• Ricardo Bonacorci

Livros: Rio Acima - O romance amazônico de Pedro Cesarino


Vivemos, no Brasil atual, um momento delicadíssimo em relação à preservação do meio ambiente e à garantia dos direitos humanos básicos. Essas duas questões parecem convergir de forma mais intensa quando olhamos para o que está acontecendo na Amazônia. Não por acaso, o debate sobre o futuro da floresta e de seus povos pega fogo (desculpe-me pelo trocadilho involuntário!) nas manchetes dos principais veículos de comunicação do planeta. Há quem veja crime contra a humanidade em muitas das ações do governo brasileiro na região amazônica (e em outras mais). Sem dúvida, este é um assunto polêmico e inevitável que precisa ser encarado de frente tanto pela sociedade brasileira quanto pela comunidade internacional. Como o Bonas Histórias é um blog de literatura, cultura e entretenimento, entremos nesta discussão pelo caminho artístico (uma alternativa muito mais saborosa do que pelo viés político-ideológico).


Sob o ponto de vista literário, a essência da coluna Livros – Crítica Literária, fiz uma leitura interessante nesta semana que joga luz aos desafios contemporâneos dos índios brasileiros. “Rio Acima” (Companhia das Letras) é o romance de Pedro Cesarino que mostra o drama dos povos nativos da Amazônia para perpetuar sua cultura e seu estilo de vida. A obra ficcional foi lançada em setembro de 2016, quando a questão sobre a preservação da fauna, da flora e dos povos desta região não havia adquirido ainda o tom de catástrofe anunciada. O livro é narrado com pitadas de sátira por um antropólogo do eixo Rio-São Paulo. Apaixonado pelos mitos indígenas, a personagem principal precisa conviver, por longos períodos, com tribos afastadas da civilização para colher suas crenças e sua mitologia.


O que faz “Rio Acima” uma obra tão válida é o perfil de seu autor. Aos 43 anos, Pedro Cesarino é um dos principais antropólogos brasileiros de sua geração. Ele desenvolve pesquisas pioneiras sobre a etnologia indígena. A ênfase de seu trabalho acadêmico está no xamanismo, na cosmologia, nas tradições orais, na tradução e na antropologia da arte dos povos amazônicos. Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado e doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cesarino ministra aulas na USP e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele também possui publicações de relevância nacional quando o assunto é a Antropologia. Destaques para o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas pela tese sobre a poética do xamanismo amazônico e para a tradução para o português de uma coletânea de mitos do povo marubo.

Depois de vários livros técnicos, Pedro Cesarino resolveu embarcar no universo ficcional. E o lançamento de “Rio Acima” marca justamente sua estreia nos romances. Trazendo toda a bagagem antropológica, o escritor apresenta os perrengues de um pesquisador da cidade grande que mergulha na cultura dos povos indígenas no rincão da Amazônia. Ao mesmo tempo, o protagonista denuncia o extermínio da cultura e dos nativos desta região do país e escancara a atuação ilegal de gente que cobiça as riquezas naturais da floresta (leia-se madeireiros, grileiros e garimpeiros). O livro é tão bom, mas tão bom, que chega a ser difícil encará-lo como o primeiro romance de um novato. A impressão que se tem é que Cesarino já é um autor ficcional experiente.


Narrado em primeira pessoa, “Rio Acima” se passa em algum instante entre o final da primeira década do século XXI e o início da segunda década. Nesta história, acompanhamos a viagem de um conceituado antropólogo brasileiro de cerca de 40 anos (ele não tem o nome revelado em nenhum momento da trama) pelo interiorzão do Amazonas. Divorciado e sem filho, o narrador-protagonista abandona mais uma vez sua rotina na cidade grande e o trabalho na universidade para passar uma nova temporada enfurnado no meio da floresta com os índios. Fluente no idioma local por já ter vivido muitos anos com os indígenas, o antropólogo tem uma fixação: concluir a tradução para o português dos mitos do povo que ele estuda há tanto tempo.


Para tal, ele precisa colher uma parte importante das narrativas orais que lhe foi omitida nas visitas anteriores. A história do pegador de pássaros é uma passagem conhecida apenas por Tarotaro, o mais antigo pajé das tribos de um determinado povo indígena, e fundamental para a compreensão das crenças dos nativos da Amazônia. Contudo, Tarotaro se recusa a contar para o antropólogo detalhes dessa parte de sua mitologia. Curioso para entender o teor da história do pegador de pássaros, o protagonista do romance precisa de paciência para (re)conquistar a confiança do pajé.


