se espatifar no chão.


Sabendo da presença do inimigo nas redondezas, os adultos do povoado montaram uma força-tarefa armada para capturar o invasor. Uma vez pego, o soldado negro foi feito prisioneiro da comunidade. Acorrentado no porão de um estabelecimento até que as autoridades da capital decidissem o que devia ser feito, ele era alimentado pelo pai do narrador (um caçador pobre e aparentemente viúvo) e pelo protagonista (o menino que nos conta a trama).


Ainda uma criança ingênua e sonhadora, o narrador ficou fascinado com a aventura de interagir com uma figura tão diferente da sua cultura. A chegada do homem negro foi o acontecimento mais marcante dos últimos anos para a meninada do vilarejo. Todos queriam ver e interagir com o inimigo. Contudo, esse privilégio, entre os menores, ficou no início a cargo apenas do filho mais velho do caçador (nosso narrador), seu irmãozinho menor e o melhor amigo deles, um garoto apelidado de Lábio Leporino. O trio podia entrar no porão várias vezes ao dia e conviver diariamente com o soldado. Eles eram invejados pelos amiguinhos por ficarem lado a lado do estrangeiro misterioso e ganhar sua intimidade.


Pouco a pouco, com a demora da resposta do que devia ser feito com o soldado adversário preso, os adultos do povoado deixaram de se interessar pelo visitante e voltaram a sua rotina normal. Calmo, pacato e extremamente inofensivo, o estrangeiro se tornou a diversão da garotada naquele verão. Depois que foi desacorrentado do porão, o negro foi rapidamente incorporado à comunidade local e ao círculo de amizade dos pequenos. Sem dominar a língua japonesa, o soldado se comunicava por mímicas e podia passear pelas redondezas ao lado da criançada. Segundo o texto do livro, em uma de suas partes mais despudoradas, o homem negro se tornou o animalzinho de estimação favorito dos meninos e das meninas do vilarejo.

“A Captura” é um romance enxuto. Seus dez capítulos estão distribuídos em 128 páginas. É possível ler essa obra em menos de três horas. Acho que levei aproximadamente duas horinhas para concluir todo o seu conteúdo na última quarta-feira à tarde. Esse é aquele tipo de obra que dá para consumir em uma batida só. Por isso, chamá-lo de romance me parece um tanto equivocado. O mais correto seria classificá-lo como uma novela. Porém, não foi assim que as editoras que trabalham com Kenzaburo Oe fizeram (e quem sou eu para questioná-las?).


O que mais chama atenção nesse livro é o clima pesado de sua narrativa. A violência é geral e aparece explicitamente em cada linha, em cada página e em cada cena desta trama. A sujeira, o fedo, a escatologia, a pobreza e o desprezo pelos seres humanos, pelos animais e pela vida em geral potencializam ainda mais a morbidez e a insalubridade da história. É preciso estômago forte para encarar os acontecimentos nada nobres desse livro! Curiosamente, por mais que a Segunda Guerra Mundial estivesse distante do dia a dia do povoado montanhoso e isolado do Japão, seus habitantes conviviam com os seus próprios preconceitos, com a carência material e afetiva, com a brutalidade e com as injustiças.


Vale a pena notar os recursos narrativos usados por Kenzaburo Oe para criar esse tipo de ambientação. Ele utiliza-se principalmente da sinestesia do jovem narrador para puxar o leitor para dentro da ficção. Repare na quantidade absurda (e acertada) de elementos visuais, olfativos, auditivos e táteis trazidos pelo filho do caçador. A sensação é que estamos ao lado dele acompanhando minuto a minuto os fatos narrados. Incrível!


A questão mais delicada de “A Captura”, típica das narrativas naturalistas, é a equiparação das pessoas aos animais. Assim, homens e mulheres são descritos mais como bichos selvagens do que como seres racionais. Quem leu, por exemplo, “O Cortiço” (Ática) e “O Mulato” (Ática), de Aluísio Azevedo, ou “A Carne” (Martin Claret), de Júlio Ribeiro, sabe bem o que estou dizendo. Todos os indivíduos mencionados neste romance de Kenzaburo Oe estão mais próximos do universo animalesco do que do universo civilizatório. Essa prática, independentemente da época em que o material foi escrito, suscita inevitáveis polêmicas.

Não é apenas o soldado negro, portanto, que é retratado como um bicho (o que poderia configurar um claro sinal de racismo). Os próprios moradores do povoado em que o avião estrangeiro caiu são vistos de maneira profundamente negativa pelos cidadãos da cidade mais próxima. Prova maior disso é a recusa das professoras da área urbana de lecionarem para um bando de crianças sujas, burras e fedidas. Nesse caso, os pequenos não passam de animais irrecuperáveis. Diante desse quadro extremamente indigesto, o romance de Oe torna natural a violência e o comportamento bruto das pessoas.


