• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Homem Invisível - A nova adaptação do clássico de H. G. Wells


No já histórico 24 de março de 2020, quando foi iniciada a quarentena no Estado de São Paulo, eu tinha programado, entre outras coisas, assistir a “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020), que estava em cartaz nos cinemas, naquela noite. Para ser mais exato em meu relato, tenho em mente, até agora, os demais compromissos para a data fatídica, uma terça-feira até então com ares convencionais: consulta no oftalmologista de manhãzinha, discussão do novo livro do Paulo Sousa na Editora Pomelo no meio da manhã, almoço com a Naty na região da Avenida Paulista e reunião na Epifania Conteúdo Inteligente à tarde. Obviamente, tudo foi riscado da agenda. Por falar nisso, alguém aí se lembra como eram nossas vidas antes disso?! Pensando bem, o cancelamento de uma sessão de cinema foi o menor dos problemas, não é?


Recordo-me desse fato, no post de hoje da coluna Cinema, porque entrou em cartaz, nos últimos dias, nas plataformas de streaming, “O Homem Invisível”. Se eu não pude ir até ele, ele veio até mim (uma tendência do Pós-pandemia). Quando vi este longa-metragem disponível para alugar/comprar no Looke e no NOW, minha sensação foi um misto de alegria (vou poder, enfim, assisti-lo!) e agonia (os cinemas continuam fechados e nossas vidas ainda estão longe de voltarem à normalidade). Além disso, como bom cinéfilo, sempre fico um tanto amargurado quando troco uma visita ao bom e velho cinema por uma sessão em casa na frente da TV. Quem me conhece sabe o ódio que sinto pelos aparelhos de televisão (há alguns anos até escrevi uma crônica sobre isso na série “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora”).


Essa nova versão de “O Homem Invisível” foi dirigida e roteirizada pelo excelente Leigh Whannell, que, além de trabalhar como ator por muitos anos, produz roteiros de enorme sucesso. Nos últimos anos, o australiano de 43 anos também enveredou pela direção. Podemos dizer, sem medo de errar, que ele é especializado em filmes de terror e de suspense. São de Whannell, por exemplo, a coautoria do roteiro do primeiro filme da série cinematográfica “Jogos Mortais” (Saw: 2004) e a concepção da franquia “Sobrenatural” (Insidious: 2010). Nada mal, né?! Na direção, seus trabalhos mais destacados, até aqui, foram “Sobrenatural – A Origem” (Insidious - Chapter 3: 2015) e “Upgrade – Atualização” (Upgrade: 2018). Após “O Homem Invisível”, disparadamente seu melhor longa-metragem na direção, a frase anterior precisará ser revista.

Esse filme é uma nova adaptação de “O Homem Invisível” (L&PM Pocket), romance clássico de H. G. Wells publicado em 1897. Inclusive, comentei esse livro no início deste ano no Bonas Histórias. A produção de Leigh Whannell é mais uma releitura dessa história a chegar às telonas. O primeiro longa-metragem baseado em “O Homem Invisível” é, acredite, de 1933. Dirigido por James Whale e roteirizado por R. S. Sherriff, o filme da primeira metade do século passado é considerado até hoje um clássico do cinema. Até aqui, ele também é a versão mais fiel ao livro do inglês (apesar de também possuir várias diferenças em relação à edição literária).


Depois desse filme de Whale, vieram incontáveis títulos baseados nessa mesma história: desde simples refilmagens para o cinema, como “The Invisible Man´s Revenge” (1944), e adaptações homônimas para a televisão, como as séries de 1958/1959 e de 1975, até continuações da trama original, como “A Volta do Homem Invisível” (The Invisible Man Returns: 1940), e versões criativas, como “The Invisible Woman” (1940). Repare que nessa lista não incluí as produções nacionais. Nesse caso, lembro do recente “A Mulher Invisível” (2011), série de TV da Rede Globo. Se fosse citar todas as versões inspiradas no livro de H. G. Wells, teria que mencionar muitas adaptações esdrúxulas: há desde desenhos animados com o cachorro invisível até histórias sobre a família invisível. Ai, ai, ai!


