• Ricardo Bonacorci

Livros: O Jogo de Ripper - O romance policial de Isabel Allende


Em 2011, Isabel Allende, já na condição de um dos nomes mais populares da literatura contemporânea em língua espanhola, ouviu uma sugestão de Carmen Balcells, sua agente literária há muitos anos: por que você não faz um romance policial?! Vale lembrar que foi Balcells quem incentivou, vinte anos antes, a chilena a continuar escrevendo mesmo com a filha da escritora seriamente doente em um hospital – texto que originou “Paula” (Bertrand Brasil), um dos principais sucessos de Allende. Isabel gostou da ideia de produzir algo diferente, ainda mais uma trama criminal. Especialista em romances históricos com pegada de realismo fantástico, ela já tinha mais de duas dezenas de obras publicadas, mas nenhuma delas era um romance policial.


Para motivá-la no desenvolvimento do novo livro, William C. Gordon, o segundo marido de Isabel Allende, se prontificou a integrar aquela empreitada. Para quem não o conhece, Gordon é um escritor norte-americano especialista justamente em romances policiais. Seus títulos mais famosos são “O Mistério dos Vasos Chineses” (Record), “O Rei da Sarjeta” (Record) e “O Anão” (Record). Dessa maneira, o casal começou, em 8 de janeiro de 2012, a criação da nova história a quatro mãos. Quem leu “Paula” e “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil), os dois primeiros livros de memórias de Isabel Allende, sabe que autora é muito supersticiosa. Ela sempre começa seus trabalhos literários em 8 de janeiro. Tudo porque foi nesta data em que iniciou o texto de seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), seu maior sucesso até hoje.


Bastaram 24 horas para a experiente dupla de escritores perceber que viver junto como marido e mulher é uma coisa, trabalhar em um mesmo livro é outra coisa completamente diferente. Antes que o casamento de 24 anos acabasse em um divórcio ruidoso, Isabel Allende e William C. Gordon resolveram desistir do projeto em conjunto e cada um seguiu escrevendo seu próprio livro, como sempre fizeram. Assim, a partir de 9 de janeiro de 2012, ele se dedicou integralmente a “Os Corredores do Poder” (Record), seu sexto romance, e ela se empenhou em “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil), seu primeiro (e até agora único) romance policial.


Publicado em 2014, “O Jogo de Ripper” se tornou um sucesso de vendas em alguns países da Europa e da América Latina. No Uruguai, por exemplo, ele ganhou o Prêmio de Ouro da Câmara do Livro como o título mais vendido do ano em sua categoria. Parte deste êxito comercial pode ser explicada pela combinação bombástica entre uma escritora de renome internacional e um gênero literário extremamente popular. A confluência desses dois elementos resultou em um best-seller.

Curiosamente, apesar de ser um dos livros mais vendidos de Isabel Allende na última década, “O Jogo de Ripper” está muito aquém da qualidade das tramas anteriores da chilena. Das seis obras de Allende analisadas no Desafio Literário de outubro, esta foi indiscutivelmente a mais fraquinha (a única que não atendeu às minhas expectativas). Pela perspectiva dos romances policiais noir, “O Jogo de Ripper” possui graves problemas estilísticos e narrativos. Sua história até não é ruim, mas quando comparamos seu texto às publicações clássicas do gênero criminal, como os romances negros de Raymond Chandler, Patricia Highsmith, Rubem Fonseca, Andrew Vachss e Luiz Alfredo Garcia-Roza, fica evidente a falta de traquejo de Isabel Allende com este tipo de trama.


É importante dizer que é comum autores renomados de outros gêneros abraçarem, em algum momento de suas carreiras, os romances policiais. Lembro-me que a australiana Colleen McCullough, famosa pelos romances históricos, entre eles o aclamado “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil), criou, já no final da vida, a série policial Carmine Delmonico. Em alguns títulos desta coletânea, ela se saiu bem, como em “Liga, Desliga” (Bertrand Brasil). Em outros, como em “Assassinatos Demais” (Bertrand Brasil), a decepção foi enorme. Até para os grandes escritores acostumados a trilhar os caminhos tortuosos da literatura comercial, não é fácil encontrar as especificidades das narrativas criminais nem agradar aos fãs deste gênero.