Enquanto espera o momento certo para questionar outra vez Tarotaro sobre os detalhes do misterioso trecho do mito indígena, ele terá de encarar vários problemas de ordem prática – os efeitos das doenças tropicais em seu organismo; as desavenças com grande parte da comunidade da tribo que o recepciona; o mal-estar com seu principal amigo, Antônio Apiboréu; a desconfiança dos militares brasileiros que supervisionam essa região do país; a ação desastrada de religiosos estrangeiros que insistem em catequizar os índios; a escassez de recursos; o desconforto de viver em uma tribo e no meio do mato; e a abstinência sexual autoimposta para não criar problemas com os nativos. Isso para não falar da viagem de mais de uma semana pelos rios amazônicos para chegar à comunidade visitada/pesquisada. Realmente, a vida de antropólogo não é nada fácil!

“Rio Acima” é um livro encantador. Seus principais méritos estão na apresentação fidedigna do ofício de antropólogo e no mergulho profundo na cultura dos indígenas da Amazônia. E o romance faz isso tendo como foco o público em geral (e não os acadêmicos e os especialistas no tema retratado). Dessa forma, seu texto é direto e possui um tom zombeiro. Com uma linguagem acessível, uma trama extremamente realista (ótima mistura de aspectos reais e ficcionais), uma história surpreendente (com algumas reviravoltas) e uma narrativa comovente, esta publicação de Pedro Cesarino escancara a vida como ela é. O autor não tem medo de colocar o dedo nas feridas de nosso país. Ele expõe temas delicados tanto de nossa sociedade quanto da comunidade indígena. Gostei tanto deste livro que li suas 152 páginas em um único dia. Devo ter investido aproximadamente cinco horas de leitura na última quinta-feira para concluir seus oito capítulos.


Alguns pontos chamam a atenção em “Rio Acima”. Em primeiro lugar, ressalto a excelente ambientação construída por Cesarino. Sua narrativa ficcional exala os perigos e a violência de uma região em que a lei quase não chega. Os crimes praticados na fronteira entre os povos (nossa civilização e os povos indígenas) são variados: ambientais (ações de madeireiros, grileiros e garimpeiros), geopolíticos (invasão de estrangeiros), sociais (perseguição aos homossexuais e aos travestis, tráfico de drogas, prostituição e contrabando de mercadorias) e étnicos (desprezo pela vida e pela cultura indígena). Tudo parece hostil às pretensões do antropólogo que protagoniza esta história. Até mesmo o ambiente natural é seu inimigo: o calor insuportável, os mosquitos, a sujeira, a pobreza, as doenças tropicais, os animais silvestres etc. Se antes de chegar à tribo, ele é visto de maneira ressabiada pelos seus semelhantes (afinal, qual é sua verdadeira pretensão com essa viagem para o meio da mata?), uma vez na floresta ele continua despertando a curiosidade dos índios (será que devemos confiar nesse sujeitinho que veio da cidade?).


Outro aspecto interessante é o retrato delicado e muito bonito dos mitos e das crenças indígenas. O olhar é realmente de um antropólogo que conhece profundamente o tema analisado. Nesse sentido, não há dúvida de que a personagem principal do romance é o alter ego de Pedro Cesarino. O autor empresta sua paixão e seu conhecimento pela cultura, pela língua, pelas artes e pela religião dos povos indígena à sua criação ficcional. Ou seja, Cesarino colocou em prática um dos primeiros conselhos que os editores e os professores de Escrita Criativa dão aos jovens escritores: escreva sobre algo que você domine bastante. Assim, a descrição dos dramas da tribo de Sebastião Baitogogo e de Tarotaro é realizada de um jeito elegante, sincero, preciso e em muitos momentos engraçado. O choque cultural é parte fundamental desta narrativa.

