Talk Show Literário: Alfredo de Lemos

[A câmera 1 mostra o auditório em tomada geral. Aos poucos, a imagem direciona-se para o grupo de músicos ao lado do palco. A banda toca Samba da Benção. Pelas lentes da câmera 3, a plateia acompanha a canção balançando as mãos para o alto. O apresentador, atrás da mesa, assiste à cena com um sorriso. Sua expressão facial é captada pela câmera 2. Ao seu primeiro gesto, a música para imediatamente].

 

Darico Nobar: Salve, salve, amigos e amigas do Talk Show Literário. É ao som do genial Vinicius de Moraes que iniciamos o programa de hoje. E para mantermos o alto padrão artístico, tenho o prazer de anunciar o nosso entrevistado desta noite. Com vocês, o filho mais polêmico de D. Lola: Alfredo de Lemos!

 

[A entrada de um rapaz alto, forte e bonito é bastante aplaudida. Ele veste camisa de seda e smoking com cara de novo. Na cabeça, um chapéu elegante esconde parcialmente os cabelos loiros. Ele sacode os ombros e caminha assobiando com a mão no bolso].

 

Alfredo de Lemos: E aí, bichão! Batuta? [Após se sentar no sofá ao lado do entrevistador, tira o cachimbo do bolso, bate na palma da mão, enche-o de fumo e acende]. Programa de televisão. Hein? Coisa mais pequeno burguesa.

 

Darico Nobar: Boa noite, Alfredo. É muito bom tê-lo conosco. E para começarmos nosso bate-papo, gostaria de saber sobre a sua infância e adolescência. O que você tem para nos contar daquela época?

 

Alfredo de Lemos: Não tenho saudade nenhuma da casa da Av. Angélica. Todo ano era uma tristeza diferente, uma aflição nova. [Lança para o ar grandes baforadas de fumaça]. Como é triste a vida de pobre! Vivia em uma família de gente pobre e trouxa, o que era pior ainda. Ralhavam comigo por qualquer motivo. Se tomava bomba na escola, acabava apanhando de cinto. Tive uma corja de irmãos. Todos querendo governar minha vida. Nunca tive um dia de sossego.    

 

Darico Nobar: O que você acha, em uma citação evidentemente adaptada, de que para se fazer um romance com beleza é preciso um bocado de tristeza?

 

Alfredo de Lemos: Besteira! Não tem graça ser galinha morta. Para que estudar tanto, trabalhar como um escravo e sacrificar-se a vida inteira se no final você não terá aonde cair morto?! Só mesmo uma besta pode levar a vida tão à sério.

 

Darico Nobar: Acho que você está se referindo à sua mãe. O que você poderia nos dizer sobre a Dona Lola? Ela era realmente uma mãe tão dedicada quanto imaginamos?

 

Alfredo de Lemos: Foi a maior trouxa que vi. Se matava pela família e ninguém nunca ligou para ela. Eu era o único que chegava com um presentinho, uma palavra amiga, um gesto de carinho de vez em quando. Por isso, ela era louquinha por mim.  

 

Darico Nobar: E o que você nos diz do seu pai?

 

Alfredo de Lemos: Um tirano. Só sabia gorar a família, explorar a esposa e dar surras inesquecíveis nos filhos. O que eu queria, ele não podia me dar.  

 

Darico Nobar: Não diga uma coisa dessas, Alfredo! Eles eram seus pais.

 

Alfredo de Lemos: Não posso dizer o que eu quero? Será que na minha entrevista, não tenho liberdade? Na minha entrevista! Por que não hei de falar? Hein? [Enxuga o suor da testa com um lenço tirado do bolso]. Diga quem manda neste programa? Quem é a estrela principal? Hein? Por que não fala? Chego exausto da viagem de São Paulo, sento-me neste sofá para conversar e você já vem me dizer que não devo falar isto ou aquilo. Fique sabendo que digo o que quero e ninguém tem nada com isso. Ouviu? Ninguém!

 

Darico Nobar: Peço desculpas se te ofendi, mas eu só queria que você não falasse...

 

Alfredo de Lemos: Peço desculpas se te ofendi, mas eu só queria... [Imita direitinho a voz do entrevistador]. Não se fazem mais programas de televisão como antigamente. Tem cada apresentador inútil agora. São um bando de vagabundos! [Com os lábios trêmulos, sussurrou as duas últimas frases mais para si do que para o mundo. Seus olhos lançam chispas de ódio]. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um artista de TV entrar no Reino dos Céus.

 

Darico Nobar: Alfredo, essa passagem das escrituras é relativa aos ricos.

 

Alfredo de Lemos: Eles também são uns bandidos! São desgraçados e miseráveis, não se salva ninguém. Todos são iguais, não se pode contar com nenhum. Nenhum!

 

Darico Nobar: Por falar em bandido, que história foi aquela que você foi demitido da oficina mecânica por roubo?

 

Alfredo de Lemos: Mentira. Foi mentira daquele cachorro do Calucho. [Tirou o cachimbo da boca]. Não acredite nele. Peguei umas peças, mas eu ia repor na semana seguinte. Juro para o senhor. Deus me livre ficar com o que não é meu. Mas não deu tempo. Um colega me caguetou e aí já viu, né?

 

Darico Nobar: Sua mãe ficou decepcionada com você.

 

Alfredo de Lemos: D. Lola sempre armava um drama por qualquer coisa. O velho também. Mas o pior de todos sempre foi o Carlos. Não suportava aquele chofer do Diabo!