O enredo de “O Jogo de Ripper” se passa essencialmente em São Francisco entre o segundo semestre de 2011 e o primeiro semestre de 2012. Amanda Jackson Martín é uma adolescente apaixonada por literatura policial. Para dar vazão ao gosto de desvendar mistérios criminais, ela participa do Ripper, um jogo de RPG disputado com amigos pelo Skype. Nesta brincadeira, Amanda tem a companhia de outros quatro adolescentes espalhados pelo planeta (um garoto paraplégico da Nova Zelândia, um rapaz solitário e tímido de Nova Jersey, uma jovem com distúrbios alimentares de Montreal e um órfão afro-americano com Q.I. elevado de Reno) e do seu avô, Blake Jackson. Nos encontros por videoconferência, o grupo investiga crimes fictícios ambientados na Londres do século XIX.


Amanda é filha de Bob Martín, o inspetor-chefe da Polícia de São Francisco, e de Indiana Jackson, terapeuta holística. O casal se separou há muitos anos e divide a guarda da garota. O melhor amigo de Amanda é Blake Jackson. O avô materno passa boa parte do tempo com a neta e divide com ela a adoração pelos romances policiais noir e pelas atividades do Ripper.

Em setembro de 2011, Celeste Roko, uma famosa astróloga, anuncia uma previsão assustadora: nos próximos meses, São Francisco sofrerá um banho de sangue. Apesar da revelação ter sido feita em um programa de televisão, ninguém parece levar a vidente a sério. Não demora muito e uma série de assassinatos começa a despontar na cidade californiana. Em outubro, Ed Staton, o segurança noturno do colégio Golden Hills, é encontrado sem vida com um tiro na cabeça e um bastão de beisebol enterrado no ânus. Um mês depois, Doris e Michael Constante, um casal membro da Igreja Metodista, aparecem mortos na cama de sua residência. Suas nádegas estão marcadas à fogo com letras e eles foram, antes de executados, dopados com heroína. Em janeiro de 2012, Richard Ashton, um psiquiatra famoso e especialista em psicopatias infantojuvenis, foi morto no estúdio em que trabalhava após ser paralisado por um taser. E em fevereiro, Rachel Rosen, uma juíza de estilo draconiano, foi assassinada em seu apartamento e colocada pendurada no ventilador do teto da sala por uma linha de pesca.


Diante de tantos crimes, o grupo de amigos de Amanda resolve largar as investigações fictícias do Ripper e usar seus encontros virtuais para tentar desvendar a(s) identidade(s) do(s) responsável(is) pelos assassinatos reais. Aproveitando-se que é filha de Bob Martín, o inspetor-chefe da Polícia local, a adolescente tem acesso a vários detalhes das investigações realizadas pelas autoridades. Além disso, a garota utiliza seu avô, chamado na brincadeira do Ripper pelo codinome de Kabel, para buscar informações e dados que ela não poderia obter sozinha. Curiosamente, a partir de determinado ponto da trama, os adolescentes começam a realizar mais descobertas do que a própria polícia. Veja um diálogo de Amanda com Bob Martín:


– (...) Estamos, com os outros jogadores, amarrando os fios da meada, o que você acha?


– Péssimo, Amanda, como já lhe disse. Isso cabe ao Departamento de Homicídios.


– Mas seu Departamento de Homicídios não está fazendo nada, papai! Este é um serial killer, me ouça – insistiu a garota, que havia passado a semana de férias de inverno revisando minuciosamente as informações de seus arquivos e comunicando-se diariamente com os jogadores de Ripper.


– Quais são as provas que você tem (...)?

– Preste atenção nas coincidências: cinco assassinatos, Ed Staton, Michael e Doris Constante, Richard Ashton e Rachel Rosen, todos em São Francisco, em nenhum havia sinais de luta, o autor entrou sem arrombar fechaduras, ou seja, tinha acesso fácil, sabia abrir vários tipos de fechaduras e, provavelmente, conhecia as vítimas, ou pelo menos seus hábitos. Teve tempo de planejar e executar cada homicídio à perfeição. Em cada caso levou a arma do crime, o que demonstra premeditação: uma pistola e um bastão de beisebol, duas seringas de heroína, uma taser ou talvez duas, e linha de pesca.