Por falar nos trechos cômicos do livro, é preciso destacar o humor escrachado de Pedro Cesarino. “Rio Acima” faz uma sátira engraçadíssima com a rotina do aventureiro que desbrava regiões quase inacessíveis do planeta em nome dos estudos antropológicos, científicos, históricos e acadêmicos. Esqueça, portanto, a visão romântica transmitida pelas tramas de Indiana Jones, o destemido arqueólogo norte-americano que viaja para os quatro cantos do mundo, e pelas jornadas tranquilas dos personagens de Júlio Verne pelos recôncavos da Terra. O protagonista de Cesarino está sempre doente e de mal humor por causa da malária recorrente. Ele fuma rapé com seus amigos indígenas, tem diarreias homéricas na floresta, passa fome e frio, sofre gozação dos índios pela sua inabilidade no meio da mata, padece do desconforto com o calor e com os mosquitos tropicais e não aguenta a abstinência sexual (em um lugar onde as mulheres andam nuas).


Ou seja, há a desconstrução completa da imagem idílica do aventureiro desbravador e corajoso. Em outras palavras, a verossimilhança é um dos pontos fortes de “Rio Acima”. Com isso, ficamos comovidos com o drama genuíno do narrador-protagonista deste romance. Se a personagem principal não é o herói clássico que supúnhamos no início, por outro lado acabamos sensibilizados com a persistência dele em realizar seu trabalho da melhor forma possível. Apesar dos incontáveis perrengues do dia a dia, o antropólogo segue em frente (bem ou mal). É de tirar o chapéu o seu comprometimento.


A cultura e os hábitos dos indígenas da Amazônia são descritos, nas páginas de “Rio Acima”, por alguém que conhece exatamente esta realidade. E isso é feito de maneira pouco acadêmica e sem qualquer formalidade técnica. Mais importante do que apresentar uma visão antropológica das personagens que desfilam no livro (o que deixaria, na certa, sua narrativa enfadonha), Pedro Cesarino foca acertadamente no conflito ficcional. O que move esta obra é o seu teor literário. E os demais elementos de “Rio Acima” servem de constituição fidedigna do cenário, das personagens e da ambientação da trama. Ótima escolha estética do escritor!


Adorei também o desfecho deste livro. Ele é poético, subjetivo e aberto, além de relacionar intimamente os mitos indígenas com as confusões cotidianas do narrador-protagonista. São impagáveis as páginas finais do romance! O desenlace ajuda a corrigir um pouco o principal ponto negativo que considerei em “Rio Acima” – a banalidade do relato de Tarotaro tão esperado pelo antropólogo.

É difícil acreditar que o trecho omitido por tanto tempo seja algo tão corriqueiro. Se essa passagem mitológica é relevante para a personagem principal, alguém que estuda tão profundamente o assunto, ela pode ser questionada pelo leitor comum, alguém que não conhece os meandros do trabalho acadêmico sobre a cultura e a religião indígenas. “Tanto esforço para ouvir uma história tão pueril como esta?!” pensam perplexos os leitores do romance. É complicado de engolir a versão do autor. Ou ele não soube expressar a importância da narrativa tão aguardada para o público leigo ou ela é realmente fraquinha.


Além disso, será mesmo que Tarotaro iria contar algo aparentemente tão importante para seu povo para um “estrangeiro” e não para seus semelhantes? Duvido. Lembremos que a base da transmissão da cultura indígena é pelos relatos orais. Como assim só um homem idoso conhecia uma passagem mitológica relevante e nunca quis repassá-la para as novas gerações?!


Outra questão delicada é a construção caricata das personagens. Apesar desse expediente trazer graça e humor à trama, ele também empobrece um pouco a narrativa. Os índios, os militares, o antropólogo, os missionários religiosos, os políticos e os trabalhadores das cidades na fronteira do país são retratados de maneira bastante estereotipada. Quase não temos personagens redondas nesta história. Todas as figuras descritas nas páginas deste livro são planas e construídas em cima de caricaturas. É uma pena.


Apesar de um ou outro deslize, “Rio Acima” é um belo romance. Ele lembra, de certa forma, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras), trama de Marçal Aquino que se passa na região norte do nosso país, “Terminália” (Prumo), drama de Roberto Taddei protagonizado na Amazônia, e “A Jangada” (Planeta), aventura clássica de Júlio Verne realizada na floresta equatorial brasileira. Gostei tanto desta obra de Pedro Cesarino que já estou ansioso para seu próximo lançamento no universo ficcional. Sinceramente não sei se o escritor tem o desejo de publicar novos livros fora da Antropologia, mas valeria a pena sim ele se dedicar mais à literatura comercial. Cesarino escreve muito bem e parece que tem muita história boa para contar. Aguardemos!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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