 

Darico Nobar: Você trabalha no quê?

 

Alfredo de Lemos: Não trabalho.

 

Darico Nobar: Mas me falaram que você estava trabalhando! [Surpreso com a resposta, procura nos papéis em cima da mesa a anotação relativa a esta informação].  

 

Alfredo de Lemos: Ah, sim. Estava, mas o serviço gorou. Não gostaram de mim. Falaram que não sirvo para trabalho pesado.   

 

Darico Nobar: No que você estava trabalhando?

 

Alfredo de Lemos: Era... Era coisa de escritório, ou no comércio, eu acho. Sei lá. De qualquer forma, não era grande coisa, ganhava muito pouco. Não vale a pena perder tempo com empreguinhos. Vou arranjar um trabalho melhor, o senhor vai ver.

 

Darico Nobar: Ouvi falar que você nunca foi chegado ao trabalho. Soube que você é um boa-vida: passeia com os amigos, viaja, vai às farras, se levanta ao meio-dia.  

 

Alfredo de Lemos: E que culpa tenho se eu não tenho sorte nos empregos? Pensa que não procuro? É a recessão. Parece que o Brasil vive em eterna recessão.

 

Darico Nobar: Um dia você se endireita, rapaz!  

 

Alfredo de Lemos: Nunca! Jamais! [O rosto fica vermelho de raiva]. Sou de esquerda. ESQUERDA RADICAL, OUVIU?! E nunca vou mudar.

 

Darico Nobar: Você é comunista?

 

Alfredo de Lemos: Não. Sou socialista.

 

Darico Nobar: E não é tudo a mesma coisa?

 

Alfredo de Lemos: Claro que não. Comunismo é diferente. [De repente, o mau humor desaparece e, em seu lugar, surge uma genuína empolgação]. O socialismo existe em todos os países civilizados do mundo e o comunismo só existe na China, em Cuba e na Coreia do Norte. Karl Marx foi um homem formidável, fundador do Socialismo; tinha uma teoria notável sobre a reorganização social. Ele também inspirou a formação de uma liga internacional dos trabalhadores, a Primeira Internacional.

 

Darico Nobar: Pelo que estou vendo, este assunto te deixa bem animado?

 

Alfredo de Lemos: Eu gosto de política, seu Darico. Estudo por curiosidade.

 

Darico Nobar: Por curiosidade?! Soube que você é filiado a um partido político em São Paulo e ao sindicato dos portuários em Santos. E que não perde uma reunião.  

 

Alfredo de Lemos: Vou por um ideal. Todo mundo precisa ter um ideal, um fim, uma qualquer coisa enfim. Não é viver por viver, assim sem querer nada, sem aspirações.

 

Darico Nobar: E quais as suas aspirações, seus sonhos?  

 

Alfredo de Lemos: Ver a implantação do socialismo moderno no Brasil. Após a Revolução Social, seríamos uma nação com divisão de terras mais igualitária, meios de produção mais justos, propriedade verdadeiramente coletiva, fim da exploração do proletário pelos capitalistas e diminuição da desigualdade social.

 

Darico Nobar: E isso tudo seria conquistado com o comunismo?

 

Alfredo de Lemos: Comunismo não, socialismo!

 

Darico Nobar: Sim, que seja. Então, um país socialista é essa maravilha toda?

 

Alfredo de Lemos: Os países socialistas vivem admiravelmente bem governados. São os que vivem melhor.

 

Darico Nobar: Cite-me ao menos um país socialista próspero.

 

Alfredo de Lemos: Todos os países escandinavos são socialistas e lá existe a maior ordem do mundo e a maior organização. Vivem num equilíbrio perfeito; a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. Vou dar uns livros para o senhor ler, depois vamos discutir.

 

Darico Nobar: Vejo que você é um idealista.  

 

Alfredo de Lemos: Com muito orgulho. Nasci para semear ideias. [Sopra a fumaça do cachimbo para cima]. Então você está de acordo que existe a opressão dos ricos sobre os pobres? Concorda que é preciso acabar com os opressores da humanidade?

 

Darico Nobar: Concordo com você que é preciso mudar muita coisa em nosso país. Se cada um fizesse a sua parte, já seria um bom começo, né?

 

Alfredo de Lemos: Por falar em parte, o senhor me arranja uns cobres? Pagarei com juros depois.

 

Darico Nobar: E para que o dinheiro?

 

Alfredo de Lemos: Tenho vontade de vagar pelo mundo todo. Quero conhecer cidades… viver aventuras… descobrir povos… levar as palavras de Karl Marx para o maior número de pessoas. Tenho vontade de ir à África, não sei por que… à Índia também. Tenho loucura de conhecer Bombaim por causa de um livro que li. Vai mesmo me arranjar os cobres?

 

Darico Nobar: Falemos disso depois. [Muda rapidamente de posição na cadeira e passa a olhar para a câmera 2]. Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui.

 

Plateia: Ahhhhhhhhhhhhh.

 

Darico Nobar: Não fiquem tristes, no mês que vem voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva. Tchau Alfredo, obrigado por vir. [O convidado balança a cabeça em sinal de aprovação]. Tchau, galera de casa, obrigado pela audiência. E tchau, plateia, obrigado pela animação. [Novos aplausos e gritos são disparados pelo auditório]. Até o próximo programa!

 

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

 

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