– Como você ficou sabendo da linha de pesca?


– Pelo laudo preliminar da autópsia de Rachel Rosen, que Kabel leu. Revisei também o relatório de Ingrid Dunn sobre Ed Staton, o segurança que balearam na escola, está lembrado?


– É claro que me lembro – replicou o inspetor.


– Você sabe por que não se defendeu e por que recebeu de joelhos o tiro de misericórdia na cabeça?


– Não, mas tenho certeza de que você sabe.


– Nós do Ripper achamos que o assassino usou a mesma taser com que matou Richard Ashyon; paralisou-o com uma descarga, Staton caiu de joelhos e, antes que tivesse conseguido se recuperar, executou-o com o revólver.


– Brilhante, filha – admitiu o inspetor-chefe (ALLENDE: 2014, p.288-289).


A série de crimes prossegue para incredulidade das autoridades. E para piorar, a mãe de Amanda, Indiana Jackson, é raptada pelo serial killer, chamado de Lobo pelos adolescentes e pela polícia. A partir daí, os jogadores do Ripper precisarão trabalhar mais rápido e melhor para descobrir a identidade do criminoso e a localização de Indiana. Conseguirão os jovens salvar a mãe da amiga e colocar um ponto final ao mistério que intriga São Francisco?!

“O Jogo de Ripper” possui 490 páginas. Este romance está dividido em cinco partes (janeiro, fevereiro, março, abril e epílogo) e não há separação em capítulos – uma estrutura parecida a “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil), a obra de Isabel Allende que analisamos na semana passada no Bonas Histórias. Levei dois dias para concluir “O Jogo de Ripper”. Comecei esta leitura na quinta-feira de manhã e a concluí na sexta-feira à noite. Confesso que passei boa parte dos dois dias mergulhado nas páginas desta publicação.


O primeiro grande problema deste romance de Isabel Allende está em seu começo extremamente descritivo. A autora detalha mais o cenário, o contexto narrativo e as personagens do que propriamente a ação do criminoso, a parte mais importante do enredo (afinal, estamos falando de um romance policial, né?!). A sensação é que os dramas românticos e existenciais dos familiares de Amanda e dos amigos deles são muito mais importantes do que a própria trama criminal.


Além disso, Allende tem o hábito de fazer longas biografias sempre que insere novas figuras no romance. Em determinado momento, isso se torna cansativo. O leitor quer saber as particularidades dos homicídios praticados e as ações do serial killer, mas em contrapartida recebe uma quantidade absurda de informações das várias pessoas que rodeiam as famílias Jackson e Martín. Para completar, a escritora chilena tem a mania de contar as histórias dos pais e dos avós dos protagonistas (em uma busca incessante pela ancestralidade dos indivíduos retratados). Entendo que Allende está construindo o cenário que será explorado mais adiante. Mesmo assim, esse recurso torna o ritmo da narrativa lento e enfadonho.


Juro que fiquei me perguntando durante esta leitura: cadê a parte policial, meu Deus?! Ela até aparece na primeira metade de “O Jogo de Ripper”, mas é de uma maneira muito breve. As ações do romance policial propriamente dito iniciam-se para valer somente na metade final do livro (é aí que a coisa esquenta para valer!). Para isso acontecer, porém, precisamos avançar por quase 300 páginas. É muito tempo até as engrenagens literárias começarem a funcionar. Dessa forma, a sensação é que o livro se arrasta por muitas páginas, algo incompatível com as características deste gênero narrativo.


Nota-se que Isabel Allende até tenta construir uma ambientação típica das narrativas noir: bairros violentos, cenários sujos e pobres, figuras com má reputação e predomínio de lugares escuros e sombrios. Entretanto, a escritora não consegue obter muito sucesso neste quesito. É preciso muito esforço por parte do leitor para enxergar esta trama como um thriller noir.

Depois do ritmo lento e da falta de ações envolvendo os crimes, o pior problema de “O Jogo de Ripper” está em seus vários erros narrativos. Por exemplo, o primeiro capítulo se chama janeiro. Porém, as ações que ele descreve aconteceram em outubro do ano anterior. A situação só piora quando nos atemos aos detalhes da história e das personagens. É possível encontrar errinhos de continuidade no meio da trama. Ora a protagonista tem um signo do zodíaco, ora ela nasceu em uma data completamente incompatível ao signo informado anteriormente. São equívocos que eu ainda não tinha visto em nenhum livro de Isabel Allende (por isso, eles me assustaram tanto).


