• Ricardo Bonacorci

Livros: Brás, Bexiga e Barra Funda - Contos clássicos de Alcântara Machado


Neste comecinho de agosto, li um clássico do Modernismo brasileiro: “Brás, Bexiga e Barra Funda” (Melhoramentos). Principal obra literária de Antônio de Alcântara Machado, escritor e jornalista paulistano do início do século XX, esta coletânea de contos possui como protagonistas os imigrantes italianos que desembarcaram na capital paulista a partir do final do século retrasado. Fugindo das guerras e das graves crises econômicas na Europa, os estrangeiros ajudaram a construir vários bairros do município (daí o título do livro) e influenciaram na identidade cultural da maior cidade brasileira.


Ambientadas na São Paulo das duas primeiras décadas do século XX, as histórias de “Brás, Bexiga e Barra Funda” são crônicas urbanas sobre uma metrópole ainda em formação. Misturando ficção e acontecimentos banais do dia a dia paulistano, Alcântara Machado narra com beleza a vida e os dramas dos imigrantes europeus durante o processo de afirmação e de ambientação na nova terra.


Publicado originalmente em 1927, “Brás, Bexiga e Barra Funda” tem onze contos e é classificado como uma obra da primeira fase do Modernismo. Este livro ainda teve mais duas edições. Em 1944, suas histórias foram agrupadas às de “Laranja da China” (Melhoramentos), outra coletânea de contos de Alcântara Machado que foi lançada em 1928. O resultado desta união foi o livro “Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China” (Martin Claret). E em 1971, suas narrativas integraram “Novelas Paulistanas” (José Olympio), título que reunia todas as tramas ficcionais de Alcântara Machado.


Em abril de 1935, Antônio de Alcântara Machado morreu precocemente aos 33 anos, vítima de complicações resultantes de uma má sucedida cirurgia no apêndice. Por isso, seu portfólio literário não é tão extenso, limitando-se a contos, crônicas e críticas literárias e teatrais. Por ter trabalhado desde o final da década de 1920 em jornais e revistas, também deixou algumas reportagens jornalísticas que, hoje, são estudadas com atenção por acadêmicos.


Em vida, Alcântara Machado publicou apenas três livros. Além de “Brás, Bexiga e Barra Funda” e “Laranja da China”, ele lançou, em 1926, “Pathè-Baby”, uma coleção de crônicas de viagens pelo exterior. Postumamente, chegaram às livrarias brasileiras, além de “Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China” e “Novelas Paulistanas”, “Mana Maria” (Nova Alexandria), romance inacabado, em 1936, “Cavaquinho e Saxofone” (José Olympio), coleção de crônicas e artigos jornalísticos, em 1940, “Prosa Preparatória e Cavaquinho e Saxofone” (Civilização Brasileira), compilação ampliada do livro anterior, em 1983, e “Palcos em Foco” (Edusp), seleção de crônicas teatrais, em 2009. Recentemente, “Pathè-Baby” foi traduzido para o francês e foi publicado na Europa.

Os onze contos de “Brás, Bexiga e Barra Funda” são: “Gaetaninho”, “Carmela”, “Tiro de Guerra nº 35”, “Amor e Sangue”, “A Sociedade”, “Lisetta”, “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, “Notas Biográficas do Novo Deputado”, “O Monstro de Rodas”, “Armazém Progresso de São Paulo” e “Nacionalidade”. Essas tramas são precedidas por um prefácio intitulado pelo autor como “Artigo de Fundo”. Nele, Alcântara Machado escreveu:


“Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo. Brás, Bexiga e Barra Funda é o órgão dos ítalo-brasileiros de São Paulo (...)”.