Diante de tantas variações da mesma história, qual seria a validade de se realizar mais um remake de um enredo tão batido, hein? Essa pergunta tem cabimento só para quem ainda não assistiu ao filme de Leigh Whannell. De maneira inteligente, o cineasta traz a trama para o tempo presente e a contextualiza em cima de uma relação abusiva. O resultado é primoroso. Sem dúvida nenhuma, o novo “O Homem Invisível” é um dos melhores thrillers dos últimos anos. Quem gosta de uma produção de terror e suspense, não pode perdê-lo.


No elenco deste “O Homem Invisível”, temos Elisabeth Moss, conhecida pelo protagonismo no seriado “The Handmaid´s Tale” (2017-2020), Oliver Jackson-Cohen, de “Rápida Vingança” (Faster: 2010), Harriet Dyner, mais atuante em seriados da TV australiana, Aldis Hodge, de “Straight Outta Compton – A História do N.W.A (Straight Outta Compton: 2015), Storm Reid, de American Girl: Uma Aventura no Brasil (American Girl: Lea To The Rescue: 2016), e Michael Dorman, do seriado “Patriot” (2017-2018).


Esta trama se passa no século XXI, em São Francisco, nos Estados Unidos. Cecilia (interpretada por Elisabeth Moss) é uma arquiteta que vive um relacionamento abusivo com Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), um empresário do setor ótico. A moça vive presa na mansão do namorado, que controla cada detalhezinho de sua rotina. Desesperada para sair dessa angustiante realidade, Cecilia consegue, certa noite, fugir da casa de Adrian. Para tal, ela conta com a ajuda de Emily (Harriet Dyner), sua irmã.

Uma vez livre das garras do agora ex-namorado, um sujeitinho extremamente obsessivo e violento, a protagonista do filme continua abaladíssima, com medo de uma possível vingança de Adrian. Por isso, ela permanece escondida na casa de James Lanier (Aldis Hodge), um amigo de Emily. Isso até Adrian morrer misteriosamente. Além de ficar livre de seu perseguidor de uma vez por todas, Cecilia ainda recebe uma fortuna de herança, deixada por ele. Na carta póstuma, Adrian diz amá-la e que o dinheiro deixado é a prova de seu amor. Enfim, as coisas parecem que vão melhorar para Cecilia. Só parecem...


Logo depois do recebimento de parte da grana, a moça começa a ser perturbada por algo/alguém muito estranho. O perseguidor é invisível, o que torna quase impossível para Cecilia provar o que está ocorrendo ao seu redor. Ninguém acredita em sua versão dos fatos, além de pensarem que ela se tornou uma louca. O homem invisível não descansará até destruir completamente a vida da pobre moça, cada vez mais em pânico.


Com quase duas horas de duração, “O Homem Invisível” é um thriller de terror de ótimo nível. A tensão perdura do início ao fim de sua sessão. Desde a primeira cena, o espectador fica com o coração na mão. E essa sensação vai até o último segundinho. Incrível!


É curioso analisar a construção da tensão dramática deste filme. Até sabemos, na maior parte do tempo, o que está acontecendo. Afinal, um filme que se chama “O Homem Invisível”, não precisa de muitas explicações. O público rapidamente entende as coisas estranhas que ocorrem em cena. Mesmo assim, é angustiante ver os percalços que surgem no dia a dia de Cecilia. Não à toa, a protagonista entra em um estado de nervos de cortar o coração. Pior do que saber o que está acontecendo, é imaginar tudo o que um vilão com poderes especiais pode realizar contra aqueles que ele quer se vingar.


Não é possível analisarmos o novo “O Homem Invisível” sem falarmos de seu roteiro. Mais uma vez, Leigh Whannell arrebenta na construção dessa história. Há alguns anos, o australiano é um dos melhores roteiristas de terror de Hollywood. Juro que é difícil encontrar algo que possa ser melhorado em suas tramas. Tudo é meticulosamente pensado à ponto de cada peça narrativa se encaixar como um quebra-cabeça macabro. Isso aconteceu em “Jogos Mortais” e, agora de novo, em “O Homem Invisível”.