Talvez o meu grande estranhamento (para não dizer decepção) tenha como causa o fato deste ser um romance policial com uma pegada adolescente (fase da vida que eu deixei há muito tempo!). Não apenas os protagonistas são jovens menores de idade, mas talvez o público-alvo deste livro também seja. Não se trata de preconceito da minha parte com a literatura infantojuvenil, que eu adoro (prova disso é que vira e mexe insiro análises deste tipo de obra no Bonas Histórias). O problema mesmo foi de quebra de expectativa. Esperava um romance adulto e com uma qualidade à altura dos trabalhos anteriores de Isabel Allende. E não foi isso que encontrei aqui.


Nesse sentido, “O Jogo de Ripper” lembra um pouco a série Mickey Bolitar de Harlan Coben. Na coletânea do autor norte-americano, que teve “Refúgio” (Arqueiro) como romance inicial, o protagonista era um adolescente que investigava crimes. O público destes livros de Coben era a garotada, que dava os primeiros passos nas leituras das tramas policiais. Por isso, vejo “O Jogo de Ripper” e sua heroína, Amanda Martín, respectivamente, como a versão de Isabel Allende para “Refúgio” e Mickey Bolitar.


Nem tudo são elementos negativos neste romance da chilena. Há alguns pontos positivos em “O Jogo de Ripper”. Gostei, por exemplo, da intertextualidade literária, musical e pictórica. As referências literárias são vastas e combinam com as personalidades dos protagonistas: Amanda Martín e Blake Jackson. As citações do universo da literatura contemplam Charles Dickens e “Oliver Twist” (Amarilys Editora), Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Dashiell Hammett e “O Falcão Maltês” (Companhia das Letras), Herman Hesse e “O Lobo da Estepe” (Record), Arthur Conan Doyle e Sherlock Holmes, entre outros. Até William C. Gordon é mencionado. Lembram dele?! Gordon é o marido de Isabel Allende. Ele não entrou na autoria do romance, mas foi devidamente mencionado pela esposa.


“O Jogo de Ripper” tem saltos temporais que exigem atenção do leitor – passado e presente se misturam o tempo inteiro desde as primeiras páginas. Esse expediente (narrativas em tempos diferentes relatadas juntas no texto) confere qualidade e sofisticação à trama, além de servir como teaser dramático (suspense). Por exemplo, logo nas primeiras páginas do livro somos informados que Indiana Jackson foi sequestrada pelo serial killer e que sua filha está empenhada, junto com os amigos, a descobrir onde ela está.

Outra questão que merece ser elogiada é o ambiente político do romance. A questão macroambiental, algo tão comum na literatura de Isabel Allende, aparece desta vez nas recentes guerras norte-americanas na Ásia: Guerra do Afeganistão e Guerra do Iraque (também chamadas de Guerra ao Terror ou de Guerra ao Terrorismo). Uma das funções do personagem Ryan Miller (e seu lado sombrio como soldado das forças especiais do Exército dos Estados Unidos) é trazer o lado conturbado, violento e insano da política externa norte-americana.


"O Jogo de Ripper" é o único livro de Isabel Allende que me decepcionou. Como sou fã dos romances policiais e estudei as engrenagens deste tipo de narrativa (conteúdo que em breve integrará a coluna Teoria Literária), deu para notar a grande quantidade de equívocos desta obra. Talvez um leitor adolescente e menos familiarizado com este gênero literário, não se frustre tanto. Contudo, é inegável que “O Jogo de Ripper” está muito aquém do talento de sua escritora.


O Desafio Literário de outubro irá se encerrar na próxima quinta-feira, dia 29. Nesta data, voltarei ao Bonas Histórias para apresentar a análise completa da literatura de Isabel Allende. Além de relatar uma breve biografia da autora e de discutir detalhes dos seus principais livros, vou listar suas principais características estilísticas. Quem gosta do trabalho ficcional de Allende e curte o melhor da literatura contemporânea internacional, não pode perder o próximo post. Até lá, pessoal!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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