O primeiro conto da obra é “Gaetaninho”. Nele, um menino pobre, o tal Gaetaninho do título, sonha em andar de automóvel. Porém, carro era artigo muito caro na época e só era usado pelos muito ricos. Para a ralé, que pegava bonde no dia a dia, automóvel só quando havia casamento ou enterro. Em “Carmela”, uma costureira jovem e bonita é assediada por um homem rico que dirige um Buick. Ele quer dar uma volta de carro com ela, mas ela tem namorado e teme os comentários do povão. Para uma dama respeitada, não é de bom tom entrar no veículo alheio. “Tiro de Guerra nº 35” apresenta Aristodemo Guggiani, rapaz de 20 anos que trabalha como cobrador de coletivo. Para cumprir o serviço militar obrigatório, o jovem alista-se como soldado no batalhão de tiro. Lá, ele irá mostrar todo o seu patriotismo.


“Amor e Sangue”, a quarta narrativa de “Brás, Bexiga e Barra Funda”, é a trágica história de amor de Nicolino e Rosa. Ele está apaixonado pela moça. Ela, por sua vez, não quer mais nada com Nicolino. Rosa desconfia que ele tenha outra mulher na Rua Cruz Branca. Em “A Sociedade”, Tereza Rita de Matos Arruda quer se casar com Adriano Melli. Entretanto, os pais dela, um casal português muito rico, não querem ouvir falar nessa união. Aos olhos da família de Tereza Rita, Adriano não está à altura da moça. Ele é filho de Salvatore Melli, um italiano simplório que trabalha em uma banca de batatas na feira. “Lisetta” relata o desespero da filha de Dona Mariana. A garotinha pobre se apaixona por um ursinho felpudo que está no colo de uma menina rica em um bonde. Querendo o bichano, Lisetta começa a chorar desesperadamente, para vergonha da mãe.

“Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, sétimo conto da coletânea, mostra as paixões de Miquelina. Torcedora do Palestra Itália, a moça assiste ao Derby no estádio do Parque Antártica. A explicação para sua paixão pelo time de futebol da zona Oeste está em campo e responde pelo nome de Rocco. Rocco é o craque palestrino responsável por comandar sua equipe contra os rivais alvinegros. Em “Notas Biográficas do Novo Deputado”, o coronel Juca e sua esposa D. Nequinha recebem em casa o menino Gennerinho. O garoto é órfão do compadre João Intaliano. Será que o casal irá adotar o afilhado? “O Monstro de Rodas” trata de um enterro. Parentes, vizinhos e amigos acompanham em procissão pelas ruas da cidade o velório de uma vítima de acidente automobilístico.


“Armazém Progresso de São Paulo”, a penúltima história de “Brás, Bexiga e Barra Funda”, é sobre o estabelecimento comercial de Natale Pienotto. O armazém é célebre no Bexiga por causa dos seus anúncios publicitários e pelas artimanhas do seu proprietário italiano. Por fim, “Nacionalidade” mostra a guerra doméstica do barbeiro Tranquillo Zampinetti. O italiano que veio morar em São Paulo quer que seus filhos nascidos aqui falem a língua natal da família. Contudo, os meninos se recusam, optando pelo português, para desespero do pai patriota.


Com apenas 112 páginas, “Brás, Bexiga e Barra Funda” é um livro curtinho. É possível concluir sua leitura em uma única tarde ou mesmo em uma noite só. Não devo ter levado mais do que três horas, no último sábado à tarde, para percorrer suas onze histórias.


O que chama mais a atenção nesta obra não é tanto seus enredos, mas sim a estética empregada por Alcântara Machado. Suas narrativas acontecem normalmente nas ruas, tendo São Paulo ora como cenário ora como uma personagem ativa das tramas. Assim, temos a sensação de estar acompanhando uma coletânea de crônica e não apenas um emaranhado de criações ficcionais. Além disso, as histórias de “Brás, Bexiga e Barra Funda” têm uma celeridade que lembra muito o ritmo frenético da metrópole. Tudo acontece rapidamente e de maneira intensa (e muitas vezes com desfechos trágicos). Ao mesmo tempo em que possuem um dia a dia intenso, barulhento e alegre, os imigrantes italianos e seus descendentes também padecem das injustiças sociais, da violência urbana, dos desencontros amorosos e dos preconceitos. Nesta perspectiva, São Paulo dos anos 1920 não é, portanto, tão diferente assim da São Paulo dos anos 2020.