O roteiro desta produção mistura alguns poucos elementos da história tradicional de H. G. Wells (o homem invisível é o vilão, a trama se passa em um ambiente frio e algumas cenas de perseguição são bem parecidas, como a do banheiro e a do bafo frio) com muitas novidades narrativas (violência doméstica, relações abusivas, tecnologias contemporâneas como celular e e-mail, maneira como a invisibilidade é construída, surgimento de um cúmplice para o vilão, heroína é uma mulher...). Não é errado enxergar este filme como uma história totalmente nova, desvinculada quase completamente de sua versão original.


Confesso que gostei muito das mudanças trazidas pelo roteiro de Leigh Whannell. É verdade que essas alterações descaracterizaram bastante o enredo tradicional. Contudo, isso não é ruim. Pelo contrário, é ótimo! Os novos elementos dão uma lufada de inovação, modernidade, empatia e sedução à história. Além disso, todas as filmagens de “O Homem Invisível” fizeram essas adequações para suas épocas. O filme de 1933, por exemplo, tem a cara de seu tempo e não o da trama de 1897 (e, assim, tornou-se um clássico da sétima arte). Nada mais natural, portanto, que “O Homem Invisível” de 2020 fosse construído com base em nossa realidade atual.


O ponto alto deste “O Homem Invisível”, em minha opinião, está na tensão e nas surpresas trazidas na segunda metade do filme. É aí que as reviravoltas começam a aparecer e não param mais até o finalzinho da sessão. Quando você acha que foi surpreendido o bastante pela trama, novas reviravoltas aparecem, mudando completamente o cenário. Incrível a criatividade desta história. Quando falo que o público fica com o coração na mão, não estou exagerando. Os últimos trinta minutos de sessão são de arrepiar.


Outra questão que merece ser destacada é a atuação de gala de Elisabeth Moss. Mais confiante pela interpretação sólida em “The Handmaid´s Tale”, a atriz norte-americana está impecável em “O Homem Invisível”. Sem dúvida nenhuma, esse é o ponto alto de sua carreira até aqui. Grande parte da graça dessa história passa pela montanha-russa de emoções que sua personagem vivencia. E as reações de Moss frente às adversidades são dignas de uma estatueta. Se ela tivesse tido essa mesma atuação em um longa-metragem de maior verniz, já a colocaria como uma das favoritas ao próximo Oscar. Junto com uma ótima maquiagem, vemos em seu rosto o sofrimento da pobre Cecilia.

Paradoxalmente, se Elisabeth Moss fica em cena 99% do tempo, Oliver Jackson-Cohen quase não aparece. Quem manda interpretar um homem invisível, hein? Após a cenas iniciais do filme, em que surge sutilmente (em segundo plano), Jackson-Cohen só enche a tela mesmo nos vinte minutos finais. É até engraçada essa questão de que o protagonista quase não aparece (na verdade, a protagonista mesmo é Cecilia, enquanto Adrian é o antagonista).


De pontos negativos, achei algumas cenas com alguns equívocos leves de continuidade (por exemplo, nas perseguições de carro) e de lógica (como um homem invisível não desliga o som do celular?). Outra questão que compromete um pouco é o excesso de partes óbvias. O espectador consegue antecipar alguns fatos sem muito esforço. E quando falamos em suspense, nunca é legal descobrir previamente o que virá pela frente.


Mesmo com essas pequenas falhas (algumas de roteiro e outras de filmagem/execução), “O Homem Invisível” é um filmão. Se você gosta de um thriller que não deixa você respirar, que oferece boas cenas de ação, que traz um drama psicológico denso e que não economiza em sangue espirrando para todos os lados, na certa você irá curtir esse longa-metragem. Para comprovar o que estou dizendo, assista, a seguir, ao trailer do novo “O Homem Invisível”:

Este filme integra um projeto maior da Universal. O estúdio norte-americano quer regravar uma série de clássicos de terror. Entretanto, as novas histórias serão ambientadas no tempo presente. Além da trama de H. G. Wells, fazem parte dessa coletânea de sequências “A Múmia”, “O Lobisomem”, “A Noiva de Frankenstein” e “O Monstro da Lagoa Negra”. É aguardar as novidades. Tomara que a maioria desses filmes seja dirigida e roteirizada por Leigh Whannell. E torçamos também para que possamos vê-los no escurinho do cinema, né? Esperemos!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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