• Paulo Sousa

Miliádios Literários: setembro/2020


Quer um bom neologismo? Miliádio. Significa “intervalo de mil dias”. Não se engane, por trás da aparência simples, há uma essência disruptiva. Entremos no quiproquó: o vocábulo maravilhoso muda totalmente a forma como entendemos o tempo, um case de sucesso pra Benjamin Whorf.


O maior neologista do Brasil e, quiçá, do mundo, é João Guimarães Rosa, que completaria 41 miliádios no dia 27. Três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, o Imortal morreu pra provar que viveu. Ele é autor de “Grande Sertão: Veredas” (José Olympio), “Sagarana” (Global Editora), “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira), “O Burrinho Pedrês” (Saraiva de Bolso) e muitos outros livros, todos grandes em modernismo, neologismos e mazelas brasileiras.


Mas não dá pra falar das mazelas do Brasil sem citar aquele militar carioca e miliciano. Estou falando de Leonardo, de “Memórias de um Sargento de Milícias” (Moderna), claro. Pensou que fosse outra pessoa? Manuel Antônio de Almeida, autor one hit only, retratou a vida no Rio de Janeiro recém-promovido a Capital com todas as suas agruras. Sua morte faz 58 miliádios no dia 15.


Quem não teve uma boa experiência com militares foi Fiódor Dostoiévski, cujo falecimento completa 28 miliádios no dia 28. Acusado de conspiração contra o czar Nicolau I, seu castigo foi o fuzilamento. Sorte que o monarca diminuiu sua pena pra 2.922 dias de trabalhos forçados na Sibéria mais serviço militar por tempo indeterminado.


Com todas as pedras que a vida lhe trouxe, mais umas doses de vodca, Dostoiévski construiu seu kremlin literário. Suas obras mais conhecidas são “Crime e Castigo” (Martin Claret), “O Jogador” (Martin Claret), “O Idiota” (Martin Claret), “Os Irmãos Karamazov” (Editora 34) e “Memórias do Subsolo” (Editora 34).


Direto da Rússia, esta coluna miliádica dá um nó tático na língua portuguesa e retorna ao estado do Rio de Janeiro sem pisar em terras ou gramados fluminenses. Isso porque José Lins do Rego, que completa 23 miliádios de morte no dia 1º, foi secretário-geral do Flamengo.


O escritor regionalista de “Menino de Engenho” (José Olympio), “Doidinho” (José Olympio) e “Fogo Morto” (José Olympio) também foi cronista esportivo no Jornal dos Sports. Os frutos de seu amor incondicional foram colhidos e compilados postumamente em “Flamengo é Puro Amor: 111 Crônicas Esportivas” (José Olympio).


Outro escritor que tem no futebol uma paixão é José Trajano, que faz 27 miliversários no dia 22. O jornalista é fanático torcedor do América-RJ, e incorpora seu saudosismo carioca nos livros “Os Beneditinos” (Alfaguara), “Procurando Mônica” (Paralela) e “Tijucamérica” (Paralela).


Ainda no campo das preferências nacionais, inescrupulosa estratégia desta coluna pra garantir audiência, vamos falar sobre sexo. E. L. James, autora da trilogia “50 Tons de Cinza” (Intrínseca), comemora 21 miliversários no dia 3. Na coleção, o livro supracitado, “50 Tons mais Escuros” (Intrínseca) e “50 Tons de Liberdade” (Intrínseca) trazem erotismo, sedução, sadomasoquismo e um tiquinho de sacanagem. Temas recorrentes para E. L. James que, com certeza, terá uma festa muito animada.


E nesse clima de luxúria termina estes maravilhosos Miliádios Literários de setembro, uma exclusividade do Bonas Histórias. Mês da primavera, da fecundação do novo e do desabrochar de estames e estigmas. Polenizemos, pois!


Em memória de...


... Herbert Helder, de “Os Passos em Volta” (Tinta da China), cujo falecimento completa 2 miliádios no dia 09.


... Voltaire, pensador iluminista e autor de “Cândido” (L&PM Pocket), que faria 119 miliádios no dia 13.


... José Cardoso Pires, autor de “Jogos de Azar” (Bertrand Brasil), que faz 8 miliádios de falecimento no dia 20.


Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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