Os textos de Antônio Alcântara Machado possuem forte oralidade. O jeito de falar dos paulistanos e dos ítalo-brasileiros está registrado quase que literalmente nas páginas do livro. Não à toa, boa parte do material vem em italiano, palavras saídas do discurso das personagens ou do narrador. Interessante notar que há imigrantes que falam mezzo a mezzo – meio italiano e meio português. Quem já assistiu às telenovelas de época da Rede Globo ambientadas em bairros italianos de São Paulo no final do século XIX e no início do século XX entenderá esse recurso linguístico. Por exemplo, Salvatore Melli, um dos protagonistas do conto “A Sociedade” fala o tempo inteiro misturando os dois idiomas. Veja:


“Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Domani, dopo domani, na outra semana, quando quiser. lo resto à sua disposição. Ma pense bem!”.


Esse mergulho no universo da cultura italiana da cidade é uma das partes mais saborosas deste livro de Alcântara Machado. Assistimos ao dia a dia, ao trabalho, aos amores, aos sonhos e aos dramas dos moradores dos bairros com predomínio de imigrantes europeus.


Junto com a oralidade, temos uma linguagem extremamente direta e visual. Com frases curtas, descrições acuradas e cenas fragmentadas dos acontecimentos, a impressão, muitas vezes, é de estarmos acompanhando um roteiro cinematográfico. O suspense de vários contos é provocado principalmente pelo uso da elipse, que não mostra tudo aos leitores (eles vão descobrindo aos poucos o que está acontecendo). Não há nada mais modernista do que isso!


A narração dos contos de “Brás, Bexiga e Barra Funda” é sempre em terceira pessoa. O narrador observador possui um olhar, ao mesmo tempo, crítico e bem-humorado da realidade da cidade e do cotidiano dos italianos. Em alguns momentos, o narrador distancia-se das personagens, relatando o que vê em âmbito geral (a paisagem urbana como um todo). Em outros momentos, ele focaliza o que ocorre no ambiente particular das pessoas relatadas. Esse zoom in e zoom out é uma das principais marcas do livro. De qualquer maneira, uma coisa se mantém intacta em todas as narrativas: o narrador é identificado com os italianos, encarando o que se passa com os imigrantes com simpatia e consideração. Assim, a coletânea de contos adquire um ar de crônica de costumes.

Além do retrato fidedigno da paisagem urbana e da realidade sociocultural da população italiana e ítalo-brasileira de São Paulo, “Brás, Bexiga e Barra Funda” escancara as mazelas sociais de um país e de uma cidade com gritantes desigualdades políticas (por exemplo, mesmo sendo maioria da população de São Paulo, os imigrantes não podiam votar) e econômicas (a pobreza dominava o cenário de um município em crescimento desordenado). Passados cem anos, conseguimos ver claramente as consequências disso. Não é errado ver este livro como uma sutil denúncia social.


“Brás, Bexiga e Barra Funda” é um livro saborosíssimo. Além de possuir um texto ousado para sua época (e ainda hoje moderno) e algumas inovações estilísticas (que tornam suas narrativas ágeis e emblemáticas), esta obra também apresenta boas histórias do lado verde, vermelho e branco da metrópole paulistana. É uma pena que Alcântara Machado tenha morrido tão precocemente. Fico imaginando o que a literatura brasileira não deixou de ganhar se ele tivesse vivido mais dez, vinte ou trinta anos. E é triste também perceber que “Brás, Bexiga e Barra Funda” está atualmente um pouco esquecido. Perto de outros títulos da primeira fase do Modernismo brasileiro, como “Macunaíma” (Nova Fronteira), clássico de Mário de Andrade, e “Memórias Sentimentais de João Miramar” (Companhia das Letras), romance revolucionário de Oswald de Andrade, esta coletânea de contos de Antônio Alcântara Machado quase não é comentada hoje em dia. Não é surpresa notar que haja bons e assíduos leitores que nunca ouviram falar deste livro. É uma pena, pois esta obra é interessante e merece ser lida/conhecida pelo grande público.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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