O ápice desse retrato animalesco dos seres humanos se dá pela total ausência de nomes próprios. Nenhuma personagem tem seu nome revelado. Como se chamam o narrador, seu pai, seu irmãozinho ou mesmo o soldado negro? Não sabemos. E isso parece não interessar a ninguém. Afinal, são todos animais brutos, né? Nem mesmo o povoado interiorano em que a história se passa tem sua designação revelada. As únicas personagens citadas mais nominalmente são o Lábio Leporino e o Empregado. Mesmo assim, esses são seus apelidos e não seus nomes reais.


Não por acaso, o texto de “A Captura”, assim como boa parte das narrativas naturalistas, pode ser visto hoje como politicamente incorreto. Chamar um homem negro e estrangeiro de animalzinho de estimação dócil da criançada é algo, no mínimo, questionável (para não dizer revoltante). Porém, nota-se que a pretensão de Kenzaburo Oe foi além do retrato racista e xenofóbico da sociedade rural japonesa. Os próprios cidadãos do lugarejo montanhoso sofrem preconceitos sociais dos seus compatriotas, mesmo possuindo a mesma cor de pele. Sabe aquela história do roto falando do esfarrapado? Pois é o que temos aqui. Homens, mulheres e crianças desprezados pelos moradores das grandes cidades japonesas encontram alguém para desprezar – e esse alguém é o estrangeiro negro. O preconceito, no texto narrativo de Oe, parece ser algo intrínseco à natureza humana e com uma capacidade ilimitada de propagação.


A linguagem seca e direta do livro é muito parecida ao cenário árido de sua história. Confesso que me lembrei das características dos textos ficcionais de Graciliano Ramos. A objetividade narrativa de Oe é exemplar. O escritor japonês não é chegado ao ornamento nem ao supérfluo. Ele simplesmente vai direto ao ponto de maneira nua e crua, doa a quem doer. Nesse sentido, a tradução de Tomi Okiyama é primorosa e respeita o estilo original do autor.


Outra questão acertada trazida por Kenzaburo Oe em “A Captura” é a mistura da ingenuidade infantil com a brutalidade do mundo dos adultos. O caos do mundo cão do lugarejo esquecido por Deus e pelos homens é descrito pela visão até então pura, inocente e sonhadora de um menino. Apesar de não sabermos sua idade, percebemos que o narrador-protagonista está na transição entre a infância e a idade adulta. E o que decreta essa mudança definitiva de status é a cena final do romance. Da pior maneira possível, o garoto é levado a entender que o universo idílico e sonhador da sua infância ficou para trás.

Por falar nisso, o desfecho deste romance é um dos mais trágicos que eu já li. Se o texto de Oe já alimentava certa sensação de incômodo e desconforto no leitor mais sensível desde as primeiras páginas, é no seu desenlace que ele potencializa toda a violência, os preconceitos e as injustiças do mundo dos homens. Não dá para ficar indiferente aos acontecimentos surpreendentemente cruéis do final dessa obra.


Sinceramente, não achei “A Captura” um romance de grande envergadura, principalmente para quem não é muito fã da literatura naturalista (como eu). Como material de estreia de um autor novato, beleza! Aí sim podemos dizer que ele possui certa qualidade e estilo. Porém, esse livro está muito longe de ser um grande título, merecedor de importantes honrarias literárias.


Acredito que “A Captura” só conquistou o Prêmio Akutagawa por ter sido classificado como um conto. Como narrativa curta, ele é sem dúvida nenhuma espetacular. Trata-se de um drama inesquecível, capaz de chocar o leitor. Agora, chamá-lo de romance e apontá-lo como uma narrativa longa de grande qualidade me parece um duplo equívoco ou mesmo um exagero imperdoável. Em suma, como conto, “A Captura” é ótimo. Como novela, é bom. E como romance, é regular. Tudo depende de como você enxerga essa narrativa. Eu a vejo como uma boa novela (é longo demais para ser um conto e pequeno demais para ser um romance).


O segundo livro de Kenzaburo Oe que vamos analisar no Desafio Literário de junho é sua obra mais famosa: “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras). Esse romance também possui elementos autobiográficos e retrata o drama de um professor de inglês abalado pela descoberta que seu filho recém-nascido possui sérios problemas cerebrais. O post desse título de Oe estará disponível no Bonas Histórias na próxima terça-feira, dia 9. Não perca as novidades do blog!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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